15 de setembro de 2024

Cosmovisão Muçulmana

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Cosmovisão rival com a vocação implícita, explícita e até histórica (pelas tentativas) de conquistar o mundo, suplantar o cristianismo e impor a sua forma de ver a vida e o mundo, a sua cosmovisão. Esta vocação ainda não a perdeu, sendo este o objetivo principal da jihad de hoje, do terrorismo, da imigração invasora e do crescimento demográfico de muçulmanos nos países ocidentais.

Como aconteceu na Idade Média, quando uma cultura inferior, mais agressiva e violenta, se impôs a uma cultura superior, seguindo-se um tempo de trevas e ignorância, o mesmo poderia acontecer no Ocidente. A história pode repetir-se e as mudanças sociais não são sempre progresso e melhoria.

Inconsistências teológicas da narrativa do Corão
Do ponto de vista teórico ou teológico, o cristianismo que nasceu na cultura ocidental tem sido ao longo dos séculos exposto à crítica, ao refinamento e purificação pela cultura racional ocidental. O mesmo não acontece com a narrativa muçulmana que, apesar de pretender ser histórica, continua envolta no mito e vive de uma fé muito pouco razoável, plausível ou humanamente credível, como, por exemplo, que o Corão foi ditado por Deus ao profeta Maomé que escreveu tim tim por tim o que Deus lhe ditou. Eis outras inconsistências:

Maomé, o último profeta, Jesus o filho de Deus
O Islão aceita como válida a tradição religiosa judaica descrita no Antigo Testamento que eles consideram também seu. Maomé é, portanto, o último dos profetas que Deus enviou ao mundo, sendo o penúltimo Jesus.

Se a humanidade viver mais 10 000 ou 20 000 anos, que sentido faz que o último tenha vindo no ano 524? Mais mudanças sofreu o mundo e a humanidade desde o ano 524 que em todos os milhões de anos anteriores; por que motivo então antes desta data os profetas se sucediam uns aos outros com frequência e depois do ano 524 deixaram de ser precisos?

Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por meio de quem fez o mundo. Hebreus 1, 1-2

No caso do cristianismo, mesmo que a humanidade viva até ao ano 20 000, faz sentido que a revelação tenha acontecido no ano zero. Como explica o autor da carta aos Hebreus, o enviado não é um profeta mais, mas sim o próprio Deus que vem viver entre nós.

Há aqui um salto qualitativo; os profetas trazem mensagens para um tempo, a palavra de Deus é eterna para todos os tempos e lugares porque Deus não precisa de falar duas vezes. Por outro lado, Cristo não é só uma palavra proferida, é uma palavra vivida e só se vive uma vez.

Em que sentido é o último profeta? É porque o Islão tem uma doutrina mais refinada e, num caminho ascendente, já chegámos ao topo? Mas o topo até parece o cristianismo, com o amor aos inimigos. O Islão, na sua prática e doutrina, até se assemelha mais ao Antigo Testamento que ao Novo, quando pensamos que ainda hoje se apedrejam mulheres e Cristo foi contra isso já nos seus dias.

Deus é uno e trino, é comunidade
O Islão herdou o monoteísmo simples dos hebreus. Por isso, tanto judeus como muçulmanos não têm forma de fundamentar teologicamente que o homem é feito à imagem e semelhança de Deus. Se Deus é amor e o amor que não sai fora de si mesmo é egocentrismo, Deus é mais que um; Deus é uma família, Pai, Filho e Espírito Santo e nela encontramos o modelo da família humana: pai, mãe e filho(a).

Deus é uno e trino, tal como uma família humana é chamada a ser uma unidade de três pessoas onde a existência de uma só não é possível sem a existência das outras duas; um homem não é pai sem ter uma mulher e um filho(a); uma mulher não é mãe sem ter um filho(a) e um marido; e um filho(a) não existe por si mesmo sem ter um pai e uma mãe.

Como Cristo é o modelo para a vida humana individual, a Santíssima Trindade é o modelo para a vida humana social; um modelo de paz, harmonia e amor. O Judaísmo e o Islão carecem de modelos, de pontos de referência teológicos para a vida em família e em sociedade, concebendo a Deus como um grande solitário.

O profeta Isa (Jesus) filho de Maria sempre virgem
Com um capítulo inteiro (sutra) dedicado só a ela, a Virgem Maria é a única mulher indicada com o seu próprio nome no livro do Alcorão; de todas as outras se fala em relação a um varão; por exemplo, não há referências a Sara, mas sim à mulher de Abraão. Sobre a virgindade de Maria, o Alcorão afirma claramente que está em pecado aquele que não acredita nela ou a põe em causa.

Segundo as duas tradições, tanto a cristã como a muçulmana, tanto Maria como o profeta Maomé recebem a visita do Arcanjo Gabriel que a ambos sopra a Palavra. A Palavra em Maomé tornou-se num livro, o Alcorão, em Maria, num homem, Jesus de Nazaré. Pelo que, dizem alguns estudiosos do Islão, Jesus ou o profeta Isa como é chamado no Islão, é o Alcorão em forma de homem e o Alcorão é Jesus em forma de livro.

Face a estes factos, vejamos outra inconsistência na religião muçulmana; se para a fé muçulmana, como para nós, Maria, a mãe de Jesus é virgem, quem é o pai de Jesus? É óbvio que não pode ser José, o carpinteiro, pois se fosse, Maria não poderia ter permanecido virgem.

E se José não é o pai de Jesus e Maria permanece virgem depois de conceber, então a conceção não pode ter sido natural e o pai não pode ter sido humano; se não é obra humana, só pode ser obra de Deus e, se é obra de Deus, então Deus tem um filho e não é como o Judaísmo o concebe, um Deus solitário, mas sim como o concebe o cristianismo e como nos foi revelado por Jesus Cristo, um Deus de amor, família, comunidade.

Quem não deve não teme
Nunca somos tão violentos como quando lutamos pela nossa sobrevivência. Enquanto a religião cristã, posta em causa pela revolução francesa, pela idade da razão, pelo iluminismo e, ultimamente, pelas filosofias ateias sobreviveu, a religião muçulmana opõe-se a todo o pensamento crítico interno e externo e ameaça de morte quem o faça.

“Quem não deve não teme”, esta agressividade mais não é que uma forma de esconder as graves deficiências do ponto de vista filosófico, histórico e teológico. Alimentada pelo petróleo e pelo ódio contra o Ocidente, a expansão muçulmana é como um gigante com pés de barro: no dia em que as deficiências vierem à luz da razão, talvez não fique pedra sobre pedra.

Segundo Carl Jung, o fanatismo é uma forma de sufocar uma dúvida interior. Assim explicava Jung o fanatismo de S. Paulo contra os cristãos antes da sua conversão. A dúvida de S. Paulo era entre a segurança que dá a lei, uma falsa segurança e a liberdade da graça que S. Estêvão oferecia.

É claro, até pela forma como tratam as mulheres como seres humanos de segunda categoria, que a religião muçulmana estava bem para a Idade Média, mas não para o mundo de hoje. Como a forma de pensar de hoje se infiltra de muitas formas, mesmo nos países muçulmanos, pela TV, pela Internet, eles sentem-se intimidados e temem perder fiéis, temem que a sua religião não aguente o embate da razão, como o cristianismo aguentou reformulando-se.

Islão e violência
Há dois conceitos que foram talvez mal interpretados, ou interpretados de forma a satisfazer, justificar e abençoar a sede de poder de alguns. O certo é que foi esta “má interpretação” dos conceitos que escreveu História e fez correr muito sangue. Refiro-me ao conceito de JIHAD, que significa esforço, luta, guerra santa, e o conceito de ISLÃO que significa submeter-se à vontade de Deus.

Como dizem os estudiosos, a JIHAD refere-se à luta que todo o ser humano deve travar dentro de si mesmo contra o mal. O caso é que, historicamente, a luta interior que devia permanecer interior, tornou-se numa luta exterior; na prática, essa luta traduziu-se e ainda atualmente se traduz na luta contra os que o Islão considera infiéis, declarando-lhes uma guerra que se justifica por si mesma porque é santa, por ser por uma boa causa. Nesta altura, não tinham ainda entendido que “Os fins não justificam os meios”.

O cristianismo tem também a sua versão de guerra santa, as cruzadas. A primeira cruzada nasceu como resposta ao pedido do Imperador cristão do Oriente, Aléxis I, para o ajudarem a reconquistar a cidade santa de Jerusalém e libertar os cristãos orientais do domínio muçulmano. No entanto, rapidamente se transformou numa forma de travar o avanço dos muçulmanos que ameaçavam acabar com o mundo cristão. Começou por ser um direito à autodefesa que rapidamente se transformou em agressão, conquista e massacre em nome de Cristo.

