15 de abril de 2016

O Bom Samaritano

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Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto. Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo. Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante.

Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: 'Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar.'

Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?» Respondeu: «O que usou de misericórdia para com ele.» Jesus retorquiu: «Vai e faz tu também o mesmo.» Lucas 10, 25-37

A segunda parábola mais conhecida depois do Filho Pródigo, é sem duvida a do Bom Samaritano. De tal forma esta parábola influenciou a cultura ocidental que hoje o termo “samaritano”, mais que referir-se a um habitante da Samaria, aplica-se a toda a pessoa que é solidária, se compadece e ajuda os que estão em dificuldades.

Como ganhar a vida eterna
A parábola está inserida no contexto do diálogo que Jesus tem com um doutor da lei que o interpela sobre o que deveria fazer para ganhar a vida eterna. Jesus, tal como um bom psicoterapeuta não diretivo, ao estilo de Rogers, ajuda-o a buscar ele mesmo a resposta à sua pergunta remetendo-o para a sua leitura da Lei. O doutor da lei diz em resposta o que Jesus quer ouvir; ou seja, em vez de mencionar leis concretas, dá ao amor o estatuto e a importância de uma lei, assumindo que Jesus faria isso mesmo.

A resposta do doutor da lei sintetiza o Antigo Testamento, a Lei e os profetas, ao unir o amor a Deus, descrito no livro do Deuteronómio (6, 4-8), como o amor ao próximo, descrito no livro do Levítico (19, 18). A esta síntese Jesus limitou-se a aprovar dizendo faz isso e viverás; viverás aqui e agora segundo a Lei e entrarás na vida eterna.

Se alguém disser: «Eu amo a Deus», mas tiver ódio ao seu irmão, esse é um mentiroso; pois aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. 1 João, 4,20

Com este texto podemos concluir que o amor a Deus que não se verifica e manifesta no amor ao próximo, não é real nem genuíno; porem, como diz o evangelho, só podemos verdadeiramente amar o próximo, quando entendemos que o fazemos aos outros, o estamos a fazer a Deus. 'Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes. (Mateus 25, 40)

Desta forma estamos de volta ao amor a Deus comos sendo o primordial e o mais importante, porque só quando vemos a Deus como Pai a que vemos o outro como nosso irmão. Se Deus não é Pai de todos, então o meu próximo não é meu irmão, mas sim meu rival, meu inimigo, a quem temo invejo ou odeio. Por melhor que estejam na vida os nossos irmãos de sangue, não os invejamos, da mesma forma quando verdadeiramente amo a Deus como Pai, todas as pessoas que me rodeiam, grandes e pequenos, de perto ou de longe, são meus irmãos de sangue porque Deus é Criador e Pai de tudo e de todos.

Cristianização da gramática
Quem é o meu próximo? – Tal como os outros doutores da lei que vieram ter com Jesus, também este não veio com a intenção de enfatizar a doutrina de Jesus. A primeira pergunta que faz a Jesus é só a preparação da segunda, na qual pretende denunciar o facto de Jesus não aceitar diferenças entre as pessoas. Portanto, a segunda pergunta deixa supor que há pessoas que podem ser consideradas como próximo e outras, pelo contrário, não. E assim era para os Judeus; eles eram o povo escolhido por Deus, por isso para eles o próximo era o que era da sua mesma tribo e religião; os outros eram gentios, pagãos e como tal não podiam ser tidos como próximo para um Judeu.

 Para Jesus não existe diferença entre pessoas. É o que tenta explicar com a parábola do bom samaritano. Em pleno deserto de Judá jaz um ferido; ninguém o conhece; não se sabe nada dele; o rosto desfigurado, pelo que não podemos ler as feições do seu rosto para o definir etnicamente; meio morto, pelo que não pode falar para sabermos que idioma fala ou que dialeto ou sotaque tem; talvez despojado meio nu, pelo que não sabemos como veste para saber quais são os seus usos e costumes e poder identificá-lo. Jesus não menciona nenhum destes detalhes, porque para Ele não são importantes, a única coisa que é clara é que é um ser humano, isso é o único que conta. A dignidade não está subjugada a diferenças étnicas, linguísticas ou politicas, mas simplesmente ao facto de ser um ser humano.

Deus é Pai de todos pelo que quando rezamos o Pai Nosso, ninguém deveria ficar excluído do pronome “nosso”. Aliás se levássemos a nossa fé até às últimas consequências, modificaríamos a gramática e aboliríamos todos os pronomes pessoais ficando só com três, pois trinitária é a nossa fé; Eu + Tu = Nós.

Começando por mim pois me reconheço com um ser livre autónomo, distinto de tudo e de todos os que me rodeiam; seguidamente, olhando à minha volta e reconheço um alter ego, um Tu, diferente de mim, mas de igual dignidade; por fim, o facto de precisarmos um do outro, e de termos iguais direitos e deveres, faz surgir uma terceira entidade o “Nós” ou seja o eu e o tu juntos; para alem destes, os restantes podemos descarta-los por ser discriminativos.

Os pronomes “Ele” e “ela” “Vós” e “Eles” estabelecem distinções que ao ser irrelevantes quanto á dignidade da pessoa humana, abrem o passo para a discriminação que pode até estar camuflada no reconhecimento objetivo de diferenças entre pessoas. Uma vez mais, como cristãos que somos, o nosso, do Pai Nosso, deve englobar toda a gente sem distinção e discriminação.

Anatomia geográfica
A ciência diz-nos que o ser humano vem de um tronco comum. Com a filosofia grega na mente, verificamos que a dignidade da pessoa humana está ligada à essência e não aos acidentes. O que Jesus quer que este doutor da lei entenda é que as diferenças étnicas, de género, de posição social, de classe, de cor da pele, de tipo de cabelo etc., são acidentes, ou seja, são formas de existir e nada têm que ver com a essência pois não a alteram. Como a dignidade da pessoa humana provém da essência e não dos acidentes, Jesus conta a parábola na esperança que o seu interlocutor conclua por ele mesmo que o próximo, de cada pessoa humana, é toda a pessoa humana.

Nascidos de um tronco comum, há cinco milhões de anos no vale de Rift na África, as características fisiológicas, que apresentam os seres humanos de hoje, devem-se às condições morfológicas e climatéricas do meio ambiente em que habitaram por muitos milhares de anos. Por exemplo, a cor da pele é proporcional à distância do equador; quanto mais perto mais preta, quanto mais longe mais clara; os Congoleses são os seres humanos mais pretos, os Marroquinos são mais claros que os Congoleses, os Portugueses mais claros que os Marroquinos e os Noruegueses mais claros que os Portugueses.

Com a distância do equador tem que ver também a cor dos olhos e do cabelo; no norte da Europa proliferam os azuis, no centro os castanhos, no Sul os pretos; o mesmo vale para a cor do cabelo; no norte da Europa é louro, no centro castanho, no sul preto. O tamanho do nariz tem que ver com a temperatura do ar; além de o filtrar, o nariz tem também a função de o aquecer, pelo que nos países frios as pessoas têm um nariz maior.

Também tem que ver com a temperatura e incidência do sol o cabelo encaracolado e o cabelo liso. O cabelo encarapinhado dos africanos forma uma caixa de ar a qual permite que o ar circule, protegendo assim a cabeça dos raios solares e do calor. Por fim os olhos dos asiáticos tem que ver com o clima extremo das estepes asiáticas; no inverno muito frio e muita luminosidade, no verão muito vento e pó.

A revolução francesa “avant la lettre”
No ocidente, foi a revolução francesa instituiu a ideia que tem sido a pedra angular da democracia de que pelo nascimento e perante a lei, somos todos iguais; desta forma não há escravo nem senhor, nem nobre e plebeu. No entanto muito antes de sermos iguais perante a lei já eramos iguais perante Deus.

Se observarmos atentamente, verificamos que os ideais da revolução francesa, não são verdadeiramente descoberta dos revolucionários, mas já estavam implícitos no mandamento do amor, a Deus e ao próximo.

