15 de abril de 2019

3 Constituintes do Universo: Tempo - Espaço - Matéria

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No princípio, quando Deus criou os céus e a terra, a terra era informe e vazia, as trevas cobriam o abismo e o espírito de Deus movia-se sobre a superfície das águas. Génesis 1,1

A Bíblia não pretende ser um livro de ciência; não devemos procurar nela nem verdades nem erros científicos. No entanto, à sua maneira, diz a verdade: no relato da criação do mundo, os elementos que compõem o Universo vêm ordenados da mesma forma que os ordena a ciência de hoje. Deus criou o tempo e o espaço quase em simultâneo, seguidos da matéria.

Composição do universo
Nos últimos tempos temos assistido a grandes avanços da Física sobre a origem e a natureza do Universo. No entanto, é precisamente nesta ciência que continua a abundar o mistério. Dada a sua dimensão e a nossa pequenez, é mais o que não se sabe do que o que se sabe acerca do Universo, e muito do que se sabe são apenas conjeturas, hipóteses que carecem de verificação experimental.

No nosso afã de encontrar a Trindade ou a tridimensionalidade transversal a tudo o que Deus Uno e Trino criou, com a maioria dos físicos chegamos à conclusão de que o Universo é composto por Tempo - Espaço – Matéria. Alguns podem opinar que a energia é um quarto elemento, mas não é assim: com a teoria da relatividade geral de Einstein, ficámos a saber que a matéria e a energia são transmutáveis, ou seja, a matéria é uma forma de energia e a energia é uma forma de matéria.

De alguma forma podemos dizer que a matéria ou massa, é energia solidificada ou condensada, a energia é matéria volatizada. Desde a sua natureza trinitária, no princípio, Deus criou três coisas, o tempo, o espaço e a matéria. O Universo é então composto por Tempo, Espaço e Matéria/Energia. O universo é um continuum de matéria que se transforma em energia e energia que se transforma em matéria dentro num marco espácio temporal.

Pela forma como a nossa mente logicamente funciona, somos levados a pensar que a matéria/energia é o conteúdo do universo e que o espaço e o tempo é são respetivamente o lugar e o momento em que a matéria e a energia se transmutam entre si. Ou seja, o Universo é composto por um elemento ativo matéria/energia e dois passivos, o tempo e o espaço.

A teoria da relatividade e a física quântica vieram desafiar a lógica do nosso pensamento no sentido de que nenhum dos três componentes é passivo, todos os três interagem entre si, de uma forma muito complexa, e nenhum dos três é mais importante que o outro; tal como dissemos no caso da tridimensionalidade a família humana, a existência de um dos elementos pressupõe a existência dos outros dois. Podemos também dizer aqui que cada um dos três elementos não existe por si só separadamente dos outros dois, por isso ou os três existem em concomitância ou nenhum dos três existe.

O princípio do universo
Durante séculos os cientistas ateus basearam o seu ateísmo no facto de o Universo não ter princípio nem fim, de sempre ter existido, e riam-se da Bíblia e da Igreja que sempre defenderam que o mundo tem em Deus o seu princípio e o seu fim. Sabemos que o universo é formado por tempo, espaço e matéria; se fosse eterno, o tempo não faria parte da equação, seria estático ou, quanto muito, cíclico.

Albert Einstein, em 1915, com a sua teoria de relatividade, estabeleceu a relação entre matéria, espaço, tempo e gravidade, assim como a equivalência e transmutabilidade entre energia e matéria. Como já dissemos, descobriu ainda que o Universo não é estático, mas que se contrai ou expande.

O padre Georges Lemaître, em 1927, descobriu que o universo estava em expansão e concluiu que houve um dia sem ontem, ou seja, que o Universo resultou de uma explosão cósmica (“Big Bang”) que ocorreu há 13,8 milhares de milhões de anos.

Edwin Hubble, em 1929, – observou com o maior telescópio do mundo (200 polegadas) que as galáxias para além da Via Láctea estavam a afastar-se de nós a uma velocidade proporcional à sua distância da Terra, ou seja, quando mais distantes elas se encontram de nós, mais velozmente de nós se afastam. As suas observações comprovam sem lugar a dúvidas, não só a teoria da expansão do universo, mas também que esta expansão se encontra em aceleração.

Para além destas observações, em 1965, Arno Penzias e Robert Wilson descobriram a radiação cósmica de fundo, conhecida pelas iniciais em inglês CMBR (Cosmic Microwave Background Radiation), presente em todo o espaço. Esta radiação de fundo é a que se observa quando sintonizamos num televisor um canal não ocupado por uma estação de televisão. O ruído que ouvimos é um eco do Big Bang e o formigueiro que vemos assemelha-se a uma fotografia tirada 380 mil anos depois do Big Bang, quando o Universo era ainda muito quente e denso.

Portanto, no princípio, existia um único ponto infinitesimamente denso e mais quente que o interior de uma estrela, ao qual os físicos dão o nome de singularidade; com a explosão desta singularidade e a sua rápida expansão foram criados o tempo, o espaço e posteriormente a matéria. O facto de que o Universo não seja estático e esteja em expansão, torna inconcebível que este sempre tenha existido e possa continuar a existir eternamente em expansão, logo deve ter tido um começo. Esse começo foi o Big Bang.

A representação gráfica do Universo em expansão, segundo a imagem que ilustra este texto, é triangular, coincidindo o vértice do triângulo com a fonte luminosa mais intensa: o Big Bang. Por isso se queremos ter uma ideia de como aconteceu o Big Bang basta acender uma pilha: vemos que a luz se propaga de uma forma triangular, e que este triângulo se expande até a luz se esfumar na distância.

O que analogamente acontece em todos os campos do saber humano é que tudo o que começa a existir, teve uma causa. Portanto, se o Universo começou a existir, a sua existência foi causada. Esta causa, porém, tem que ser em si mesma não causada, imutável, atemporal, imaterial e pessoal, ou seja, Deus.

Um universo oscilante
Sentindo os ateus que o chão lhes fugia debaixo dos pés, e não podendo negar o Big Bang, começaram a argumentar que num futuro distante, o Universo chegará a um ponto máximo de expansão e iniciará o movimento inverso através do qual toda a matéria se reunificará outra vez pela força da gravidade, para posteriormente explodir e se expandir num Universo simultaneamente novo e reciclado, num eterno suceder de “Big Bangs” e “Big Crunchs”.

Ou seja, o universo funcionaria como um ioió, uma grande explosão seguida de expansão que pararia no momento em que a força de expansão igualasse a força da gravidade. Chegado este ponto, o universo entraria no movimento contrario à expansão, ou seja, começaria a encolher-se vertiginosamente quando a força da gravidade superasse e anulasse a força de expansão, até colapsar numa implosão e criar uma nova singularidade, seguida por um novo Big Bang.

O universo seria oscilante, como um elástico que se expande rapidamente até a um ponto máximo, entrando então em desaceleração até parar a expansão e contraindo-se depois tão rapidamente como se expandiu, até chegar a um Big Crunch, ou seja, ao ponto infinitamente denso que daria origem a um novo Big Bang.

Esta teoria parece estar em consonância com a primeira lei da termodinâmica, (nada se cria, nada se perde tudo se transforma) a matéria é sempre a mesma, reciclando-se eternamente, pelo que o Universo não tem princípio nem fim. Representando esta ideia em filosofia está a teoria do eterno retorno - a história repete-se, como dizem alguns historiadores. Em religião, temos a teoria da reincarnação e a conceção cíclica do tempo, como entendiam os gregos: primavera, verão, outono, inverno, etc.

No entanto, isto não é o que vai acontecer desde observações feitas com o telescópio Hubble não apontam nesse sentido. A ascensão de um foguete pode nos dar uma ideia do que vai acontecer. Um foguetão ascende na atmosfera porque tem uma força superior à da gravidade que o atrai para a terra. Se lhe faltar o combustível, deixará de subir e a gravidade fá-lo -á voltar ao lugar inicial. Porém, se não lhe faltar o combustível e subir a mais de 12 Km por segundo, nunca mais voltará à terra e para sempre se distanciará de nós. É o que acontece com o nosso universo: a aceleração cósmica da expansão é tão elevada e, a densidade da matéria (que proporciona a gravidade) é tão baixa, que todos os objetos continuam a distanciar-se de nós para sempre.

O fim do Universo
Num Universo fechado, a gravidade pararia a expansão quando esta chegasse ao limite e seria seguida por uma contração. Mas o Universo é aberto e ilimitado, pelo que pode expandir-se eternamente, e tudo indica que a expansão está em aceleramento.

A velocidade de expansão das galáxias é demasiado grande para que a sua gravidade consiga inverter o movimento. Ainda que num futuro abrandassem, já estariam demasiado distantes para que a gravidade as obrigasse a contraírem-se. Portanto, a expansão é irreversível porque não há matéria suficiente no Universo para a força da sua gravidade a fazer parar. Assim, ou num dado momento o Universo congela ou se expande até gastar toda a sua energia e morrer.