Islão significa submeter-se a Deus; a base da religião muçulmana reside nesta submissão simbolicamente representada pela postura física que os muçulmanos adotam quando rezam. Era este o propósito da Jihad, o esforço, a luta para submeter toda a personalidade de cada pessoa a Deus; aliás, é mesmo isso que significa adorar a Deus, submeter-se à sua vontade. Os cristãos fazem-no por gosto, não por dever, porque o seu Mestre lhes diz “já não vos chamo servos, mas amigos” … (João 15, 15)

Enquanto a religião não passou da esfera pessoal, enquanto se manteve reflexiva e intransitiva tudo correu bem e sem problemas; mas não é desta submissão que reza a história. Submeter-se a Deus rapidamente se transformou em submeter os outros a Deus. Por isso, tal como o judaísmo chama gentio a todo o que não é judeu, o Islão chama infiel a todo aquele que não é muçulmano.

Ao contrário do cristianismo que nasceu num mundo adverso dominado pelos romanos e durante 5 séculos foi uma religião clandestina e perseguida que se propagava pelo exemplo de vida e pela pregação, o Islão nasceu numa conquista bélica de Meca e na submissão dos cristãos e politeístas que ali havia à nova fé.

Ressentimento contra o mundo ocidental cristão
Com a vitória dos cristãos contra os muçulmanos na batalha de Lepanto, em 1571, a cultura e civilização cristãs acabaram de uma vez por todas com a constante ameaça do Islão e cresceram até serem o que são hoje, ao passo que a civilização muçulmana, cujo auge tinha sido Averróis e Avicena, estagnou numa mentalidade medieval.

O mundo muçulmano ainda não recuperou do ressentimento e ódio que essa derrota causou; e do sucesso da civilização ocidental que se sobrepôs ao reto do mundo. Este ódio motiva as ações da Al Qaeda, Estado islâmico e outras organizações, em especial contra os Estados Unidos, que representam o mundo ocidental.

Atualmente não há nenhum país tradicionalmente cristão que persiga muçulmanos só pelo facto de o serem, enquanto nos países tradicionalmente muçulmanos os cristãos são sistematicamente perseguidos: Egito, Paquistão, Irão, Iraque, Indonésia…

Os muçulmanos no Ocidente estão amparados pela democracia e o direito à liberdade religiosa; os cristãos no mundo árabe não têm direitos, estão à mercê do fanatismo. Os muçulmanos no Ocidente podem construir as suas mesquitas, os cristãos no mundo árabe não têm direito a construir igrejas nem a reparar as que existem há seculos e, na Arábia Saudita, os cristãos não podem sequer usar um crucifixo ao pescoço.

Diferenças na vivência de valores
Como já dissemos, a cosmovisão muçulmana é fundamentalmente uma reedição do judaísmo do Antigo Testamento para árabes.

Unidade - Ou união é um valor humano tanto para muçulmanos como para cristãos, porém enquanto que os cristãos advogam a unidade na diversidade, desde Jesus que escolheu um grupo de pessoas tão diferentes que até eram inimigas, para os muçulmanos união é uniformidade, unicidade, não aceitam nem toleram a diferença.

Tempo - Em relação ao tempo, os cristãos estão mais orientados para o futuro, os muçulmanos ficaram parados no passado. Agarrados às suas tradições que lhes dão identidade e segurança, temem o futuro e a mudança. Mudança no Ocidente é progresso, no mundo muçulmano é perda de identidade, insegurança.

Família – Ao contrário do que acontece no Ocidente, a família alargada tem mais importância que o núcleo familiar de pai, mãe e filhos. E há mais solidariedade entres os membros de uma família. Com a submissão da esposa ao marido, a taxa de divórcios é baixa. O Ocidente é mais individualista e livre, pelo que a família nuclear é a única que conta.

Paz – É a saudação dos judeus e dos muçulmanos, significa não só a ausência de conflito como no Ocidente, mas também sucesso, prosperidade e felicidade.

A honra – É um valor muito importante no Islão; a desonra é a pior tragédia que pode acontecer numa família. O Ocidente valoriza a honra de igual forma, mas só a aplica individualmente, ou seja, os membros da família não pagam pelos desacatos de um deles.

Estatuto – Nos muçulmanos é atribuído ou herdado. No Ocidente nem é herdado nem é atribuído, mas sim conquistado a pulso pelo próprio mérito.

Individualismo – O muçulmano não valoriza a independência, a liberdade, a autonomia, mas mais a interdependência e o sentido social e comunitário da vida. Por isso, suportam mais facilmente as ditaduras dos seus países. A conformidade e a obediência são valores mais importantes.

Secularismo – Nos países muçulmanos o Césaro-papismo é ainda aceite. A religião mete-se na política e vice-versa. A religião nos países ocidentais é matéria privada, não transparece na vida pública desde Jesus que disse “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, existe uma divisão nítida entre os dois poderes.

Conclusão: Parado no tempo, o mundo muçulmano parece que ficou preso no passado, olha para o presente e para o futuro com ansiedade; resiste à mudança e ao progresso, pois teme que lhe roubem a paz interior, a segurança e a identidade. 

Pe. Jorge Amaro, IMC








1 de setembro de 2024

Cosmovisão Cristã

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O poder divino deu-nos tudo o que contribui para a vida e a piedade, fazendo-nos conhecer aquele que nos chamou por sua glória e sua virtude
. 2 São Pedro 1, 3

O cristianismo, como herdeiro do judaísmo, assumiu, assimilou e implementou tudo o que de bom os judeus trouxeram ao mundo. Jesus de Nazaré é fundamentalmente um judeu que veio, não abolir o judaísmo e as suas leis (Mateus 5,17), mas sim purificá-lo; o importante não é a letra da lei e o seu cumprimento formal, mas o espírito da lei e a sua vivência na vida real.

Como Jesus se apresentou ao Homem como o único modelo de humanidade, medida de referência, paradigma, único caminho, única verdade e única forma de viver a vida, (João 14, 6), ser cristão e ser autêntica e genuinamente humano são uma e a mesma coisa. Não há uma moral cristã e uma moral ou ética humana, porque Cristo é o único padrão de referência para nos medirmos e avaliarmos até que ponto somos humanos.

Para além de um programa de salvação individual, caminho, verdade e vida para a saúde mental, espiritual, moral e física do ser humano de acordo com a sua natureza, Cristo apresentou também um programa de salvação da sociedade, do ser humano enquanto ser social: o Reino de Deus que é, como diz São Paulo (Romanos 14.17), justiça e paz.

A cosmovisão cristã é enxergar o mundo, é ver e entender o mundo com os olhos de Cristo, a partir da sua perspetiva, da sua ótica. Partindo desta perspetiva, a cosmovisão tem que ver também com a forma como atuamos com o mundo e no mundo, o lugar que nele ocupamos. Enquanto a cosmovisão materialista responde com NADA à pergunta sobre a nossa origem, o nosso destino e o sentido da nossa vida, a cosmovisão cristã responde a estas mesmas perguntas da seguinte forma:

De onde vimos? – Vimos de Deus, criador do Universo, de tudo e de todos, do tempo, do espaço e da matéria ou energia. Tudo fez bem feito e criou por amor. A nós, humanos, criou-nos à sua imagem e semelhança. Ou seja, para além de sermos, como tudo o resto, seres espácio-temporais que ocupam um espaço durante um tempo, ao contrário das outras criaturas, temos em nós uma semente de eternidade, uma vertente espiritual que está em nós para que a façamos crescer, para entrarmos na eternidade com Deus.

Para onde vamos? – Vamos para Deus que sustém a nossa vida para além da morte, pelo que esta não é o nosso destino final, mas uma passagem para a eternidade. Como o nascimento foi uma passagem do seio da nossa mãe para o seio do mundo, a morte será o nascimento para o Céu, ou seja, a passagem do seio deste mundo para o Seio de Deus, o regresso à casa Paterna parafraseando a parábola do filho pródigo, ou o fim da nossa peregrinação.

Que sentido tem a vida? – “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (João 10, 10). O sentido, o objetivo da nossa vida é dar glória a Deus. Dar glória a Deus que nos criou é a melhor forma de usarmos os talentos recebidos e de nos autorrealizarmos, atingindo a felicidade que é a vida em abundância que Deus quer para nós.

Fomos tirados do nada para fazermos alguma coisa com as nossas vidas, para que, usando o nosso corpo físico, recursos, matérias e talentos de que dispomos, como andaimes do corpo espiritual, façamos germinar a tal semente de eternidade que está em nós.

Todo o bem material pode ser espiritualizado no alambique da nossa vida, tal como de toda a fruta ou vegetal se pode destilar álcool ou extrair um perfume de flores que sobe a Deus. Criados do nada à imagem e semelhança de Deus, está em nós fazer alguma coisa com a nossa vida, ou voltar ao nada que seria a morte eterna.

Vivendo como Cristo e medindo-nos constantemente em relação a Ele, como modelo e paradigma de humanidade para a humanidade, adquirimos a filiação divina, transformamo-nos em filhos adotivos de Deus, segundo o direito romano com os mesmos direitos que o Filho Unigénito de Deus, Cristo. (Romanos 8,14-16)

Por outro lado, como somos um ser não só individual e cultivador de liberdade, mas também um ser social cultivador de igualdade, lutamos como Cristo por um mundo melhor, de mais justiça, paz e fraternidade, buscamos alargar o reino de Deus, projeto que Cristo trouxe à Terra.

