1 de agosto de 2024

Cosmivisão Bíblica

Sem comentários:


Os judeus ou hebreus, contribuíram para a civilização mais do que qualquer outra nação; deram uma religião a 3 quartos do mundo e influenciaram as atividades da espécie humana muito mais do que qualquer nação antiga ou moderna.
John Adams, segundo presidente dos Estados Unidos (1797-1801)

Alguns gostam dos judeus, outros não, mas nenhuma pessoa medianamente inteligente pode negar o facto de que, sem lugar a dúvidas, eles são a raça mais formidável que apareceu no mundo.
Winston Churchill, primeiro-ministro Britânico (1940-1945/1951-1955)

Depois de termos falado das 4 cosmovisões antigas, a do Crescente Fértil (Suméria, Egito, Acádia, Babilónia, Império Persa), a Índia do Vale do Indo, a da China do Rio Amarelo e a cosmovisão Maia, Asteca e Inca da América Central e do Sul, segue-se a cosmovisão medieval. Porém, antes de falar desta cosmovisão, teremos de falar da cosmovisão cristã por ter influenciado muito a cosmovisão medieval. Por outro lado, antes de falar da cosmovisão cristã, é justo que falemos da cosmovisão bíblica, pois o cristianismo começou como uma seita da religião judaica, ou seja, do Judaísmo.

Alguém poderia perguntar “então agora deixamos de falar de cosmovisão para falar de religião?” Sim e não. Sim porque depois da entrada do monoteísmo, a religião começou a influenciar mais a vida das pessoas até se transformar numa forma de conduta. O politeísmo era só uma explicação mitológica da realidade. O monoteísmo, para além de ser uma explicação da realidade, é uma forma de vida. O Judaísmo, o Cristianismo e o Islão são, ao mesmo tempo, uma religião e uma forma de ver o mundo, uma forma de estar nele.

Por cosmovisão bíblica, entendemos a forma como o povo judeu vê o mundo e se vê a si mesmo dentro dele, e como dentro dele deve viver. É claro que por Bíblia aqui entendemos só os livros que o povo judeu entende como canónicos, excluindo Tobias, Judite, Ester e 1 Macabeus do Antigo Testamento, assim como todo o Novo Testamento.

Natureza do povo hebreu
O judeu é o emblema da tolerância civil e religiosa. "Ama o estrangeiro e o forasteiro", ordenou-nos Moisés, "porque estrangeiro foste na terra do Egito" (…) O judeu é o emblema da eternidade. Aquele que nem o assassinato nem a tortura, ao longo de milhares de anos, conseguiram destruir, aquele que nem o fogo nem a espada nem a Inquisição foram capazes de eliminar da face da terra, aquele que foi o primeiro a produzir os oráculos de Deus, aquele que há anos é o guardião da profecia, e que a transmitiu ao resto do mundo. Uma nação destas não pode ser destruída. O judeu é perene, tão perene quanto a própria eternidade". Leão Tolstoi (1829-1910)

Os hicsos, os etruscos, os celtas, os francos, os vikings, os visigodos os suevos e tantos outros povos deixaram de existir; o povo de Israel, anterior a muitos destes, ainda existe nos nossos dias. Israel é hoje o que sempre foi, uma ponte, um lugar de passagem entre a África, a Ásia e a Europa. Povos antigos desaparecem dando origem a outros povos. Nunca constituíram um Império, nunca dominaram outros povos, ao contrário, pela sua situação geográfica no Crescente Fértil, foram sempre parte de um qualquer Império.

O Egito estendeu o seu poder até Israel, tal como a Babilónia, o Império Persa, a Grécia, Roma, Bizâncio, o Império Otomano, o Império Britânico até que, em 1948, as Nações Unidas lhe deram a terra dos seus antepassados, resultado da comoção do mundo inteiro pelo extermínio nazi de 5 milhões de pessoas.

David vence Golias, Jacob vence o seu irmão Esaú, não pela força física ou pela força das armas, mas pela inteligência. Este povo não tem paralelo, destaca-se pela sua inteligência, é de facto o povo com mais Prémios Nobel dos tempos modernos. Representa menos de um por cento da humanidade e já recebeu 20% dos Prémios Nobel. Pode viver noutra nação e ter essa nacionalidade, mas nunca deixa de ser hebreu e, de facto, é primeiro hebreu e só depois assume a nacionalidade norte-americana, canadiana ou outra.

A sua paixão pela busca de sentido, propósito, moralidade e respeito pela dignidade humana foi que conferiu aos judeus a ideia de progresso, o seu compromisso por um mundo melhor, mais justo, mais pacífico e mais fraterno. Entres os hebreus mais famosos citamos os seguintes:

Albert Einstein (1879-1955) – entre os 30 judeus mais famosos e importantes da história está um alemão, um dos personagens mais relevantes do século XX, especialmente pela sua teoria da relatividade. Foi o vencedor do Prémio Nobel da Física.

Sigmund Freud (1885-1939) – Freud é considerado como um dos intelectuais mais importantes do século XX. Era médico, de ascendência austríaca e checa e de origem judaica. É conhecido como o pai da psicanálise.

Julius Robert Oppenheimer (1904-1967) – conhecido como o pai da bomba atômica. Era judeu norte-americano e foi o primeiro físico teórico do seu país.

Karl Marx – filósofo, economista, jornalista, militante intelectual e comunista, Marx foi quem mudou para sempre as ciências sociais com as suas análises do capitalismo e da mais-valia. Além disso, é considerado o pai do comunismo moderno, do materialismo histórico e do socialismo científico. Convencido de que a revolução era o caminho para superar as crises do capitalismo, o seu trabalho principal foi o Capital, publicado em 1867.

Fora de Israel, dentro de qualquer sociedade, os judeus são como o azeite na sopa: nunca se mistura e sempre conseguem boiar, pairar acima de tudo e de todos. Entre todos os exílios sofridos, dispersos por mais de 100 nações durante mais de 2 000 anos, os judeus sempre mantiveram a sua identidade, e nunca perderam a esperança ao dizer todos os anos pela Páscoa “no próximo ano vamos celebrá-la em Jerusalém”.

Talvez nesta diferença esteja a origem do racismo contra este povo; por serem diferentes e não como todos, por terem uma identidade bem definida e não serem uma carneirada como é um povo sem contornos definidos, por se dizerem povo eleito por Deus implicando que os outros não foram eleitos. Pessoalmente, acho que são um povo invejado pois são inteligentes e ricos; ocupam os melhores lugares no mundo das finanças, da economia e da ciência.

São o povo eleito, porém pensam que Deus os elegeu por privilégio. Deus nunca elege ninguém por privilégio, mas sim para uma missão. A missão do povo hebreu era ser o berço do Messias, do salvador da humanidade. Deus decidiu encarnar num membro deste povo, por ser um povo que já tinha alcançado o ponto mais alto no desenvolvimento e progresso do sentimento religioso. Os povos contemporâneos do povo judeu eram ainda animistas, outros politeístas, só os hebreus eram monoteístas, acreditando num Deus pessoal e espiritual, criador de tudo e de todos.

Há decerto uma corrente nacionalista e até racista no povo judeu, encabeçada pelo profeta Elias, o esperado antes do Messias, o que sempre tem lugar reservado em cada ceia pascal. Porém o livro mais extenso de todo o Antigo Testamento é o livro de um profeta de menor importância para o judaísmo, mas que inegavelmente é um dos livros mais extensos de todo o Antigo Testamento.

O que em melhor estado estava de todos os que se encontraram em Qumram. Isaías é um cristão “avant la lettre”, é universalista, entende que a salvação vem para todos os povos que se encontraram num banquete em Jerusalém. (Isaías 25, 6)

Talvez muita da importância deste povo e da sua narrativa, a Bíblia, para o bem e para o mal, lhe venha do facto de ter sido o berço do cristianismo. Se assim não fosse, talvez não tivesse sido assim tão importante. O diálogo entre um cristão e um judeu nunca pode existir e a única conclusão possível é concordar em discordar. Isto porque a existência de um requer a não existência do outro. Se o Messias já veio, o povo judeu deveria ter deixado de existir como tantos outros, tornando-se cristão. Por outro lado, se o Messias ainda não veio, então o cristianismo não deveria existir.

Há uma anedota rabínica que tenta solucionar este impasse. Diz assim: quando o Messias vier, um cristão e um judeu lhe perguntarão se é a primeira vez que vem ou se é a segunda, visto os cristãos esperarem pela segunda vinda de Cristo. E o Messias responderá, para ti hebreu é a primeira, para ti cristão é a segunda.

Origem do povo judeu
A história de Israel é a história de um homem que quis ser diferente. Segundo a Bíblia, o patriarca Abraão proveniente de Ur, na Mesopotâmia, mudou-se com os seus rebanhos e povo para a terra de Canaã na zona do Rio Jordão. Historicamente, acredita-se que isso pode ter acontecido efetivamente por volta de 1 700 a.C. A motivação dessa migração teria sido a escassez de alimentos em Canaã, enquanto no Egito havia abundância de terras férteis.

A chegada dos hebreus ao Egito teria coincidido com o período em que a região estava sob domínio dos hicsos, um povo de origem semita, como os hebreus. Isso possibilitou que os hebreus se estabelecessem no território egípcio sem problemas, chegando até a ocupar posições de proeminência na administração do Egito.

Depois da expulsão dos hicsos, os hebreus teriam sido punidos pela colaboração com os invasores. Os hebreus, escravizados pelos egípcios, conseguiram a sua libertação por meio de Moisés, por volta de 1 300 a.C.

A libertação do Egito e o retorno dos hebreus a Canaã configuraram o chamado Êxodo. Os historiadores afirmam que a migração de hebreus do Egito para Canaã aconteceu, embora afirmem que a quantidade de hebreus que migrou pode não ter sido tão grande como sugere a narrativa bíblica. Então podemos dizer que a história do Êxodo realmente ocorreu, mas foi apresentada de forma mitificada na Bíblia.

Em todo o caso, os hebreus viveram como nómadas na Península do Sinai e depois procuraram fixar-se em Canaã, mas a região estava ocupada pelos cananeus. A narrativa bíblica relata que os hebreus conquistaram a terra. Porém, não existem muitos indícios que apontem para uma invasão militar em larga escala; o mais certo é que os hebreus se tenham infiltrado lentamente.

Contributos e grandeza do povo Judeu
Dispersos por todo o mundo, influenciaram culturas a nível global; esta grande influência ou contributo, mais que financeiro, económico, ou político, terá sido mais espiritual e cultural. Enquanto que em quase toda a Idade Média na Europa nem os reis sabiam ler e escrever, os judeus do tempo de Cristo tinham 0% de analfabetismo, porque o rito de passagem da meninice à idade adulta implicava que o menino lesse a Torá diante da comunidade.

Monoteísmo
Escuta, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor, amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu poder. E estas palavras que hoje te ordeno estarão no teu coração; e as intimarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te, e levantando-te. Também as atarás por sinal na tua mão, e te serão por testeiras entre os teus olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas. Deuteronómio 6, 4-9

Senhor, tu és o nosso Pai. Nós somos o barro; tu és o oleiro. Todos nós somos obra das tuas mãos.
Isaías 64:8

O progresso do monoteísmo em relação ao politeísmo é a união entre os humanos sob um mesmo Deus ao qual podem chamar Pai. A revolução francesa, por muito laica que pareça, não seria possível num país de cosmovisão politeísta como é por exemplo a Índia, onde a existência de vários deuses justifica a existência de castas e onde os homens não são iguais. A igualdade e a dignidade humanas não coexistem com o politeísmo, são conquista do monoteísmo.

A ideia de que há um só Deus Pai, criador do céu e da terra, é talvez o maior contributo de Jerusalém para a civilização ocidental. Tanto os gregos como os romanos eram politeístas; o politeísmo não leva à união nem à harmonia entre os povos, nem à unificação de conceitos como a verdade e a justiça. A ideia de que há um só Deus leva à coesão dos povos, à união na diversidade.