A diminuição de massa devido ao esgotamento de energia diminui a força da gravidade, fazendo com que a inversão de marcha seja impossível. O Universo vai expandir-se até à morte que ocorrerá quando tiver gasto toda a sua energia.

Segundo a primeira lei da termodinâmica, na transmutação entre energia e matéria, nada é criado, nada é destruído, tudo se transforma, o que estaria de acordo com um Universo eterno e oscilante. Porém, nos termos da segunda lei da termodinâmica, a transformação de matéria em energia não é possível sem a deterioração ou desgaste irreversível da primeira. Por isso, os processos naturais conhecidos são quantitativamente conservadores (1ª lei) e qualitativamente degenerativos (2ª lei).

À primeira vista, pode parecer que a primeira lei da termodinâmica dá razão aos ateus e ao seu universo oscilante. Se a energia não pode ser criada nem destruída, isso significa que a energia pode ser reciclada ad aeternum.

Sim e não. A energia não pode ser criada nem destruída, mas pode mudar ou ser transferida de formas mais úteis para formas menos úteis. Em cada transferência ou transformação de energia no mundo real, uma certa quantidade de energia é convertida numa forma que não é reutilizável. Na maioria dos casos, esta energia inutilizável assume a forma de calor.

É certo que o calor em circunstâncias idóneas pode ser reutilizado. No entanto, nunca pode ser transformado no tipo de energia mecânica com o mesmo desempenho e eficiência de 100%. Por isso, cada vez que acontece uma transferência de energia, uma certa quantidade de energia útil (embora não se perdendo em conformidade com a 1ª lei) passará à categoria inútil (em conformidade com a 2ª lei da termodinâmica ou lei de entropia). Se assim não fosse, se só existisse a primeira lei da termodinâmica, seria possível construir um motor que consumisse só a energia que produz e que produzisse a energia que consome para se manter em funcionamento.

A razão pela qual o Universo não pode ressurgir dando lugar a outro Big Bang, mesmo que se contraia, é que o Universo é extremamente ineficaz (entropia): longe de poupar, desperdiça energia. De facto, o Universo é tão ineficaz que o ressurgir resultante do seu colapso seria apenas 0,00000001% do Big Bang original. Um ressurgir tão insignificante resultaria num novo colapso quase imediato e o Universo acabaria por transformar-se num buraco negro gigante para o resto da eternidade.

A analogia do sol
Tudo no Universo se processa de uma forma análoga. No nosso pequeno mundo, o sistema solar é composto por uma estrela - o sol - rodeada por 8 planetas, dos quais o nosso é o terceiro. Devemos a vida ao astro rei, mas este já não é jovem, já penteia cabelos bancos. De facto, tal como uma vela que aumenta a chama antes de se apagar, tal como um ser humano que parece melhorar antes de morrer (as chamadas melhoras da morte), dentro de mil milhões de anos a luminosidade do sol aumentará e ocupará dois terços do nosso céu. Os oceanos secarão, a atmosfera desaparecerá. Muito antes disto, o nosso planeta não oferecerá condições mínimas para a existência de vida.

O sol formou-se há 4.500 milhões de anos a partir de uma grande nuvem de pó e hidrogénio, que pelo efeito da gravidade entrou em redemoinho, como um furacão. Esta atração gravitacional fez com que a densidade fosse aumentando e, como esta, a temperatura do núcleo central aumentou também até alcançar os 10 milhões de graus. Nestas condições, aconteceu a fusão nuclear e a estrela começou a emitir luz. Calcula-se que o hidrogénio do sol já tenha reduzido em 40%. Calcula-se também que a Terra tenha surgido há 3.500 milhões de anos e que faltam mil milhões de anos até ao seu fim. Assim sendo e, apesar de faltarem ainda muitos anos, estamos já no último quarto de vida do nosso planeta.

Cada estrela tem o seu destino marcado desde o momento do seu nascimento: conforme a massa que tiver no dia do seu nascimento, assim será a sua morte. O nosso sol vai converter-se primeiro numa gigante vermelha, depois numa nebulosa planetária e quando tiver perdido toda a sua incandescência, numa anã branca, uma estrela 7 vezes maior que o sol, supergigante vermelha – supernova – estrela de neutrões. Uma estrela 40 vezes superior ao sol, transformar-se-á num buraco negro na sua fase final. Tal como as estrelas, o universo vai expandir-se até não ter mais energia para aquecer e para se aquecer e morrerá de frio quando tiver gasto todo o seu combustível.

Tempo
Para a física, o conceito ou coordenada do tempo é uma medida que determina a duração de alguma coisa sujeita a uma mudança. Há, portanto, três tipos de tempo:

O tempo psicológico ou humano que é aquele que cada um de nós experimenta - a nossa memória histórica do que aconteceu e que já não acontece, o presente que decorre agora e flui em direção a um futuro que está para vir.

O tempo cósmico, associado à expansão do universo e que começou no dia do Big Bang, um dia sem ontem e que acabará com o fim do mundo.

O tempo termodinâmico, associado ao incremento da entropia, ou seja, à segunda lei da termodinâmica segundo a qual a matéria não se converte em energia sem sofrer um desgaste; se assim não fosse, seria possível fabricar um motor que produzisse exatamente a mesma energia que consumia, um motor eterno. Mas tal não é possível, os sistemas que dissipam energia são irreversíveis.

Einstein descobriu que o tempo não é absoluto, mas sim relativo: relógios iguais e sincronizados podem medir tempos diferentes se um deles se mover a uma velocidade substancial e o outro ficar parado. Por esta razão, Einstein prefere falar de espaço e tempo como uma entidade única, espaço-tempo. Na verdade, já Kant entendia que o espaço e o tempo eram essenciais para a compreensão da experiência humana, sendo esta tudo o que decorre simultaneamente num tempo e num espaço.

O tempo diminui em proporção da velocidade: quanto mais veloz for o movimento o objeto, menos tempo decorre para ele. Acelera-se a velocidade e desacelera-se tudo à volta da pessoa que se move: o seu relógio, até o seu pensamento. A pessoa não se dá conta, mas um observador externo dá. Aqui reside a base do famoso paradoxo dos dois gémeos.

Um deles parte para uma viagem no espaço a 90% da velocidade da luz; o relógio deste gémeo em viagem move-se 44% mais rapidamente que o relógio do gémeo que ficou na Terra, pelo que o gémeo viajante envelhece mais lentamente que o gémeo que permaneceu na Terra. Depois de 5 anos, quando o gémeo volta do espaço, tem apenas mais 5 anos de idade enquanto que o seu irmão passa já dos 100. Isto que para o nosso pensamento convencional é um paradoxo, é pura realidade na teoria da relatividade.

Espaço
No tempo anterior ao Big Bang, o espaço tinha uma dimensão zero, ou seja, era inexistente. Com a grande explosão vai atingindo dimensões cada vez maiores até aos nossos dias e continua em expansão acelerada, continuando a crescer.

Entende-se por espaço as regiões relativamente vazias do universo, fora da atmosfera dos corpos celestes. Porém, hoje sabemos que não está totalmente vazio de matéria pois contém partículas de hidrogénio, ainda que de baixa densidade, assim como alguma radiação eletromagnética. Hoje sabe-se também que contém formas desconhecidas de matéria e energia, como a matéria negra e a energia negra.

Há um espaço que é real pois pode ser observado e um espaço que intuímos que existe, mas que não temos forma de observar. A luz viaja a uma velocidade de 300 mil quilómetros por segundo; a luz de qualquer estrela tarda milhares de anos a chegar à terra e a das galáxias milhões de anos. Existem corpos tão distantes que a sua luz ainda não chegou até nós desde que se formaram, por isso não podemos observá-los.

Tal como aconteceu com a conceção do tempo, também o espaço desafia a nossa mente convencional. Imaginamos o espaço linear estendido em todas as direções, como um contínuo tridimensional mensurável em altura, largura e profundidade que tudo envolve. Porém, não é assim: o espaço curva-se devido à força da gravidade que nele exercem os astros. Esta é maior ou menor segundo a sua massa. Por exemplo, na terra pesamos 8 vezes mais que na lua. Einstein vê na força da gravidade que faz dobrar o espaço muito mais que uma força: uma manifestação geométrica espaciotemporal.

Energia
Ao tempo do Big Bang, quando o espaço possuía uma dimensão zero, era infinitamente quente. Tal como a luz e o calor que emana uma pilha vão diminuindo à medida que se afastam da sua origem, tal como acontece com a expansão, assim o Universo vai esfriando à medida que se afasta do Big Bang no espaço e no tempo. Nos momentos que se seguiram ao Big Bang, não havia matéria, só havia fotões, eletrões, neutrões e protões. Com a contínua expansão do universo e a consequente descida de temperatura, estas partículas começaram a combinar-se entre si formando o núcleo do átomo de hidrogénio pesado que, combinado com mais neutrões e protões, forma o núcleo do hélio.