É nesta luta que nos realizamos individualmente, pelo que não há autorrealização individual sem dimensão social. Quem não é útil para os outros é um inútil para si mesmo. Quem não vive para servir não serve para viver, não serve para nada e o que não serve para nada é lixo.

O evangelho, a melhor narrativa humana de todos os tempos

O cristianismo no Novo Testamento, em especial nos evangelhos que relatam a vida, o talante e os ditos de Jesus de Nazaré, possui a narrativa mais fascinante de todos os tempos. A cosmovisão, a ética, a filosofia de vida, os direitos humanos, o que é verdadeiramente humano, está exposto no evangelho.

O cristianismo é uma religião histórica porque os evangelhos não são relatos mitológicos, como os livros sagrados de outras religiões. Os evangelhos falam de uma personagem histórica, Jesus de Nazaré, da sua vida, do seu comportamento em situações do dia a dia, dos seus milagres e curas, dos seus feitos e das suas pregações e ensinamentos.

Desde que foram escritos por quatro autores diferentes, têm sido objeto de estudo e pesquisa. Nunca nenhuma obra literária foi tão submetida à critica literária, histórica, hermenêutica, gramatical, minuciosamente palavra por palavra.

A parábola do Filho Pródigo talvez seja o conto mais pequeno e mais significativo que a humanidade criou. Inspirou poetas, pintores, músicos, a literatura e formatou a ideia universal do perdão incondicional. É difícil falar de perdão sem mencionar esta parábola.

A parábola do Bom Samaritano entrou na mente e no imaginário de todos os homens como sinónimo de solidariedade com o que sofre ou com o que pontualmente precisa da nossa ajuda. Samaritano hoje, mais que habitante de Samaria, significa pessoa empática que chora com quem chora e sofre com quem sofre.  

O evangelho é a magna carta da vida humana, o padrão de referência, o critério máximo de humanidade que serve de genuína e autêntica referência a cada indivíduo. Não há no mundo qualquer narrativa que supere os evangelhos em humanidade. Os evangelhos têm sido o texto inspirador da civilização ocidental, o farol que a ilumina.

A carta dos direitos humanos das Nações Unidas, que quase todos os países assinaram, está clarissimamente decalcada do evangelho. O cristianismo desempenhou um importante papel na extinção de práticas como o sacrifício humano, a escravidão, o infanticídio e a poligamia. De forma geral, afetou o estatuto das mulheres, condenando o infanticídio (bebés do sexo feminino tinham maior probabilidade de serem mortos), o divórcio, o incesto, a infidelidade, o controlo de natalidade, o aborto e defendendo o casamento e a família como célula da vida social.

O cristianismo é a religião mais praticada no planeta, mãe e mentora da civilização ocidental, que é a mais desenvolvida e mais estendida no mundo. Por isso, o cristianismo formatou não só a mente dos cristãos, mas também a mente de quase todos os seres humanos habitantes deste planeta, mesmo até de muitos que se recusam a reconhecê-l’O, como as sociedades muçulmanas.

As festas da Páscoa e do Natal são marcadas universalmente como feriados; o calendário gregoriano (do Papa Gregório XIII) foi adotado internacionalmente como o calendário civil; e o próprio tempo é medido pelo Ocidente a partir da data calculada do nascimento de Jesus de Nazaré: a AD (Anno Domini). Na lista das 100 pessoas mais influentes na história humana, 65% são figuras cristãs de diversas áreas.

Libertação das mulheres

O direito das minorias em relação às maiorias, o respeito pela orientação sexual de cada um, a libertação das mulheres, os valores próprios da civilização ocidental que a colocam na vanguarda dos direitos humanos, não se explicam sem o evangelho.

Jesus foi a pessoa mais feminista que o mundo conheceu; o único fundador de uma religião que nunca fez uma afirmação contra as mulheres, que as tratou como iguais aos varões, que teve discípulas - coisa nunca vista antes ou depois dele (ainda hoje os rabinos não têm discípulas). É certo que os seus discípulos seguiam a mentalidade patriarcal do mundo circundante mais que o comportamento do mestre. Porém, não podemos negar a importância do evangelho na conversão das mentes e dos corações para a igualdade de género, que começou na civilização ocidental e, pouco a pouco, vai sendo assumida pelas outras civilizações, sendo a muçulmana a mais reticente na matéria.

É certo que nem no Ocidente a mulher goza ainda de plena igualdade, mas é certamente no Ocidente cristão que a mulher goza de mais direitos. O que faz variar o grau de igualdade de género não é a riqueza ou pobreza; ou seja, não é necessariamente nos países mais ricos que a mulher é tratada de igual para igual. A Arábia Saudita é rica e, no entanto, as mulheres ali são tratadas como cidadãs de segunda classe. O fator determinante é a cultura, não a riqueza.

O Japão e as Filipinas são dois países asiáticos não muito distantes um do outro; o primeiro é bem mais rico que o segundo e, no entanto, há muito mais igualdade de género nas Filipinas que no Japão. Como países asiáticos que são, há elementos culturais que são comuns. A grande diferença é que as Filipinas são um país cristão desde há 500 anos, enquanto que no Japão o cristianismo nunca conseguiu penetrar de forma a influenciar a cultura. Os restaurantes onde a comida é servida no corpo nu de um adolescente não existem nas Filipinas e é de todo impensável que alguma vez possam existir.  

Consciência moral e objeção de consciência
Num dia de sábado, o Senhor caminhava pelos campos e seus discípulos, andando, começaram a colher espigas. Os fariseus observaram-lhe: “Vede! Por que fazem eles no sábado o que não é permitido?”. Jesus respondeu-lhes: “Nunca lestes o que fez Davi, quando se achou em necessidade e teve fome, ele e os seus companheiros?

Ele entrou na casa de Deus, sendo Abiatar príncipe dos sacerdotes, e comeu os pães da proposição, dos quais só aos sacerdotes era permitido comer, e os deu aos seus companheiros”. E dizia-lhes: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado; e, para dizer tudo, o Filho do Homem é senhor também do sábado. Marcos, 2, 22-28

Num dos seus discursos inflamados, com o intuito de guiar o povo alemão para a II Guerra Mundial, Hitler reconheceu que a consciência moral foi invenção judaica. A lei aplicada, sei epiqueia, transforma-se em injustiça, pelo que os antigos romanos diziam “sumum jus summa injuria”: uma coisa é ser justo, outra é ser justiceiro. A consciência moral como a objeção de consciência, são criações do cristianismo.

Sobre a nossa consciência moral não há nenhum poder, é na nossa consciência moral que somos livres, pessoas de direitos e deveres, de responsabilidade e de opções livres. Posso objetar em pegar em armas e ir para a guerra matar irmãos meus; posso objetar praticar um aborto ou auxiliar alguém a morrer. O Estado não pode obrigar-me a nada a que a minha consciência moral não me obrigue.

Outros valores mais altos se levantam, como diria Camões. A nossa consciência moral, bem formada e informada pelo evangelho, doutrina e tradição da Igreja, numa hierarquia de valores discerne em cada situação com a ajuda do Espírito Santo o que fazer ou não fazer. Se eu estiver a caminho de uma Igreja num domingo para participar na Eucaristia e alguém me pedir a ajuda urgente, eu devo deixar o valor da eucaristia para assistir o meu irmão.

O texto acima cita Jesus que diz que é Senhor do Sábado, todos somos senhores do Sábado, da lei, da regra, da norma; aí está a dignidade e liberdade da pessoa humana. Jesus cita a exceção de David que, pelos vistos, também já usava a sua consciência moral para discernir o que fazer em cada momento. Roubar é pecado, mas roubar para comer não é pecado, diz o povo.

Pecado está naquele que tem em demasia e não compartilha com o que não tem. “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado. A lei existe em função da vida, da autorrealização e da felicidade humana e não ao contrário.

Liberdade e igualdade
O valor humano da dimensão individual do ser humano é a liberdade; o valor humano da dimensão comunitária do ser humano é a igualdade. Liberdade e igualdade são os valores sobre os quais assenta a vida humana e sobre os quais assentam os sistemas políticos e económicos da sociedade.

O capitalismo exacerba a liberdade, o socialismo exacerba a igualdade. O equilíbrio ou harmonia da liberdade e da igualdade são tão difíceis de interiorizar para o indivíduo como para a sociedade. O mundo mundano não tem uma fórmula ideal para harmonizar as duas dimensões; mas o cristianismo tem: o mandamento do amor.

A cruz, símbolo do cristianismo, é onde a verticalidade do amor a Deus sobre todas as coisas e a horizontalidade do amor ao próximo como a si mesmo se encontram e harmonizam. Sem liberdade não há vida humana, sem igualdade não há vida social, sem fraternidade não há uma nem outra.