A igualdade perante a lei
O mesmo primado da lei, o facto de que todos são iguais perante a lei, seria mais difícil de manter no politeísmo: todos são iguais perante a lei porque todos são iguais perante Deus, porque há um só Deus que é criador e pai de tudo e de todos.

No monte Sinai, Moisés deu ao povo uma bússola, um GPS, não só para facilitar a convivência social como o código Hamurabi dos babilónios, mas um código abrangente de todos os aspetos da vida humana. O monoteísmo, neste sentido, criou uma diferença entre o ser e o dever ser, tanto do ponto de vista individual como do ponto de vista social.

Consciência moral e responsabilidade social
O monoteísmo humanizou Deus, de forma a que se tornasse num modelo para a humanidade. Como diria Feuerbach, não foi Deus que criou o homem à sua imagem e semelhança, mas o homem que criou a Deus à sua imagem e semelhança.

A religião para os judeus é para a vida. Como guia e modelo a seguir, a religião torna-se num complexo sistema de leis, normas e regras a seguir para modificar a vida. Até este momento, isso nunca tinha acontecido. A religião passou a influenciar a conduta humana, tanto do ponto de vista individual como do ponto de vista social. Não podemos esquecer que, antes do monoteísmo judaico, em todos os politeísmos, o grego, o romano, o hindu ou o antigo chinês, os deuses são tão bons ou maus quanto os humanos. Ou seja, não constituem nenhum caminho verdade nem vida. A ética vem da filosofia tanto na cultura chinesa (Confúcio) como na grega (Aristóteles).

Os conceitos de liberdade (amar a Deus sobre tudo quanto existe) e igualdade (amar ao próximo como a ti mesmo) explicam-se melhor do ponto de vista religioso. São conceitos judeus e assim se entende que, sem o judaísmo, não haveria Revolução Francesa. Em Israel nunca houve castas nem gente com sangue azul, todos se consideravam iguais perante Deus e perante uns e outros, com a mesma dignidade e responsabilidade social, sujeitos com tantos deveres como direitos.

Conceção linear do tempo – paradigma do progresso
Na Antiga Grécia e no Extremo Oriente prevaleceu sempre uma compreensão circular do tempo: do ponto de vista cósmico, com os 365 dias que a Terra leva a dar uma volta ao sol, do ponto de vista da Natureza, com as mudanças climatéricas e as quatro estações do ano, Primavera, Verão, Outono e Inverno. A partir destes factos, nasceu para a Filosofia o mito do “eterno retorno”, para a Ciência a ideia de que “Não há nada de novo debaixo do sol” e para a Religião a crença na “reencarnação”.

O tempo humano, a reta – Do ponto de vista existencial e humano, cada dia que passa é um dia mais que vamos viver e um dia menos que nos resta de vida. Conceber o tempo como uma reta, que vem do passado, passa pelo presente e se dirige ao futuro, não é algo que se possa observar na Natureza.

O tempo em linha reta é o tempo da história individual e comunitária, o tempo que integra a ideia de progresso moral: hoje foi melhor que ontem, amanhã será melhor que hoje. Na Filosofia, a máxima “não nos banhamos duas vezes nas águas do mesmo rio”, de Heráclito, partilha esta compreensão do tempo, verificando-se o mesmo na Cosmologia e na Religião que veiculam as noções do princípio e do fim do mundo.

Esta é também a conceção judaica do tempo: a saída do Egito (terra de escravidão), a passagem pelo deserto (lugar de sofrimento, penitência, purificação e esforço) e a entrada na Terra Prometida, onde corre leite e mel (terra da liberdade, do esforço recompensado e da obra acabada).

Santidade da Vida
Os filhos são um dom de Deus: é uma recompensa o fruto das entranhas." Salmos, 126, 3

Não matarás Êxodo 20, 13

Como dom de Deus, a vida a Ele pertence; d’Ele vem, a Ele volta, não somos donos dela, mas sim seus administradores e dessa administração prestaremos contas. Podemos vivê-la como quisermos, mas não podemos extingui-la, desde a conceção até à morte natural a vida é sagrada, é um valor absoluto.

Dignidade da pessoa humana
Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastam sobre a terra”. Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher.    Génesis, 1, 26-27

A pessoa humana pode ter sido o resultado da evolução dos tempos, porém só nós evoluímos até chegar à autoconsciência de nos vermos diferentes de todas as criaturas. Fomos criados à imagem e semelhança de Deus, como Ele somos também criadores, a única diferença é que Ele tem capacidade de criar do nada enquanto que nós criamos a partir das coisas criadas.

A universalidade do descanso
Trabalharás durante seis dias, mas descansarás no sétimo, embora decorra o tempo da lavra e da ceifa. Êxodo 34, 21

Trabalharás durante seis dias e farás todo o teu trabalho. Mas o sétimo dia é o sábado consagrado ao Senhor, teu Deus. Não farás trabalho algum, tu, o teu filho e a tua filha, o teu servo e a tua serva, os teus animais, o estrangeiro que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias o Senhor fez os céus e a terra, o mar e tudo o que está neles, mas descansou no sétimo dia. Por isso, o Senhor abençoou o dia de sábado e santificou-o. Êxodo 20, 9-11

Não sabemos quem inventou o trabalho, provavelmente não tem inventor ou fundador. Porém, o descanso sim, tem inventor, é invenção do povo judeu. A ideia de um dia consagrado a Deus, o sábado, origem do descanso sabático e também do ano sabático (um ano em que não se trabalha, mas estuda-se ou faz-se qualquer outra atividade), pertence ao povo judeu.

É claro que para a justificar perante o povo se utiliza o antropomorfismo de que Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo. Não é que os povos anteriores ao povo judeu não descansassem, certamente o faziam, mas só descansavam os senhores, os escravos trabalhavam sempre. O descanso não era democrático ou universal; o que é excecional no povo judeu, é que o descanso é para todos, senhores, escravos, estrangeiros e até os animais de trabalho, como o burro e o boi.

Conclusão: conceitos como a santidade da vida, a dignidade da pessoa humana, a liberdade, a igualdade, a responsabilidade social, o descanso universal, o progresso em todos os sentidos, a justiça e a paz fazem hoje parte não só da cosmovisão do povo judeu, mas do mobiliário da mente humana.

Pe. Jorge Amaro, IMC


1 de julho de 2024

Cosmovisão Greco-Romana

Sem comentários:

De leste para oeste, do Sul para norte
Nesta sucessão de impérios e deslocações de centros do poder, notamos um ligeiro movimento geográfico de sul para norte (do Egito para a Grécia, da Suméria para a Acádia) e um movimento bastante mais apreciável de leste para oeste (da Suméria para a Babilónia). A Grécia assimilou todas as culturas anteriores a ela, ao derrotar o Império Persa. Roma assimilou a Grécia, expandindo-se mais para norte e aproximando-se a oeste do fim do mundo conhecido - “Onde a terra acaba e o mar começa” citando os Lusíadas, de Camões.

De alguma forma, podemos dizer que Roma está para a Grécia como os bárbaros estão para Roma, uma vez que Roma era muito mais culta que os bárbaros do Norte e do leste da Europa no tempo da queda do império. Roma nunca se impôs no oriente e eram muito mais tolerantes que os gregos foram com os judeus; neste aspeto, imitaram os persas que também foram condescendestes com os povos dominados.

A Grécia era orgulhosa da sua sabedoria, como vemos no discurso de S. Paulo no areópago. Roma era poderosa, mas magnânima e tolerante. Por isso, só conseguiu impor a sua cultura e língua junto dos povos ignorantes do ocidente; o oriente continuou a falar grego e os romanos pouco se importavam com isso.

GRÉCIA
A cultura helénica influenciou a civilização ocidental em inúmeras vertentes; certamente em muitas mais vertentes que as outras duas cidades pilares da mesma.

Filosofia
Filo-sofia (amor pela sabedoria). Era a arte de pensar sem nenhum objetivo prático ou pragmático para além de divisar o sentido do cosmos, das coisas e da vida em geral. É um pensamento crítico racional e reflexivo. Acima de tudo, a filosofia grega contestava a visão mítica do mundo. Os mitos são a primeira tentativa de explicação das coisas e dos fenómenos para lhes dar sentido e significado. São narrativas simbólicas cujos personagens são deuses. Cada realidade era comandada por um deus, havendo assim um deus do tempo, Cronos, um deus da guerra, Marte, uma deusa do amor, Vénus, etc.

A filosofia olha para o mundo de uma forma racional e busca explicações racionais ou razoáveis para os fenómenos naturais, sem recorrer a mitos ou a lendas fantasmagóricas. Destacam-se os filósofos Sócrates, Platão e Aristóteles e um grande número de filósofos pré-socráticos como Heráclito, Parménides, Zenão, Demócrito, Anaxágoras e muitos outros.

Só sei que nada sei – É a máxima socrática que leva a não nos contentarmos nunca com o que já sabemos e a mantermos sempre a humildade, tão importante para aprendermos mais e mais. Para além do seu método de conhecimento, Sócrates imortalizou-se pela sua maiêutica, a arte de ajudar a trazer à luz, baseada no princípio de que a sabedoria já está dentro de nós, só precisamos de alguém que nos ajude a iluminá-la. Ainda hoje este princípio é válido e é aplicado em psicoterapia, na psicologia não diretiva de Carl Rogers, e também em sociologia, pelo pedagogo brasileiro Paulo Freire.

Democracia
A cidade de Atenas é considerada o berço da democracia. Os cidadãos atenienses (homens, nascidos na cidade, adultos e livres) eram aqueles que podiam participar nas votações que ocorriam na Ágora (praça pública). Decidiam, de forma direta, os rumos da cidade-estado.

Ciência – O abandono das crenças e mitos é importante para o surgimento do pensamento empírico e científico. Neste sentido, a filosofia é a mãe das ciências, pois foi com ela que surgiu o pensamento racional, livre de lendas, mitos e crenças, para analisar a realidade e os fenómenos naturais.

Por outro lado, a atitude socrática de que “só sei que nada sei” é também importante para ir divisando o mistério que envolve qualquer ciência: quanto mais se sabe, mais há para saber. Ainda hoje, os termos técnicos e científicos derivam do grego e os novos conceitos formam-se a partir do grego.

Medicina – Hipócrates, considerado o pai da Medicina, foi o primeiro a entender que as doenças não eram causadas pelos deuses, mas tinham como génese um desequilíbrio. Hipócrates deixou-nos o seu juramento que é ainda hoje utilizado pelos médicos no início da sua carreira.

Matemática – Tales de Mileto e Pitágoras deixaram-nos os seus teoremas, curiosamente à volta do triângulo, a figura geométrica mais simples, sendo todas as outras constituídas por sérias de triângulos, incluído o círculo.

Arquitetura – Certamente herdeira de patrimónios anteriores, como o do Egito e da Mesopotâmia, a arquitetura grega imortalizou-se com a introdução das colunas que tornaram os edifícios mais elegantes e menos monolíticos que os anteriores do Egito e da Mesopotâmia. As colunas gregas diferenciavam-se pela forma que assumiam no seu topo, com três estilos diferentes: o dórico, o jónico e o coríntio.

Arte – O conceito de beleza e harmonia retratado na escultura e na pintura. Os escultores buscavam retratar no máximo detalhe o corpo humano, característica que mais tarde voltou a observar-se no Renascentismo europeu, que nos deu obras tão famosas como a Pietá e Moisés de Miguel Ângelo.

História – Os gregos foram os primeiros a tratar a história com caráter científico, separando os factos das lendas, dos mitos e das crenças religiosas, distinguindo entre ação humana e interferência ou intervenção divina. A própria palavra História vem de um termo grego que significa pesquisa, investigação. Destacam-se os autores Heródoto, considerado também o pai da História, Xenofonte e Tucídides.

