1 de julho de 2026

A primazia ou primado de Pedro

(…) tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus: o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus. Mateus 16, 18-19

Marcos em 8,27-30, e Lucas em 9,18-21 referem-se a este episódio, da ida de Jesus à Cesareia de Filipe às nascentes do rio Jordão, no sopé do monte Hérmon, onde começa o vale de Rift o mais longo e o mais profundo do planeta no qual nasceu a raça humana. 

Os três evangelistas sinóticos coincidem na confissão de Pedro. Não sabemos se a sua confissão de fé em Jesus como mais que um profeta, como o Messias, teria sido uma convicção individual ou se atuou como porta-voz do grupo. Em ambos casos mostra a sua liderança no grupo. 

O episódio das chaves, porém só Mateus o revela assim como a palavra Igreja que não aparece em nenhum outro evangelho, e em Mateus só aqui aparece. Sendo isto um facto o poder das chaves é questionável e, no entanto, ao longo da história na Igreja católica foi lhe dado exagerada importância.

Quem tem as chaves de um templo tem o poder de abri e fechar, de abrir para quem quer e fechar para quem não quer. É o poder de excomungar e entender que essa excomunhão essa condenação tem igual valor no Céu como o tem na terra. Foi o poder das chaves que justificou tantas excomunhões injustas e todos os crimes da Inquisição. 

Podemos, portanto, concordar com os protestantes e os ortodoxos, pois os outros evangelhos não o mencionam. Porém, o facto de que Simão filho de João o leader eleito por Jesus, que exe
rce já essa liderança em tempos do mesmo Mestre e depois no livro dos Atos dos Apóstolos é inegável só cegos protestantes e ortodoxos cegados pela sua ideologia o não veem. 

Prova desta liderança durante o tempo de Jesus é o facto de que os filhos de Zebedeu companheiros de Pedro no círculo íntimo dos discípulos de Jesus, querem provocar um golpe de estado e usurpar o poder que ostentava pedro quando sem vergonha nenhuma lhe pediram ao Senho de sentar-se um à direita e outro à esquerda no reino. Se Pedro não tivesse e exercesse uma liderança não era preciso este claro golpe de estado por parte de Tiago e João (Marcos 10, 35-45).

Ao nomear a lista dos apóstolos os três sinópticos (Marcos 3, 13-19, Mateus 10,1-4; Lucas 6,12-16), concordam ao colocar o nome de Sião a quem o mestre apelidou de Pedro, em primeiro lugar. Neste caso até o evangelho de João se une ao coro dos sinópticos quando em João 1, 42, André leva o seu irmão a Jesus, também neste caso Jesus chama Pedro a Simão. 

Depois de Jesus, quem dá o pontapé de saída da Igreja com um grande discurso publico segundo o livro dos atos dos apóstolos é Pedro, ais tarde é Pedro que fala pelo grupo no Sinédrio, é Pedro que vai para a prisão e é Pedro que sai milagrosamente da prisão. É Pedro que alerta os demais apóstolos que falta uma para completar o número de 12 e ocupar o lugar de Judas iscariotes, e por fim é Pedro que no concilio de Jerusalém concilia as duas fações a do cristianismo, uma com a outra a de Paulo, com a de Tago o irmão do Senhor. 

A escritura fala muitas vezes dos apóstolos em geral. De entre os doze, alguns não são nomeados mais que quando se enumera a lista dos apóstolos; outros são nomeados um par de vezes. Sem dúvida, a figura mais emblemática dos doze é Pedro. Além de fazer parte dos doze faz também parte do círculo íntimo de Jesus, composto, além dele mesmo, por Tiago e João. É o porta-voz do grupo e o líder consagrado pelo próprio Cristo.

Sondagem à opinião pública
Jesus não precisava de saber o que os outros pensavam d’Ele por questões de autoestima ou para ver se tinha que imprimir outra direção ao seu ministério. A pergunta é mais bem retórica e preparatória da mais importante que era “E vós quem dizeis que Eu sou?”

Perante esta pergunta pessoal que Jesus dirige a cada um de nós, não podemos responder como Pilatos, por ouvir dizer; devemos buscar a resposta dentro de nós, esta resposta deve ser nossa; não podemos viver toda a vida com a fé que os nossos pais nos emprestaram no batismo.

Experiência – pregação – fé – experiência: este é o processo da fé que nos permite dar uma resposta pessoal à pergunta acima referida. Tal como a mezinha que a nossa vizinha toma e acaba curada, tudo começa na experiência; a experiência não é segredo que se possa levar para a sepultura, pois produz uma alegria tamanha que só nos sentimos bem pregando-a, divulgando-a, como se nos tivesse saído a lotaria: leva à pregação, ao anúncio. 