Liberdade – Está implícita no mandamento do amar a Deus sobre todas as coisas; só quando amamos a Deus sobre todas as coisas, e sobre todas as pessoas, é que colocamos ordem e hierarquia no nosso coração e somos verdadeiramente livres. Ao prestar vassalagem a um ser Transcendente transcendo-me, coloco-me por cima de todos as coisas que não são Deus; assim e só assim sou verdadeiramente livre.

Igualdade – Está Implícita no mandamento do amar ao próximo como a mim mesmo; o outro é um alter-ego, um outro eu de onde vem o conceito de altruísmo. Não é um estranho, portanto, mas sim uma pessoa de igual dignidade, iguais direitos e deveres. Como me amo a mim mesmo assim devo amar o outro que está na minha frente, nem mais nem menos; a medida da minha autoestima é a medida do meu amor pelo outro, pelo que não há melhor afirmação de igualdade que esta.

Fraternidade – Esta palavra é uma derivação de “frater” que em latim significa irmão. Uma das marcas do cristianismo é o considerar que Deus é Pai de todos, o qual nos faz a todos seus filhos e portanto irmãos entre nós. Por isso tudo o que faço, de bem ou de mal, a um irmão o estou a fazer; e por outro lado, como diz Mateus 25, a Cristo o nosso irmão mais velho o estou a fazer.

Fraternidade é ao mesmo tempo sinónimo de amor ao próximo e de igualdade, pois tendo em mente o conto do Príncipe Encantado que se apaixona pela gata borralheira ou Cinderela, há proverbio que no assegura que “O amor ou nasce entre iguais ou faz as pessoas iguais”. Assim sendo, podemos concluir que igualdade e fraternidade são uma e a mesma coisa. A fraternidade leva á igualdade e a igualdade leva à fraternidade. A liberdade, ou o amor a Deus é o alicerce da vida humana na sua vertente individual; a igualdade ou o amor ao próximo, o alicerce da vida humana na sua vertente social; Uma não existe sem a outra

Ante o dito é inadmissível que existam castas, como na Índia, e que estas ainda hoje pautem as relações entre pessoas a ponto de não serem iguais perante a lei. Como também é inadmissível que os muçulmanos considerem infiéis a todos os que não adoram o seu deus e não se comportam segundo a lei da Sharia.

Religião como opio
Discordamos de Karl Marx quando diz que a religião é o ópio do povo. A religião em si não é ópio, mas a sua pratica pode ser. Uma religião que crie diferenças entre as pessoas, que me leve a relacionar-me com elas diferentemente é opio do povo; porque me aliena, aliena outros e cria ódios e contendas. Uma religião que me afasta dos outros, que desumaniza, que me impede ajudá-las e que busca desculpas para não o fazer é ópio. Uma religião que não me ensina o caminho para sair da minha zona de conforto, do meu egocentrismo, não é sequer uma religião. Religião vem de “religare” relação, a verdadeira religião é a que motiva o maior número de relações possíveis e todas elas baseadas no amor.

O sacerdote e o Levita passam de largo para não serem contaminados e poderem praticar a sua religião, oferecer sacrifícios no templo; por isso têm desculpa, têm alibi; a própria religião os proíbe de fazerem o bem; uma religião que é ópio funciona assim, justifica, ilumina e fundamenta ideologicamente o egoísmo e a inatividade, acabando até por matar a compaixão que surge natural, quando presenciamos o sofrimento humano e até mesmo o sofrimento de um animal. Uma religião assim é uma superestrutura, na linguagem de Karl Marx, que desumaniza o ser humano.

O sacerdote e o levita, algo assim como o padre e diácono nos nossos tempos, são por sua natureza pontífices; ou seja, pontes entre Deus e os homens. A sua função é a de interceder a Deus pelos seus semelhantes; levar Deus aos homens e os homens a Deus. Estes clérigos ficaram-se com a teoria, iam certamente para o templo para interceder pelos homens, mas por um homem genérico inexistente, pois homem era aquele que viram a precisar de ajuda e passaram de largo. A sua religião era ópio e ideologia, pois em vez de os aproximar dos homens e mulheres concretos distanciava-os deles.

A compaixão vem de quem menos se espera, de um homem de negócios, em quem normalmente se presume a ganância e busca do proveito próprio em todo tempo e lugar. Um para quem o tempo é dinheiro e todas as atividades devem ser lucrativas. Sendo um homem de negócios, se alguém tinha “desculpas” para passar de largo era o samaritano, e, no entanto, é precisamente ele que pára e coloca de lado a sua agenda e atende o desafortunado.

Talvez por não ser religioso, o sentimento natural de compaixão não estava anulado ideologicamente pelo que, anacronicamente, é precisamente nele que vemos a compaixão e a misericórdia, atributos de Deus que não os vemos nos religiosos, o sacerdote e o levita, que teoricamente mais perto de Deus, mais deveriam ser como Ele.

O samaritano não só sente compaixão, mas atua com base nessa compaixão; muitos há que sentem e nada fazem. A sua compaixão faz com que coloque o seu programa de lado, não só oferece tempo, a sua montada e ele vai a pé, mas abre os cordões à bolsa, e paga por ele o equivalente ao ordenado de dois dias e comprometendo-se a pagar ainda mais caso fosse necessário. O samaritano é-nos apresentado como um ícone vivo da misericórdia divina, um exemplo que o próprio Cisto nos convida a seguir.

Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericordiae Vultus Papa Francisco.
Pe. Jorge Amaro, IMC



1 de abril de 2016

Perdidos & Achados - Os dois filhos

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A parábola do filho pródigo é sem lugar a dúvidas, a narrativa mais notável de todos os tempos. É realmente uma obra-prima e de alguma forma o ex libris do Evangelho. Para além de “Parábola do filho pródigo” é também chamada a parábola dos dois filhos, pois a atitude pouco louvável do filho mais velho, é parte integrante da história; por esta mesma razão outros chamam-lhe O menos mau de dois maus filhos, e por fim, retirando o protagonismo aos dois filhos para o dar ao Pai, também há quem lhe chame a parábola do Pai Misericordioso.

Disse ainda: «Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: 'Pai, dá-me a parte dos bens que me corresponde.' E o pai repartiu os bens entre os dois.

Disse ainda… - Jesus introduz esta parábola ligando-a às duas precedentes, a da ovelha e da dracma perdidas. Uns perdidos em casa dentro do rebanho:  a dracma, o filho mais velho e as 99 ovelhas que simbolizam os fariseus; outros perdidos para fora do rebanho, a ovelha perdida e o filho pródigo, que simbolizam os publicanos, as prostitutas e os pecadores em geral; para Jesus tanto uns como outros, todos são pecadores necessitados de perdão, doentes necessitados de cura. Na verdade, como diz a Escritura, Todos nós andávamos errantes como ovelhas perdidas, cada um seguindo o seu caminho. Mas o Senhor carregou sobre ele todos os nossos crimes (Isaías 53,6). Cristo morreu por todos porque todos eramos pecadores.

'Pai, dá-me a parte dos bens – Segundo a lei Judaica, um pai não podia dispor da sua propriedade como quisesse. O filho mais velho tinha direito a dois terços e o mais novo a um terço da propriedade (Deuteronómio 21:17). Nesta terceira parábola o drama acentua-se, não se trata já da perda de uma ovelha, um dracma, nem mesmo de parte da propriedade; o que preocupa este pai é a perda do filho. Para entender a aflição daquele pai, recordemos a angústia de Jacob quando julgou ter perdido José, o seu filho mais novo e preferido, por ser filho de Raquel a mulher que ele amou à primeira vista e por quem teve de trabalhar 14 anos.

O drama deste pai, implícito na parábola, é a ingratidão do seu filho mais novo. Pedir a herança antes da morte, da sua morte, é como dizer-lhe: “Para mim já morreste por isso herança deve ser repartida; não vales pelo que és, ou por quem és para mim, mas pelo que tens, como não quero viver contigo não vou ficar aqui à espera da tua morte, quero o que me pertence já”.

E o pai repartiu os bens entre os dois – Apesar de profundamente ofendido pela ingratidão do seu filho, o pai não discute, nem tenta convence-lo de que está a proceder mal; sabe muito bem que o que ele não lhe conseguiu ensinar com amor a vida lho ensinará com dor; o erro e o sofrimento como consequência é muitas vezes parte integrante do processo de aprendizagem. De facto, aprendemos mais com os nossos erros de que com os nossos acertos; neste sentido “Não há males que por bem não venham”.

