1 de abril de 2026

O Mal é natural, o Bem é arti-ficial


“O homem natural não aceita o que vem do Espírito de Deus, pois para ele é loucura. Não o pode compreender, porque só espiritualmente se pode discernir.” (1 Cor 2,14)

Temos tendência a pressupor que o artificial é mau e o natural é bom. No supermercado, procuramos produtos naturais e biológicos, cultivados sem adubos químicos nem pesticidas; os amish vivem como se ainda estivéssemos no século XIX, rejeitando tudo o que é moderno; fugimos da poluição das cidades em busca do ar puro das aldeias. Por outro lado, a palavra artificial faz-nos lembrar o plástico, o que lhe confere uma carga semântica frequentemente negativa.

Os artificiais são naturais e os naturais são artificiais
Foi assim que o meu professor de moral sexual, o falecido jesuíta Javier Jaffo, introduziu o tema dos métodos anticonceptivos. A contagem dos dias férteis, a medição da temperatura basal e a verificação da viscosidade do muco cervical são, em teoria, métodos naturais. Contudo, a sua aplicação torna-os artificiais, pois o casal já não realiza o acto conjugal quando deseja, mas quando as circunstâncias o permitem.

A artificialidade destes métodos reside no facto de serem as condições e não os cônjuges a determinar o momento da união conjugal. Pode até suceder que, quando as condições permitem, os cônjuges não o desejem — e vice-versa.

Pelo contrário, como dizia o meu professor, os chamados métodos “artificiais” — a pílula, o preservativo, o diafragma, entre outros (excluindo o DIU e a pílula do dia seguinte por serem abortivos) — são, paradoxalmente, os verdadeiramente naturais. Eles conferem ao casal a liberdade de decidir quando unir-se, sem impedimentos externos.

A Igreja escreveu muito sobre este assunto e, como o meu professor, nunca compreendi porque motivo a pílula seria má e a aspirina boa — não são ambos produtos artificiais da inteligência humana? Uns dizem que têm efeitos secundários. Mas haverá algum medicamento químico que não os tenha?

Uma vez aceite o princípio da paternidade responsável, que reconhece o valor moral da limitação dos nascimentos, pouco importa o método utilizado: que se use o que for mais adequado ao casal. Ou será que os métodos chamados “naturais” são bons porque falham, e os “artificiais” maus porque funcionam? Estará, então, a contar com o fracasso?

Homo sapiens versus Neandertal
O homem de Neandertal, que imigrou da África muito antes do Homo sapiens, era mais propenso a adaptar-se à natureza, vivendo em simbiose com ela, tal como muitos animais. Se tivéssemos seguido por esse caminho, talvez nunca nos tivéssemos libertado da nossa animalidade, nunca nos teríamos diferenciado suficientemente para alcançar a plenitude da condição humana.

Não se sabe ao certo por que razão os Neandertais, que habitaram a Eurásia há cerca de 350.000 anos, se extinguiram. Talvez tenham sido suplantados pelo Homo sapiens, com quem chegaram a cruzar-se geneticamente.

Ao contrário dos Neandertais, o Homo sapiens — como o nome indica — não se limita a adaptar-se à natureza, mas procura adaptá-la a si. Mais inteligente, combina os elementos naturais para os colocar ao seu serviço. Desde a invenção da agricultura e a descoberta do fogo, até à fabricação de instrumentos e tecnologias, a criatividade humana tem sido o motor da emancipação da natureza, o corte do “cordão umbilical” que nos ligava à sua tutela.

Neste sentido, o que é “natural” aproxima-nos dos animais, enquanto o que é “artificial” aproxima-nos de Deus. A palavra “artificial” vem do latim ars facere, ou seja, “fazer arte”. A diferença entre nós e Deus é que Ele cria a partir do nada, enquanto nós criamos manipulando os elementos naturais, fazendo novas combinações e modificações com os nossos instrumentos.

O natural no homem não é obedecer cegamente à natureza, mas sim libertar-se dela, compreendê-la e dominá-la. O natural no Homo sapiens é, paradoxalmente, o artificial — ou seja, a capacidade de fazer arte.