Com a descida brusca da temperatura, estas partículas iniciais já não tinham energia suficiente para neutralizar a atração eletromagnética entre elas e começaram a formar átomos, que são os tijolos da matéria.

Em grego, energia significa atividade, operação força. A energia é um conceito abstrato pois não se refere a um objeto físico. No entanto, segundo a teoria da relatividade especial existe uma equivalência entre massa e energia pela qual todos os corpos, pelo facto de serem constituídos por matéria, contêm energia. Vejamos algumas formas de energia:

Energia cinética – É a que possuem os corpos em movimento, dependendo da sua massa e velocidade.

Energia elétrica – Produz-se pela atração ou repulsa entre os corpos carregados eletricamente.

Energia nuclear – É a que resulta da rutura ou cisão do átomo. No caso da energia nuclear utilizada para a produção de eletricidade, trata-se da rutura do átomo de um elemento pesado como o urânio, ao ser bombardeado com neutrões. A fusão nuclear só é possível no interior das estrelas onde a temperatura ascende os cem milhões de graus.

Energia potencial – Uma garrafa parada sobre uma estante tem energia potencial dada a posição que ocupa, pois pode cair.

Energia química – É a energia absorvida, armazenada e libertada nas combinações químicas entre os átomos e as moléculas. As plantas por exemplo utilizam a luz do sol para produzir energia química que armazenam em moléculas orgânicas.

Energia radiante ou luminosa – Energia que se propaga no vazio em forma de ondas eletromagnéticas: luz visível, raios X, raios gama, raios ultravioleta, raios infravermelhos; a luz visível é só uma das formas da luz radiante.

Energia térmica – Quando se acende uma fogueira e se queima madeira, produzimos energia térmica - o calor flui dos corpos que se encontram a maior temperatura para os corpos que se encontram a menor temperatura.

Energia negra – A última forma de energia a ser descoberta há relativamente pouco tempo, em 1999. É mais o que não sabemos do que o que sabemos acerca da energia negra por esta não ser observável. É uma manifestação da gravidade ou da matéria-energia? A energia negra corresponde a 72% do Universo, sendo 23% constituído por matéria negra. Apenas 4,6% são átomos, ou seja, matéria, galáxias, estrelas e planetas.

Matéria
A nível microscópico, a matéria é formada por moléculas e estas por átomos que, por sua vez, se compõem de eletrões protões e neutrões. Para além disto, há ainda um conjunto de partículas subatómicas que formam os eletrões, os protões e os neutrões: quarks.

Macroscopicamente a matéria é o nosso sistema solar, a nossa galáxia e todas as galáxias que formam o universo observável. Fundamentalmente, o nosso universo a nível de matéria é composto por hidrogénio e hélio - 75% e 24%; apenas 1% da matéria conhecida é composta por todos os outros elementos. Todos os objetos celestes visíveis conhecidos, galáxias, estrelas, planetas e nuvens de pó, constituem 10% da massa do Universo; o resto é massa não identificável, indetetável que os astrónomos denominaram de matéria negra.  

Duas são as características principais da matéria: ocupa um lugar no espaço e tem massa. A massa é uma magnitude física fundamental que pode definir-se como a medida da quantidade de matéria que um corpo tem e que determina as suas propriedades de inércia e gravitação.

Como já dissemos, existe uma correspondência entre matéria e energia e energia e matéria; a matéria pode transformar-se em energia e a energia transformar-se em matéria; podemos ver a matéria como uma forma de energia ou a energia como uma forma de matéria; mas a matéria não é energia, nem a energia é matéria. A chama de uma vela, por exemplo, é composta por uma mistura de combustível em forma de vapor, oxigénio, dióxido de carbono, monóxido de carbono e água, por isso podemos dizer que é matéria. Porém, a luz produzida pela chama é energia; o calor produzido também é energia, não matéria. O fogo em si mesmo, porém é um estado de matéria.

Como exemplo de energia que se transforma em matéria e matéria que se transforma em energia, tomemos a combustão do sol que transforma massa, ou seja, matéria em energia. Por sua vez, pela fotossíntese, esta energia absorvida pelas plantas é transformada em massa, pois é responsável pelo seu crescimento.

A matéria existe na natureza em três estados:

Gasoso – As moléculas que constituem um gás quase não se atraem umas às outras, pelo que se movem no vazio a grande velocidade, com muita separação umas das outras.

Líquido – As moléculas dos líquidos não estão tão próximas como as dos sólidos, mas estão menos separadas que as dos gases.

Sólido – Porque opõe resistência a mudanças de forma e de volume. As moléculas de um objeto sólido têm uma grande coesão entre si, pelo que adotam formas bem definidas, resistindo, portanto, a toda mudança de volume ou de forma.

Plasma – Também chamado o quarto estado da matéria é fundamentalmente um gás constituído por eletrões e por iões carregados positivamente. No nosso entender, o plasma não é o quarto estado da matéria pois não é verdadeiramente um estado, mas sim um processo; diz respeito ao exato momento em que a matéria se torna energia. Por isso, tanto pode ser considerado como uma forma ou estado da matéria, como uma forma ou estado da energia.

O nosso sol é constituído por plasma. Na Terra, os raios da trovoada são plasma que ocorre quando o gás atmosférico é aquecido a elevadas temperaturas e é ionizado por correntes elétricas. Uma outra forma de plasma são os ventos solares que interagem com o campo magnético da Terra, criando as auroras boreais. Por fim, a forma de plasma mais próxima de nós, depois que os televisores de plasma desapareceram por consumirem muita energia, são as lâmpadas fluorescentes que contemplamos todos os dias.

Conclusão
O futuro do nosso querido Universo não depende nem da energia nem da matéria visíveis, pois estão em minoria no Universo. Depende antes, da energia negra e da matéria negra. Estas duas estão em luta uma com a outra, como o bem e o mal; a matéria negra exerce uma força centrípeta sobre o Universo; se esta vencer - o mundo colapsa sobre si mesmo.

A energia negra, ao contrário exerce uma força centrífuga sobre o Universo, pelo que se esta última a vencer batalha, o Universo desintegra-se por completo: desintegram-se as estrelas, os sistemas solares, as galáxias e por fim os próprios átomos, protões, eletrões, neutrões e quarks que os constituem.

Seria o fim do Universo. Como a energia negra corresponde a 72% do Universo, sendo só 23% constituído por matéria negra, é de prever que ganhará a energia negra.

Colapsando sobre si mesmo, no caso de ganhar a matéria escura, ou desintegrando-se se o vencedor é a energia escura, de qualquer forma, o Universo está condenado. O nosso único consolo é que não isto não vai acontecer nos nossos dias, pois quando isto acontecer já toda a humanidade se encontra a viver com seu criador, Deus.

O nosso planeta terra está no último quarto da sua vida, ou seja, resta-lhe ainda 1 bilhão de anos. O universo que já existe às 14 bilhões anos parece que tem 5 bilhões mais. Estes fatos devem ser suficientes para matar qualquer ansiedade sobre um fim eminente. O que importa é o princípio que o universo teve um começo em Deus, seu criador e nele terá seu fim. Ele que criou tudo do nada só ele pode reduzir tudo ao nada outra vez.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de abril de 2019

3 Atributos de Deus: Omnipotente - Omnisciente – Omnipresente

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D Breve Catecismo de Westminster
Deus é um Espírito infinito, eterno e imutável, em Seu Ser, sabedoria, poder, santidade, justiça, bondade e verdade.

São muitos os atributos de Deus. Entendemos que podem agrupar-se debaixo destes três mais conhecidos que aprendemos no catecismo e que começam com a palavra latina “omnis” que significa todo. Feuerbach diria que estes três atributos são uma projeção humana, antropomorfismos. Porém, achamos que são mais a origem e o ente onde reside cada uma destas realidades na sua potência máxima e nós, como humanos que somos, sabemos e aceitamos que nunca dominaremos por completo cada uma destas realidades.

Ante os outros seres vivos, reconhecemos que temos algum poder sobre a Criação, mas sabemos que esse poder tem limites; a omnipotência reside em Deus porque ele é o Criador e nós as criaturas. Com o avanço da ciência e da técnica vamos sabendo cada vez mais. No entanto, damo-nos conta como o fez Sócrates que ante a imensidade de coisas que há para conhecer reconhecemos humildemente que pouco é o que sabemos; o pleno conhecimento reside em Deus. –

O tempo e o espaço são as coordenadas da nossa vida terrena; ocupamos um único espaço durante um tempo concreto. Porém, reconhecemos que em Deus está a origem do tempo, do espaço e, porque é eterno, é omnipresente. Ilimitado no seu poder não confinado pelo tempo nem pelo espaço, para quem o mistério não existe, assim é Deus.

Teologia negativa
Só sei que nada sei, e o facto de saber isso, coloca-me em vantagem sobre aqueles que acham que sabem alguma coisa. Sócrates

Estamos inerentemente incapacitados para definir Deus, para dizer o que é e como é, porque definir, de alguma forma, significa conhecer, englobar, assimilar, compreender, abranger, abarcar, como se pudéssemos colocar a Deus dentro de nós, dentro da nossa mente, como o fazemos com as coisas e as pessoas que conhecemos.