No respeitar a liberdade do homem, revela Deus Todo-Poderoso a sua impotência. Como não se pode obrigar um adulto a fazer o bem, tal como Deus, quantos pais contemplam como os seus filhos destroem as suas vidas, pelo vício ou a preguiça, sem nada poderem fazer.

Não há mulheres nesta parábola porque as mulheres naquele tempo nem possuíam bens nem eram herdeiras deles; mas vemos um pai com atitudes e rasgos que tradicionalmente são mais próprios de uma mãe, pelo que podemos dizer que a mulher, o caracter feminino, está também presente nesta parábola.

Poucos dias depois, (…) juntando tudo, partiu para uma terra longínqua e por lá esbanjou tudo quanto possuía, numa vida desregrada. Depois de gastar tudo, (…) começou a passar privações. (…) E, caindo em si, disse: 'Quantos jornaleiros de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome!

Caindo em si - Foi preciso cair bem fundo para cair em si e se dar conta da sua situação; passar fome, descer à condição de guardador de porcos, animal impuro por excelência, e nem sequer ter acesso às alfarrobas que estes comiam.

Deus intimior intimo meo est- Deus está para além do meu intimo; pelo que o caminho para Deus passa pelo profundo do meu ser; quando caminhamos para Deus caminhamos para uma maior consciência de nós mesmos; ao contrário, quando voltamos as costas a Deus, como o filho pródigo fez, voltamos as costas a nós mesmos; fora de si como os drogados, os alcoolizados, andou desvairado enquanto fugia de Deus e de si mesmo.

Não aceitava a sua realidade de ser filho de Deus, pelo que de certa forma, voltou à “animalidade”, ao tempo em que os seres humanos ainda primitivos não tinham consciência de si mesmos lá longe na evolução das espécies. Possuídos por uma paixão ou por um vício, quando fazemos o mal andamos fora de nós mesmos; perdemos a autoconsciência, o autocontrole, e a identidade.

Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e vou dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus jornaleiros.' E, levantando-se, foi ter com o pai.

Decide voltar não tanto porque estivesse arrependido, mas porque tem fome… primum vivere deinde filosofare… ao voltar ainda está à procura do seu interesse; volta porque tem fome e precisa de mais bens; não volta por saudades do pai, mas porque na sua casa até os servos estão melhor do que ele como guardador de porcos. Não é digno de ser filho, diz no seu discurso em preparação, e não parece interessado em ser filho.
   
O filho pródigo queria impor-se uma penitência; queria de alguma forma fazer restituição, compensar pelo que ele fez, mas o pai não o deixa concluir o discurso que tinha preparado de antemão, e detém-no após ter escutado a sua confissão.  Deus não precisa de nossa restituição e da nossa penitência para nos perdoar; Deus perdoa e esquece. Mas então e o purgatório? É uma necessidade da nossa natureza e não de Deus; porque Deus perdoa-nos mais facilmente e mais depressa do que nós nos perdoamos a nós mesmos.

Quando ainda estava longe, o pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos. O filho disse-lhe: 'Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho.' Mas o pai disse aos seus servos: 'Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha; dai-lhe um anel para o dedo e sandálias para os pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o; vamos fazer um banquete e alegrar-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado.' E a festa principiou.

Ao longe não é o filho que vê o pai, mas o pai que vê o filho por quem estava à espera, pois nunca deixou de o esperar, nunca se esqueceu dele e refez a sua vida, como se costuma dizer; ao contrário nunca o deu por perdido, nunca prescindiu dele e viveu na esperança de que ele um dia ia voltar. O lugar que ocupamos no seio de Deus não pode ser ocupado por mais ninguém e fica sempre vazio até que regressemos a Ele.

O filho fez um pouco de estrada em direcção ao pai e a ele mesmo, mas foi o pai quem mais estrada fez; pois foi ele que nunca o deu por irremediavelmente perdido, nunca o esqueceu, sempre esteve de atalaia à sua espera, e quando o filho se apresentou como jornaleiro ele sem ressentimentos e cheio de compaixão recebeu-o como filho. Abraça-o, não se abraçam jornaleiros, beija-o como a um filho e de igual para igual pois não o deixa ajoelhar-se, depois coloca-lhe um anel de herdeiro com o selo do poder; veste-lhe a veste melhor de filho predilecto, como Jacob fez com José. Por fim mata o bezerro mais cevado e é festa.

Ora, o filho mais velho (…) ouviu a música e as danças. Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. Disse-lhe ele: 'O teu irmão voltou e o teu pai matou o vitelo gordo, porque chegou são e salvo.' Encolerizado, não queria entrar;

O filho que pecou aprendeu uma lição; quantas vezes precisamos de nos ver privados das coisas para nos darmos conta do seu valor. O filho mais novo entendeu o que era o amor do pai porque o negou e porque fugiu para longe dele. O filho mais velho nunca chegou a entender. É precisamente neste sentido que Sto. Agostinho desenvolve a sua teologia da “Felix culpa” referindo-se ao pecado de Adão, e Lutero agrega o seu paradoxo “pecca fortiter”; se pecas peca forte pois só um pecado forte, é motivo para uma forte conversão. A “peccata minuta” do filho mais velho não o demoveu da sua vida também pecaminosa.

'Há já tantos anos que te sirvo sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos; e agora, ao chegar esse teu filho, que gastou os teus bens com meretrizes, mataste-lhe o vitelo gordo.' O pai respondeu-lhe: 'Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado.'» Lucas 15, 11-32

O pecado do filho mais novo foi rejeitar a paternidade do seu pai, o pecado do filho mais velho é o mesmo; também ele não se considera como filho mas como jornaleiro, entendendo o seu pai um capataz justiceiro pelo que lhe obedece não por amor mas por medo. Tal como o jovem rico e os fariseus nunca transgrediu um só mandamento. Cumpriam só a letra da lei porque, como bem dizia Jesus, o seu interior estava cheio de imundícia como fica claro pela forma como o filho mais velho descreve a vida dissoluta do seu irmão. O filho mais velho é, de alguma forma, como os que só se comportam bem diante da polícia e da autoridade; patrão fora dia santo na loja

Um filho verdadeiro partilha a vida e os bens com o pai e comporta-se segundo a “liberdade dos filhos de Deus” (Romanos 8,21). Por isso não precisava de pedir um cabrito pois dispunha da herança que é devida aos que são e se comportam como filhos de Deus (Mateus 25).

De como o filho pródigo gastou o dinheiro não o sabemos do narrador mas do filho mais velho; em todo o texto não se fala de prostitutas até o filho mais velho as mencionar apelando à possibilidade de que o pai fosse puritano e rigoroso contra este tipo de pecados. Há uma certa moralidade católica que julga toda a matéria sexual como pecaminosa e que faz a vista gorda aos pecados de justiça social.

Por outro lado, se psicanalisamos o enfase que o filho mais velho dá à forma como o seu irmão gastou o dinheiro chegamos à conclusão que afinal o filho pródigo só fez o que o irmão mais velho sempre quis e desejou, mas nunca teve a coragem de fazer. É, portanto, uma questão de inveja.

Ao contrário do filho mais novo que chama ao Pai, pai, o filho mais velho ao dirigir-se ao Pai não o trata como tal. E também não trata o irmão como irmão referindo-se a ele como “esse filho teu”. Quando Deus não é Pai os outros não são irmãos, mas sim inimigos ou rivais. Ante os quais sentimos inveja, ressentimento e ódio. Muito se fala do amor ao próximo como sendo o mais importante e a prova de que amamos a Deus; mas é só quando amamos a Deus que o nosso próximo é verdadeiramente próximo e não um estranho.

Uma catequista depois de ter contado a parábola do filho pródigo às crianças pediu-lhes que a contassem por palavras suas. Uma criança recontou parábola tal qual até ao momento em que o filho pródigo aparece no horizonte. Depois disse que quando pai viu o filho agarrou num cacete e pôs-se a correr ao encontro do filho.