Literatura – Destaca-se Homero com os seus poemas épicos: a Ilíada que descreve a guerra de Troia, e a Odisseia que descreve as viagens e peripécias de Ulisses. Diz a lenda que este herói fundou a cidade de Lisboa, Olissipona, a cidade de Ulisses, quando deixou Troia depois da guerra.

Teatro – O teatro, nas diferentes modalidades de tragédia e comédia, representava não só uma diversão para os gregos, bem diferente da diversão violenta dos romanos com os gladiadores na arena, como era também uma forma de educação da juventude. Os autores mais famosos foram Ésquilo, Sófocles, Aristófanes e Eurípedes. Como as encenações eram ao ar livre, a Grécia construiu inúmeros teatros, tanto a norte como a sul do Mediterrâneo, e as suas ruínas ainda hoje podem ser observadas.

Jogos Olímpicos – Tinham um carácter sagrado e, como o próprio nome indica, eram uma homenagem aos deuses do Olimpo. Foram os gregos que inventaram, o desporto, a preparação física; eram jogos pan-helénicos, ou seja, entre as cidades-estado gregas. Celebravam-se de quatro em quatro anos e duravam cinco dias.

Cosmovisão ptolemaica
Ptolomeu (70-147 d.C.), o mais célebre astrónomo da Antiguidade, colocou a Terra no centro do universo. Neste sistema, o sol, a lua e os planetas giravam ao redor da Terra. Esta visão geocêntrica do mundo foi assumida pela Idade Média, e associada à filosofia aristotélica. A cosmovisão medieval colocava o homem, e a Terra por ele habitada, no centro da criação.

ROMA
Senatus Populus Que Romanus (SPQR)
“O Senado e o povo de Roma”. Estas são as iniciais que os romanos levavam nos seus estandartes, na sua bandeira, nas expedições militares e que colocavam nos edifícios públicos. Se algo demonstram estas insígnias e símbolo do poder de Roma, é que a ideia de democracia do povo grego foi assimilada pelo povo romano. Democracia para os romanos equivalia a república; a república era governada por senadores, representantes do povo.

Os romanos eram um povo mais prático e pragmático, assimilaram o legado da Grécia e não tentaram impor a sua cultura. Pelo contrário, eram muito tolerantes com os povos que dominavam, nem sequer impunham a sua língua - desde que pagassem tributo a Roma podiam até manter os seus usos e costumes, a sua religião e os seus reis.

Os romanos tinham consciência da grandeza e superioridade da cultura helénica e, de facto, em muitas matérias, não avançaram muito. Há, porém, vários pontos em que os romanos superaram os gregos e são esses que mencionamos. Como dissemos, esta evolução está ligada ao seu caráter mais prático que teórico.

O direito e a organização do Estado
Este é, sem dúvida, o mais importante legado romano para o mundo moderno. Na base do Direito de todas as nações do nosso planeta está o Direito Romano.

A divisão e separação dos poderes que devem funcionar livre e autonomamente sem influências mútuas, vem de Roma. Curiosamente, estes poderes são três: o poder executivo, o poder judicial e o poder legislativo. Foi instituído o princípio de controlo entre eles, para que nenhum excedesse as suas competências.

Os romanos distinguiam três classes de direito: o Direito Político, que regulava os relacionamentos entre o Estado e os cidadãos; o Direito Privado, que regulava os relacionamentos entre cidadãos; e o Direito Internacional ou o direito das gentes, que regulava as relações entre os diferentes povos e nações.

Ideias legais como o julgamento por júri, os direitos civis, os contratos, a propriedade pessoal, os testamentos legais, as leis que regem as empresas, foram influenciadas pelo direito romano e pela maneira romana de ver as coisas.

Vejamos algumas máximas latinas ainda hoje usadas, tanto no contexto do Direito e dos tribunais como vulgarmente pelo povo.

Dura lex sed lex – A lei é dura e difícil de cumprir, mas é a lei; está estipulada e concede segurança. Mais duro seria a arbitrariedade e imprevisibilidade de um ditador. Esta máxima estabelece o primado da lei e de que ninguém está acima da lei.

Sumum ius summa injuria - Excesso de direito, excesso de injustiça. Axioma jurídico que nos adverte contra a aplicação demasiado rigorosa da lei, que pode dar margem a grandes injustiças. Para evitar isso, é necessário a jurisprudência ou epiqueia. Uma coisa é ser justo, outra é ser justiceiro.

Excusatio non petita accusatio manifesta – É mais um princípio psicológico que do direito. Quando alguém se desculpa sem que ninguém lhe tivesse pedido que se justificasse, está a acusar-se a si mesmo implícita e inconscientemente.

In dubio pro reo – No caso de dúvida, pelo réu; expressão baseada na presunção de inocência; também se refere como o benefício da dúvida. A incerteza sobre a prática de um delito ou sobre alguma circunstância relativa ao mesmo, deve favorecer o réu.

Conditio sine qua non - Condição sem a qual não pode ser; utilizada para dizer que uma condição é indispensável para a validade de algo, como uma teoria de equivalência das causas. Um exemplo clássico de conditio sine qua non é a vontade dos noivos como pressuposto para que um casamento seja válido.

Patria potestas – O poder do pai, poder que o chefe de família exercia sobre seus filhos e seus descendentes mais remotos na linha masculina, fosse qual fosse a sua idade, bem como sobre aqueles trazidos para a família por adoção.

Habeas corpus - Que tenhas o corpo; é a ação judicial que protege o direito de liberdade ameaçado por ato abusivo de autoridade, ou seja, uma ação para impedir que alguém seja preso ou que permaneça preso injustamente.

Arquitetura e engenharia
No campo da arquitetura, os romanos são muito superiores aos gregos. Com a invenção do arco romano, os romanos construíram grandes templos, palácios, estádios, aquedutos e pontes, anfiteatros e edifícios públicos que integravam arcos e abóbadas com tal eficiência que muitas destas obras ainda hoje estão de pé. O Coliseu de Roma, o Panteão de Roma, o aqueduto de Segóvia e inúmeras pontes romanas ainda hoje são usadas.

Os romanos distinguem-se pelas estradas. No mundo antigo, foram eles que abriram estradas. As principais vias da Europa, que existem atualmente, foram construídas sobre calçadas romanas. Os romanos inventaram as pontes para passarem os rios e inventaram o aqueduto para levar água às suas cidades. O aqueduto marítimo de Cesareia, que ainda se vê na praia desta cidade, tinha 6 km de comprimento.

Uma das razões pelas quais o Império Romano durou mais que todos os outros, quase um milénio, é porque estava bem ligado pelas estradas e pontes que construiu em toda a Europa. A construção de estradas e pontes era tão importante para os romanos que até o título do Imperador refletia esse esforço, ao ser chamado Pontifex Maximus, o que significa o Supremo Engenheiro de Pontes. Ironicamente, este é agora o título do Pontífice Romano, o Papa, o que significa que ele como o representante de Cristo é a ponte entre a humanidade e Deus.

Alfabeto romano
É o alfabeto que utilizam as línguas neolatinas, o castelhano, o português, o francês, o italiano e o romeno, o catalão, o galego e o provençal. O inglês que se transformou na primeira língua franca do mundo provém em 60% do latim e do grego; os restantes 40% são de origem saxónica.

É, ainda hoje, o alfabeto mais utilizado no mundo, mesmo nas línguas que não são neolatinas como o alemão e o inglês e todas as línguas da Europa ocidental, e também o turco, vietnamita, malaio, somali, suaíli e quase todas as línguas africanas, além do tagalog, língua nacional das Filipinas.

Dissemos que o grego é ainda usado para termos científicos, embora haja uma exceção; para os nomes científicos de plantas e animais é o latim, e não o grego, a língua universalmente usada. Os romanos possuíam também uma numeração que ainda usamos para designar os séculos e pouco mais. Porém, como não tem zero, não serve para a matemática. A numeração que se usa a nível mundial é a árabe.

O calendário de 365 dias, com 12 meses que hoje usamos foi inventado pelo imperador romano Júlio César. A Igreja mais tarde mudou o calendário juliano, que ainda hoje é usado pela Igreja Ortodoxa, para o gregoriano, introduzido pelo Papa Gregório e hoje usado universalmente. O nome dos meses também é de origem latina.

Cosmovisão antiga
No Crescente Fértil, desde a Suméria e o Egito, as sociedades e impérios foram-se formando, o posterior assimilando as conquistas do anterior, como numa corrida de estafetas. Por fim, temos a Grécia e Roma como herdeiras de um Crescente Fértil do ponto de vista da agricultura, mas também da cultura. Grécia e Roma formataram não só a civilização ocidental posterior a elas, como grande parte do pensamento mundial.

A cosmovisão e religião antigas entendem o Céu e a Terra como intimamente ligados. Cada acontecimento é uma combinação de ambas as dimensões da realidade. Se uma guerra começa na Terra, então deve haver, ao mesmo tempo, guerra no Céu, entre os anjos das nações no Conselho Celestial. Da mesma forma, os eventos iniciados no Céu são espelhados na Terra. Vemos isto claramente nas obras de Homero, sobretudo na Ilíada, a que melhor conheço, e que descreve a guerra de Troia.

Esta guerra não acontece só na Terra, mas também nos Céus, pois os deuses aliam-se com os gregos ou com os troianos e seguem os acontecimentos da Terra a par e passo. Esta é uma forma simbólica de dizer que cada realidade material tem uma dimensão espiritual e que cada realidade espiritual tem consequências físicas.

Não pode haver nenhum evento ou entidade que não consista, simultaneamente, do visível e do invisível. Aristóteles, que no confronto com o idealista e espiritualista Platão era materialista, entende que o universo é esférico e finito. Esférico, porque esta é a forma mais perfeita; finito, porque tem um centro que é o centro da Terra, e um corpo com um centro não pode ser infinito.

A matéria parece possuir qualidades místicas — preferências, aspirações para certos tipos de movimento — é animada. As coisas caem porque é seu desejo voltar à Terra. A matéria em movimento acaba por parar a menos que haja agentes invisíveis que a mantêm em movimento. As esferas cristalinas que sustentam os planetas são mantidas em movimento por "inteligências" invisíveis.

Esta forma de ver as coisas foi tomada por S. Tomás de Aquino e fez parte da cosmovisão de todos os que viveram até à física mecanicista de Newton.

Assim está formatado o pensamento dos povos antigos, desde os escritores da Bíblia, sobretudo os do Antigo Testamento, até aos romanos, gregos, babilônios, egípcio e Índia chinesa. Esta era a visão do mundo antigo. Os deuses do Olimpo e todas as suas vidas, o ódio e as guerras, acabam com invejas, são como os humanos.

Até ao aparecimento do cristianismo, com a ideia de um Deus único e pessoal, a religião não tinha nenhuma incidência na vida; ou seja, não havia nenhuma moral ou “modus vivendi” associado à religião, pois os deuses eram tão maus ou tão bons como os humanos. Ethos na tradição grega ou morus na tradição romana, a ética ou a moral, não emana da religião, mas sim da filosofia; a partir de Platão e Aristóteles, que se dedica ao estudo da lei natural, emana da observação da natureza.

É esta lei natural que é o fundamento de todos os valores e direitos humanos, como a liberdade igualdade, responsabilidade, dignidade humana, o sentido de justiça, verdade e paz.

Conclusão: Possuindo os deuses os mesmos defeitos que os humanos, na cosmovisão dos povos antigos, a religião não tem nenhuma incidência ética na vida do dia a dia. Antes do Cristianismo  a ética provém da filosofia não da religião.

Pe. Jorge Amaro, IMC


15 de junho de 2024

Cosmovisão Maia - Asteca - Inca

Sem comentários:

Ninguém duvida atualmente que os seres humanos cruzaram a pé a distância entre a Sibéria e o atual Alasca por um estreito hoje submerso. Para a ciência genética foi há 20 000 anos, para os arqueólogos foi há 16 000 anos. Prova disto é o facto de os indígenas do continente americano pertencerem à etnia mongol, ou seja, terem traços asiáticos.