Os espanhóis têm, a este respeito uma expressão muito interessante “te conozco como se te hubiese parido” – quando queremos expressar como conhecemos bem alguém, recorremos à figura que melhor nos conhece: - a nossa mãe. Ora a Deus não é possível conhecer muito bem nem suficientemente bem. Por isso surgiu a teologia negativa como se fosse um agnosticismo crente, um aplicar da humildade socrática a Deus como se aplica à sabedoria em geral.  

A primeira teologia negativa já a praticava o povo judeu, que ao reconhecer a imensidade inefável do mistério de Deus, até evitava pronunciar o Seu. Nesta mesma linha, o evangelista São Mateus substituiu a expressão “Reino de Deus” usada pelos outros evangelistas por “Reino dos Céus”.

Mesmo depois dos tempos apostólicos, a teologia negativa, ou seja, a ideia de que é mais fácil dizer o que Deus não é que o que Deus é, foi uma constante ao longo da reflexão teológica: Gregório de Nisa 330- 395

Dionísio o Pseudo-Areopagita (século Vl), Alberto Magno (1200-1280) e Tomás de Aquino (1225-1274), Duns Escoto (1265-1308), Mestre Eckhart (1260-1327) e atingiu o seu ponto máximo em Nicolau de Cusa (1401-1464) que - chama “docta ignorantia”. E, já no nosso tempo, D. Bonhoeffer (1906-1945) e A. Cox (n. 1929).

A teologia negativa é uma resposta ao preceito de representar a Deus em imagens (Êxodo 20,4), pois corre-se o risco de rapidamente se transformarem em ídolos. É também uma fuga à tendência antropomórfica de projetar os nossos desejos e ideais em Deus. Muito caro a esta teologia é o tema do sofrimento humano, já tratado na bíblia no livro de Job, o problema do mal e o silêncio de Deus. A teologia negativa apresenta Deus na sua capacidade de salvar sem exercer nenhuma violência sobre a razão e a liberdade dos homens.

De Deus podemos saber um mínimo suficiente
Jesus levantou a voz e disse: “Quem crê em mim não é em mim que crê, mas sim Naquele que me enviou; e quem me vê a mim vê Aquele que me enviou”. João 12 44-45 (João 14, 9)

Sabemos que não podemos conhecer a Deus totalmente, abarcar, colocar dentro de nós o seu mistério, sabemos que de Deus é mais e será sempre mais o que desconhecemos do que o que conhecemos. Porém, não queremos ter com Ele a atitude agnóstica de tudo ou nada: como não posso conhecer tudo então desinteresso-me pelo tema e não quero conhecer nada.

“Nós somos o seu povo, ovelhas do seu rebanho” (Salmo 95, 7). É certo que as ovelhas não conhecem totalmente o pastor, mas podem conhecer o suficiente e, sobretudo, distinguir entre o bom pastor e o assalariado. (João 10, 1-21). Por isso e porque temos sede de Deus, tal como uns gregos nos dias do Mestre, também queremos ver Jesus (João 12, 21); como os discípulos de João Batista, queremos saber onde é que Ele mora. E Ele está interessado em dar-se a conhecer e diz-nos vinde e vede (João 1, 36-39). A criatura pode chegar a compreender um pouco o Criador, como o filho compreende a mãe o suficiente para ter vida e vida em abundância (João 10, 10), e para que o Criador seja glorificado em nós, suas criaturas

Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo aquele que ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus. Aquele que não ama não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor. 1 João, 4, 7-8

Por outro lado, sabemos por João que Deus é amor. Ora não podemos amar o que não conhecemos, nem podemos conhecer o que não amamos; as coisas podem conhecer-se sem as amarmos; mas precisamente porque conhecimento implica domínio sobre o conhecido, as pessoas só podem conhecer-se e dar-se a conhecer se as amarmos.

Neste sentido, a fé é muito mais que um consentimento ou cedência da razão: é deixar que o nosso coração governe a razão, entendendo, é claro, o amor como necessidade e não como sentimento. Necessitamos do amor de Deus, mas para este atuar em nós precisamos de O amar também. Ao falar da união vital entre a videira e os ramos, Jesus conclui “Sem mim nada podeis fazer” (João 15, 5).

Um conhecimento suficiente para poder estabelecer uma relação com Deus é possível e, depois d’ Este se ter revelado no Seu Filho, a tarefa é muito mais fácil. Jesus de Nazaré é Deus feito homem, pelo qual se torna mais fácil esta relação. Aliás Ele veio até nós para nós irmos até Ele; em Jesus, Deus é menos mistério, em Jesus e por Jesus podemos conhecer suficientemente a Deus para o podermos amar e deixar-nos amar por Ele.

Não queremos que Feuerbach se ria de nós, por isso não vamos ser antropomórficos ou seja não vamos projetar em Deus “o que queremos ser quando formos grandes”, os nossos sonhos, quimeras, fantasias e manias de grandeza. Vamos usar a Palavrar revelada na Bíblia e não afirmaremos de Deus nada que não esteja ali afirmado, privilegiando aquela palavra que se fez carne em Nosso Senhor Jesus Cristo. Decerto assim não erraremos, pois nos amparamos da inerrância da Bíblia.

O Reino de Deus JÁ está presente no meio de nós desde que Jesus o trouxe e iniciou. Mas sabemos que AINDA NÃO está presente na sua plenitude. O mesmo dizemos do conhecimento de Deus. Já sabemos algo, o suficiente, mas ainda não tudo. Um dia o veremos tal como Ele é. Entretanto, contemplemo-lo como o pequeno Francisco, pastorinho de Fátima, ao referir à prima que vira Nosso Senhor “naquela luz que Nossa Senhora nos metia no peito” e, extasiado ante tamanha beleza exclamava, “Como é Deus!”

Omnipotente 
Senhor, meu Deus! Tu começaste a mostrar ao teu servo a tua grandeza e a força do teu braço! Que Deus, nos céus ou na terra, poderá realizar as tuas obras e as tuas maravilhas? Deuteronómio 3, 24
"Não é lícito para Mim fazer o que eu quero com o que é meu?" Mateus 20:15

Creio em Deus, Pai Omnipotente, Criador do Céu e da Terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis…Catecismo da Igreja Católica

Em relação a si mesmo, a omnipotência de Deus manifesta-se no facto de que é, autónomo, livre, não dependente de nada nem de ninguém, e autossuficiente, não necessitando de nada nem de ninguém. Pois, “assim como o Pai tem a vida em si mesmo, também deu ao Filho o poder de ter a vida em si mesmo” (João 5,26). Não tem origem nem destino, pois é anterior a todas as coisas e todas elas nele subsistem. (Colossenses 1,17)

Em relação a nós, a omnipotência manifesta-se na criação do mundo, no plano de salvação, na encarnação do seu filho, pois para Ele, «nada é impossível» (Lucas 1,37) e ainda no sustento e manutenção da criação, onde tudo está ordenado com perfeição e inteligência.

Deus é Senhor e Mestre sobre todas as Suas criaturas, e tem irrestrito poder absoluto e jurisdição sobre elas. Isso decorre necessariamente do facto de ser Deus e de a criatura ser dependente dele para existência e atividade. No exercício desse poder, Ele não é responsável perante ninguém; não tem que justificar-se diante ninguém. “Querer é poder” diz o provérbio e queremos acreditar que seja assim; para Deus, de facto, querer é sempre poder; para o homem, nem sempre.

Deus é senhor de tudo
"Tua é, Senhor, a magnificência e o poder e a honra e a vitória e a majestade; porque teu é tudo quanto há nos céus e na terra; teu é, Senhor, o reino e tu te exaltaste sobre todos como chefe ... e tu dominas sobre tudo..." 1 Crónicas 29:11-12

Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-me “o Mestre” e “o Senhor” e dizeis bem, porque o sou. Ora, se Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Na verdade, dei-vos exemplo para que, assim como Eu fiz, vós façais também. Em verdade, em verdade vos digo, não é o servo mais do que o seu Senhor, nem o enviado mais do que aquele que o envia. João 13, 13-16

O domínio e senhorio de Deus sobre o mundo e sobre cada um de nós é um serviço de amor. Deus é um Rei magnânimo que reina com justiça, lento na ira e rico em misericórdia. Cristo exerceu o seu Senhorio lavando os pés aos seus discípulos, fazendo o serviço de um escravo, para nos dizer que se o seu senhorio se manifesta em serviço, assim se deve manifestar todo o poder. O poder de Deus não é abusivo, a sua nobreza não tem sangue azul, a sua autoridade não é autoritarismo. Os seus ditames não são ditadura.