No caminho encontrou o filho mais velho que lhe perguntou para onde ia, o pai disse-lhe que ia ao encontro do seu irmão, este ao ouvir que o seu irmão estava de volta agarrou também noutro cacete e foram ambos ao encontro do desgraçado que deixaram meio morto. Depois de terem ambos descarregado toda a raiva acumulada, disseram entre si façamos festa comamos e bebamos à saúde deste tratante.

Desta forma expressou, aquela criança, o que naturalmente qualquer pai do mundo faria, mas Deus Pai não é assim; porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor (Isaías 55. 8).
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de março de 2016

Este ano em Jerusalém!

2 comentários:

A noite passada enquanto dormia/ Sonhei que estava diante do templo/ na cidade velha de Jerusalém/ Ali ouvi vozes de crianças que me pareciam anjos do céu a cantar Jerusalém, Jerusalém, levanta as tuas portas e canta/ Hosana nas alturas, Hosana ao teu Rei.
Musica de Stephen Adams; Letra de Frederick E. Weatherly

Tal como o Natal deixou de ser, para muitos, a celebração do nascimento de Jesus, para ser a festa do Pai Natal e do calor físico e afetivo da intimidade familiar que contrasta com o frio e a neve fora de casa; Assim também a Páscoa deixou de ser a comemoração da paixão, morte e ressurreição de Jesus, para ser a festa do ovo e do coelhinho, que simbolizam o renascer da natureza na Primavera depois do longo letargo do Inverno.

Não sabemos ao certo quando nasceu, nem quando morreu Jesus de Nazaré. A colocação do seu nascimento no solstício de Inverno e da sua morte e ressurreição no equinócio da Primavera foi intencional; mas a intenção não era, como muitos pensam, cristianizar as celebrações pagãs desses eventos astronómicos e mudanças climatéricas.

A intenção era claramente teológica: Jesus nasceu quando os dias começam a crescer, ao fim e começo de um novo ano solar, pois Ele é o Alfa e o Omega, o principio e o fim de tudo quanto existe. Tal como o nosso planeta obtém a sua vida ao revolver-se à volta do sol, Jesus é para nós o sol à volta do qual giramos para obter vida.

Por outro lado, Jesus morreu e ressuscitou quando a terra renasce da morte aparente do inverno; se o outono nos recorda a velhice e o inverno a morte, a primavera, que como diz a cantiga vai e volta sempre, nos recorda a eternidade que conquistamos com o renascer de Cristo.

A pré historia da nossa Páscoa
A Ceia Pascal é uma refeição ritual, que toda família judia celebra, para comemorar a libertação do povo de Israel da escravidão do Egipto. Como ordena o livro do Êxodo (23, 8) durante a refeição deve ser recontada a historia da saída do povo do cativeiro. Ao fim desta ceia os comensais declaram em tom jubiloso “No próximo ano em Jerusalém”. 

Jerusalém foi sempre o objeto da saudade dos judeus da diáspora, expulsos da sua própria pátria; é bem conhecido o lamento destes no cativeiro da Babilónia: se me esquecer de ti, Jerusalém, fique ressequida a minha mão direita! Pegue-se-me a língua ao paladar, se eu não me lembrar de ti, se não fizer de Jerusalém a minha suprema alegria! (Salmo 137, 5-6)

No próximo ano em Jerusalém – Esta frase com a qual termina a ceia pascal é vista por muitos como anacrónica; sendo Israel hoje um estado moderno, ocupando mais ou menos a mesma terra que ocupava no tempo do rei David; vivendo hoje confortavelmente tanto os judeus de Israel com os da diáspora, não faz sentido repetir esta frase, e muito menos para os Judeus que vivem em Jerusalém permanentemente, a menos que a frase tenha um sentido mais escatológico.

Neste sentido para os judeus tradicionais refere-se á vinda do Messias e a reconstrução do templo; para os judeus liberais que não aceitam a ideia do Messias, nem de um judaísmo baseado no templo, a frase pode ter inúmeras interpretações que têm mais que ver com uma Jerusalém ideal e utópica e até celeste que está para vir que com a Jerusalém onde me encontro agora.

A última ceia de Cristo
Depois, tomou o cálice, deu graças e entregou-lho. Todos beberam dele. E Ele disse-lhes: «Isto é o meu sangue da aliança, que vai ser derramado por todos. Em verdade vos digo: não voltarei a beber do fruto da videira até ao dia em que o beba, novo, no Reino de Deus.» Após o canto dos salmos, saíram para o Monte das Oliveiras. (Marcos 14, 24-25)

Alguns dizem que a última ceia de Cristo foi decalcada da tradicional ceia pascal dos judeus, outros opinam que é algo novo. Como a ceia pascal dos judeus comemora a libertação da escravidão do Egipto enquanto que a de Cristo marca o momento de uma libertação maior, a de todo o género humano, qualquer que seja a conclusão da discussão serve o nosso objetivo.

Tal como os judeus de todos os tempos dizem ao fim da ceia pascal, “no próximo ano em Jerusalém” querendo com isto significar a esperança de um mundo melhor, assim como na continuação da vida na Jerusalém celeste, Jesus na última ceia com os seus discípulos ao dizer: não voltarei a beber do fruto da videira até ao dia em que o beba, novo, no Reino de Deus, afirma que esse futuro está para chegar e se cumpre Nele mesmo.

Jerusalém, Jerusalém...
Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados! Quantas vezes Eu quis juntar os teus filhos, como a galinha junta a sua ninhada debaixo das asas, e não quiseste! Agora, ficará deserta a vossa casa. Eu vo-lo digo: Não me vereis até chegar o dia em que digais: Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Lucas 13, 34-35


Jerusalém está dividida em 4 quarteirões: o muçulmano, o Judeu o cristão Arménio e o cristão árabe ou palestino, porque as três religiões do livro a têm por cidade santa. Para o Judaísmo é santa porque está construída à volta do Templo, o centro da fé judaica. Para os cristãos porque Jesus a visitou muitas vezes como bom judeu que era, nela morreu e ressuscitou.

Para os muçulmanos é santa porque estes afirmam que o profeta Maomé numa noite viajou de Meca para Medina e de Medina para Jerusalém, desde onde ascendeu ao céu mais precisamente no Templo no santo dos santos, onde hoje se encontra a mesquita da Rocha; em consequência, para os muçulmanos Jerusalém é a terceira cidade santa depois de Meca e Medina, por esta razão foi invadida logo após a morte do profeta.

Contra a ascensão ao céu de Maomé à imagem e semelhança de Jesus, fala o facto histórico da morte de Maomé, provavelmente por envenenamento, e o seu tumulo na mesquita verde de Medina. Para dar mais força à lenda da ascensão do profeta ao céu, atualmente a Arábia Saudita, contra o parecer de muitos muçulmanos, quer destruir e mesquita e o tumulo, exumando o corpo do profeta, sepultando-o numa sepultura anónima.

Infelizmente, para os que hoje exigem controlo total sobre Jerusalém, esta visita só pode ter sido um sonho, por muito que lhes custe admitir não existe qualquer evidencia ou prova que Maomé tenha viajado em carne e osso a Jerusalém, pois ainda não havia aviões supersónicos naquele tempo.

O que os muçulmanos alegam como facto histórico, o próprio profeta alega ter sido um sonho cujo contexto histórico era o de convencer os mais céticos que ele pertencia à linhagem dos profetas do judaísmo, Abraão, Moisés, Jesus. Ainda em relação a esta vinda a Jerusalém Aicha, a esposa favorita de Maomé, insistiu posteriormente de que nunca se tratou de uma deslocação real, mas sim de uma experiencia espiritual.

A ligação da fé muçulmana à cidade de Jerusalém é extremamente ténue, quando a comparamos com a que existe em relação ao judaísmo e ao cristianismo. A verdadeira razão pela qual os muçulmanos reivindicam Jerusalém como cidade Santa para eles é porque o judaísmo e o cristianismo, que eles a todo custo sempre quiseram suplantar, a declaram santa antes.