A nossa natureza caída
As ciências humanas afastam-se cada vez mais da teoria do bom selvagem de Rousseau e aproximam-se da de Hobbes: homo homini lupus — “o homem é o lobo do homem”. Não nascemos como tábua rasa, aprendendo o mal pela educação. Pelo contrário, já nascemos com o mal em nós.

Podemos, sim, aprender técnicas para o praticar, mas o espírito do mal não precisa de ser ensinado — é inato. Sabemos praticá-lo espontaneamente. Tudo o que de mau a humanidade fez ao longo da história parece integrar uma base de dados universal, semelhante ao inconsciente coletivo descrito por Jung.

São Paulo: o homem natural ou homem velho
“As obras da carne são bem conhecidas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçaria, inimizades, contendas, ciúmes, iras, ambições, discórdias, divisões, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a estas. [...] Os que praticam tais coisas não herdarão o Reino de Deus.”  (Gálatas 5, 19-21)

“Não entendo o que faço. Pois não faço o bem que quero, mas o mal que aborreço.” (Romanos 7,15)

São Paulo sentia na própria carne a força da natureza humana decaída — a inclinação natural para o mal. A isso chamou “obras da carne”, características do homem velho. Esta é a herança do pecado original: Adão, nosso pai terreno, transmitiu-nos uma natureza ferida. Fazer o mal não exige esforço — é quase como uma segunda natureza.

São Paulo: o homem espiritual ou homem novo
“O fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio de si. Contra estas coisas não há lei. Os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e desejos.” (Gálatas 5, 22-24)

O dilúvio não foi solução; destruir tudo e começar de novo com Noé não resolveu o problema, porque o mal já estava entranhado na natureza humana. Deus desenhou outro plano: enviou o seu Filho, igual a nós em tudo, excepto no pecado. O pecado não faz parte da criação divina — é invenção nossa.

Cristo é o Homem Novo, não surgido após o dilúvio, mas nascido da união entre a natureza divina e a natureza humana purificada em Maria. Cristo foi enxertado no Adão original, não no que este se tornou. Como todo o enxerto, o de Cristo transforma a árvore desde dentro, tornando-a capaz de dar novos frutos.

Cristo: Caminho, Verdade e Vida
    “Quem quiser ganhar a sua vida, há de perdê-la.”
    “Quem quiser seguir-me, renuncie a si mesmo.”
    “Amai os vossos inimigos.”
    “Bem-aventurados os pobres.”
    “Não convideis os vossos familiares e amigos…”

Jesus usa, frequentemente, uma linguagem paradoxal. O modelo de humanidade que Ele propõe é, à luz da lógica natural, artificial. Vai contra a corrente das nossas tendências instintivas — e, no entanto, está mais que provado que não há outro caminho para a verdadeira felicidade.

Como dizem os italianos, “Se non è vero, è ben trovato”. Mesmo que a figura histórica de Jesus de Nazaré nunca tivesse existido, a narrativa construída pelos quatro evangelistas seria, ainda assim, a melhor de todos os tempos.

O cristão é a medida do humano, e o humano é a medida do cristão. Os valores do Evangelho orientam a vida pessoal e social. A própria Carta dos Direitos Humanos das Nações Unidas é, em grande parte, inspirada nos valores evangélicos.

Indiscutivelmente, não há melhor modelo de vida humana do que Jesus de Nazaré. O seu quotidiano, os seus gestos e palavras constituem, verdadeiramente, Caminho, Verdade e Vida para todos os tempos e lugares.

Como modelo de vida, como estrela polar da humanidade, não existe alternativa igualmente válida. Como Ele próprio disse: “Quem não recolhe comigo, dispersa.” (Lc 11, 23) — não porque recolha com outro, mas porque se perde no vazio.

Conclusão - Natural é aquilo que recebemos da natureza; artificial — do latim “Ars facere” — é o que nasce da nossa mente e criatividade. A vida humana tem, afinal, mais de artificial do que de natural.

Pe. Jorge Amaro, IMC

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