Há 16 000 a.C., o ser humano estava ainda no Paleolítico Superior, ou seja, ainda na Idade da Pedra, mais propriamente no Mesolítico ou Neolítico e ainda não conhecia os metais. Ao chegarem a novos lugares, sempre havia seres humanos que aí se fixavam e outros que continuavam viagem, em busca de melhores condições de vida. Desta maneira foram-se deslocando para o Sul, pois a Norte predominava o gelo.

Os asiáticos que se foram fixando na parte setentrional do continente americano nunca chegaram a criar uma civilização; viveram sempre na Pré-história, nunca conheceram uma cultura, pois a vida deles era lutar pela sobrevivência. Caçavam, pescavam e pouco mais, não cultivavam a terra, sobretudo não cultivavam cereais.

Como dissemos noutro texto, onde não houve cereais não houve civilização, pois são os cereais que proporcionam excedentes que podem ser facilmente armazenados por muito tempo, levando o ser humano a emancipar-se da natureza. Sem agricultura não há cultura, e o rei da agricultura é o cereal, pois é de todos os alimentos o mais completo, que dá mais energia e por mais tempo e que pode ser arrecadado também de uns anos para os outros.

As únicas civilizações antigas que surgiram no continente americano são as da América Central, onde o clima ameno, semelhante ao do Crescente Fértil, permitiu a prática da agricultura, sobretudo do milho, que está na base das civilizações Maia, Asteca e Inca que aqui nasceram.

Civilizações anteriores aos Maias
 Se considerarmos que a história começa com o aparecimento da escrita, a civilização Maia é a primeira do continente americano. Porém, se considerarmos para além da escrita outros elementos que denotam cultura, como o desenvolvimento agrícola, a construção de monumentos em pedra, então teremos que nos questionar se é conveniente colocar a escrita como a divisória entre Pré-história e História.

A civilização de Caral
Também conhecida como Caral-Supe ou Norte Chico, é considerada com a mais antiga das Américas. Floresceu entres os anos 3 000 – 2 500 a.C. na região centro-norte da costa do Peru. Data do Neolítico pré-cerâmico.

A total ausência de cerâmica e a presença de grandes estruturas, como templos e pirâmides, denota primeiro que era uma sociedade muito religiosa com um alto grau de tecnologia e organização social para solucionar os problemas da construção e dos elevados custos de materiais e energia. É quanto podemos deduzir, pois não desenvolveram nenhuma escrita, pelo que não nos disseram sequer por que construíram tão complexos monumentos.

Civilização Olmeca
A civilização Olmeca floresceu na costa do Golfo do México entre 1 200-4 00 a.C. Construiu as primeiras pirâmides de pedra do continente norte-americano, bem como os famosos monumentos de cabeças "com cara de bebé". Os olmecas eram governados por reis, construíram enormes pirâmides, domesticaram feijões e desenvolveram a escrita mais antiga das Américas. O povo Olmeca também domesticou a árvore do cacau e deu ao mundo o chocolate.

Arqueólogos e linguistas decifraram recentemente a escrita antiga dos Olmecas que designaram como Epi-Olmeca. Esta escrita está intimamente ligada à antiga escrita Maia que também foi decifrada recentemente e que pode muito bem ter origem nos hieróglifos dos olmecas. Eis um pequeno texto nesta língua:

Era uma vez um guerreiro chamado Senhor da Montanha das Colheitas. Ele vivia numa terra quente e húmida junto à curva de um rio que corria para outro rio que corria para o mar. Muitas foram as batalhas que travou e os rituais de sangue que suportou, pois, este guerreiro era o governante do povo junto à curva do rio.

CIVILIZAÇÃO MAIA (2 500 a.C. – 1 500 d.C.)
Os principais centros onde esta civilização floresceu são a Guatemala, o sul do México com alguns vestígios em El Salvador, Belize e Honduras.

Religião
Tudo o que existe, seja pedra, vegetal, animal ou humano tem uma origem comum, que é espiritual, transcendente ou essencial (Uk’u’x). Esta origem comum invisível é a nossa verdadeira Mãe Formadora, pura inteligência Natura e o nosso verdadeiro Pai Criador, pura Consciência e Vontade. Por isso, os Maias dizem que “tudo tem pai e mãe”. Nisso reside a sacralidade da essência da totalidade de coisas e criaturas no universo.

Observamos ainda alguns resquícios de animismo, pois para os Maias tudo tem vida: os vales e montanhas, os lagos e o mar, o que há no céu e o que há na terra. Reconhecendo o sagrado da vida em nós, faz-se simples e vívida a sacralidade do outro. Com esta origem comum e nesta vida que nos completa, se fundamenta este princípio da Cosmovisão Maia: tudo é sagrado, Loq’ em língua maia k’iche’ tem sentido de “sagrado”, expressão que guarda uma relação estreita com o amor, pois a raiz de “loq’oq’ej” é literalmente amar.

Quando se descobre a origem comum da existência e da vida, fica claro o vínculo entre todas as coisas e seres, o que se traduz na experiência de “sentir o sagrado” como puro amor e devoção, respeito e gratidão.

Eram politeístas, consideravam que os deuses habitavam num local chamado Tamoanchan. Os acontecimentos do mundo natural eram regidos por forças espirituais e pelo poder dos ancestrais. Além disso, pensava-se que os locais da natureza eram locais sagrados. As cavernas, por exemplo, eram vistas como portas para o mundo sobrenatural e eram lugares nos quais se realizava uma série de rituais. Os Maias acreditavam que o destino da humanidade era regido pelos deuses, por isso a religião estava presente em todas as atividades culturais do povo.

Os sacrifícios humanos eram importantes para manter os deuses satisfeitos e assim garantir o funcionamento e a harmonia do universo. Os sacrificados eram quase sempre os prisioneiros de guerra, havendo também quem se entregasse voluntariamente. A forma mais comum do ritual sacrificial era a decapitação e a retirada do coração enquanto este ainda pulsava.

Sociedade, cultura e política
Os Maias possuíam uma sociedade hierarquizada, isto é, dividida em grupos sociais muito bem definidos, cada qual com funções distintas. O grupo mais numeroso da sociedade era o dos camponeses, os responsáveis pela agricultura e pelo abastecimento da cidade. Cultivavam o milho, cereal considerado sagrado, o algodão, o cacau e o agave. O modo de produção era coletivo, o solo não era propriedade privada e teoricamente o Estado era o proprietário de todas as terras. Como vimos noutras sociedades antigas.

A elite era a responsável pela administração das cidades-estado e pelas funções religiosas. A autoridade máxima e topo da pirâmide social Maia era o rei de cada cidade, chamado de ajaw. Também aqui a autoridade e o poder eram exercidos em nome de um deus.

Os Maias viam o mundo como um local que funcionava de maneira cíclica, isto é, em ciclos de fases que se repetiriam para sempre. Dentro dessa visão, possuíam um sistema duplo de calendário em que um era composto por 365 dias (chamado Haab) e outro era composto por 260 (era chamado de Tzolkin).

Desenvolveram um sistema próprio de escrita, até hoje quase indecifrável, baseado na representação de objetos e ideias. Sabe-se que possuía alto grau de abstração. Nunca chegaram a um alfabeto e fixaram-se na representação pictórica da realidade, como aconteceu com os hieróglifos antigos do Egito e da China.

Como os sumérios, os Maias nunca formaram um império propriamente dito; eram cidades-estado independentes entre si, com a mesma cultura em comum, mas o poder não era centralizado num imperador, como acontecia no Egito e na China. Isto fez com que fossem facilmente conquistados pelos Astecas do Norte, que chegaram a formar um império pois tinham uma ideia de poder centralizado.

Declínio dos Maias
Quando os europeus chegaram à América Central encontraram as cidades Maias desabitadas no meio de florestas que, entretanto, tinham crescido, prova de que os maias já as tinham abandonado há algum tempo. Há quem pense que foram as guerras entres as cidades-estado que dizimaram a população; outros que foram doenças e ainda outros um desastre ecológico.

Segundo esta última teoria, o que mantinha esta cultura e sociedade era a construção maciça de templos e pirâmides que requeria muita cal. Quando a cal começou a faltar porque já não havia mais lenha para transformar a pedra calcária em cal, a hierarquia da sociedade Maia começou a desmoronar-se, pelo que o povo abandonou a vida urbana e, para subsistir, regressou aos seus campos.

CIVILIZAÇÃO INCA (1200-1532)
Muito provavelmente eram herdeiros da civilização de Caral, pelo facto de partilharem o mesmo território, o Peru, Equador, Bolívia, sul da Colômbia, todo o Chile e Norte da Argentina

Organização política
A mais alta autoridade era o rei ou inca, considerado o filho do Sol, que governava por direito divino. As posições mais altas na administração do Império eram ocupadas pelos familiares do Inca. Estes formavam uma nobreza que cuidava da complexa organização do Estado. Um exército poderoso, dirigido por generais da família real, era responsável pela expansão, conquista e controlo dos territórios conquistados.

Sob o domínio da nobreza estava o resto da população, agricultores e artesãos. Os camponeses foram organizados em comunidades de pessoas relacionadas chamadas ayllus, chefiadas por um curaca. O curaca distribuía o trabalho e os produtos e respondia às autoridades pela sua ayllu.

Cada grupo social tinha as suas obrigações específicas. As hierarquias estabeleciam as atividades a serem executadas por cada grupo, e até mesmo o vestuário que podia usar, assim como os produtos que podia consumir. Alguns materiais, como o ouro, a prata e certos têxteis, eram reservados para o Inca e só podiam ser utilizados por ele e por alguns dos seus familiares diretos. Faz-nos recordar a Idade Média da Europa.

A economia Inca baseava-se na produção agrícola. As terras pertenciam ao Estado que as repartia: um terço dedicava-se à produção para o Inca, outro para os sacerdotes e o terceiro para as ayllus.
Os Incas formaram um autêntico império coeso e centralizado; possuíam uma rede de estradas que permitia uma rápida comunicação entre todas as regiões. Os mensageiros, chamados chasquis, levavam comunicações entre diferentes pontos. Estas estradas tinham postes, chamados tambos, onde os viajantes podiam descansar e alimentar-se. Faz-nos recordar os Sátrapas do Império Persa.

Embora não tivessem escrita alfabética, tinham vários métodos de gravação e comunicação de informação visual. Entre eles estava o quipus, série de cordas de diferentes cores com nós, que permitia manter a contabilidade e manter a memória de algumas narrativas.

Religião
Tal como os Maias, os Incas entendiam que a Natureza à sua volta era sagrada. Consideravam sagrados muitos elementos da Natureza, pessoas, objetos, etc. que eram chamados huaca. Respeitavam as crenças dos povos que conquistavam, mas impunham o culto ao Sol, a sua principal divindade. Também veneravam o Pachamama (Mãe Terra), Viracocha, o criador do mundo e Illapa, o deus da trovoada e da tempestade.

O império Inca foi conquistado pelos espanhóis sob o comando de Francisco Pizarro em 1532, quando o imperador Atahualpa foi feito prisioneiro. Embora algumas bolsas de resistência tenham permanecido até 1572, nunca representaram uma ameaça para a nova ordem colonial.

CIVILIZAÇÃO ASTECA (1345-1521)
Povo aguerrido, inteligente e empreendedor, proveniente do Norte do México onde eram caçadores e recolectores, emigraram para o sul, estabelecendo-se no lago Texcoco, onde se encontra a atual cidade do México. Em pouco tempo drenaram o lago e fundaram a sua primeira cidade, Tenochtitlán, estabelecendo alianças com cidades vizinhas. Pouco a pouco foram-se assenhoreando de tudo e de todos à sua volta, pelo bom desempenho nas artes da guerra.