Estado social

O Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que saiu ao romper da manhã, a fim de contratar operários para a sua vinha. Ajustou com eles um denário por dia e enviou-os para sua vinha. (…) pela undécima hora, encontrou ainda outros na praça e perguntou-lhes: “Por que estais todo o dia sem fazer nada?” Eles responderam: 

“É porque ninguém nos contratou”. Disse-lhes ele, então: – Ide vós também para minha vinha. Ao cair da tarde, o senhor da vinha disse a seu feitor: “Chama os operários e paga-lhes, começando pelos últimos até os primeiros”. Vieram aqueles da undécima hora e receberam cada qual um denário. Mateus 20, 1-2, 6-9

O Estado Social não foi inventado por Karl Marx quando disse que o Estado deveria exigir de cada um segundo as suas possibilidades e dar a cada um segundo as suas necessidades. O Estado Social, como tantas coisas que hoje assumimos como parte da nossa cultura, foi criado por Jesus e já aplicado pelos apóstolos na primeira comunidade cristã de Jerusalém, onde tinham tudo em comum e a cada um se lhe dava segundo as suas necessidades (Atos dos Apóstolos 2 44- 47).

Quando, como diz a parábola acima descrita, o patrão pagou aos que trabalharam uma única hora o mesmo que os que trabalharam o dia todo, o patrão não pagou segundo o trabalho feito, mas segundo as suas necessidades.

Os trabalhadores que estiveram na praça o dia inteiro porque ninguém os contratou tinham as mesmas necessidades que os que trabalharam o dia todo, uma mulher e filhos para sustentar. O patrão, consciente disso, pagou-lhes o mesmo que aos que suportaram o peso do dia e o calor. Nisto Jesus inventou o Estado Social onde a cada um é exigido segundo as suas possibilidades e dado segundo as suas necessidades.

O cristianismo é uma religião não religiosa, mas civil
Os justos lhe perguntarão: “Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos peregrino e te acolhemos, nu e te vestimos? Quando foi que te vimos enfermo ou na prisão e te fomos visitar?”. 

Responderá o Rei: “Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes. (…) todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer”. “E estes irão para o castigo eterno, e os justos, para a vida eterna”. Mateus, 25, 37- 40, 45, 46

Quando Jesus aparece a Paulo, não lhe pergunta “Porque persegues os meus discípulos?”, mas sim “Porque me persegues?”. Jesus, o irmão maior, o irmão universal, está do lado do injuriado contra o injuriador, do lado do pobre contra o rico, do lado do oprimido contra o opressor, é Ele que faz com que a injustiça não tenha última palavra.

Se uma adolescente regressasse a casa de noite sozinha e fosse alcançada por um grupo de delinquentes com o intuito de a violar, decerto essa violação seria consumada, pois a menina não teria como defender-se. Porém, se um desses delinquentes reconhecesse a moça como sendo a irmã de um polícia temido e destemido, o grupo pensaria duas vezes antes de consumar a violação e muito provavelmente buscaria outro alvo. Cristo é o nosso irmão maior, o nosso irmão temido e destemido, com Ele a nosso lado nada temos a temer.

O verdadeiramente revolucionário no texto de Mateus é que Jesus converte a religião numa questão civil; já o tinha feito ao dizer que os únicos dois mandamentos que valem são o do amor a Deus, garantia de liberdade, e o do amor ao próximo, garantia de igualdade. Neste último texto, não há nenhuma pergunta religiosa, as perguntas do Juízo Final não são acerca da religião que praticaste, a que igreja ias ou mesmo se eras ou não ateu; todos serão julgados pelo grau de humanidade e não pela sua prática religiosa.

Cristo, de facto, veio ao mundo para ensinar o Homem a ser homem; os que, com Cristo ou sem Cristo, mostraram na vida do dia a dia um alto grau de humanidade, entram na vida eterna; os que ao contrário viveram para si mesmos cultivando valores temporais, reduziram a nada a sua vida e ao NADA voltarão, morrendo eternamente.

Conclusão: O cristianismo revela a natureza humana e mostra o caminho como esta pode ser vivida, de modo a alcançar a plenitude da vida neste mundo e no próximo. Ser autêntica e genuinamente humano e ser cristão são uma e a mesma coisa. 

Pe. Jorge Amaro, IMC


 

1 de agosto de 2024

Cosmivisão Bíblica

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Os judeus ou hebreus, contribuíram para a civilização mais do que qualquer outra nação; deram uma religião a 3 quartos do mundo e influenciaram as atividades da espécie humana muito mais do que qualquer nação antiga ou moderna.
John Adams, segundo presidente dos Estados Unidos (1797-1801)

Alguns gostam dos judeus, outros não, mas nenhuma pessoa medianamente inteligente pode negar o facto de que, sem lugar a dúvidas, eles são a raça mais formidável que apareceu no mundo.
Winston Churchill, primeiro-ministro Britânico (1940-1945/1951-1955)

Depois de termos falado das 4 cosmovisões antigas, a do Crescente Fértil (Suméria, Egito, Acádia, Babilónia, Império Persa), a Índia do Vale do Indo, a da China do Rio Amarelo e a cosmovisão Maia, Asteca e Inca da América Central e do Sul, segue-se a cosmovisão medieval. Porém, antes de falar desta cosmovisão, teremos de falar da cosmovisão cristã por ter influenciado muito a cosmovisão medieval. Por outro lado, antes de falar da cosmovisão cristã, é justo que falemos da cosmovisão bíblica, pois o cristianismo começou como uma seita da religião judaica, ou seja, do Judaísmo.

Alguém poderia perguntar “então agora deixamos de falar de cosmovisão para falar de religião?” Sim e não. Sim porque depois da entrada do monoteísmo, a religião começou a influenciar mais a vida das pessoas até se transformar numa forma de conduta. O politeísmo era só uma explicação mitológica da realidade. O monoteísmo, para além de ser uma explicação da realidade, é uma forma de vida. O Judaísmo, o Cristianismo e o Islão são, ao mesmo tempo, uma religião e uma forma de ver o mundo, uma forma de estar nele.

Por cosmovisão bíblica, entendemos a forma como o povo judeu vê o mundo e se vê a si mesmo dentro dele, e como dentro dele deve viver. É claro que por Bíblia aqui entendemos só os livros que o povo judeu entende como canónicos, excluindo Tobias, Judite, Ester e 1 Macabeus do Antigo Testamento, assim como todo o Novo Testamento.

Natureza do povo hebreu
O judeu é o emblema da tolerância civil e religiosa. "Ama o estrangeiro e o forasteiro", ordenou-nos Moisés, "porque estrangeiro foste na terra do Egito" (…) O judeu é o emblema da eternidade. Aquele que nem o assassinato nem a tortura, ao longo de milhares de anos, conseguiram destruir, aquele que nem o fogo nem a espada nem a Inquisição foram capazes de eliminar da face da terra, aquele que foi o primeiro a produzir os oráculos de Deus, aquele que há anos é o guardião da profecia, e que a transmitiu ao resto do mundo. Uma nação destas não pode ser destruída. O judeu é perene, tão perene quanto a própria eternidade". Leão Tolstoi (1829-1910)

Os hicsos, os etruscos, os celtas, os francos, os vikings, os visigodos os suevos e tantos outros povos deixaram de existir; o povo de Israel, anterior a muitos destes, ainda existe nos nossos dias. Israel é hoje o que sempre foi, uma ponte, um lugar de passagem entre a África, a Ásia e a Europa. Povos antigos desaparecem dando origem a outros povos. Nunca constituíram um Império, nunca dominaram outros povos, ao contrário, pela sua situação geográfica no Crescente Fértil, foram sempre parte de um qualquer Império.

O Egito estendeu o seu poder até Israel, tal como a Babilónia, o Império Persa, a Grécia, Roma, Bizâncio, o Império Otomano, o Império Britânico até que, em 1948, as Nações Unidas lhe deram a terra dos seus antepassados, resultado da comoção do mundo inteiro pelo extermínio nazi de 5 milhões de pessoas.

David vence Golias, Jacob vence o seu irmão Esaú, não pela força física ou pela força das armas, mas pela inteligência. Este povo não tem paralelo, destaca-se pela sua inteligência, é de facto o povo com mais Prémios Nobel dos tempos modernos. Representa menos de um por cento da humanidade e já recebeu 20% dos Prémios Nobel. Pode viver noutra nação e ter essa nacionalidade, mas nunca deixa de ser hebreu e, de facto, é primeiro hebreu e só depois assume a nacionalidade norte-americana, canadiana ou outra.

A sua paixão pela busca de sentido, propósito, moralidade e respeito pela dignidade humana foi que conferiu aos judeus a ideia de progresso, o seu compromisso por um mundo melhor, mais justo, mais pacífico e mais fraterno. Entres os hebreus mais famosos citamos os seguintes:

Albert Einstein (1879-1955) – entre os 30 judeus mais famosos e importantes da história está um alemão, um dos personagens mais relevantes do século XX, especialmente pela sua teoria da relatividade. Foi o vencedor do Prémio Nobel da Física.

Sigmund Freud (1885-1939) – Freud é considerado como um dos intelectuais mais importantes do século XX. Era médico, de ascendência austríaca e checa e de origem judaica. É conhecido como o pai da psicanálise.