Deus é Amor
Sião dizia: «O Senhor abandonou-me, o meu dono esqueceu-se de mim.» Acaso pode uma mulher esquecer-se do seu bebé, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, Eu nunca te esqueceria. Eis que Eu gravei a tua imagem na palma das minhas mãos. As tuas muralhas estão sempre diante dos meus olhos. Isaías 49, 14-16

Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo aquele que ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus. Aquele que não ama não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor. 1 João 4: 8

Como Deus não precisa de nada nem de ninguém, o seu amor é puramente incondicional. Como quem não ama não conhece a Deus, não se pode amar a Deus sem amar o irmão; em conflito está com Deus aquele que está e permanece voluntariamente em conflito com o seu irmão.

Omnisciente 
Senhor, Tu examinaste-me e conheces-me, sabes quando me sento e quando me levanto; à distância, conheces os meus pensamentos. Vês-me quando caminho e quando descanso; estás atento a todos os meus passos. Ainda a palavra me não chegou à boca, já Tu, Senhor, a conheces perfeitamente. Salmo 139, 2-4

"E não há criatura alguma encoberta diante dele: antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar" Hebreus 4, 13


Significa que Deus conhece todas as coisas de um modo completo, absoluto e definitivo. O Seu conhecimento é infinito e não está sujeito a qualquer limitação. Ele não precisa pedir nenhuma informação e não tem dúvidas. Como é o Criador de tudo e de todos, nada lhe permanece oculto; conhece todos os nossos pensamentos e é testemunha ocular de todos os nossos atos. Sabe quem é o culpado e o inocente.

Não há, portanto, crimes perfeitos para Deus, coisas que nunca virão a saber-se; não há segredos bancários nem profissionais, nem vidas privadas; tudo é público e sabido aos olhos de Deus. Nada lhe escapa, pois, está sempre atento. A impunidade, a falta de justiça, são possíveis perante os homens, não perante Deus. Ao contrário do que acontece connosco, o seu conhecimento não aumenta nem diminui, não perde a memória e os nossos crimes não prescrevem.

O conhecimento que Deus tem do futuro é tão completo como o que tem do presente e do passado. O que Deus sabe que acontecerá no futuro, acontecerá inexoravelmente, pois Deus sabe-o não como possibilidade, mas como certeza. O conhecimento de Deus não nasce das coisas nem depende do comportamento delas ou porque elas existem ou existirão, mas porque Ele, que é anterior às coisas, ordenou que estas existissem e existissem para um determinado objetivo. Por exemplo, Deus sabia da crucificação do Seu Filho e predisse-a muitas centenas de anos antes que Ele encarnasse.

É isto sinónimo da predestinação, de que tudo está predestinado e predeterminado por Deus? Não, o facto de Deus saber quais vão ser as nossas opções não nos faz menos livres para as tomar. Ele sabe quais vão ser as nossas opções, mas não interfere nelas: estas são totalmente da nossa responsabilidade.

Omnipresente
Onde é que eu poderia ocultar-me do teu espírito? Para onde poderia fugir da tua presença? Se subir aos céus, Tu lá estás; se descer ao mundo dos mortos, ali te encontras. Se voar nas asas da aurora ou for morar nos confins do mar, mesmo aí a tua mão há-de guiar-me e a tua direita me sustentará. Salmo 139, 7-10

Deus não é limitado de nenhuma forma pelo espaço nem pelo tempo. A sua presença é infinita, de modo que Ele está simultaneamente presente em todo o tempo, em toda parte, com toda a plenitude do Seu ser. Isto é possível porque Deus não é um ser material, mas sim espiritual. Deus é espírito, por isso, os que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade. (João 4, 24). Como Deus é Espírito, é também invisível aos nossos olhos e inacessível a todos os nossos sentidos. Porém, para Ele, nós não somos invisíveis, nada lhe podemos ocultar.

Deus é transcendente e Imanente
"Sou um Deus próximo, diz o Senhor, e não um Deus de longe? – (...) Eu não encho o céu e a terra?" Jeremias 23: 23-24

Ele não está longe de cada um de nós: porque nele vivemos, e nos movemos, e temos nosso ser" Atos 17: 27-28.

Afirmar que Deus é transcendente, é dizer que Ele é distinto e mais elevado do que a Sua criação, vive e existe fora dela sem dela precisar, pois foi Ele que a criou; afirmar que Ele é imanente, é dizer que Ele está junto, participa e dirige a Sua criação e nela, no seu conjunto e em cada uma das criaturas, é o centro, o coração de cada coisa. Nada do que acontece lhe é alheio.

Deus é eterno
A eternidade é a negação do tempo; é o conceito contrário ao tempo e temporalidade. “Fugit tempus, carpe diem”, o tempo é fugaz, está em contínuo devir, um tempo dá lugar a outro; a eternidade é estática, um contínuo e parado carpe diem. Este é um dos atributos que Deus tem e que partilha connosco (João 10, 28).

Deus é Infinito
"O céu e o céu dos céus não podem te conter" (I Reis 8:27).

O homem é finito e limitado na sua dimensão corporal e física, com parâmetros bem definidos; pelo contrário, Deus não tem parâmetros nem limites que o definam, os conceitos de infinito e omnipresença são idênticos em Deus.

Deus é perfeito
O Deus que criou o mundo e tudo quanto nele se encontra, Ele, que é o Senhor do Céu e da Terra, não habita em santuários construídos pela mão do homem, nem é servido por mãos humanas, como se precisasse de alguma coisa, Atos 17, 24-25

A perfeição de Deus é uma das consequências do seu ser infinito; tudo o que é limitado e finito é imperfeito ou aperfeiçoável, uma vez que a expansão dos parâmetros implica a aproximação a um grau mais elevado de perfeição. Consequentemente, algo sem limites é melhor e excede em perfeição o que é limitado. O que vale para a perfeição, vale também para o resto dos atributos morais de Deus como, santo, justo, Misericordioso, verdadeiro, bom, paciente…

Deus é Imutável
Eu sou o Senhor e não mudo de opinião; por isso, vós, filhos de Jacob, não fostes destruídos. Malaquias 3,6

"O Pai das luzes, com quem não há mudança, nem sombra de variação" Tiago 1:17

A imutabilidade de Deus tem que ver com o facto de ser perfeito; por isso, não está em crescimento, em nenhum processo de ser melhor. Também não muda com o tempo, pois está para além do tempo e espaço, que são suas criaturas. Deus é e de facto na bíblia Ele mesmo se apresenta dizendo “Eu sou o que sou” (Êxodo 3, 14): Deus é autoreferente. E ao não ter por cima dele ninguém por quem jurar, jura por si mesmo (Génesis 22, 16).

A mutabilidade tem referência a uma entidade criada, a incidentes ou circunstâncias ou à vontade. Cada criatura, de uma forma ou de outra, está sujeita a mudanças e tem dentro de si o potencial de mudança ou de ser mudada. Deus, porém, é absoluto e, em todos os aspetos, é imutável tanto na Sua essência como na Sua vontade; até mesmo a possibilidade de mudança é totalmente estranha a Deus.

A imutabilidade de Deus é consequência da sua perfeição; só se muda quem se reconhece imperfeito e tal só acontece com a criatura que se reconhece imperfeita ante a perfeição do criador com quem se confronta. Também não muda de opinião, pois é verdadeiro, conhece a verdade de cada coisa e em tudo atua com sabedoria por isso não erra. Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e por toda a eternidade (Hebreus 13, 8)

Deus é Fiel
Reconhece, pois, que o Senhor, teu Deus, é que é Deus, o Deus fiel, que mantém a aliança e a bondade para com os que o amam e observam os seus mandamentos até à milésima geração. Deuteronómio 7:9

Quando Deus estabeleceu a primeira aliança com Abraão, ordenou-lhe que matasse os animais e os cortasse pelo meio, colocando cada metade à frente da outra. O costume era que cada um dos que entram em aliança devia passar pelo meio dos animais divididos, simbolizando “que me aconteça a mim o que aconteceu a estes animais se faltar à minha palavra”.

Conhecendo a natureza infiel do homem, a sua incapacidade de manter a sua palavra, Deus passou pelo meio, mas não deixou que Abraão o fizesse. Por isso, se formos infiéis, Ele permanecerá fiel, pois não pode negar-se a si mesmo. (2 Timóteo 2, 13)

Deus é Providente
Ele é pai dos órfãos e defensor das viúvas, o Deus que habita no seu santo templo. Deus prepara uma casa para os desamparados e liberta aqueles que estão prisioneirosSalmo 68, 6-7

Qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma serpente? Ou, se lhe pedir um ovo, lhe dará um escorpião? Pois se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que lho pedem!» Lucas 11, 11-13

Deus é Pai e providente, rico em misericórdia para quantos o invocam, a quem nada é alheio, pois sabe quando nos sentamos e nos levantamos. Cuida de nós como filhos, pois somos o seu povo e ovelhas do seu rebanho; como Pai que é, nunca nos faltará com nada, por isso, tal como as crianças confiam absolutamente nos seus pais, assim devemos ser nós como essas crianças, pois só elas entram no Reino dos Céus.