Durante todo o ano pelas ruas de Jerusalém observamos peregrinos judeus e cristãos de todo o mundo; os únicos muçulmanos que vemos são os que cá vivem; de facto a cidade está formatada para este tipo de peregrinos, por todo o lado se vêm lojas de souvenirs judeus e cristãos e nenhuma para muçulmanos; por si só a falta de peregrinos muçulmanos é uma prova contundente de que para eles esta cidade não é importante, e muitos deles nem acreditam que Maomé alguma vez esteve aqui.

Sendo a religião muçulmana uma mistura de judaísmo e cristianismo, adaptada â cultura beduína, desde Maomé até aos nossos dias que olham para estas religiões com uma certa inveja e crescem com a mentalidade de “nós também”, se os outros são nós também somos, se os outros têm nós também temos. A invasão de Jerusalém nada tem de diferente da invasão e exterminação do cristianismo em todo o norte de Africa e Turquia; e na Europa desde a península Ibérica até Posters, na França, onde foi parada.

Possuindo já eles duas cidades santas, ao declararem Jerusalém a terceira, estabelecendo-se na colina do templo, coração da fé judaica, deixaram os judeus sem lugar santo, com apenas a parede ocidental do templo, em frente da qual ainda hoje rezam e se lamentam feridos na sua fé e nacionalismo como quem tem um espinho enterrado na carne.

Hoje lugar proibido para os Judeus, a esplanada do Templo, é ocupada por duas mesquitas: a mesquita de Al Aksa ou a da cúpula de prata, e a mesquita da rocha ou a da cúpula dourada, construída sobre o santo dos santos do templo de Salomão, sendo a rocha o lugar onde Abraão ia sacrificar o seu filho Isac. A cúpula dourada pode ser vista desde qualquer angulo da cidade e arredores pelo que é hoje, anacronicamente, o ex libris de Jerusalém.

O conflito entre Israel e a palestina é fundamentalmente um conflito político e não religioso; a religião, no entanto é invocada e instrumentalizada por ambas as partes como desculpa para evitar fazer concessões, pois o que vem mandado por Deus não se discute ou põe em causa ou se abdica.

Uma ponte não se começa a fazer pelo meio, mas sim pelas margens que pretende unir. Do lado de Israel é fundamental que reconheçam o direito da palestina a uma Pátria, como eles tiveram e o mundo lhes deu. Do lado muçulmano é importante que reconheçam que muito do seu comportamento é governado por mitos lendas, e crenças que desafiam a razão pelo que é importante que purifiquem a sua fé de tudo o que está em colisão frontal com a ciência e até mesmo com o sentido comum.

Este ano em Jerusalém
Sobre este monte, (refere-se ao monte Sião Jerusalém) o Senhor do Universo há-de preparar para todos os povos um banquete de manjares suculentos, um banquete de vinhos deliciosos. (…) há-de tirar o véu que cobria todos os povos, o pano que envolvia todas as nações; Ele destruirá a morte para sempre. O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces e fará desaparecer da terra inteira o opróbrio que pesa sobre o seu povo. Isaías 25, 6-8

Como missionário, ao longo de 30 anos de ministério, já celebrei a Páscoa em diferentes países e localidades. Inspirado na tradicional frase de júbilo, que os judeus exclamam ao final de cada ceia Pascal, apetece-me dizer com igual júbilo e com a mesma esperança: Este ano em Jerusalém! Esta é a quarta vez que aqui venho, e espero que ainda não seja a última vez que piso a terra que o redentor pisou, mas é a primeira em que celebro a Páscoa do Senhor onde esta teve lugar há 2000 anos.

Jerusalém significa cidade de Paz, e, no entanto, anacronicamente, hoje dividida em quarto povos antagónicos que continuamente se digladiam, é difícil encontrar lugar que tenha sido palco de tantas guerras. Rezemos para que um dia Jerusalém faça jus ao seu nome e cumpra a profecia de Isaías de um banquete de manjares deliciosos e vinhos generosos.
Pe. Jorge Amaro, IMC

2 de março de 2016

Perdidos & Achados - Uma ovelha e uma dracma

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«Quem de vós, que possua cem ovelhas e tenha perdido uma delas, não deixa as outras noventa e nove no deserto, para ir à procura da que anda perdida, até a encontrar? Quando a encontra, põe-na alegremente aos ombros e, ao chegar a casa, chama os amigos e vizinhos e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida’. Lucas 15, 4-6

A ovelha perdida
Chacais, hienas e lobos são os inimigos declarados das ovelhas. Enquanto a maior parte dos animais matam por necessidade, os lobos não se contentam em degolar uma ovelha e come-la em santa Paz; ao contrário degolam-nas todas e não descansam enquanto virem uma ovelha em pé; parece que sentem prazer em matar.

Quando era criança e pastor levava o meu pequeno rebanho para longe e alguma vez escondia-me das ovelhas para ver a sua reação; as ovelhas comiam tranquilas com um olho na erva outro no pastor, mas se deixavam de ver o pastor levantavam a cabeça, calavam-se os chocalhos, olhavam para todas as direções e se não me viam desatavam numa correria louca à desbandada para regressar a casa, eu levantava-me do meu esconderijo, assobiava e elas voltavam.

Tendo isto em conta, se um pastor estiver sozinho a tomar conta do rebanho, é de todo inverosímil que o abandone, que coloque em risco 99 ovelhas por uma que se perdeu. Ao sumo asseguraria primeiro as 99 e só depois iria em busca da perdida.

Este pastor é especial, e usa uma matemática diferente: para ele, 99 é igual a uma e uma igual a 99. Deus não tem as mesmas prioridades, as 99 são deixadas por uma única.  Conta-se que a uma mãe de 9 filhos, a quem falecera um, lhe foi dito a modo de consolação que não devia chorar pois ainda ficava com 8; ela prontamente espondeu “tenho 8 mas não tenho aquele”. O lugar que ocupamos no coração de Deus não é ocupável por outra pessoa. É aqui que reside a dignidade da pessoa humana, somos únicos para Deus; pelo que, quando alguém se perde Deus fica à espera, como o pai do filho pródigo, que ele regresse. E de facto, no caso da parábola, o filho pródigo veio ocupar o lugar que só a ele pertencia e que ninguém mais podia ocupar.

No entanto, segundo a nossa mentalidade, as 99 têm razão para se ressentir e nós vemos esse ressentimento no filho mais velho da parábola dos dois filhos. Dando voz ao ressentimento do segundo filho, podemos dizer, essa ovelha que se perdeu se calhar não quer ser encontrada, tem o que merecia por se portar mal.

Para cúmulo, quando a encontra não a traz de rastos a xutos ou a pontapés, mas coloca-a aos ombros e não só faz uma grande festa como até tem o desplante de dizer que haverá mais alegria no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não precisam de se arrepender. (Lc 15, 7).

Pastoral ou Evangelização?
A contrário deste pastor divino, a Igreja pouco se importou com a ovelha perdida dizendo-se ainda temos 99 para cuidar. Para estas 99 apareceram montes de pastorais: pastoral universitária, pastoral da juventude, pastoral dos doentes etc…

Hoje estatisticamente 99 são as perdidas e uma só faz ainda parte do rebanho. Apesar de se ter invertido a parábola, a atitude passiva dos pastores, que agora se dedicam a engordar uma só ovelha, não mudou. Ainda temos uma, dirão agora…

Será que faz ainda sentido continuar a dizer pastoral disto ou daquilo? Quando dizemos pastoral universitária ou pastoral sanitária, não é muita pretensão da nossa parte considerar ovelhas do nosso rebanho os dois mil alunos de uma universidade ou as centenas de doentes de um hospital?

Se colocássemos a palavra evangelização onde antes colocávamos pastoral faríamos mais jus à realidade; seriamos mais honestos connosco próprios e por ventura esta realidade nua a crua nos levaria a trocar a atitude passiva do pastor pela proactiva do “pescador de homens” que Jesus tanto queria que fossemos.