Julius Robert Oppenheimer (1904-1967) – conhecido como o pai da bomba atômica. Era judeu norte-americano e foi o primeiro físico teórico do seu país.

Karl Marx – filósofo, economista, jornalista, militante intelectual e comunista, Marx foi quem mudou para sempre as ciências sociais com as suas análises do capitalismo e da mais-valia. Além disso, é considerado o pai do comunismo moderno, do materialismo histórico e do socialismo científico. Convencido de que a revolução era o caminho para superar as crises do capitalismo, o seu trabalho principal foi o Capital, publicado em 1867.

Fora de Israel, dentro de qualquer sociedade, os judeus são como o azeite na sopa: nunca se mistura e sempre conseguem boiar, pairar acima de tudo e de todos. Entre todos os exílios sofridos, dispersos por mais de 100 nações durante mais de 2 000 anos, os judeus sempre mantiveram a sua identidade, e nunca perderam a esperança ao dizer todos os anos pela Páscoa “no próximo ano vamos celebrá-la em Jerusalém”.

Talvez nesta diferença esteja a origem do racismo contra este povo; por serem diferentes e não como todos, por terem uma identidade bem definida e não serem uma carneirada como é um povo sem contornos definidos, por se dizerem povo eleito por Deus implicando que os outros não foram eleitos. Pessoalmente, acho que são um povo invejado pois são inteligentes e ricos; ocupam os melhores lugares no mundo das finanças, da economia e da ciência.

São o povo eleito, porém pensam que Deus os elegeu por privilégio. Deus nunca elege ninguém por privilégio, mas sim para uma missão. A missão do povo hebreu era ser o berço do Messias, do salvador da humanidade. Deus decidiu encarnar num membro deste povo, por ser um povo que já tinha alcançado o ponto mais alto no desenvolvimento e progresso do sentimento religioso. Os povos contemporâneos do povo judeu eram ainda animistas, outros politeístas, só os hebreus eram monoteístas, acreditando num Deus pessoal e espiritual, criador de tudo e de todos.

Há decerto uma corrente nacionalista e até racista no povo judeu, encabeçada pelo profeta Elias, o esperado antes do Messias, o que sempre tem lugar reservado em cada ceia pascal. Porém o livro mais extenso de todo o Antigo Testamento é o livro de um profeta de menor importância para o judaísmo, mas que inegavelmente é um dos livros mais extensos de todo o Antigo Testamento.

O que em melhor estado estava de todos os que se encontraram em Qumram. Isaías é um cristão “avant la lettre”, é universalista, entende que a salvação vem para todos os povos que se encontraram num banquete em Jerusalém. (Isaías 25, 6)

Talvez muita da importância deste povo e da sua narrativa, a Bíblia, para o bem e para o mal, lhe venha do facto de ter sido o berço do cristianismo. Se assim não fosse, talvez não tivesse sido assim tão importante. O diálogo entre um cristão e um judeu nunca pode existir e a única conclusão possível é concordar em discordar. Isto porque a existência de um requer a não existência do outro. Se o Messias já veio, o povo judeu deveria ter deixado de existir como tantos outros, tornando-se cristão. Por outro lado, se o Messias ainda não veio, então o cristianismo não deveria existir.

Há uma anedota rabínica que tenta solucionar este impasse. Diz assim: quando o Messias vier, um cristão e um judeu lhe perguntarão se é a primeira vez que vem ou se é a segunda, visto os cristãos esperarem pela segunda vinda de Cristo. E o Messias responderá, para ti hebreu é a primeira, para ti cristão é a segunda.

Origem do povo judeu
A história de Israel é a história de um homem que quis ser diferente. Segundo a Bíblia, o patriarca Abraão proveniente de Ur, na Mesopotâmia, mudou-se com os seus rebanhos e povo para a terra de Canaã na zona do Rio Jordão. Historicamente, acredita-se que isso pode ter acontecido efetivamente por volta de 1 700 a.C. A motivação dessa migração teria sido a escassez de alimentos em Canaã, enquanto no Egito havia abundância de terras férteis.

A chegada dos hebreus ao Egito teria coincidido com o período em que a região estava sob domínio dos hicsos, um povo de origem semita, como os hebreus. Isso possibilitou que os hebreus se estabelecessem no território egípcio sem problemas, chegando até a ocupar posições de proeminência na administração do Egito.

Depois da expulsão dos hicsos, os hebreus teriam sido punidos pela colaboração com os invasores. Os hebreus, escravizados pelos egípcios, conseguiram a sua libertação por meio de Moisés, por volta de 1 300 a.C.

A libertação do Egito e o retorno dos hebreus a Canaã configuraram o chamado Êxodo. Os historiadores afirmam que a migração de hebreus do Egito para Canaã aconteceu, embora afirmem que a quantidade de hebreus que migrou pode não ter sido tão grande como sugere a narrativa bíblica. Então podemos dizer que a história do Êxodo realmente ocorreu, mas foi apresentada de forma mitificada na Bíblia.

Em todo o caso, os hebreus viveram como nómadas na Península do Sinai e depois procuraram fixar-se em Canaã, mas a região estava ocupada pelos cananeus. A narrativa bíblica relata que os hebreus conquistaram a terra. Porém, não existem muitos indícios que apontem para uma invasão militar em larga escala; o mais certo é que os hebreus se tenham infiltrado lentamente.

Contributos e grandeza do povo Judeu
Dispersos por todo o mundo, influenciaram culturas a nível global; esta grande influência ou contributo, mais que financeiro, económico, ou político, terá sido mais espiritual e cultural. Enquanto que em quase toda a Idade Média na Europa nem os reis sabiam ler e escrever, os judeus do tempo de Cristo tinham 0% de analfabetismo, porque o rito de passagem da meninice à idade adulta implicava que o menino lesse a Torá diante da comunidade.

Monoteísmo
Escuta, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor, amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu poder. E estas palavras que hoje te ordeno estarão no teu coração; e as intimarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te, e levantando-te. Também as atarás por sinal na tua mão, e te serão por testeiras entre os teus olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas. Deuteronómio 6, 4-9

Senhor, tu és o nosso Pai. Nós somos o barro; tu és o oleiro. Todos nós somos obra das tuas mãos.
Isaías 64:8

O progresso do monoteísmo em relação ao politeísmo é a união entre os humanos sob um mesmo Deus ao qual podem chamar Pai. A revolução francesa, por muito laica que pareça, não seria possível num país de cosmovisão politeísta como é por exemplo a Índia, onde a existência de vários deuses justifica a existência de castas e onde os homens não são iguais. A igualdade e a dignidade humanas não coexistem com o politeísmo, são conquista do monoteísmo.

A ideia de que há um só Deus Pai, criador do céu e da terra, é talvez o maior contributo de Jerusalém para a civilização ocidental. Tanto os gregos como os romanos eram politeístas; o politeísmo não leva à união nem à harmonia entre os povos, nem à unificação de conceitos como a verdade e a justiça. A ideia de que há um só Deus leva à coesão dos povos, à união na diversidade.

A igualdade perante a lei
O mesmo primado da lei, o facto de que todos são iguais perante a lei, seria mais difícil de manter no politeísmo: todos são iguais perante a lei porque todos são iguais perante Deus, porque há um só Deus que é criador e pai de tudo e de todos.

No monte Sinai, Moisés deu ao povo uma bússola, um GPS, não só para facilitar a convivência social como o código Hamurabi dos babilónios, mas um código abrangente de todos os aspetos da vida humana. O monoteísmo, neste sentido, criou uma diferença entre o ser e o dever ser, tanto do ponto de vista individual como do ponto de vista social.

Consciência moral e responsabilidade social
O monoteísmo humanizou Deus, de forma a que se tornasse num modelo para a humanidade. Como diria Feuerbach, não foi Deus que criou o homem à sua imagem e semelhança, mas o homem que criou a Deus à sua imagem e semelhança.

A religião para os judeus é para a vida. Como guia e modelo a seguir, a religião torna-se num complexo sistema de leis, normas e regras a seguir para modificar a vida. Até este momento, isso nunca tinha acontecido. A religião passou a influenciar a conduta humana, tanto do ponto de vista individual como do ponto de vista social. Não podemos esquecer que, antes do monoteísmo judaico, em todos os politeísmos, o grego, o romano, o hindu ou o antigo chinês, os deuses são tão bons ou maus quanto os humanos. Ou seja, não constituem nenhum caminho verdade nem vida. A ética vem da filosofia tanto na cultura chinesa (Confúcio) como na grega (Aristóteles).

Os conceitos de liberdade (amar a Deus sobre tudo quanto existe) e igualdade (amar ao próximo como a ti mesmo) explicam-se melhor do ponto de vista religioso. São conceitos judeus e assim se entende que, sem o judaísmo, não haveria Revolução Francesa. Em Israel nunca houve castas nem gente com sangue azul, todos se consideravam iguais perante Deus e perante uns e outros, com a mesma dignidade e responsabilidade social, sujeitos com tantos deveres como direitos.