A criança tem esta confiança radical nos seus pais e sabe que, apesar de eles não lhe darem tudo o que pede, nunca lhe vão faltar com nada do que verdadeiramente precisa. *Por isso pede, pede, e pede, mas sabe que nem todos os seus pedidos serão atendidos. Os que não são atendidos, a resposta negativa, recebe-a pensando que os seus pais sabem melhor que ela o que lhe convém. É neste espírito que devemos receber o silêncio de Deus e o não atendimento dos nossos pedidos. Não como um desinteresse de Deus, mas na fé de que Deus sabe muito melhor que nós o que nos convém a curto, médio e longo prazo.

A criança não se preocupa com o dia de amanhã vive despreocupada mas ocupada; a preocupação delega-a no seu Pai, e assim devemos fazer nós. Pois não está em nosso poder aumentar um dia à nossa vida e, por muito que nos preocupemos com o que vestir, não nos vestiremos melhor que as flores do campo e a essas veste-as Deus.
Pe. Jorge Amaro, IMC





15 de março de 2019

3 Entidades na família humana: Pai - Mãe - Filho/a

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Mito do Andrógino
No banquete de Platão, Aristófanes levanta-se para fazer o seu discurso sobre a natureza do amor, para explicar porque os amantes experimentam a plenitude quando encontram a sua amada. - Aristófanes explica que, no princípio, Zeus criou o ser andrógino, algo assim como um homem e uma mulher unidos pelas costas num só ser.

Na sua plenitude e felicidade, andrógino cresceu insolente e recusou-se a honrar e venerar os deuses e até tentou atacá-los na sua morada nas montanhas. Zeus, um pouco por inveja da sua felicidade e também por vingança, castigou Andrógino e dividiu-o em dois, seguindo a velha ideia “Divide ed impera”, divide e vencerás. Assim nasce a palavra “sexo”, que tem a mesma raiz que “secção”, “seita”, parte de um todo.

Para Aristófanes, passamos a vida à procura da parte que nos amputaram, porque sem ela a vida não tem sentido, é deprimente. Com ela, sentimo-nos completos, voltamos à plenitude e perfeição. O amor é, portanto, a força que faz gravitar o varão e a mulher à volta um do outro, até voltarem a encontrar-se e fundir-se no ser que antes foram.

Amor é o que se sente pela parte amputada quando a encontramos e estabelecemos afetiva e efetivamente a unidade primordial. Em português, as pessoas falam do seu esposo ou esposa como a sua cara metade ou a outra metade da laranja.

Dizem que Aristófanes é o pai do amor romântico e também do amor platónico, o tal amor no qual e pelo qual os amantes gravitam à volta um do outro sem nunca se fundirem num só, como seria o seu desejo consciente ou inconsciente.

O mito bíblico da criação do varão e da mulher
“Façamos o ser humano à nossa imagem, à nossa semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre todos os répteis que rastejam pela terra.” Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher. Génesis 1, 26-27

O Senhor Deus disse: “Não é conveniente que o homem esteja só; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele. (…) Então, o Senhor Deus fez cair sobre o homem um sono profundo; e, enquanto ele dormia, tirou-lhe uma das suas costelas, cujo lugar preencheu de carne. Da costela que retirara do homem, o Senhor Deus fez a mulher e conduziu-a até ao homem. 

Então, o homem exclamou: «Esta é, realmente, osso dos meus ossos e carne da minha carne. Chamar-se-á mulher, visto ter sido tirada do homem!” Por esse motivo, o homem deixará o pai e a mãe, para se unir à sua mulher; e os dois serão uma só carne. Génesis 2, 18, 21-24

Os judeus arranjaram dois relatos mitológicos para explicar o que os gregos explicam num só. Primeiro, que o homem e a mulher são iguais entre si em dignidade, são duas versões do mesmo ser humano e nenhuma destas versões é superior ou inferior à outra. Segundo, que os dois no fundo são um só, que já foram um só e que agora tendem a ser um só.

Temos a tendência de pensar que Deus no princípio criou o varão e dele tirou a mulher, mas não é isso que a Bíblia diz. Deus, no princípio, criou o ser humano, o Homem com letra maiúscula que em grego é Antropos e em latim Homo. Deste ser humano, Deus tirou a mulher e o que restou foi: Vis vírus, que em português dá “varão”, a verdadeira palavra que designa um ser humano do sexo masculino.

Quando fala do matrimónio é interessante notar que Jesus, quase como os gregos, cita o primeiro e não o segundo relato da criação do ser humano dizendo: desde o princípio da criação, Deus fê-los homem e mulher (Marcos 10, 6), pois estava mais interessado em vincar a igualdade entre o homem e a mulher, coisa que não existia naquele tempo nem nos séculos seguintes até aos nossos dias.

Depois, vai buscar a segunda parte do segundo relato do livro do Génesis para fundamentar o matrimónio: Por esse motivo, o homem deixará o pai e a mãe, para se unir à sua mulher; e os dois serão uma só carne. (Marcos 10, 8)

A Grécia inventou o amor romântico e a tendência a buscar a nossa verdadeira cara metade, o amor perfeito, o perfeito homem, a perfeita mulher, e Israel inventou a instituição matrimonial e o casamento arranjado pelas famílias, sem amor entre as partes, com o único intuito da procriação e de estabelecer alianças entre povos para evitar guerras.

Quando um equivale a três
O amante bateu à porta da sua amada. “Quem é?”, perguntou ela de dentro. “Sou eu”, disse o amante. “Vai-te embora, nesta casa não cabemos tu e eu”. O amante rejeitado vagueou pelo deserto, meditando meses a fio, considerando e reconsiderando as palavras da amada. Por fim, voltou a bater à porta. “-Quem és?”. “-Sou tu”, respondeu desta vez o amante. E a porta imediatamente se abriu de par em par.

Este Deus que é uma comunidade de amor criou o homem à sua imagem e semelhança, pelo que também o ser humano é uno e trino, estando chamado a ser uma comunidade de amor; à Trindade de Deus corresponde uma trindade humana.

A pessoa humana é livre, autónoma, indivisível e independente e, no entanto, não se explica por si mesma, precisa de outras duas pessoas: o seu pai e a sua mãe, com as quais forma um triângulo. Pai, mãe, filho(a) são as únicas categorias de vida humana; todo o ser humano pertence sempre a duas delas.

Um homem não é pai sem ter uma esposa e um filho(a); uma mulher não é mãe sem ter um marido e um filho(a), todo o ser humano é filho(a) de um pai e de uma mãe; não existem mães solteiras. A Trindade consiste em que um indivíduo não existe sozinho, mas coexiste com outros dois; a existência de um implica sempre a existência de outros dois com os quais tem laços afetivos, formando um triângulo de amor.

A união que sentimos com os nossos pais é tão intensa, tão forte, que eles são parte de nós e nós parte deles. Quando nos faltam, mesmo sendo na velhice, quando já dependem mais eles de nós que nós deles, parece que o mundo desaba sobre nós. “Partir, c'est mourir un peu / C'est mourir à ce qu'on aime”, diz com razão o poema francês. Quando eles partem, nós morremos um pouco e nunca mais seremos os mesmos.

Consola-nos a possibilidade de construir outro triângulo e de sermos pais também nós, mas nunca recuperamos totalmente do embate que sofremos com a sua morte. O luto pelos pais será sempre um luto incompleto; recordo a minha mãe, já velhinha, que ao pensar na sua, ficava com lágrimas nos olhos… 

Porque o Homem é uno e trino, o ser humano é um todo em si mesmo, mas ao mesmo tempo parte de um outro todo: a sua família. A vida humana é sempre uma vida triangular: fora do triângulo não há vida humana. Quando um filho(a) abandona o triângulo da sua família com outro indivíduo do sexo oposto, forma um outro triângulo. A relação entre todos estes triângulos forma o tecido social, a família, o clã, a tribo, o povo e a nação.

Mas, desde o princípio da criação, Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher, e serão os dois um só. Portanto, já não são dois, mas um só. Marcos 10, 6-8

Um matrimónio católico, para ser válido, deve ser “ratum et consummatum”, retificado na Igreja onde o sacerdote, citando o Evangelho, declara os dois uma só carne, e consumado na intimidade do ato conjugal ou sexual, onde os dois se compenetram numa só carne. E no preciso momento em que os dois são um, são três: dessa união, surge um novo ser, pelo que o ser humano é Uno e Trino.

Seja pai seja mãe ou filho/filha cada um destes indivíduos pressupõe a existência dos outros dois. Os seres humanos não existem por si sós coexistem num elo trinitário de amor, tal como Deus.