Misericórdia & Missão
E a verdade é que tudo o que foi escrito no passado foi escrito para nossa instrução, a fim de que, pela paciência e pela consolação, que nos dão as Escrituras, tenhamos esperança. Que o Deus da paciência e da consolação vos conceda toda a união nos mesmos sentimentos, uns com os outros, segundo a vontade de Cristo Jesus. Romanos 15, 4-5

Neste sentido podemos ver a misericórdia como forma de Missão e a Missão como obra de misericórdia. E é precisamente isso que sugere o logotipo do ano da Misericórdia, proclamado pelo Papa Francisco. Ir em busca da ovelha perdida é ao mesmo tempo uma obra de misericórdia e missão como nova evangelização. De facto, no logotipo, a guisa de ovelha perdida, aos ombros do bom Pastor não vem uma ovelha, mas sim um ser humano, ou seja, o filho pródigo.

Não havendo melhor consolação que viver o evangelho, que nos acalenta e ser testemunhas dele para que outros usufruam dessa mesma consolação, façamos missão no sentido de Isaías que diz, "Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus". (Is 40,1)

A dracma perdida
Ou qual é a mulher que, tendo dez dracmas, se perde uma, não acende a candeia, não varre a casa e não procura cuidadosamente até a encontrar? E, ao encontrá-la, convoca as amigas e vizinhas e diz: 'Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma perdida.' Digo-vos: Assim há alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se converte.» Lucas 15, 8-10

Ficamos escandalizados com a atitude de Jesus para com as 99. No entanto para Jesus as 99 também estão perdidas, a diferença é que a ovelha perdida e o filho pródigo perderam-se para fora do redil: a dracma, o filho mais velho, e as 99 nunca saíram de casa mas em casa, viviam como perdidos, de Deus e de si mesmos.

Uma dracma era um dia de trabalho, portanto foi muito o que se perdeu. A mulher varre a casa na esperança de a encontrar ao encontra-la faz festa; Deus faz festa por cada um de nós.

Os que lá vão são os piores
É certo que esta lamuria tem servido a muitos como justificação da sua não participação nos sacramentos, considerando-se, mesmo assim cristãos, mas não praticantes; porém o mau exemplo que dão, nos caminhos da vida, os cristãos praticantes, faz esta afirmação não poucas vezes verdadeira; ou seja, em nada se nota nas suas vidas que as práticas surtam algum efeito existencialmente.

Por esta razão seria bom que se criasse algum mecanismo pelo qual os cristãos pudessem fazer uma psicanalise às razões pelas quais praticam os sacramentos; que se verificasse o lugar que ocupa a pratica religiosa nas suas vidas e verificar se é motor de uma vida nova em continua conversão e progresso, ou se ao contrário, aliena e justifica um certo modus vivendi ou status quo..

Quando vivia na Etiópia verifiquei como a ignorância matava muitos doentes de tuberculose. Virgens aos antibióticos, os doentes etíopes aos dois meses de tomar a estreptomicina sentindo-se completamente curados abandonavam o tratamento. Bem sabíamos nós que não estavam completamente curados e quando a doença voltava era muito mais virulenta e resistente aos antibióticos pelo que muitos morriam.

Neste sentido, a Organização Mundial da Saúde alerta ao abuso de antibióticos para pequenas moléstias pois faz com que o corpo se habitue a eles e quando são realmente precisas já não surtem qualquer feito. Isto mesmo acontece a nível eclesial, os sacramentos são autênticos antibióticos para matar os micróbios e as bactérias do mal; mas quando se abusa deles, ou se praticam por rotina, deixam de surtir efeito.

Também a Palavra de Deus, que muitas vezes ouvem os cristãos praticantes, corre o risco de soar a “Dejà vu” pelo que já nem penetra no nosso íntimo, desta feita transformamo-nos no primeiro terreno da parábola do semeador.

Ao combinar as duas parábolas, concluímos que as 99 ovelhas não estavam menos perdidas que uma. No rebanho do Senhor nem estão todos os que são nem são todos os que estão.
Pe. Jorge Amaro, IMC






1 de fevereiro de 2016

Perdidos & Achados - Quem são os pecadores?

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Nas grandes superfícies comerciais, nas Igrejas e em geral onde se encontram grandes multidões há sempre um local para entregar as coisas que uns perdem e outros acham. As crianças perdem-se com frequência, pois não são ainda autónomas e não sabem como orientar-se. No sentido existencial há muita gente perdida e muitos destes acham que não o estão. O evangelho é a melhor loja de perdidos e achados.

Não há capítulo tão conhecido em todo o Novo Testamento como o capítulo 15 do evangelho de São Lucas. É chamado o evangelho dentro do evangelho, pois apresenta e representa a essência da mensagem de Jesus. É também chamado o evangelho da misericórdia.

Comer com pecadores
Os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo: «Este homem acolhe os pecadores e come com eles». Lucas 15, 2

O Mestre fala em parábolas quando tem que explicar algo abstracto, como o Reino de Deus, ou quando o interrogam ou criticam o seu comportamento. O capítulo 15, do evangelho de Lucas, é composto por três parábolas sobre a misericórdia; o que motiva estas parábolas foi a crítica dos fariseus sobre o facto de Jesus comer com os pecadores, os socialmente proscritos.

Quem eram os pecadores? – Depois de Sto Agostinho ter dito, “Homo simul justus et peccator”, todos nos consideramos um pouco justos e um pouco pecadores. Afirmar-se justo seria igual a dizer-se santo e por muito fanfarrões que sejamos ninguém se atreveria a tal.

Nos tempos de Jesus não era assim; os mestres da lei, os escribas e os fariseus tinham-se a si mesmos como justos, pecadores eram os cobradores de impostos, porque eram aliados do invasor romano, as prostitutas por razões obvias, os pastores por passarem muito tempo apartados da comunidade e, por regra geral, todo o povo que não se dedicava ao cumprimento da lei com a meticulosidade com que o faziam os profissionais religiosos.

Comer com pecadores - “Junta-te aos bons e serás como eles, junta-te aos maus e serás pior que eles” - Jesus já tinha sido acusado de andar com pecadores, agora porém a acusação é ainda mais forte, ele come com eles à mesa. Na nossa mentalidade ocidental moderna comer com uma pessoa má à mesa nada significa, mas não era assim na mentalidade da gente no tempo de Jesus. No médio oriente a comida é a fonte da vida; os que partilham da mesma fonte de vida estão unidos entre si.

Por esta mesma razão na Etiópia, ainda hoje, os muçulmanos não comem a carne dos cristãos e vice-versa, os cristãos não comem a carne dos muçulmanos. Nas cidades onde vivem cristãos e muçulmanos há talhos de carne para muçulmanos e talhos de carne para cristãos. No acto de abater um animal são ditas orações próprias, pelo que se o animal é abatido por um muçulmano a sua carne é para o consumo exclusivo de muçulmanos; se a comessem os cristãos seriam considerados muçulmanos. Isto mesmo fez um colega meu sacerdote, para ridicularizar esta tradição, em consequência nunca ninguém quis participar nas eucaristias por ele celebradas.

Para os fariseus portanto, se Jesus come com os pecadores significa que é pecador e partilha da mesma vida do pecado com eles. Mas Jesus pensa de outra maneira, come com os pecadores não para se tornar pecador, mas para que os pecadores se tornem como ele. Ao fazer-se amigo dos pecadores e comer com eles, Jesus mostra que a bondade de Deus destina-se a levar os pecadores ao arrependimento (Romanos 2,4)

Mistério da Incarnação - Jesus, viveu com os pecadores, não para se juntar a eles nos seus caminhos pecaminosos, mas para lhes apresentar a boa notícia de que o perdão estava disponível. Muitos foram de facto os pecadores que, ao experimentarem em Jesus o acolhimento, a ausência de crítica, a bondade e o amor incondicional, reconheceram o próprio pecado e converteram-se; exemplo claro disto é o episódio de Zaqueu (Lc 19, 1-10). Do ponto de vista psicológico, ou de “savoir faire”, Jesus usava a melhor estratégia, como dizemos hoje em dia “com fel não se caçam moscas”. Não é com ódio que se vence o inimigo, mas com amor; o ódio ainda o faz mais forte e mais inimigo.

Jesus morreu por nós quando ainda eramos pecadores, (Rom 5,8). A morte de Jesus é o culminar do mistério da encarnação pela qual, segundo Sto Ireneo, “Deus se fez homem para que o homem se faça Deus”. O seu rebaixamento está em função da nossa elevação à categoria de filhos de Deus.