Na verdade, o conteúdo da pregação cristã não é outro senão dizer “O Senhor fez em mim maravilhas”, ou seja, relatar como o Senhor nos salvou, tal como a vizinha testemunha sobre a mezinha que a curou. Este anúncio tão convincente gera fé em quem O ouve e testemunha, e esta fé leva a que tomemos a mezinha, ou seja, leva-nos a provar, a experimentar a Cristo.

A pergunta não era bem “quem dizeis vós que Eu sou”, mas sim “que experiência tendes de Mim, que concluís depois de comer e beber, viver, ver e ouvir”. Ninguém fica bêbado por pronunciar a palavra vinho, mesmo que o faça milhares de vezes, mas sim por bebê-lo.

Petrus simul justus ed peccator
“Homo simul Justus ed peccator” como dizia Santo Agostinho, também se aplica a Pedro; Jesus não o escolheu por ser santo. Bem vemos que não o era e os apóstolos não lavam a roupa suja em casa, mas optam por expô-la e assim nos mostram a personalidade dos apóstolos, sobretudo de Pedro, com as suas luzes e as suas sombras. 

O próprio Pedro recorda a Jesus que é pecador ao dizer “afasta-Te de mim que sou pecador”. Jesus escolhe-o não pelo que ele era, mas por aquilo que podia ser com a ajuda da graça de Deus. De facto, proclamar Jesus como o Messias não foi uma dedução resultante de um pensamento sistemático, ou reflexão ou estudo, mas sim de uma intuição do Espírito Santo, pois não foi a carne que o revelou.

Era um homem impulsivo, entusiasta, mas também medricas e até covarde. Tanto agarra na espada e corta a orelha do servo do sumo sacerdote como, por covardia, nega conhecer o Senhor. Diz que nunca O deixaria e aconselha Jesus a não ir a Jerusalém: É um dos que foge e até mais tarde da perseguição de Roma, como diz a tradição “quo vadis”. Mostra-se forte na tempestade – manda-me ir ter contigo” – e depois tem medo e afunda-se, não por causa da tempestade, mas pelo medo.

Rock & Roll Pedro e Paulo
Os evangelhos – Todos os quatro evangelhos referem o lugar proeminente de que goza Pedro entre os membros do grupo. A cidade de Pedro, Cafarnaum e mais propriamente a sua própria casa, é a base de onde Jesus vai e vem no seu ministério. Era tão chegado a Pedro e à sua família que até cura a sogra deste de uma febre, o único milagre que quase não se justificava.

Porta-voz do grupo: nós deixamos tudo, que recompensa teremos? Façamos aqui três tendas…. Tu és o Messias…. A quem iremos? Só. Tu tens palavras de vida eterna…

As cartas de Paulo – os evangelhos foram escritos depois da morte de Pedro e, por este motivo, poder-se-ia dizer que representam a ideologia da Igreja, não a vontade de Cristo. As cartas de Paulo foram escritas durante a vida de Pedro e relatam o mesmo. São Paulo relata na carta aos gálatas quando a sua conversão, diz que foi a Jerusalém e esteve com Pedro 15 dias e que não viu nenhum outro apóstolo.

Paulo opõe-se a Pedro por este entrar nas casas dos gentios e comer com eles; com a vinda a Jerusalém deixa de o fazer. Critica abertamente Pedro por este comportamento incongruente, mas nem por isso nega ou deixa de acatar a sua autoridade. De facto, trata de o conquistar para o seu grupo contra os de Santiago. Assim tivesse feito Lutero como São Paulo que, apesar das divergências respeitou a autoridade de Pedro e a Igreja não estaria hoje dividida.

Como a roda de uma bicicleta
Sem uma figura que desempenhe o ministério petrino (ou ministério de Pedro) não há união. A igreja é como uma roda de bicicleta. Todos os raios apontam e estão ligados ao centro e é dali que contribuem para que a roda se mantenha resistente. Se um dos raios se partir, a roda começa a ficar empenada e anda aos ziguezagues. 

De facto, fora da igreja católica, tanto as igrejas protestantes como as ortodoxas são muitas, pequenas e divididas porque não há uma figura aglutinadora como era Pedro para os doze na primeira igreja e como é o sucessor de Pedro para a Igreja ao longo do tempo e do espaço.

Conclusão – Uma, grande, universal, e livre é a Igreja Católica fundada por Cristo sobre a rocha de Pedro. Muitas, pequenas, divididas e nacionais são as igrejas ortodoxas e protestantes fundadas por seres humanos. 

Pe. Jorge Amaro, IMC

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