Os seres humanos são intrinsecamente interdependentes
  • Génesis 1, 27 - Deus criou o ser humano à sua imagem, (…) Ele os criou homem e mulher. 
  • Génesis 2. 22 - Da costela que retirara do homem, o Senhor Deus fez a mulher 
A vantagem do mito andrógino sobre a criação de seres humanos por Deus, sobre o mito bíblico, é que numa única narração se afirma que nós somos ao mesmo tempo livres e interdependentes, um todo e uma parte. Ao contrário, a Bíblia diz primeiramente que somos livres e iguais em dignidade e só depois que somos interdependentes, e pertencemos um ao outro

A separação das duas verdades da natureza humana, em dois relatos diferentes, criou um problema. Ao longo do tempo, o segundo relato foi visto como machista e posto de lado e ao primeiro dado demasiado valor.

“Homem e mulher Ele os criou” soa como se os seres humanos existissem em duas modalidades diferentes completamente independentes e sem nenhuma relação entre si. Perde-se a intuição do mito grego que diz que num princípio os dois eram um por isso, mesmo divididos em duas metades eles têm a tendência a juntar-se novamente e como se pertencem mutuamente são interdependentes.

A cultura ocidental moderna, nascida da revolução francesa, é individualista pois coloca o valor da pessoa por cima do valor da Comunidade, a liberdade por cima da igualdade e fraternidade, a independência e autonomia por cima da interdependência. Existem demasiadas filosofias que exaltam o valor individual da pessoa humana como se pudesse existir sozinha.

Não existem filósofos e filosofias que apontem para a pessoa humana como sendo metade de um ser, incompleta, intrinsecamente indigente e interdependente no âmago de sua existência. Na verdade, só Deus é completo em si mesmo, e a completa, os seres humanos não existem em plenitude e autossuficiência, como ilhas; eles só existem em metades e têm de encontrar inteireza, fora de si, juntamente com outros seres humanos.

Em vez de referir-se a duas modalidades diferentes ou versões da existência humana como se pudessem existir por si só, varão/mulher deve referir-se a deficiência, indigência e deve ser para nós uma lembrança continua de que em nós mesmos, somos seres inacabados, insuficientes, imperfeitos, parciais, inacabados deficientes mutilados, só metade de um ser humano, não só a nível sexual mas a todos os níveis; somos interdependentes porque somos incompletos.

Completa humanidade completa e o sentido da inteireza só podem vir quando entramos num relacionamento íntimo com outro ser humano. Varão/mulher em vez de serem vistos como uma das duas versões ou modalidades nas quais o ser humano existe, deveriam ser vistos como que, neles mesmos por si sós não fazem sentido.

Entre os humanos a existência é coexistência, pelo que nos faríamos um favor se eliminássemos a palavra e o conceito de existência substituindo-o por coexistência, por como não há existência sem coexistência, nós não existimos, coexistimos.

Pensamento tridimensional
“Os filhos condicionaram a minha existência, desde que nasceram não voltei a pensar em termos individuais, faço parte de um trio inseparável”, diz Isabel Allende sobre a sua experiência familiar

Como já dissemos quando falámos da família divina, somos ao mesmo tempo um todo e uma parte. Cada uma das nossas células, mesmo sendo só uma infinitésima parte do nosso organismo, contém em si mesma por via do ADN a informação completa do nosso organismo. Foi com base neste princípio que a ovelha Dolly foi clonada. Isto é possível porque todas as nossas células são filhas do “matrimónio” entre duas metades de célula que aconteceu quando o nosso pai e a nossa mãe consumaram o matrimónio no ato conjugal.

A célula, sendo um ser vivo em si mesmo (a ameba é um ser unicelular), uma unidade, faz por outro lado parte do nosso corpo. A família, sendo uma unidade em si mesma, é uma célula de um clã; vários clãs formam uma tribo, várias tribos um povo, vários povos um país. Não há nenhum povo que não seja formado por outros povos. O ser simultaneamente, todo e parte, é inerente à natureza humana.

Porque não há vida humana fora da família, porque ao mesmo tempo somos um todo e uma parte, seres livres autónomos, indivíduos, mas também parte de uma família, de uma tribo, de um povo, de uma nação, sempre viveremos em tensão entre o individual e o comunitário. O nosso pensamento individual não pode ser individualista, mas deve ser tridimensional.

Frequentemente, quando celebro um matrimónio, digo ao noivo, “A partir de hoje, nunca mais vais beber uma cerveja sozinho”; ao que ele responde, “Mas a minha mulher não bebe…”, “Bebe sim”, digo eu, “E o teu filho bebe também. As consequências dos teus atos não vão recair só sobre ti, mas também sobre aqueles que a ti se encontram unidos triangularmente. E se as consequências dos teus atos também recaem sobre os outros, o teu pensamento deve ser tridimensional, ou seja, deves tê-los em conta e partilhar e tomar decisões em conjunto, mesmo sobre assuntos aparentemente individuais.”

Não posso ter a mentalidade de Frank Sinatra “I will do it my way”. Nem a da expressão francesa Chacun pour soi, ou da espanhola “Cada um sabe de si Dios sabe de todos”, ou da italiana “Fa per tre chi fa per se”. “Onde está o teu irmão?” pergunta Deus a Caim (Génesis 4, 3-13) - tenho que saber sempre onde está o meu irmão.

A comunicação não-violenta ensina-nos que há formas de satisfazer as nossas necessidades sem ser à custa ou em detrimento das necessidades dos outros e vice-versa. Ou todos ganham ou todos perdem, pois ninguém pode ser feliz à custa do outro. Alguém disse que um camelo é um cavalo desenhado por um grupo de pessoas.

É mais importante o processo que se segue que o resultado final. Tanto no mundo empresarial como nos negócios, saber trabalhar com os outros é muito importante porque leva a um maior bem-estar no trabalho e a uma maior produção.

Triângulo de amor ou triângulo das Bermudas
“Um pequeno passo individual e um grande salto para a humanidade” disse Neil Armstrong quando colocou o seu pé sobre a superfície lunar. O contrário também é verdade: somos todos uma família, um retrocesso individual é um retrocesso para a humanidade.          

Era uma vez dois ouriços que eram muito amigos um do outro. Era Verão e passavam o tempo a brincar. Entretanto chegou o Outono e começou a fazer frio e os ouriços deitavam-se debaixo das folhas para se abrigarem. Chegou o Inverno e as folhas não eram suficientes. Repararam então que os outros animais dormiam juntos, agarrados uns aos outros para se protegerem do frio. Acharam que era uma excelente ideia.

Porém, logo que tentaram fazê-lo, foi vê-los a correr cada um para o seu lado. Tinham-se picado um ao outro com os espinhos eriçados do seu corpo e atribuíam a culpa um ao outro... era necessário encontrar um modo de se acomodarem sem se ferirem. Noite após noite, foram-se acostumando um com ao outro. Com jeitinho, abaixavam os espinhos e deitavam-se lado a lado, entre mil cuidados, para não se ferirem.

Estamos chamados a entender-nos, não há plano B, não há alternativa, não há volta atrás. Na conquista do México, o espanhol Hernán Cortés mandou queimar as caravelas para não deixar nenhuma rota de fuga. Só restava aos seus soldados seguir em frente, se quisessem sobreviver. Um pouco desta mentalidade ser-nos-ia muito útil no Portugal de hoje, onde em cada 100 casais, 70 se divorciam.

Algum dia pra te ver/saltava trinta quintais/ hoje pra te não ver saltaria trinta ou mais – diz uma quadra popular… Lenda ou verdade, o triângulo das Bermudas é popularmente conhecido como sendo um lugar no golfo do México, onde se diz que desaparecem navios e aviões que por ali circulam. Quantos triângulos de amor se transformam em muito pouco tempo em triângulos das Bermudas, onde os indivíduos se perdem.

Pai
Poderás viver, então, do trabalho de tuas mãos, serás feliz e terás bem-estar. Salmo 127, 2

A sua ausência pode ser física, afetiva, cognitiva e espiritual. Esta carência priva os filhos de um modelo adequado de comportamento paterno. O aumento da atividade de trabalho da mulher fora de casa, não encontrou uma compensação adequada num maior compromisso do homem no âmbito doméstico. (Sínodo sobre a família 2016)

Na evolução das espécies, a figura paterna começa por não ter nenhum papel nos répteis e nos mamíferos, para começar a ter algum papel nos primatas. A figura do pai ausente é algo que ainda está nos genes da história da humanidade; o pai ausente de hoje é o mesmo pai inexistente nos primórdios da nossa evolução.

Ao contrário da mulher que se relaciona com o novo ser 9 meses antes de ele nascer, o pai está ausente deste processo, pois só colocou a semente e é sempre um pai adotivo, ausente. Sem poder sentir o mesmo que a mulher, o pai moderno acompanha passo a passo a gestação do seu filho, sente com o ouvido os seus primeiros pontapés e assiste ao parto.

É necessário que Ele cresça e que eu diminua. - João 3:30 – Parafraseando esta frase de João Batista, é necessário que a omnipresença da mãe na vida do filho diminua e aumente a presença do pai. Uma mãe galinha será uma péssima sogra que nunca cortou o cordão umbilical que se julga na posse do seu filho(a), que em vez de o empurrar para fora do ninho como fazem as andorinhas ao fim do verão com os seus filhotes, quer retê-lo e considera inimiga a nora ou o genro que lho(a) “rouba”. Os filhos não são dos pais, não foram eles que lhes deram a vida pois também já eles a receberam. Agora transmitem aos seus filhos, não dão, porque não são proprietários da vida.