Conceção linear do tempo – paradigma do progresso
Na Antiga Grécia e no Extremo Oriente prevaleceu sempre uma compreensão circular do tempo: do ponto de vista cósmico, com os 365 dias que a Terra leva a dar uma volta ao sol, do ponto de vista da Natureza, com as mudanças climatéricas e as quatro estações do ano, Primavera, Verão, Outono e Inverno. A partir destes factos, nasceu para a Filosofia o mito do “eterno retorno”, para a Ciência a ideia de que “Não há nada de novo debaixo do sol” e para a Religião a crença na “reencarnação”.

O tempo humano, a reta – Do ponto de vista existencial e humano, cada dia que passa é um dia mais que vamos viver e um dia menos que nos resta de vida. Conceber o tempo como uma reta, que vem do passado, passa pelo presente e se dirige ao futuro, não é algo que se possa observar na Natureza.

O tempo em linha reta é o tempo da história individual e comunitária, o tempo que integra a ideia de progresso moral: hoje foi melhor que ontem, amanhã será melhor que hoje. Na Filosofia, a máxima “não nos banhamos duas vezes nas águas do mesmo rio”, de Heráclito, partilha esta compreensão do tempo, verificando-se o mesmo na Cosmologia e na Religião que veiculam as noções do princípio e do fim do mundo.

Esta é também a conceção judaica do tempo: a saída do Egito (terra de escravidão), a passagem pelo deserto (lugar de sofrimento, penitência, purificação e esforço) e a entrada na Terra Prometida, onde corre leite e mel (terra da liberdade, do esforço recompensado e da obra acabada).

Santidade da Vida
Os filhos são um dom de Deus: é uma recompensa o fruto das entranhas." Salmos, 126, 3

Não matarás Êxodo 20, 13

Como dom de Deus, a vida a Ele pertence; d’Ele vem, a Ele volta, não somos donos dela, mas sim seus administradores e dessa administração prestaremos contas. Podemos vivê-la como quisermos, mas não podemos extingui-la, desde a conceção até à morte natural a vida é sagrada, é um valor absoluto.

Dignidade da pessoa humana
Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastam sobre a terra”. Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher.    Génesis, 1, 26-27

A pessoa humana pode ter sido o resultado da evolução dos tempos, porém só nós evoluímos até chegar à autoconsciência de nos vermos diferentes de todas as criaturas. Fomos criados à imagem e semelhança de Deus, como Ele somos também criadores, a única diferença é que Ele tem capacidade de criar do nada enquanto que nós criamos a partir das coisas criadas.

A universalidade do descanso
Trabalharás durante seis dias, mas descansarás no sétimo, embora decorra o tempo da lavra e da ceifa. Êxodo 34, 21

Trabalharás durante seis dias e farás todo o teu trabalho. Mas o sétimo dia é o sábado consagrado ao Senhor, teu Deus. Não farás trabalho algum, tu, o teu filho e a tua filha, o teu servo e a tua serva, os teus animais, o estrangeiro que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias o Senhor fez os céus e a terra, o mar e tudo o que está neles, mas descansou no sétimo dia. Por isso, o Senhor abençoou o dia de sábado e santificou-o. Êxodo 20, 9-11

Não sabemos quem inventou o trabalho, provavelmente não tem inventor ou fundador. Porém, o descanso sim, tem inventor, é invenção do povo judeu. A ideia de um dia consagrado a Deus, o sábado, origem do descanso sabático e também do ano sabático (um ano em que não se trabalha, mas estuda-se ou faz-se qualquer outra atividade), pertence ao povo judeu.

É claro que para a justificar perante o povo se utiliza o antropomorfismo de que Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo. Não é que os povos anteriores ao povo judeu não descansassem, certamente o faziam, mas só descansavam os senhores, os escravos trabalhavam sempre. O descanso não era democrático ou universal; o que é excecional no povo judeu, é que o descanso é para todos, senhores, escravos, estrangeiros e até os animais de trabalho, como o burro e o boi.

Conclusão: conceitos como a santidade da vida, a dignidade da pessoa humana, a liberdade, a igualdade, a responsabilidade social, o descanso universal, o progresso em todos os sentidos, a justiça e a paz fazem hoje parte não só da cosmovisão do povo judeu, mas do mobiliário da mente humana.

Pe. Jorge Amaro, IMC


1 de julho de 2024

Cosmovisão Greco-Romana

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De leste para oeste, do Sul para norte
Nesta sucessão de impérios e deslocações de centros do poder, notamos um ligeiro movimento geográfico de sul para norte (do Egito para a Grécia, da Suméria para a Acádia) e um movimento bastante mais apreciável de leste para oeste (da Suméria para a Babilónia). A Grécia assimilou todas as culturas anteriores a ela, ao derrotar o Império Persa. Roma assimilou a Grécia, expandindo-se mais para norte e aproximando-se a oeste do fim do mundo conhecido - “Onde a terra acaba e o mar começa” citando os Lusíadas, de Camões.

De alguma forma, podemos dizer que Roma está para a Grécia como os bárbaros estão para Roma, uma vez que Roma era muito mais culta que os bárbaros do Norte e do leste da Europa no tempo da queda do império. Roma nunca se impôs no oriente e eram muito mais tolerantes que os gregos foram com os judeus; neste aspeto, imitaram os persas que também foram condescendestes com os povos dominados.

A Grécia era orgulhosa da sua sabedoria, como vemos no discurso de S. Paulo no areópago. Roma era poderosa, mas magnânima e tolerante. Por isso, só conseguiu impor a sua cultura e língua junto dos povos ignorantes do ocidente; o oriente continuou a falar grego e os romanos pouco se importavam com isso.

GRÉCIA
A cultura helénica influenciou a civilização ocidental em inúmeras vertentes; certamente em muitas mais vertentes que as outras duas cidades pilares da mesma.

Filosofia
Filo-sofia (amor pela sabedoria). Era a arte de pensar sem nenhum objetivo prático ou pragmático para além de divisar o sentido do cosmos, das coisas e da vida em geral. É um pensamento crítico racional e reflexivo. Acima de tudo, a filosofia grega contestava a visão mítica do mundo. Os mitos são a primeira tentativa de explicação das coisas e dos fenómenos para lhes dar sentido e significado. São narrativas simbólicas cujos personagens são deuses. Cada realidade era comandada por um deus, havendo assim um deus do tempo, Cronos, um deus da guerra, Marte, uma deusa do amor, Vénus, etc.

A filosofia olha para o mundo de uma forma racional e busca explicações racionais ou razoáveis para os fenómenos naturais, sem recorrer a mitos ou a lendas fantasmagóricas. Destacam-se os filósofos Sócrates, Platão e Aristóteles e um grande número de filósofos pré-socráticos como Heráclito, Parménides, Zenão, Demócrito, Anaxágoras e muitos outros.

Só sei que nada sei – É a máxima socrática que leva a não nos contentarmos nunca com o que já sabemos e a mantermos sempre a humildade, tão importante para aprendermos mais e mais. Para além do seu método de conhecimento, Sócrates imortalizou-se pela sua maiêutica, a arte de ajudar a trazer à luz, baseada no princípio de que a sabedoria já está dentro de nós, só precisamos de alguém que nos ajude a iluminá-la. Ainda hoje este princípio é válido e é aplicado em psicoterapia, na psicologia não diretiva de Carl Rogers, e também em sociologia, pelo pedagogo brasileiro Paulo Freire.

Democracia
A cidade de Atenas é considerada o berço da democracia. Os cidadãos atenienses (homens, nascidos na cidade, adultos e livres) eram aqueles que podiam participar nas votações que ocorriam na Ágora (praça pública). Decidiam, de forma direta, os rumos da cidade-estado.

Ciência – O abandono das crenças e mitos é importante para o surgimento do pensamento empírico e científico. Neste sentido, a filosofia é a mãe das ciências, pois foi com ela que surgiu o pensamento racional, livre de lendas, mitos e crenças, para analisar a realidade e os fenómenos naturais.

Por outro lado, a atitude socrática de que “só sei que nada sei” é também importante para ir divisando o mistério que envolve qualquer ciência: quanto mais se sabe, mais há para saber. Ainda hoje, os termos técnicos e científicos derivam do grego e os novos conceitos formam-se a partir do grego.

Medicina – Hipócrates, considerado o pai da Medicina, foi o primeiro a entender que as doenças não eram causadas pelos deuses, mas tinham como génese um desequilíbrio. Hipócrates deixou-nos o seu juramento que é ainda hoje utilizado pelos médicos no início da sua carreira.

Matemática – Tales de Mileto e Pitágoras deixaram-nos os seus teoremas, curiosamente à volta do triângulo, a figura geométrica mais simples, sendo todas as outras constituídas por sérias de triângulos, incluído o círculo.

Arquitetura – Certamente herdeira de patrimónios anteriores, como o do Egito e da Mesopotâmia, a arquitetura grega imortalizou-se com a introdução das colunas que tornaram os edifícios mais elegantes e menos monolíticos que os anteriores do Egito e da Mesopotâmia. As colunas gregas diferenciavam-se pela forma que assumiam no seu topo, com três estilos diferentes: o dórico, o jónico e o coríntio.