Organização política
A sua forma de governo era monárquica e eletiva, ou seja, não era hereditária: o imperador não passava o poder para o seu filho; o seu sucessor era eleito através de um Conselho Supremo, chamado Tlatocan, cujos representantes pertenciam à nobreza Asteca e era geralmente um membro deste conselho que ascendia ao trono.

Uma vez eleito, o imperador (Tlatoani) era considerado divino e, portanto, possuía poderes ilimitados sobre a sociedade Asteca. Sob o seu comando, havia toda uma rede burocrática, composta por sacerdotes, cobradores de impostos (tecutli) e inspetores comerciais.

Os Astecas formaram um império totalitário que era constituído por cidades-estado com governantes locais eleitos pelo mesmo conselho superior responsável pela eleição do Imperador. A sua responsabilidade era manter o controlo destas pequenas cidades para garantir com sucesso o domínio absoluto do império.

Religião
“Amor com amor se paga” diz-se em Asteca “sangue com sangue se paga”. Os deuses Astecas requeriam muito sangue de sacrifícios de animais e humanos para serem apaziguados. O sangue era o alimento primordial dos deuses que, se não fossem alimentados regularmente, dificultariam em muito a vida dos Astecas.

A maioria dos deuses que formava o panteão Asteca estava relacionada com o ciclo solar e, por sua vez, com todas as atividades agrícolas que dele dependiam. Entre os deuses mais importantes, devemos primeiro destacar Huitzilopochtli, deus da guerra, Tlaloc que era a deusa da chuva. A esta eram anualmente sacrificadas inúmeras crianças no cume das montanhas. Quanto mais estas crianças choravam, mais chuva cairia nesse ano. Outros deuses eram Quetzalcoatl, a serpente emplumada e Coatlicue, a deusa mãe.

Cultura, usos e costumes
A educação era obrigatória, as crianças Astecas iam às escolas para estudar, constituindo a educação militar uma parte do currículo. O povo Asteca era um povo guerreiro, tal como que os espartanos da Grécia: as crianças eram treinadas para a guerra desde tenra idade.

A sociedade Asteca era patriarcal e, por isso, a mulher ficava em casa a cuidar das tarefas domésticas, enquanto o homem tinha a seu cargo o trabalho e as relações comerciais e sociais. Os Astecas estavam intimamente ligados ao mundo espiritual e religioso, pelo que entre os seus costumes se destaca a prática de muitos rituais e orações.

Cada casa tinha um lugar reservado, considerado um pequeno santuário, onde cada família se recolhia em oração. Entre outras práticas de ascese espiritual, a prática do jejum era muito importante na vida dos Astecas. Era praticado pela grande maioria da população, inclusive pelos próprios imperadores.

Conquista do Império por Hernan Cortez
Montezuma foi o décimo primeiro e último imperador antes da chegada de Hernan Cortez e da conquista do Império Asteca que se encontrava no seu apogeu. Não aconteceu do pé para a mão, pois os Astecas eram aguerridos, estavam bem organizados e possuíam, é claro, superioridade numérica. Naquele tempo como hoje, a superioridade das armas é mais importante que a numérica e Cortez teve uma vitória relativamente fácil.

Esta conquista aconteceu apesar dos muitos avanços destas sociedades Maia, Inca e Asteca, sobretudo os Maias que possuíam conhecimentos bastante avançados de astronomia, de matemática e de arquitetura, e que desenvolveram uma escrita que só começou a ser decifrada no final do século XIX.

Os ricos sacerdotes idealizaram um sistema de numeração vigesimal que empregava o zero, e as suas noções de astronomia permitiram-lhes conceber um calendário de 365 dias e observar o céu a partir de pirâmides escalonadas.

Apesar destes avanços, estes três povos não tinham ainda chegado à Idade do Ferro, enquanto que os espanhóis, para além das armas de ferro, possuíam canhões, mosquetes e cavalos para serem mais rápidos. A conquista foi tristemente fácil.

Há uma inscrição no sopé de um monumento no centro da Cidade do México que reza assim: Na conquista não houve nem vencedores nem vencidos, foi apenas o doloroso nascimento da nação mestiça que é hoje o México. De facto, mais de 80%, da população do México é mestiça, ou seja, resultado da união ou cruzamento entres espanhóis, Astecas, Maias e outros indígenas. 

O mesmo não aconteceu na colonização da América do Norte, feita por povos também europeus, mas de outra índole. Aqui há poucos mestiços porque os indígenas não só foram vencidos como foram dizimados numa campanha de autêntica limpeza étnica que dura até aos nossos dias. Os poucos que escaparam vivem hoje paternalisticamente em reservas, onde não faltam as drogas e o álcool para que se dizimem a eles mesmos.

Conclusão: duas coisas aprendemos da visão do mundo dos povos Maia, Inca e Asteca: primeiro, que toda a Natureza está integrada, ordenada e interrelacionada. Segundo, que todos os elementos que existem na Natureza, ou seja, tudo no universo é animado e tem vida; cada ser complementa e completa os outros.

Pe. Jorge Amaro, IMC








1 de junho de 2024

Cosmovisão do Rio Amarelo

Sem comentários:

Também chamado “Rio de tristeza”, o Rio Amarelo (Huang He) é um dos mais perigosos rios do mundo. Desde que há memória, já mudou de curso 26 vezes, produziu mais de 1 500 inundações e matou milhões de pessoas. Chama-se Amarelo porque as suas águas são sempre barrentas; ainda hoje, quando os chineses querem dizer nunca, dizem, “Quando as águas do Rio Amarelo correrem cristalinas”, coisa que nunca acontecerá.

O Rio Amarelo nasce no planalto do Tibete e atravessa o norte da China, de oeste a este, desaguando no Mar da China, no Oceano Pacífico. O potencial de destruição deste rio deve-se à imprevisibilidade das suas cheias, ao contrário do que acontecia com os rios Indo, Tigre, Eufrates e Nilo cujas inundações eram periodicamente esperadas e onde se desenvolveram as outras civilizações que estudámos.

Apesar da destruição que causou, a bacia hidrográfica deste rio foi o berço da civilização chinesa, a quarta civilização depois da Mesopotâmia, do Egito e do Vale do Indo. Pela arqueologia sabemos que o Homo Sapiens habitou esta zona desde o ano 6 000 a.C., no Neolítico, mas só começou a constituir civilização depois da criação da escrita, já na Idade do Bronze (1 600 a.C.–1 046 a.C.).

Os primeiros chineses, estabeleceram-se nas terras férteis do Rio Amarelo, compostas por um sedimento trazido e depositado pelas águas ao longo de milénios dos planaltos da China central e pelos ventos que vinham dos desertos a oeste. Nesta terra irrigada, os chineses cultivaram painço, hortaliças e frutas nativas, sobretudo ao longo do alto e médio curso do rio.

No setor baixo do Rio Amarelo, cultivavam arroz. Durante o terceiro milénio a.C., o excedente de produção favoreceu o estabelecimento de vilarejos permanentes e, em meados daquele milénio, havia quase uma sucessão contínua de povoados e vilas ao longo do rio, dando forma a um princípio de civilização.

Génese da civilização
A teoria clássica é de que a civilização chinesa do Rio Amarelo apareceu como que por geração espontânea, uma vez criadas as circunstâncias ideais, da mesma forma que surgiram a civilização suméria do Tigre e Eufrates, a egípcia do Nilo e a indiana do vale do Indo.

Embora esta seja uma perspetiva aceite de forma geral, tanto arqueólogos chineses como europeus e americanos defendem, por mais atualizados estudos feitos, que a civilização do Rio Amarelo foi importada tanto da Mesopotâmia como do Egito.

Era de esperar que China se defendesse ideologicamente afirmando que isto não é verdade, da mesma forma que certos arqueólogos contrapõem se calhar também ideologicamente com provas de que houve muitas influências do Crescente Fértil. A melhor forma de apurar a verdade seria descobrir a verdadeira idade da Rota da Seda, a famosa rota comercial que unia a Europa com a Asia..

Longe destas polémicas, com influências ou sem elas, a civilização do Rio Amarelo que deu lugar à cultura chinesa cresceu em total ou parcial isolamento relativamente às outras civilizações e a prova está não só no tipo de escrita, mas também em outras descobertas mais tardias que são autêntica e genuinamente chinesas.

Lenda da criação do mundo
Todas as culturas têm um mito de criação para explicar as suas origens. Na China, é a lenda de Pan Gu que, entre muitas outras, relata a seguinte história: no início, o cosmos era um gás que se solidificou numa colossal pedra. Desse ovo cósmico, nasceu uma criatura chamada Pan Gu, que viveu 18 mil anos, crescendo 3 metros por dia, e que ocupava o seu tempo picando a pedra até que se dividisse em duas partes:  uma tornou-se no céu (yang) e a outra tornou-se na terra (yin).

Quando Pan Gu completou o seu trabalho e morreu, a sua cabeça transformou-se em montanhas; a sua respiração tornou-se no vento e nas nuvens; a sua voz, no trovão; o seu olho esquerdo, no sol, e o seu olho direito, na lua. Os seus músculos e veias tornaram-se na matriz da terra, e a sua carne, no solo. O seu cabelo e barba viraram constelações, e a sua pele e pelos do corpo transformaram-se em plantas e árvores. Os seus dentes e ossos tornaram-se em metais, e o seu tutano tornou-se em pérolas e pedras preciosas. O seu corpo formou a chuva, e os piolhos sobre ele foram impregnados pelo éter e tornaram-se em seres humanos (Wong e Wu, 1936).

Os antigos chineses acreditavam que tudo no mundo tinha duas forças aparentemente opostas que existiam em relação uma com a outra. Chamaram a estas forças Yin e Yang. A qualidade das nossas vidas e o bem-estar geral do nosso mundo dependem de tendências opostas estarem em equilíbrio uma com a outra. Poderíamos estabelecer um paralelo entre o Yin/Yang da civilização chinesa com o Eros/Thanatos Instinto de vida, e Instinto de morte, agressão e afeição freudiano.

As forças "masculinas" foram definidas como Yang, simbolizadas pelo sol, e as forças "femininas" foram consideradas Yin e simbolizadas pela lua. Para manter o céu a funcionar sem problemas, o Rei na China antiga tinha o trabalho de manter o equilíbrio entre o sol e a lua; da sua saúde dependia também a saúde do povo.

Céu e Terra são o reflexo um do outro
O que acontece na Terra acontece no céu e vice-versa: é a ideia típica da cosmovisão de todos os povos antigos e também da cultura greco-romana. Os reis chineses e os seus astrónomos mediram, rastrearam e previram o comportamento dos corpos celestes porque acreditavam que o que acontecia nos céus estava intimamente ligado com o que acontecia na Terra.

Como todos os opostos de Yin-Yang, o Céu (masculino) e a Terra (feminino) refletiam-se mutuamente. Se houvesse uma perturbação nos Céus, a causa provavelmente estava na Terra. Da mesma forma, se algum dos corpos celestes se desviasse de lugar, o desequilíbrio de forças resultante causaria problemas na Terra.

Pensamento e medicina chinesa
O pensamento chinês baseia-se no princípio do conhecimento da natureza como caminho para atingir o estado de harmonia. A conceção de harmonia é inerente a diversas culturas antigas, traz em si a ideia do equilíbrio entre os diferentes aspetos do cosmos. Dentro desta visão holística, o homem é visto como parte integrante e inseparável deste todo e, além disso, como um microcosmo que contém em si processos semelhantes aos que ocorrem na natureza.

Citada no Livro das Mutações, em aproximadamente 700 a.C., a teoria do Yin Yang é a base da medicina chinesa. A energia Qi é considerada vital, a principal que dá origem ao céu, à terra e ao Yin-Yang, ou seja, a dualidade energética. O Yin é a energia que está relacionada com a insuficiência enquanto o Yang se relaciona com os excessos.