Um pai ausente acaba por perder tanto a mulher como os filhos. Como a providência dos pais para com os seus filhos está assegurada pela lei, a mulher facilmente converte a ausência de facto em ausência de direito.

Para os filhos, é mais difícil ter este raciocínio, pois são sempre filhos. Um rapaz que cresce sem pai, cresce sem disciplina, sem modelo de identificação, vive confuso e perdido. A rapariga que cresce sem pai carece de uma experiência positiva com a primeira pessoa que conhece do sexo oposto. Em busca de um pai, namorará cedo demais e repetirá com muitos homens a relação que fracassou com o seu pai.

Mãe
Tua mulher será em teu lar como uma vinha fecunda. Salmo 127, 3
Uma presença mais assídua do pai, permite uma ausência mais prolongada da mãe e uma realização profissional da mesma, assim com um crescimento individual. O tempo da mulher submissa e caseira acabou e verdadeiramente já Jesus era contra os dois clichés que ao longo dos séculos escravizaram as mulheres:

A vocação da mulher é a maternidade
Naquele tempo, enquanto Jesus falava à multidão, uma mulher levantou a voz no meio da multidão e disse: «Feliz Aquela que Te trouxe no seu ventre e Te amamentou ao seu peito». Mas Jesus respondeu: «Mais felizes são os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática». Lucas 11, 27-28

Jesus dá importância a este elogio e, mais importante que a maternidade física, considera que é a maternidade do discípulo, o ouvir e encarnar a palavra, coisa que Maria, sua mãe, fez tendo sido ela primeiro discípula e depois mãe. Ser mãe é algo temporário que fundamentalmente acaba quando os filhos estão criados e educados. Assim é entre os mamíferos e, de alguma forma, isto devia ser incorporado entre os humanos, pois é a ordem natural das coisas.

A mulher também está chamada a ser discípula, a realizar-se como tal, a seguir o Mestre como o fizeram os outros apóstolos varões. Ou seja, realizar-se profissionalmente. Há um lugar para ela na sociedade. Historicamente, a humanidade tem andado às voltas porque rema com um só remo, é ave que voa com uma só asa. Queremos mais mulheres nos governos e em todas as células do tecido social para o mundo ficar mais equilibrado.

O trabalho da mulher é o doméstico
“Senhor, não te preocupa que a minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe, pois, que me venha ajudar.” O Senhor respondeu-lhe: «Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas, mas uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada.” Lucas 10, 28-42

Maria aos pés do Senhor, ouvindo-O, estava numa atitude de discípulo. Jesus sobrepõe o ser discípulo ao trabalho doméstico; mais uma vez aqui a realização pessoal profissional da mulher não deve ser superada pelo trabalho doméstico.

É claro que alguém tem de o fazer e esse alguém são todos os membros de uma família: pai mãe e filhos. Cada um deve fazer o que cada um pode fazer. O mesmo se aplica aos filhos: se já podem varrer, limpar a casa, os pratos e fazer a cama devem fazê-lo. Os pais não estão a beneficiar-se a si mesmos nem os aos filhos quando os substituem nestas tarefas.

Filho(a)
Teus filhos em torno à tua mesa serão como brotos de oliveira. Salmo 127, 3

A partir do momento em que as duas metades de célula humana se unem e formam uma célula humana, forma-se algo que ninguém pode separar. A célula, como base da vida neste planeta, é indissolúvel. O átomo que é a base da matéria, pode ser separado, como de facto aconteceu, originando a energia atómica; mas a célula é inseparável, inviolável, está feita à prova de bala: podemos matá-la, mas não a dividi-la.

O aborto é crime, é uma ignomínia da humanidade. A espécie humana, que se julga tão racional, é a única entre todos os animais que mata os próprios filhos. Todos nós que hoje vivemos já fomos uma única célula e tivemos a sorte de ninguém intervir no crescimento e progresso da nossa vida até ao nascimento. O mesmo, não acontece com tantos seres humanos neste planeta que são chamados à vida, mas a quem esta lhe é tirada sem que tenham a oportunidade de a viverem como tiveram, os que os matam.

Por outro lado, é simplesmente lógico que a indissolubilidade da célula que precisa de 18 anos de amparo e proteção para vir a ser um autêntico ser humano, requeira a indissolubilidade do vínculo que lhe deu origem. O modelo de família humana só existe na espécie humana; não existe família entre os répteis, pois estes não têm infância, já nascem adultos. À medida que as espécies evoluem, a presença da família vai crescendo. Entre os mamíferos, existe um tempo em que a cria convive com a mãe e entre os primatas um tempo em que a cria convive com os pais.

O ser humano é o ser mais vulnerável à nascença e o que requer mais tempo de proteção até atingir a idade adulta. É por isso que existe a família humana. Se o ser humano nascesse adulto como os répteis, a família humana não existiria, os humanos copulariam como os répteis, mas não passariam tanto tempo juntos. Ante o divórcio, esquece-se isto que é fundamental: o bem dos filhos, a sua educação e proteção. Ao contraio as crianças são muitas vezes usadas como armas de arremesso e chantagem entre os cônjuges desavindos.

Os pais divorciados acreditam que vão ver-se livres um do outro, mas isso nunca acontece. Vão ter de lidar um com o outro para o resto das suas vidas, enquanto existir a criança a quem eles transmitiram a vida; e o mais natural será que isso aconteça por toda a sua vida. Será um encontro num cruzamento ou rotunda enquanto a criança for passar o fim de semana ou as férias com o pai ou a mãe, será a presença numa ocasião importante para esta, como uma festa de anos - o que quer que seja, a separação nunca existe verdadeiramente, pois a mesma criança fala do pai à mãe e da mãe ao pai.

Antigamente havia orfanatos, nasciam muitas crianças sem pai. Atualmente estes locais chamam-se lares e os utentes desses lares são crianças que têm pais, mas que são negligentes para com eles. Não há nenhuma instituição que possa substituir a família: quem não é amado incondicionalmente nunca amará incondicionalmente e quem não ama incondicionalmente nunca será verdadeiramente feliz, pois nunca atingirá a idade adulta. 

Nestes lares e em centros educativos, profissionais e em terapias sofisticadas, o Estado gasta, quase sem sucesso, milhões de euros enquanto que estas crianças só precisam do amor incondicional de uma mãe e de um pai, por mais ignorantes que estes sejam em educação. O amor incondicional de dois pais teria certamente mais sucesso que todos os profissionais da educação com as suas sofisticadas terapias.

Transmitir vida, até os animais conseguem fazer. Por isso hoje cada vez mais se distingue entre progenitores e pais; nem sempre os progenitores são os pais, nem sempre os pais são os progenitores. Dar à luz sem educar é como dar uma máquina a uma pessoa sem a ensinar a usá-la, sem lhe dar o livro de instruções: muito provavelmente ela vai arruinar a máquina. É isto que acontece quando se traz uma criança ao mundo sem a educar depois.

Não é invulgar encontrar bons profissionais que para além disso são pais e pensam que um filho ou uma filha é algo como um gato ou um cão e que basta que não lhe falte água e comida:

Um casal jovem, muito bem-sucedido profissionalmente, buscava numa loja uma boneca adequada para a sua filha. Mas parecia que não conseguiam encontrá-la, apesar de ser aquela a melhor loja de bonecas da região, onde se podia encontrar as mais sofisticadas que dizem Mamã e Papá e até fazem pipi.

Depois de terem analisado inúmeros exemplares e como ainda estavam indecisos, a assistente veio ter com eles e perguntou-lhes que tipo de boneca queriam para filha. “Olhe, nós somos duas pessoas muito ocupadas e passamos muito tempo fora de casa; gostaríamos de comprar à nossa filha uma boneca que a entretivesse de tal forma que não sentisse a nossa falta”. A assistente olhou para eles com um ar de desdém e disse abertamente “Desculpem, mas aqui nesta loja não vendemos pais”.

Até a amizade é trinitária
O amigo do meu amigo é meu amigo tambémProverbio português
O inimigo do meu inimigo é meu amigoProverbio inglês

Tanto o provérbio Português um sentido positivo como o inglês num sentido mais negativo e até traiçoeiro, ambos os provérbios implicam que até mesmo a amizade é de alguma forma trinitária; ou seja, nunca é uma relação que envolve apenas duas pessoas, mesmo quando ambos se tenham por o melhor amigo.

A amizade tem uma tendência inata à expansão vemos isto na sociedade quando um amigo pede a outro um favor, emprego ou posição social para outro amigo ou familiar. Certos empregos e posições sociais são muitas vezes conseguidos não por via de habilitações ou qualificações académicas ou competência, mas por amizades.
Pe. Jorge Amaro, IMC