Arte – O conceito de beleza e harmonia retratado na escultura e na pintura. Os escultores buscavam retratar no máximo detalhe o corpo humano, característica que mais tarde voltou a observar-se no Renascentismo europeu, que nos deu obras tão famosas como a Pietá e Moisés de Miguel Ângelo.

História – Os gregos foram os primeiros a tratar a história com caráter científico, separando os factos das lendas, dos mitos e das crenças religiosas, distinguindo entre ação humana e interferência ou intervenção divina. A própria palavra História vem de um termo grego que significa pesquisa, investigação. Destacam-se os autores Heródoto, considerado também o pai da História, Xenofonte e Tucídides.

Literatura – Destaca-se Homero com os seus poemas épicos: a Ilíada que descreve a guerra de Troia, e a Odisseia que descreve as viagens e peripécias de Ulisses. Diz a lenda que este herói fundou a cidade de Lisboa, Olissipona, a cidade de Ulisses, quando deixou Troia depois da guerra.

Teatro – O teatro, nas diferentes modalidades de tragédia e comédia, representava não só uma diversão para os gregos, bem diferente da diversão violenta dos romanos com os gladiadores na arena, como era também uma forma de educação da juventude. Os autores mais famosos foram Ésquilo, Sófocles, Aristófanes e Eurípedes. Como as encenações eram ao ar livre, a Grécia construiu inúmeros teatros, tanto a norte como a sul do Mediterrâneo, e as suas ruínas ainda hoje podem ser observadas.

Jogos Olímpicos – Tinham um carácter sagrado e, como o próprio nome indica, eram uma homenagem aos deuses do Olimpo. Foram os gregos que inventaram, o desporto, a preparação física; eram jogos pan-helénicos, ou seja, entre as cidades-estado gregas. Celebravam-se de quatro em quatro anos e duravam cinco dias.

Cosmovisão ptolemaica
Ptolomeu (70-147 d.C.), o mais célebre astrónomo da Antiguidade, colocou a Terra no centro do universo. Neste sistema, o sol, a lua e os planetas giravam ao redor da Terra. Esta visão geocêntrica do mundo foi assumida pela Idade Média, e associada à filosofia aristotélica. A cosmovisão medieval colocava o homem, e a Terra por ele habitada, no centro da criação.

ROMA
Senatus Populus Que Romanus (SPQR)
“O Senado e o povo de Roma”. Estas são as iniciais que os romanos levavam nos seus estandartes, na sua bandeira, nas expedições militares e que colocavam nos edifícios públicos. Se algo demonstram estas insígnias e símbolo do poder de Roma, é que a ideia de democracia do povo grego foi assimilada pelo povo romano. Democracia para os romanos equivalia a república; a república era governada por senadores, representantes do povo.

Os romanos eram um povo mais prático e pragmático, assimilaram o legado da Grécia e não tentaram impor a sua cultura. Pelo contrário, eram muito tolerantes com os povos que dominavam, nem sequer impunham a sua língua - desde que pagassem tributo a Roma podiam até manter os seus usos e costumes, a sua religião e os seus reis.

Os romanos tinham consciência da grandeza e superioridade da cultura helénica e, de facto, em muitas matérias, não avançaram muito. Há, porém, vários pontos em que os romanos superaram os gregos e são esses que mencionamos. Como dissemos, esta evolução está ligada ao seu caráter mais prático que teórico.

O direito e a organização do Estado
Este é, sem dúvida, o mais importante legado romano para o mundo moderno. Na base do Direito de todas as nações do nosso planeta está o Direito Romano.

A divisão e separação dos poderes que devem funcionar livre e autonomamente sem influências mútuas, vem de Roma. Curiosamente, estes poderes são três: o poder executivo, o poder judicial e o poder legislativo. Foi instituído o princípio de controlo entre eles, para que nenhum excedesse as suas competências.

Os romanos distinguiam três classes de direito: o Direito Político, que regulava os relacionamentos entre o Estado e os cidadãos; o Direito Privado, que regulava os relacionamentos entre cidadãos; e o Direito Internacional ou o direito das gentes, que regulava as relações entre os diferentes povos e nações.

Ideias legais como o julgamento por júri, os direitos civis, os contratos, a propriedade pessoal, os testamentos legais, as leis que regem as empresas, foram influenciadas pelo direito romano e pela maneira romana de ver as coisas.

Vejamos algumas máximas latinas ainda hoje usadas, tanto no contexto do Direito e dos tribunais como vulgarmente pelo povo.

Dura lex sed lex – A lei é dura e difícil de cumprir, mas é a lei; está estipulada e concede segurança. Mais duro seria a arbitrariedade e imprevisibilidade de um ditador. Esta máxima estabelece o primado da lei e de que ninguém está acima da lei.

Sumum ius summa injuria - Excesso de direito, excesso de injustiça. Axioma jurídico que nos adverte contra a aplicação demasiado rigorosa da lei, que pode dar margem a grandes injustiças. Para evitar isso, é necessário a jurisprudência ou epiqueia. Uma coisa é ser justo, outra é ser justiceiro.

Excusatio non petita accusatio manifesta – É mais um princípio psicológico que do direito. Quando alguém se desculpa sem que ninguém lhe tivesse pedido que se justificasse, está a acusar-se a si mesmo implícita e inconscientemente.

In dubio pro reo – No caso de dúvida, pelo réu; expressão baseada na presunção de inocência; também se refere como o benefício da dúvida. A incerteza sobre a prática de um delito ou sobre alguma circunstância relativa ao mesmo, deve favorecer o réu.

Conditio sine qua non - Condição sem a qual não pode ser; utilizada para dizer que uma condição é indispensável para a validade de algo, como uma teoria de equivalência das causas. Um exemplo clássico de conditio sine qua non é a vontade dos noivos como pressuposto para que um casamento seja válido.

Patria potestas – O poder do pai, poder que o chefe de família exercia sobre seus filhos e seus descendentes mais remotos na linha masculina, fosse qual fosse a sua idade, bem como sobre aqueles trazidos para a família por adoção.

Habeas corpus - Que tenhas o corpo; é a ação judicial que protege o direito de liberdade ameaçado por ato abusivo de autoridade, ou seja, uma ação para impedir que alguém seja preso ou que permaneça preso injustamente.

Arquitetura e engenharia
No campo da arquitetura, os romanos são muito superiores aos gregos. Com a invenção do arco romano, os romanos construíram grandes templos, palácios, estádios, aquedutos e pontes, anfiteatros e edifícios públicos que integravam arcos e abóbadas com tal eficiência que muitas destas obras ainda hoje estão de pé. O Coliseu de Roma, o Panteão de Roma, o aqueduto de Segóvia e inúmeras pontes romanas ainda hoje são usadas.

Os romanos distinguem-se pelas estradas. No mundo antigo, foram eles que abriram estradas. As principais vias da Europa, que existem atualmente, foram construídas sobre calçadas romanas. Os romanos inventaram as pontes para passarem os rios e inventaram o aqueduto para levar água às suas cidades. O aqueduto marítimo de Cesareia, que ainda se vê na praia desta cidade, tinha 6 km de comprimento.

Uma das razões pelas quais o Império Romano durou mais que todos os outros, quase um milénio, é porque estava bem ligado pelas estradas e pontes que construiu em toda a Europa. A construção de estradas e pontes era tão importante para os romanos que até o título do Imperador refletia esse esforço, ao ser chamado Pontifex Maximus, o que significa o Supremo Engenheiro de Pontes. Ironicamente, este é agora o título do Pontífice Romano, o Papa, o que significa que ele como o representante de Cristo é a ponte entre a humanidade e Deus.

Alfabeto romano
É o alfabeto que utilizam as línguas neolatinas, o castelhano, o português, o francês, o italiano e o romeno, o catalão, o galego e o provençal. O inglês que se transformou na primeira língua franca do mundo provém em 60% do latim e do grego; os restantes 40% são de origem saxónica.

É, ainda hoje, o alfabeto mais utilizado no mundo, mesmo nas línguas que não são neolatinas como o alemão e o inglês e todas as línguas da Europa ocidental, e também o turco, vietnamita, malaio, somali, suaíli e quase todas as línguas africanas, além do tagalog, língua nacional das Filipinas.

Dissemos que o grego é ainda usado para termos científicos, embora haja uma exceção; para os nomes científicos de plantas e animais é o latim, e não o grego, a língua universalmente usada. Os romanos possuíam também uma numeração que ainda usamos para designar os séculos e pouco mais. Porém, como não tem zero, não serve para a matemática. A numeração que se usa a nível mundial é a árabe.

O calendário de 365 dias, com 12 meses que hoje usamos foi inventado pelo imperador romano Júlio César. A Igreja mais tarde mudou o calendário juliano, que ainda hoje é usado pela Igreja Ortodoxa, para o gregoriano, introduzido pelo Papa Gregório e hoje usado universalmente. O nome dos meses também é de origem latina.