Acredita-se que as doenças são resultado do desequilíbrio entre Yin e Yang. Assim, as que se caracterizam como Yin são calmas, fracas, frias, húmidas, hipofuncionantes e crónicas. Já as que possuem características Yang são agitadas, fortes, quentes, secas, hiperfuncionantes e agudas. Após determinar se a pessoa é Yin ou Yang, é possível escolher os componentes que irão funcionar melhor na terapia que terá como principal objetivo ajustar a circulação do Qi pelo corpo.

Embora opostos, Yin e Yang são interdependentes, não podendo existir de forma isolada um do outro e estão em estado de constante mudança, de modo que, quando um é consumido, o outro aumenta. O consumo de Yin leva a um ganho de Yang e o consumo de Yang leva a um ganho de Yin.

Yin e Yang podem transformar-se um no outro. Essa transformação ocorre quando as condições adequadas se reúnem. Por exemplo, ao final do dia começa a noite e, do mesmo modo, uma estação sucede a outra, no ciclo das estações. No limite da fase Yin de um ciclo começa a fase Yang do mesmo.

Neste ponto, fica claro como o conhecimento se torna num instrumento de prevenção, e também como a medicina chinesa é, acima de tudo, uma medicina preventiva ao ajudar-nos a estar em conformidade não apenas com o nosso próprio ritmo, mas também com o ritmo do que nos cerca. A perceção dos padrões específicos de cada situação torna possível identificar tanto a origem quanto o provável desenvolvimento de uma patologia.

Sociedade patriarcal chinesa
Ao princípio masculino Yang eram atribuídas qualidades frequentemente interpretadas como superiores, ao passo que ao princípio feminino Yin eram atribuídas qualidades consideradas como inferiores. É fácil ver como esta cosmovisão antiga chinesa levou a uma sociedade patriarcal, com base nesta justificação antiga do baixo estatuto das mulheres na sociedade.

A preferência por rapazes refletia-se na família, que era uma instituição venerada na antiga sociedade chinesa. Esta preferência nos tempos modernos da política do filho único tem levado ao mascare de milhares de milhões de meninas, a tal ponto que hoje há mais homens que mulheres na China.

Os laços familiares eram sagrados e hierárquicos. Numa sociedade agrária, era o trabalho dos filhos que daria aos pais segurança na velhice. Como a propriedade da família passava para o filho mais velho, eram os meninos que asseguravam a continuidade familiar ao longo de gerações.

As filhas, por outro lado, eram consideradas meramente como bocas para alimentar que acabariam noutras famílias, normalmente à custa de um precioso dote. As raparigas eram tratadas como propriedade, compradas e vendidas entre famílias, ou mesmo intermediadas através de casamenteiras. Se uma esposa não conseguisse produzir um filho, era muitas vezes substituída ou despromovida pelo marido, que se casava com outras esposas até que a família tivesse o seu filho.

Não havia aqui nada de novo, o que vemos na sociedade chinesa vemos em todas as culturas e civilizações do globo, onde a mulher é ser humano de segunda categoria para ser explorada e submetida e cuja única função é a reprodutiva e pouco mais.

Cultura - língua - religião
A família tinha um lugar preponderante na antiga sociedade chinesa. O pai controlava a casa e tomava as decisões importantes. O respeito pelos anciãos era muito valorizado, e esperava-se que as crianças honrassem os seus pais. Os chineses também acreditavam na adoração dos seus antepassados: manter contentes o espírito destes membros da família mortos era crucial para obter boa sorte e evitar desastres.

A religião era politeísta. Os sacerdotes também aqui assumiam o papel de intermediários: falavam com estes deuses através do uso de ossos oráculos; escreviam perguntas para os deuses sobre os ossos do oráculo que eram depois queimados. O fogo causaria rachaduras nos ossos que eram então interpretadas pelos sacerdotes como respostas dos deuses às suas perguntas.

A escrita usada era semelhante à dos sumérios e egípcios: os chineses usavam pictogramas, ou desenhos simplificados de objetos ou conceitos.

Dinastias chinesas
Em todas as civilizações deste planeta o poder é sempre delegado: pelo povo nos seus líderes por um período de tempo até novas eleições ou delegado por Deus. A civilização chinesa não foi exceção neste sentido. O que é particular na civilização chinesa é que as dinastias não eram eternas como a Davídica de Israel e tantas outras na Europa e resto do mundo.

A antiga China era governada por uma linhagem de governantes de uma única família a que chamamos de dinastia. Porém, se o povo e os deuses não estivessem satisfeitos com a dinastia no poder, este passaria para outra família nobre, criando-se assim uma nova dinastia.

Este processo é chamado de ciclo dinástico e isso explicou a ascensão, declínio e substituição de muitas dinastias ao longo da história da Antiga China. Se um rei tivesse feito algo de errado, podia perder o mandato do Céu, o que significava perder o direito de governar. Isto porque o povo acreditava que todas as dinastias recebiam o direito de governar através da aprovação dos deuses.

De acordo com a tradicional lenda de nascimento da civilização chinesa, uma enorme inundação que durou meses teria coberto a região do Rio Amarelo. Mas um homem chamado Yu, conhecido também como Yu, o Grande, teria desenvolvido um sistema de drenagem que conseguiu restabelecer as áreas das margens do rio. Seria após esse episódio que Yu teria recebido um “chamado divino” para estabelecer então a Dinastia Xia.

Cronologia das dinastias chinesas
Dinastia Xia (2100 - 1600 a.C.) – Envolta na lenda acima descrita, há quem pense que não existiu.
Dinastia Shang (1600 - 1046 a.C.) – Pensa-se que a mais antiga forma de escrita seja desta geração.
Dinastia Zhou (1046 - 256 a.C.) – A mais longa de todas as dinastias chinesas; é comumente conhecida como o ápice da civilização antiga chinesa; a filosofia confucionista, por exemplo, teria sido desenvolvida durante este período, influenciando a China até hoje.
Dinastia Qin (221 - 207 a.C.) – São desta época os dois ex libris da cultura chinesa, a Grande Muralha e o exército de terracota recentemente descoberto.
Dinastia Han (206 a.C. - 220 d.C.) – Pensa-se ser deste tempo o estabelecimento da Rota da Seda, mas é bem provável que a origem desta rota seja pré-histórica. Ou seja, o caminho que o Homo Sapiens tomou desde o Crescente Fértil até aos confins da Ásia e da China. Seriam também desta dinastia o taoísmo e a chegada do budismo à China.
Período das Seis Dinastias (220 - 589 d.C.) – Expansão do budismo.
Dinastia Sui (581 - 618 d.C.) – De curta duração.
Dinastia Tang (618 - 906 d.C.) – Entre as invenções que surgiram durante a dinastia Tang, estariam o primeiro relógio mecânico do mundo, a bússola e a máquina de imprimir livros.
Período das Cinco Dinastias (907 - 960 d.C.) – Declínio e agitação política e social.
Dinastia Song (960 - 1279 d.C.) – Nova reunificação da China.
Dinastia Yuan (1279 - 1368 d.C.) – Abertura ao ocidente; são deste tempo as viagens de Marco Polo. Invenção da pólvora e da porcelana.
Dinastia Ming (1368 - 1644 d.C.) – Foi durante este período que foi construído o palácio imperial, a Cidade Proibida, em Pequim.
Dinastia Qing (1644 - 1912 d.C.) – Com a queda da dinastia Qing, em 1912, foi oficialmente fundada a República Popular da China.

Conclusão – O poderoso rio Amarelo, nascido da cadeia montanhosa mais alta do planeta, foi a origem de uma cosmovisão marcadamente diferente da ocidental que influenciou a vida e o pensamento do resto do norte asiático, em especial da Coreia e do Japão. 

Pe. Jorge Amaro, IMC


15 de maio de 2024

Cosmovisão do Vale do Indo

Sem comentários:

A sucessão e a cronologia das civilizações obedecem a muitos fatores, um deles e talvez o mais importante, é o fator geográfico. Todas as grandes civilizações nasceram nas margens dos grandes rios; todas dependeram da agricultura, pois sem agricultura excedentária não haveria tempo nem disposição para dedicar-se a outras atividades, ou seja, sem agricultura não haveria cultura.

Ligado ao fator geográfico está o clima. Todas as grandes civilizações nasceram em climas temperados ou subtropicais. O frio excessivo não permite a agricultura, por outro lado lutar contra o frio não deixa tempo nem disposição para criar cultura.

Quando à cronologia com que estas se sucederam, é claro que as primeiras surgiram perto de África, na ponte entre a África, a Ásia e a Europa. Os humanos que se estabeleceram nas bacias do Tigre e do Eufrates criaram cultura antes dos que decidiram continuar a colonizar a Ásia e a Europa.

 Por este motivo, as últimas culturas são as da América Central, pois foram precisos muitos anos até o ser humano colonizar toda a Ásia e depois fazer a travessia do estreito de Bering e descer o continente americano até à América Central onde encontraram um clima semelhante ao do crescente fértil, e assim poderiam desenvolver uma cultura baseada na agricultura do mais. Os índios da fria América do norte nunca constituíram uma civilização que se pudessem equiparar à dos Maias e Astecas, pelo que permaneceram primitivos até à vida dos colonos europeus.

Origem e descoberta da civilização do vale do Indo
Foram provavelmente nómadas provenientes do Crescente Fértil que se deslocaram mais para este, em busca de condições de vida semelhantes às do Nilo, do Tigre e Eufrates e encontraram o vale do Indo, na zona que hoje pertence ao Paquistão, perto da cidade de Carachi. O rio Indo é o rio mais longo do Paquistão; nasce nos Himalaias e percorre 3 000 km até ao Mar Arábico.

Nascida algum tempo depois da civilização Sumérica e Egípcia, a civilização Harappa é praticamente contemporânea destas duas, entre os anos 3 300 a.C.–1 900 a.C. Ainda não se sabe muito desta civilização e há quem diga que é anterior ao Egipto e Mesopotâmia. No entanto, penso que não faz sentido que o homem proveniente de África tenha construído uma civilização longe deste continente, antes de construir uma mais perto, quando as condições eram as mesmas em termos de rios e terra fértil.

As principais cidades ou locais arqueológicos desta civilização são Harappa, Mohenjo-Daro e Lothal. Enquanto que a Suméria foi descoberta em 1825, os locais arqueológicos da civilização do vale do Indo foram descobertos muito recentemente Harappa em 1921, Mohenjo-Daro em 1922.

Planeamento urbano
Antes da escavação destas cidades pensava-se que a civilização indiana tinha começado no vale do rio Ganges, quando imigrantes arianos da Pérsia e da Ásia Central povoaram a região por volta de 1 250 a.C. A descoberta da civilização do vale do Indo veio revogar esta teoria, dando à cultura indiana um começo muito mais antigo.

No seu auge, a Civilização do Vale do Indo pode ter tido uma população de mais de cinco milhões de habitantes. As cidades do Indo distinguem-se pelo seu elaborado planeamento urbano, que sugere a existência de um processo técnico, político e administrativo relacionado com a utilização racional da terra para a agricultura e a conceção do ambiente urbano. Os harappianos foram dos primeiros a desenvolver um sistema de pesos e medidas padronizados.

As casas eram feitas de tijolo cozido, todas elas da mesma dimensão, o que nos leva concluir que esta era uma sociedade igualitária sem grande estratificação social. As cidades possuíam um sofisticado e elaborado sistema de drenagem, esgotos e abastecimento de água.

Cada casa possuía um poço de água, enquanto as águas residuais eram direcionadas para canais cobertos nas ruas principais. Até as casas mais pequenas da periferia da cidade estavam ligadas ao sistema, apoiando assim a ideia de que a higiene e o saneamento eram uma questão de grande importância.

Possuíam também piscinas de água reservadas aos banhos públicos que já naquele tempo eram usados mais para purificação ritual espiritual do que para higiene corporal, algo muito característico da sociedade indiana ainda hoje. Na imagem que ilustra este texto podemos ver em primeiro plano um desses banhos públicos da cidade de Mohenjo-Daro.