O mistério da encarnação pode ser já antevisto na mensagem do profeta Oseias. Este profeta deliberadamente casa-se com uma prostituta, para que ela se tornasse virgem e voltasse aos tempos do namoro. Com isto queria dizer o profeta que Deus estava casado com um povo infiel, que se prostituía adorando os deuses falsos de Baal; em contrapartida, Deus, representado no profeta, é fiel e não perdeu a esperança de guiar o povo a fidelidade do tempo do noivado ou seja, durante a travessia do deserto desde o Egipto até à terra prometida

Chama a todos porque todos são pecadores
Os fariseus, vendo isto, diziam aos discípulos: «Porque é que o vosso Mestre come com os cobradores de impostos e os pecadores?» Jesus ouviu-os e respondeu-lhes: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício. Porque Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.» (Mt. 9, 11-13)

Jesus não pode ter dito isto aos fariseus e aos doutores da lei sem uma pisca de ironia um tanto ou quanto sarcástica. Deus não quer sacrifícios frios e rituais, mas que reconheçamos que somos pecadores, que estamos em dívida com Ele, que aceitemos o Seu perdão e a Sua misericórdia e depois, como sugere a parábola do credor incompassivo (Mt 18, 23-35 sejamos também misericordiosos com os outros.

“Se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós” (1ª Jo 1,8). Para Jesus ninguém é justo diante de Deus, todos somos pecadores e precisamos da misericórdia divina. Como refere muito bem São João os que, como os fariseus e doutores da lei, se consideram justos, são mentirosos e desonestos, têm não só uma falsa imagem de si mesmos como também uma falsa imagem de Deus.

As três parábolas que se seguem, no capítulo 15 de Lucas também chamado evangelho da misericórdia, ilustram a razão pela qual Jesus, não só anda e come com pecadores, como até escolhe alguns deles para apóstolos.

As primeiras duas, a parábola da Ovelha e da Dracma perdidas são apenas uma introdução à grande parábola do filho pródigo; nelas enunciam-se temas que são depois melhor explicados e desenvolvidos na terceira parábola. Por si só estas duas parábolas, mais que passar uma mensagem, escandalizariam o ouvinte: que sentido tem que um pastor abandone no deserto 99 ovelhas à mercê dos lobos, para ir à procura de uma perdida e festeje o seu encontro?

Da mesma forma também parece ser muito extravagante que uma mulher chame as vizinhas para festejar o encontro de um dracma que tinha perdido em casa. No entanto, quando são seguidas da parábola do filho prodigo servem para despertar a atenção do ouvinte e coloca-lo num estado de maior concentração e em expectativa da parábola seguinte.

Sendo na primeira parábola protagonista um homem e na segunda uma mulher, Jesus quer-nos dizer que vem chamar a todos os pecadores sem distinção de género, nacionalidade, estatuto social, ou quaisquer outras distinções. Por outro lado, quando olhamos para as três parábolas como um todo Jesus quer que concluamos que todos estão perdidos, ou seja todos são pecadores e todos podem ser encontrados e ser recipientes e destinatários da misericórdia divina.

Portanto tão pecadores são a ovelha e o filho pródigo, que se perderam para fora do rebanho e abandonaram a casa do Pai, como a moeda e o filho mais velho que viviam perdidos dentro da casa. Pecadores fora do rebanho e de casa eram os publicanos, as prostitutas e a raia miúda em geral; pecadores dentro do rebando e de casa eram os que se consideravam justos, os fariseus, os doutores da lei e os escribas.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de janeiro de 2016

Ante a miséria misericordia

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Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai. (…) Tal misericórdia tornou-se viva, visível e atingiu o seu clímax em Jesus de Nazaré. Misericordiae Vultus

Deus que ao longo do Antigo Testamento se revelou como sendo misericordioso e clemente, vagaroso na ira, cheio de bondade e de fidelidade, que mantém a sua graça até à milésima geração, que perdoa a iniquidade, a rebeldia e o pecado, (Ex. 34, 6-7) revela o seu verdadeiro rosto em Jesus de Nazaré. Jesus encarna na sua vida mortal a misericórdia de Deus. Vamos ver como, em diversos episódios da sua vida pública.

Compaixão pelas multidões
Contemplando a multidão, encheu-se de compaixão por ela, pois estava cansada e abatida, como ovelhas sem pastor. (…) Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e, cheio de misericórdia para com ela, curou os seus enfermos. (…) Tenho compaixão desta multidão. Há já três dias que permanecem junto de mim e não têm que comer. Se os mandar embora em jejum para suas casas, desfalecerão no caminho, e alguns vieram de longe. Mateus 9, 36; 14, 14; 15, 32

A palavra usada aqui para significar teve compaixão (splagchnizomai) é a mais forte na língua grega quando se fala de misericórdia, comiseração, ter pena de alguém. Vem de splanxma, que significa entranhas, e descreve o grau de compaixão que comove e faz estremecer uma pessoa até ao mais profundo do seu ser. Aparte do seu uso em algumas parábolas, nos evangelhos só é usada nos episódios que aqui nos propomos estudar: Mateus 9,36; 14,14; 20, 34: Marcos 1, 41 e Lucas 7, 13.

O pão da alma - Jesus sente compaixão pelas multidões, pelo povo em geral, porque andam como ovelhas sem pastor. Como dizia Paulo VI, a fome do espirito é bem pior que a fome do corpo. Um espirito subalimentado não é autónomo, não pode guiar a sua vida, não pode chegar à auto-realização e à felicidade. Ante estas multidões errantes, que não encontram o sentido da vida, Jesus ensina-os e apresenta-se ante eles como caminho, verdade e vida; como modelo a seguir.

Em verdade todos nós, tal como ovelhas perdidas, andamos errantes; cada ser humano tomou o seu próprio caminho… (Isaías 53,6). Jesus deu-nos razões para viver, como pessoas individuais e como membros de um povo de um rebanho do qual Ele é o pastor.

A saúde – Cheio de compaixão ante o sofrimento humano causado por varias doenças, Jesus curou-os; afligido com as aflições dos outros, não suportava ver ninguém a sofrer, logo tratava de terminar esse sofrimento. Em vez de dizermos que Jesus é a nossa salvação bem podíamos dizer que é a nossa saúde. “Salus” do latim significa saúde e não salvação. Grande parte da vida de Jesus foi passada sendo médico, curando todo o tipo de doenças porque sem saúde não há vida. Jesus traz saúde para o corpo, saúde para o nosso psiquismo, saúde para a nossa alma, para o nosso espirito, saúde para a nossa consciência moral e a vida passada, saúde para o nosso corpo.

O pão do corpo – Por causa da fome do espírito as pessoas, ávidas das palavras do Senhor, ( porque falava com autoridade dizem os evangelhos ou seja era um autoridade em tudo o que dizia) permaneceram três dias como ele e por fim tinham fome. Jesus não os podia despedir sem lhes dar algo para comer e restaurar as suas forças para o caminho. Isso queriam os apóstolos despacha-los, que fossem eles buscar a comida, mas Jesus insistiu que fossem eles a providenciar….

Primum vivere deinde philosophari - Bem conhecia Jesus a hierarquia das necessidades de Maslow, por isso não se preocupa só com uns aspectos da vida humana, como pretendiam os discípulos que fizesse, mas com todos, por isso não podia deixar ir a multidão sem dar-lhes ele mesmo de comer…. Pão para as nossas bocas, a satisfação das nossas necessidades materiais é o que também pedimos no Pai Nosso.

Compaixão pelos marginados
Quando iam a sair de Jericó, uma grande multidão seguiu Jesus. Nisto, dois cegos que estavam sentados à beira da estrada, ao ouvirem dizer que Jesus ia a passar, começaram a gritar: «Senhor, Filho de David, tem misericórdia de nós!» (…) Jesus parou, chamou-os e perguntou-lhes: «Que quereis que vos faça?» Responderam-lhe: «Senhor, que os nossos olhos se abram!» Dominado pela compaixão, Jesus tocou-lhes nos olhos. Imediatamente recuperaram a vista e seguiram-no. Mateus 20, 29-34

Jericó, a cidade mais antiga do mundo, data do ano 9.000 antes de Cristo. Na bíblia significa e é o símbolo do pecado. A parábola do Samaritano fala-nos de um homem que caiu nas mãos dos salteadores porque descida de Jerusalém para Jericó; vinha da graça para o pecado. Jesus quer salvar a humanidade do pecado, por isso vem a Jericó; encarnou na raça humana que era pecadora. O evangelho mostra-nos Jesus já a sair da cidade acompanhado pela multidão dos que tendo experimentado a salvação agora o seguiam como discípulos.