Religião, língua e cultura
Pouco se sabe sobre a religião e a língua harappiana. Uma coleção de textos escritos sobre tábuas de argila e pedra desenterradas em Harappa, com uma datação de carbono de 3 300-3 200 a.C., contêm marcas em forma de vegetal e de tridente que parecem ser escritas da direita para a esquerda.

Há um debate considerável sobre se se tratava de uma língua codificada e se estará relacionada com as famílias indo-europeias e do sul da Índia. A escrita do vale do Indo permanece indecifrável, sem símbolos comparáveis e acredita-se que tenha evoluído independentemente da escrita na Mesopotâmia e no Antigo Egito. Os investigadores estão a usar os avanços tecnológicos e informáticos para tentar decifrá-la.

A religião harappiana também continua a ser um tema de especulação. Tem sido amplamente sugerido que os harappianos veneravam uma deusa mãe que simbolizava a fertilidade. Ideia que concorda com a primeira conceção do divino das sociedades pré-históricas. Em contraste com civilizações egípcias e mesopotâmicas, a Civilização do Vale do Indo parece não ter tido templos ou palácios que comprovem claramente a existência de ritos religiosos ou divindades específicas.

Muitos dos símbolos da escrita harappiana aparecem em selos e carimbos. Foi encontrado um selo em que um homem surge em posição ioga em meditação. Está rodeado por um búfalo, um rinoceronte, um elefante e um tigre, com dois veados aos seus pés. Está sentado debaixo de uma árvore Pipa e chamava-se Pashupati. É talvez uma representação daquele que seria depois conhecido no hinduísmo como o deus Shiva.

Sistema de governo
Registos escritos deram aos historiadores uma grande visão sobre as civilizações da antiga Mesopotâmia e do Egito, ao contrário, são muito poucos os materiais escritos foram descobertos no vale do Indo. Há quem opine que o sistema de governo era centralizado como o do Egito pelas medidas standard dos tijolos e outras medidas de peso e distância; assim como há quem entenda que eram cidades-estado com as da antiga Suméria.

Não possuímos dados suficientes para nos inclinarmos por uma ou outra teoria, ambas são formas antigas de governo, uma mais democrática, como a sociedade suméria e até mesmo a sociedade Maia da América Central e a outra mais ditatorial, como a do Egito e dos Astecas na América Central.

Sociedade pacífica
Acredita-se amplamente que a civilização harappiana foi uma civilização pacífica que não se envolveu em nenhuma guerra, mas não há evidências conclusivas para confirmar esta crença, e alguns arqueólogos consideram-na um mito generalizado. Alguns estudiosos argumentam que os harappianos eram pacíficos principalmente porque não tinham inimigos naturais, devido à localização geográfica das grandes cidades. Foram encontradas armas nos locais arqueológicos, mas debate-se se foram usadas em conflito com outros grupos ou como defesa contra animais selvagens.

Declínio da civilização do Vale do Indo
A Civilização do Vale do Indo colapsou por volta de 1 800 a.C. Os estudiosos debatem sobre quais foram os fatores que resultaram na morte da civilização. Uma teoria sugere que uma tribo nómada e indo-europeia, os arianos, invadiu e conquistou a Civilização do Vale do Indo, embora evidências mais recentes tendam a contradizer esta afirmação. A maior parte dos historiadores acredita que o colapso da Civilização do Vale do Indo foi causado por alterações climáticas. Alguns especialistas acreditam que a seca do rio Saraswati, que começou por volta de 1 900 a.C., foi a principal causa para estas alterações climáticas e das condições de vida.

Em 1 800 a.C., o clima do Vale do Indo tornou-se mais frio e seco, e um evento tectónico pode ter desviado ou perturbado os sistemas fluviais, que eram as linhas de vida da Civilização do Vale do Indo. Os harappianos foram obrigados a emigrar para a bacia do Ganges no Leste, onde podem ter estabelecido aldeias e usado os terrenos para praticar a agricultura.

Estas pequenas comunidades não teriam sido capazes de produzir os mesmos excedentes agrícolas para apoiar as grandes cidades. Com a redução da produção de bens, teria havido um declínio nas trocas comerciais com o Egito e a Mesopotâmia. Por volta de 1 700 a.C., a maioria das cidades da Civilização do Vale do Indo tinham sido abandonadas.

Daqueles que foram para a bacia do rio Ganjes, por volta do ano 800 a.C., alguns estabeleceram-se como eremitas (os Vedas) nas florestas do rio Ganjes. Inspirados na religião Dravidia, originária do vale do Indo, adoravam espíritos naturais. Estas religiões acreditavam que as almas adquiriam uma outra forma física depois da morte do corpo; nasceu assim a teoria da reencarnação, tão popular no hinduísmo.

Os Vedas, palavra que significa "conhecimento", são os textos mais antigos do hinduísmo. São derivados da antiga cultura indo-ariana do subcontinente indiano e começaram como uma tradição oral que foi passada através de gerações, antes de finalmente serem escritos em sânscrito védico, entre 1 500 e 500 a.C.

Conclusão: higiene física, saneamento e pureza ritual e espiritual, assim como organização urbana e precisão matemática em pesos e medidas, sugere que esta era uma sociedade avançada para o seu tempo, “democrática”, igualitária e pacífica. Pena que ainda não tenhamos decifrado os símbolos que nos deixaram para saber mais. A cosmovisão indiana acabou por influenciar o pensamento e a vida de todo o sul da Ásia.

Pe. Jorge Amaro, IMC


1 de maio de 2024

Cosmovisão do Crescente Fértil

Sem comentários:

Depois de nos debruçarmos sobre a cosmovisão pré-histórica, estudemos agora as cosmovisões que lhe sucederam depois do aparecimento da escrita que é a linha que divide a pré-história da história. Por muito tempo se pensou que a escrita apareceu na Suméria, antiga Mesopotâmia, e que dali se foi alastrando para as demais civilizações. A descoberta de uma forma de escrita na América Central, sem conexão com o Crescente Fértil ou o Extremo Oriente, prova que a escrita surgiu em diferentes civilizações desconectadas entre si.

Esta é apenas uma de tantas provas de que há apenas um único modelo de desenvolvimento e que a natureza humana é a mesma porque o planeta está povoado por um único hominídeo, o Homo Sapiens que deixou a África há cerca de 200 000 anos. A escrita é, portanto, concomitante ao aparecimento das primeiras civilizações. Em cada uma destas civilizações aparece uma versão diferente da mesma.

A primeira e mais antiga versão de escrita é a escrita cuneiforme que aparece de facto na Suméria (4000 a.C.). Por este motivo, a Suméria é também conhecida como a primeira civilização humana. Depois vem a escrita hieroglífica do Egito (3 000 a.C.). A escrita pictórica da China surge por volta de 1 200 a.C. e a escrita Maia, da América Central, no ano 500 a.C. Há uma incógnita sobre a escrita da civilização Harapa no vale do Indo e que seria a segunda, depois da Suméria. Esta forma de escrita data de 3 500 anos a.C., mas até à data não foi decifrada e, por isso, não conta como escrita, mas como símbolos desconectados entre si.

Vamos, portanto, estudar estas primeiras grandes civilizações antigas que estão na base das nuances civilizacionais que encontramos aqui e ali neste mundo globalizado e cada vez com menos diferenças. Estas civilizações são o Crescente Fértil, a civilização do vale do Indo, a civilização chinesa e, por fim, as civilizações da América Central, Maias, Astecas e Incas. Debrucemo-nos então sobre o Crescente Fértil (berço da civilização ocidental) e das culturas que ali se foram sucedendo, a começar pela Suméria, até ao aparecimento do Primeiro Império.

A civilização suméria surge com alguma anterioridade em relação ao Egito. No entanto, estas duas culturas crescem e desenvolvem-se contemporaneamente, com pouca ou nenhuma relação entre si, porque estavam separadas pelo deserto e nunca se confrontaram em guerra.

SUMÉRIA
Questiona-se hoje se a Suméria é anterior ao Egito. No entanto e enquanto não se prove inequivocamente o contrário, adotamos aqui a visão ortodoxa de que a civilização suméria, a primeira do planeta, surgiu um pouco antes da egípcia, 4 000 anos antes de Cristo, entre os rios Tigre e Eufrates no sul da Mesopotâmia (atual Iraque).

As inundações regulares dos rios tornavam fértil a terra e permitiam uma agricultura baseada sobretudo nos cereais que, como estudámos em outros textos, permitiam armazenar bens por muito tempo, libertando assim o Homem da tutela da natureza e da constante procura de alimentos, como acontece com os outros seres vivos.  

Estudaremos o Crescente Fértil desde a primeira civilização suméria até ao aparecimento do Primeiro Império.

Religião
Os sumérios sabendo que não podiam controlar o vento, o ar e o sol e outros elementos, acreditavam que um poder superior controlava estas realidades. A palavra suméria para universo era AN-KI, ou seja, o deus AN e a deusa KI. Os filhos deste matrimónio divino eram ENLIL, o deus do ar, que era visto como o deus mais poderoso, semelhante a Zeus na mitologia grega. ENKI era a deusa do amor e da guerra. Eros e Thanatos, afeição e agressão, eram controlados pela mesma divindade. Para além destes, havia muitos outros deuses mais pequenos e cada cidade-estado tinha o seu deus protetor.

Politeísmo antropomórfico
Os sumérios acreditavam que os seus deuses eram muito parecidos com as pessoas; comiam, bebiam, dormiam e casavam-se. Ao contrário dos humanos, os deuses viviam eternamente e exerciam poder sobre os humanos. Por este motivo, os humanos tinham de os manter contentes, com orações, oferendas e sacrifícios para que estes lhes fossem favoráveis e trouxessem fortuna e prosperidade à cidade. Se isso não acontecesse, podiam trazer guerra, inundações e outros desastres.

Zigurate, o primeiro templo da história
Na Mesopotâmia, no centro de cada cidade num lugar mais elevado, existia sempre um zigurate, ou seja, um templo em forma helicoidal ou em caracol ascendente. Este templo é comum a todas as civilizações à volta dos rios Tigre e Eufrates: Suméria, Acádia, Assíria e Babilónia.

A filosofia de vida da Suméria no poema de Gilgamesh – primeira obra da literatura mundial
Na história épica do herói Gilgamesh, rei de Uruk, a primeira pérola da literatura mundial escrita em placas de argila por volta do ano 3 400 a.C. na escrita cuneiforme inventada pelos sumérios descreve-se a humanidade representada em Gilgamesh, despertando do seu longo sono de inconsciência, dando-se conta, ao mesmo tempo, da sua brutalidade, mas também da sua cultura e sabedoria.

Gilgamesh dá-nos uma ideia de como o ser humano se vê a si mesmo e o mundo à sua volta. Vence todos os seus inimigos e obstáculos que se apresentam, e vê-se como um ser todo-poderoso, por isso, não aceita as suas limitações, sobretudo a sua mortalidade. Não é perfeito e no poema começa por ser um mau rei, o que leva o povo a protestar junto de deus. Mas depois a sabedoria vai-o domesticando, revelando-se uma pessoa de grandes sentimentos, sobretudo de amizade pelo seu amigo Enkidu.

Muitas realidades se concentram nesta história, sentimento de solidão, amizade, perda de um ente querido (o seu amigo Enkidu), amor, vingança e o medo da morte. Gilgamesh é um líder, um varão forte, destemido e bonitão, meio deus meio humano. Rei da cidade-estado de Uruk na velha Suméria.

Tem uma vida sexual desenfreada, instintiva, sem sentimentos, mas quando conhece o seu amigo Enkidu descobre a afeição por um amigo, coisa que nunca tinha encontrado em nenhuma mulher. Este afeto leva-o a pôr de lado o sexo e o prazer, ou seja, a trocar o Eros pela Philia. Doravante não lhe interessam as mulheres e não se deixa seduzir nem por Enki a deusa da guerra e do amor.

Nesta cultura, o homem é dominante porque as mulheres não conseguem controlar o sexo e o amor (eros). Amor e guerra são atos emocionais, não da razão, daí o facto de ambas realidades serem representadas na mesma divindade ao contrário da mitologia grega e romana. O líder é masculino, alguém que sobressai em relação aos outros, pela sua força física, coragem e sabedoria. Porém, entre os reis da Suméria há uma lista que inclui uma mulher, Kubaba, como rainha da cidade-estado de Kish.

Gilgamesh luta contra a fatalidade de mortalidade e procura uma maneira de derrotar o inevitável. No final, após ser incapaz de encontrar a imortalidade e uma maneira de reviver a sua vida, Gilgamesh encontra paz na morte.

Invenções
A Suméria é famosa pela invenção da cerveja e tinha até uma deusa chamada NinKasi como deusa da cerveja. Os sumérios inventaram a roda, o arado, o arco, o bronze e a medição do tempo, dividindo a hora em 60 minutos, o minuto em 60 segundos.

O IMPÉRIO ACÁDIO
Ao não haver obstáculos nem a norte nem a sul, nem a este ou oeste, neste mesmo lugar da Mesopotâmia várias civilizações se sucederam até à consolidação dos grandes impérios. Enquanto isto acontece, o Egito, como adiante veremos, desenvolve a sua própria civilização, a escrita hieroglífica e a sua própria forma de entender a vida.

Por volta de 3 000 a.C., os sumérios tiveram um intercâmbio cultural significativo com um grupo do norte da Mesopotâmia, conhecido como os acádios – em homenagem à cidade-estado de Akkad. A língua acádia está relacionada com as línguas semíticas do hebraico e do árabe.

O termo semítico provém do personagem bíblico Shem, filho de Noé, o suposto progenitor de Abraão e, consequentemente, do povo judeu e árabe. Por volta de 2 334 a.C., Sargão de Akkad chegou ao poder e estabeleceu o que pode ter sido o primeiro império dinástico do mundo. O Império Acádio governou tanto os falantes acádios como sumérios na Mesopotâmia e no Levante – a Síria moderna e o Líbano. O Império Acádio entrou em colapso em 2 154 a.C., aos 180 anos após a sua fundação.

IMPÉRIO ASSÍRIO
A Assíria, deve o seu nome à sua capital original, a antiga cidade de Ashur, no norte da Mesopotâmia. Ashur foi originalmente uma das várias cidades-estado de língua acádia, governadas por Sargão e seus descendentes durante o Império Acádio. Centenas de anos após o colapso do Império Acádio, a Assíria tornou-se num grande império.

Durante grande parte dos 1 400 anos desde o final do século XXI a.C. até ao final do século VII a.C., os assírios de língua acádia foram a potência dominante na Mesopotâmia, especialmente no Norte. O império atingiu o seu auge perto do final deste período, no século VII. Nessa altura, o Império Assírio estendeu-se desde a fronteira do Egito e Chipre, a Oeste, até às fronteiras da Pérsia – atual Irão – a Leste.

BABILÓNIA
Por fim sucede-se a grande Babilónia, onde os judeus, segundo reza a Bíblia, estiveram exilados. Uma das obras mais importantes da cultura da Babilónia foi a compilação por volta de 1 754 a.C., de um código de leis, chamado Código de Hamurabi, que espelhou e melhorou as anteriores leis escritas da Suméria, Acádia e Assíria. O código de Hamurabi é o código de leis mais antigo do mundo. Escrito por volta de 1 754 a.C., pelo sexto rei da Babilónia, Hamurabi, o Código foi escrito em estelas de pedra –lajes – e tábuas de argila. É constituído por 282 leis, com punições em escala, em função do estatuto social, ajustando "um olho por um olho, um dente por um dente", para evitar a espiral de violência.

O Império Babilónio, fundado por Hamurabi, durou 260 anos, até que a Babilónia foi saqueada por invasores em 1 531 a.C. No período entre 626 a.C. e 539 A.C., a Babilónia voltou a afirmar-se na região com o Império Neo-Babilónio. Este novo império foi derrubado em 539 a.C. pelos persas que passaram a governar a região até à época de Alexandre, o Grande, em 335 a.C.

O mito babilónio da criação
Para além do código mais antigo de leis, a Babilónia possui também o mito mais antigo da criação do universo e dos seres humanos. Reza que, no princípio, existiam o deus Apsu e a deusa Tiamat que tiveram vários filhos. Como os mais novos eram barulhentos quando brincavam e Apsu não conseguia dormir nem trabalhar, decidiu matá-los. Entretanto, os jovens deuses descobriram o plano e anteciparam-se, matando Apsu.

Tiamat prometeu vingança pela morte do marido. Cheios de medo, os deuses rebeldes solicitaram a ajuda do primo Marduk. Este, capturou Tiamat e matou-a, despedaçando posteriormente o seu corpo e espalhando o seu sangue. Assim foi criado o Universo segundo o mito babilónio. Ou seja, a criação é um ato de violência e não de bondade, como no mito bíblico da criação.

A ordem cósmica requer a supressão violenta do feminino e é espelhada na ordem social pela sujeição das mulheres aos homens e dos homens ao seu governante. No princípio era o caos e a violência foi usada para estabelecer a ordem. Fica assim justificado o uso da violência pois, sem ela, não haveria ordem. O mito da violência redentora é a vitória da ordem sobre o caos por intermédio da violência.

Depois da criação do mundo, Marduk atirou para a prisão os deuses que estavam do lado de Tiamat. Como estes protestavam porque a comida na prisão não era boa, Marduk e o seu pai Ea (filho de Apsu), mataram um deles e, do seu sangue, criaram os seres humanos para serem servos dos deuses.

Portanto, segundo o mito babilónio da criação, a violência é natural e está incorporada nos nossos genes. Não foi a humanidade que criou a violência como ato de desobediência a Deus, como no caso do mito bíblico. No mito babilónio, a violência sempre esteve presente, fazendo parte da natureza cósmica e humana. Os seres humanos estão naturalmente incapacitados para a coexistência pacífica e a paz tem de ser imposta a partir de cima, pelo poder reinante. Muito mais tarde é esta a ideia subjacente à “Pax Romana”, imposta pelos romanos.

Os mais espertos e poderosos apresentam-se então perante os outros, como reis, faraós, czares, imperadores, príncipes, sacerdotes e mestres, representantes da bondade e justiça de Deus, com a missão de combater os maus e de os punir.

A violência “legal” dos líderes da sociedade opõe-se à violência “natural” para subjugar os maus, dissuadir os outros das suas más tendências e facilitar a convivência social. Daí nasce a lei de olho por olho e dente por dente, para conter a violência conatural ao ser humano e tornar possível a convivência.

O EGITO DOS FARAÓS
É certamente a cultura mais emblemática e fascinante do mundo antigo, não só pela grandiosidade das pirâmides e tantos outros monumentos que nos deixaram, mas por continuarem a despertar curiosidade no homem de hoje. A arqueologia até mudou de nome para egiptologia, pelos milhões de documentos históricos que esta civilização nos deixou.

A civilização egípcia estende-se por vários períodos diferentes: o Primeiro Reino (3 000-2 660 a.C.), I e II dinastias; o Reino Antigo no início da Idade do Bronze (2 660-2 180 a.C.), III a VI dinastias; o Primeiro Reino Médio (2 180-2 040 a.C.), VII a XI dinastias; o Reino Médio (2 040-1 780 a.C.), XI e XII dinastias; o Segundo Reino Médio (1 780 a 1 560 a.C.), XIII a XVII dinastias; o Reino Novo (1 560-1 070 a.C.), XVIII a XX dinastias; o Terceiro Período Intermédio (1 070-664 a.C.), XXI a XXV dinastias; a Época Baixa (664-332 a.C.), XXVI a XXX dinastias; o Domínio Grego (332-30 a.C.) e o Domínio Romano (30 a.C.-359 d.C.).

O sucesso da antiga civilização egípcia veio, em parte, da sua capacidade de adaptação às condições do vale do rio Nilo para a agricultura. As previsíveis inundações e a irrigação controlada do vale fértil produziram culturas excedentárias, relatadas também na Bíblia na história de José do Egito.

Esta agricultura racionalizada permitiu um aumento considerável da população. Com recursos de sobra, a administração patrocinou a exploração mineira do vale e das regiões circundantes do deserto, o desenvolvimento de um sistema de escrita, a organização de projetos de construção coletiva e agrícola, o comércio com as regiões circundantes e um exército destinado a afirmar o domínio egípcio.

Para motivar e organizar estas atividades existia uma força burocrática de escribas de elite, líderes religiosos e administradores, sob o controlo de um faraó que garantia a cooperação e unidade do povo egípcio no contexto de um elaborado sistema de crenças religiosas.

A vida no Egito
•    “Não separes a tua mente da tua língua e todos os teus projetos serão bem-sucedidos”
•    “Que os teus conhecimentos não sejam motivo de arrogância; aconselha-te tanto com o sábio como com o ignorante”.
Quase todas as pessoas estavam envolvidas na agricultura e provavelmente estavam ligadas à terra. Em teoria, toda a terra pertencia ao rei, embora, na prática, aqueles que nela viviam não pudessem ser facilmente removidos e algumas categorias de terras pudessem ser compradas e vendidas. As terras abandonadas voltavam a ser propriedade do Estado e transferidas para outros que as cultivassem.

Um Estado central forte tornou possível as construções em massa que conhecemos no Egito. A construção das grandes pirâmides da quarta dinastia (2 575–2 465 a.C.), ainda não está totalmente explicada. As casas das pessoas eram feitas de adobe ou tijolos de terra não cozida; os templos, pirâmides, palácios reais e tumbas eram construídos em pedra.

Ao contrário da escrita cuneiforme que permitia escrever outras línguas, a escritura hieroglífica só permitia escrever uma única língua. Porém, é destes hieróglifos que descende o nosso alfabeto, o alfabeto romanao. Esta civilização deixou-nos inúmeras obras literárias, como tratados sobre matemática, astronomia, medicina e magia, bem como vários textos religiosos, recolhidos mais tarde na famosa biblioteca de Alexandria.

No antigo Egito comia-se o todo tipo de carne, inclusive carne de porco. O casamento era monogâmico, o divórcio era possível e fácil, mas dispendioso. As mulheres tinham um estatuto algo inferior ao dos homens; as casadas tinham o título de donas de casa, mas trabalhavam também na agricultura ao lado dos maridos.

O Faraó era divino e a sua divindade era reafirmada em sumptuosos rituais. No entanto, era uma divindade inferior à dos grandes deuses. Ele era a garantia de unidade da sociedade egípcia, bem organizada e hierarquizada. Foi por isso no Egito que o monoteísmo foi inventado, precisamente como fator de união entre as pessoas e as classes sociais.

Foi o faraó Akenaten que promulgou a existência de um só deus, o deus Aten, ou seja, o deus sol em substituição de todo o panteão de deuses. Contudo, este monoteísmo durou pouco tempo. Os egípcios, como todos os povos daquele tempo e lugar, eram naturalmente politeístas. É provável que a ideia de um Deus único dos judeus tenha surgido nesta época e que eles a retivessem durante o período de escravatura no Egito e depois da sua libertação.

Conclusão: No final do Neolítico, entre o Calcolítico e a Idade do Bronze, nasceram as primeiras civilizações humanas à volta dos rios Tigre, Eufrates e Nilo. A terra fértil das bacias destes rios proporcionou uma agricultura excedentária e esta, por sua vez, uma cultura superior, patente nas invenções tecnológicas, na escrita e nos monumentos que nos deixaram estas civilizações, base da civilização ocidental.
Pe. Jorge Amaro, IMC