À beira deste caminho, que leva à salvação, estavam dois cegos, que não podiam andar pela estrada pois não a viam. Ouviram falar daquele que é caminho, verdade e vida e não queriam perder a oportunidade única que agora se lhes apresentava. Há de facto oportunidades que só aparecem uma vez na vida. Por isso apesar do obstáculo da multidão, que os mandava calar, eles gritaram mais forte agarrando-se à única tábua de salvação que era o Senhor.

Jesus pergunta-lhes o que querem, pois podiam não querer mudar de vida, podiam só querer umas moedas para perpetuar a vida de dependência que levavam sem ter de trabalhar; muitos de facto preferem que lhes deem um peixe e não uma cana para pescar. Por isso respeitoso Jesus pergunta e só depois, de ouvir a sua resposta de que de facto querem mudar de vida e também eles abandonar Jericó, o pecado, é que Jesus é dominado pela compaixão e os cura.

Na versão de Marcos (10,46-52) o cego é um só e devia ser bem conhecido pois tem nome e chama-se Bartimeu; é encorajado pelos que antes o queriam calar quando Jesus o chama, e este tão ávido de salvação dá um salto para Jesus, abandonando a capa que o cobria e o ligava a uma vida de dependência, da qual ele se queria libertar.

Compaixão pelos excluídos
Um leproso veio ter com Ele, caiu de joelhos e suplicou: «Se quiseres, podes purificar-me.» Compadecido, Jesus estendeu a mão, tocou-o e disse: «Quero, fica purificado.» Imediatamente a lepra deixou-o, e ficou purificado. Marcos 1, 40-41

Naqueles tempos e em grande medida ainda hoje, como vi na Etiópia, não há doença mais terrível que a lepra; desfigura o rosto, mata-te socialmente muito antes de te matar individualmente. O leproso ainda hoje é forçado a deixar a sua família e a viver numa aldeia onde só vivem leprosos.

Nos tempos de Jesus viviam escondidos e tinham de gritar impuro, se alguém inadvertidamente se abeirava dos lugares onde eles habitavam. O leproso era um vivo morto, e um morto vivo. Quando Jesus envia os seus discípulos em Missão diz-lhe para curar os doentes e limpar os leprosos, (Mt 10,8).

O leproso quebrou a lei de Moisés ao vir ter com Jesus; no entanto Este em vez de o mandar embora, respondeu ao seu desespero com compreensão e compaixão. Jesus quebrou também a lei quando o tocou, mas para Ele o leproso não era um impuro, mas sim uma alma desesperada à procura de ajuda.

Compaixão e projecção
(…) Levavam um defunto a sepultar, filho único de sua mãe, que era viúva; (…) Vendo-a, o Senhor compadeceu-se dela e disse-lhe: «Não chores.» Aproximando-se, tocou no caixão, e os que o transportavam pararam. Disse então: «Jovem, Eu te ordeno: Levanta-te!» O morto sentou-se e começou a falar. E Jesus entregou-o à sua mãe. Lucas 7, 12-15

Filho único de sua mãe, que era viúva – Ao revelar-nos a identidade do defunto, São Lucas, com o mínimo de palavras descreve o máximo de dor; a dor mais excruciante que um ser humano pode suportar. O normal é que os pais partam antes dos filhos e não os filhos antes dos pais; é quase contra as leis da natureza que uma mãe vá sepultar um filho. “Eu não vou sepultar o meu filho, o meu filho é que me vai sepultar a mim” palavras de um pai que sequestrou a sala de operações de um hospital e obrigou os médicos a operar o seu filho, apontando-lhes uma pistola pois ele não tinha dinheiro para pagar a operação.

Para cúmulo, como nos diz o evangelho, esta mulher já era viúva. O seu único filho era também a sua única esperança de vida, pois as mulheres naquele tempo não podiam ter propriedade. Jesus observa a situação e ainda de longe já esta cheio de compaixão pelo que, ao aproximar-se, é ele que toma a iniciativa e dirige a palavra àquela a quem ele quer enxugar as lágrimas.

Tenho para mim que Jesus projectou na viúva de Nain toda a dor que a sua própria mãe, Maria, iria sentir quando, sendo ela também já viúva, fosse sepultar o seu único filho Jesus. Então Jesus fez pela viúva de Nain o que não ia poder fazer pela sua própria mãe. Pôde enxugar as lágrimas da viúva de Nain, mas não pôde enxugar as da sua própria mãe. Não há cena mais enternecedora que a Pietá de Miguel Ângelo, toda uma antítese do Natal, Jesus adulto morto no regaço de sua mãe.

Ante a miséria misericórdia
Os doutores da Lei e os fariseus trouxeram-lhe certa mulher apanhada em adultério, colocaram-na no meio e disseram-lhe: «Mestre, esta mulher foi apanhada a pecar em flagrante adultério. Moisés, na Lei, mandou-nos matar à pedrada tais mulheres. E Tu que dizes?» (…) «Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra (…) Ao ouvirem isto, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher que estava no meio deles. Então, Jesus ergueu-se e perguntou-lhe: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?» Ela respondeu: «Ninguém, Senhor.» Disse-lhe Jesus: «Também Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não tornes a pecar.» João 8, 3-11

Os Judeus queriam colocar o talante misericordioso de Jesus, para com os pecadores, em contradição com a lei de Moisés que no livro do Levítico (20, 10) mandava de facto apedrejar tais mulheres. A atitude de Jesus é tanto mais de louvar se pensarmos que depois de dois mil anos, actualmente, nos países muçulmanos governados pela Sharia isto ainda acontece.

Não é a primeira vez que Jesus é colocado ante um dilema; se não a condena transgride a lei, se a condena contradiz a sua atitude de misericórdia para com os pecadores. Como em outras ocasiões Jesus não obedece aos termos da questão, com o seu silêncio convida os acusadores e também a mulher a um exame de consciência. Ante a insistência dos acusadores, Jesus questiona a sua autoridade como juízes; ao escrever na areia com o dedo recorda, segundo Sto Agostinho, que Deus escreveu as tábuas da lei com o seu dedo, ao mesmo tempo afirma-se como o verdadeiro legislador, aquele que é mais que Moisés. Jesus nem desrespeitou a lei nem contradisse a sua misericórdia.

A nossa tendência é deitar fora o menino com a água da banheira; não conseguirmos distinguir entre o pecado e o pecador. Como era o caso dos fariseus, condenamos mais o pecador que o pecado, porque de facto não estamos isentos; é hipocrisia que pecadores julguem pecadores. Neste, como noutros episódios, Jesus condena o pecado sem condenar o pecador.

Esta mulher foi usada primeiro como instrumento de prazer, por aquele que cometeu adultério com ela; objecto de deleite para todos os que contemplam a sua nudez e se regozijam com a sua vergonha; no seu intento de apedreja-la os fariseus querem usa-la como bode expiatório dos seus próprios pecados; o povo em geral pretende usa-la como objecto do prazer sádico que envolve todos os espectáculos cruéis de linchamentos populares.

Humilhada, ao ver exposto o seu pecado, envergonhada no meio da multidão, desgraçada por ter perdido a sua reputação, aterrada ante a tortura que a esperava. É provável que ante tanta miséria ela mesma desejasse a morte.

Depois de expor a hipocrisia dos que a expuseram, ao fim ficaram só os dois; como diz Sto Agostinho a miséria e a misericórdia. Para não vexa-la ainda mais, sem olhar para ela desde a mansidão, empatia e misericórdia, com que trata as mulheres no evangelho de Lucas, Jesus dirige-se a ela como pessoa e fala-lhe com uma ternura incomensurável, devolvendo-lhe a vida e a dignidade.
Pe. Jorge Amaro, IMC