Cosmovisão antiga
No Crescente Fértil, desde a Suméria e o Egito, as sociedades e impérios foram-se formando, o posterior assimilando as conquistas do anterior, como numa corrida de estafetas. Por fim, temos a Grécia e Roma como herdeiras de um Crescente Fértil do ponto de vista da agricultura, mas também da cultura. Grécia e Roma formataram não só a civilização ocidental posterior a elas, como grande parte do pensamento mundial.

A cosmovisão e religião antigas entendem o Céu e a Terra como intimamente ligados. Cada acontecimento é uma combinação de ambas as dimensões da realidade. Se uma guerra começa na Terra, então deve haver, ao mesmo tempo, guerra no Céu, entre os anjos das nações no Conselho Celestial. Da mesma forma, os eventos iniciados no Céu são espelhados na Terra. Vemos isto claramente nas obras de Homero, sobretudo na Ilíada, a que melhor conheço, e que descreve a guerra de Troia.

Esta guerra não acontece só na Terra, mas também nos Céus, pois os deuses aliam-se com os gregos ou com os troianos e seguem os acontecimentos da Terra a par e passo. Esta é uma forma simbólica de dizer que cada realidade material tem uma dimensão espiritual e que cada realidade espiritual tem consequências físicas.

Não pode haver nenhum evento ou entidade que não consista, simultaneamente, do visível e do invisível. Aristóteles, que no confronto com o idealista e espiritualista Platão era materialista, entende que o universo é esférico e finito. Esférico, porque esta é a forma mais perfeita; finito, porque tem um centro que é o centro da Terra, e um corpo com um centro não pode ser infinito.

A matéria parece possuir qualidades místicas — preferências, aspirações para certos tipos de movimento — é animada. As coisas caem porque é seu desejo voltar à Terra. A matéria em movimento acaba por parar a menos que haja agentes invisíveis que a mantêm em movimento. As esferas cristalinas que sustentam os planetas são mantidas em movimento por "inteligências" invisíveis.

Esta forma de ver as coisas foi tomada por S. Tomás de Aquino e fez parte da cosmovisão de todos os que viveram até à física mecanicista de Newton.

Assim está formatado o pensamento dos povos antigos, desde os escritores da Bíblia, sobretudo os do Antigo Testamento, até aos romanos, gregos, babilônios, egípcio e Índia chinesa. Esta era a visão do mundo antigo. Os deuses do Olimpo e todas as suas vidas, o ódio e as guerras, acabam com invejas, são como os humanos.

Até ao aparecimento do cristianismo, com a ideia de um Deus único e pessoal, a religião não tinha nenhuma incidência na vida; ou seja, não havia nenhuma moral ou “modus vivendi” associado à religião, pois os deuses eram tão maus ou tão bons como os humanos. Ethos na tradição grega ou morus na tradição romana, a ética ou a moral, não emana da religião, mas sim da filosofia; a partir de Platão e Aristóteles, que se dedica ao estudo da lei natural, emana da observação da natureza.

É esta lei natural que é o fundamento de todos os valores e direitos humanos, como a liberdade igualdade, responsabilidade, dignidade humana, o sentido de justiça, verdade e paz.

Conclusão: Possuindo os deuses os mesmos defeitos que os humanos, na cosmovisão dos povos antigos, a religião não tem nenhuma incidência ética na vida do dia a dia. Antes do Cristianismo  a ética provém da filosofia não da religião.

Pe. Jorge Amaro, IMC


15 de junho de 2024

Cosmovisão Maia - Asteca - Inca

Sem comentários:

Ninguém duvida atualmente que os seres humanos cruzaram a pé a distância entre a Sibéria e o atual Alasca por um estreito hoje submerso. Para a ciência genética foi há 20 000 anos, para os arqueólogos foi há 16 000 anos. Prova disto é o facto de os indígenas do continente americano pertencerem à etnia mongol, ou seja, terem traços asiáticos.

Há 16 000 a.C., o ser humano estava ainda no Paleolítico Superior, ou seja, ainda na Idade da Pedra, mais propriamente no Mesolítico ou Neolítico e ainda não conhecia os metais. Ao chegarem a novos lugares, sempre havia seres humanos que aí se fixavam e outros que continuavam viagem, em busca de melhores condições de vida. Desta maneira foram-se deslocando para o Sul, pois a Norte predominava o gelo.

Os asiáticos que se foram fixando na parte setentrional do continente americano nunca chegaram a criar uma civilização; viveram sempre na Pré-história, nunca conheceram uma cultura, pois a vida deles era lutar pela sobrevivência. Caçavam, pescavam e pouco mais, não cultivavam a terra, sobretudo não cultivavam cereais.

Como dissemos noutro texto, onde não houve cereais não houve civilização, pois são os cereais que proporcionam excedentes que podem ser facilmente armazenados por muito tempo, levando o ser humano a emancipar-se da natureza. Sem agricultura não há cultura, e o rei da agricultura é o cereal, pois é de todos os alimentos o mais completo, que dá mais energia e por mais tempo e que pode ser arrecadado também de uns anos para os outros.

As únicas civilizações antigas que surgiram no continente americano são as da América Central, onde o clima ameno, semelhante ao do Crescente Fértil, permitiu a prática da agricultura, sobretudo do milho, que está na base das civilizações Maia, Asteca e Inca que aqui nasceram.

Civilizações anteriores aos Maias
 Se considerarmos que a história começa com o aparecimento da escrita, a civilização Maia é a primeira do continente americano. Porém, se considerarmos para além da escrita outros elementos que denotam cultura, como o desenvolvimento agrícola, a construção de monumentos em pedra, então teremos que nos questionar se é conveniente colocar a escrita como a divisória entre Pré-história e História.

A civilização de Caral
Também conhecida como Caral-Supe ou Norte Chico, é considerada com a mais antiga das Américas. Floresceu entres os anos 3 000 – 2 500 a.C. na região centro-norte da costa do Peru. Data do Neolítico pré-cerâmico.

A total ausência de cerâmica e a presença de grandes estruturas, como templos e pirâmides, denota primeiro que era uma sociedade muito religiosa com um alto grau de tecnologia e organização social para solucionar os problemas da construção e dos elevados custos de materiais e energia. É quanto podemos deduzir, pois não desenvolveram nenhuma escrita, pelo que não nos disseram sequer por que construíram tão complexos monumentos.

Civilização Olmeca
A civilização Olmeca floresceu na costa do Golfo do México entre 1 200-4 00 a.C. Construiu as primeiras pirâmides de pedra do continente norte-americano, bem como os famosos monumentos de cabeças "com cara de bebé". Os olmecas eram governados por reis, construíram enormes pirâmides, domesticaram feijões e desenvolveram a escrita mais antiga das Américas. O povo Olmeca também domesticou a árvore do cacau e deu ao mundo o chocolate.

Arqueólogos e linguistas decifraram recentemente a escrita antiga dos Olmecas que designaram como Epi-Olmeca. Esta escrita está intimamente ligada à antiga escrita Maia que também foi decifrada recentemente e que pode muito bem ter origem nos hieróglifos dos olmecas. Eis um pequeno texto nesta língua:

Era uma vez um guerreiro chamado Senhor da Montanha das Colheitas. Ele vivia numa terra quente e húmida junto à curva de um rio que corria para outro rio que corria para o mar. Muitas foram as batalhas que travou e os rituais de sangue que suportou, pois, este guerreiro era o governante do povo junto à curva do rio.

CIVILIZAÇÃO MAIA (2 500 a.C. – 1 500 d.C.)
Os principais centros onde esta civilização floresceu são a Guatemala, o sul do México com alguns vestígios em El Salvador, Belize e Honduras.

Religião
Tudo o que existe, seja pedra, vegetal, animal ou humano tem uma origem comum, que é espiritual, transcendente ou essencial (Uk’u’x). Esta origem comum invisível é a nossa verdadeira Mãe Formadora, pura inteligência Natura e o nosso verdadeiro Pai Criador, pura Consciência e Vontade. Por isso, os Maias dizem que “tudo tem pai e mãe”. Nisso reside a sacralidade da essência da totalidade de coisas e criaturas no universo.

Observamos ainda alguns resquícios de animismo, pois para os Maias tudo tem vida: os vales e montanhas, os lagos e o mar, o que há no céu e o que há na terra. Reconhecendo o sagrado da vida em nós, faz-se simples e vívida a sacralidade do outro. Com esta origem comum e nesta vida que nos completa, se fundamenta este princípio da Cosmovisão Maia: tudo é sagrado, Loq’ em língua maia k’iche’ tem sentido de “sagrado”, expressão que guarda uma relação estreita com o amor, pois a raiz de “loq’oq’ej” é literalmente amar.

Quando se descobre a origem comum da existência e da vida, fica claro o vínculo entre todas as coisas e seres, o que se traduz na experiência de “sentir o sagrado” como puro amor e devoção, respeito e gratidão.

Eram politeístas, consideravam que os deuses habitavam num local chamado Tamoanchan. Os acontecimentos do mundo natural eram regidos por forças espirituais e pelo poder dos ancestrais. Além disso, pensava-se que os locais da natureza eram locais sagrados. As cavernas, por exemplo, eram vistas como portas para o mundo sobrenatural e eram lugares nos quais se realizava uma série de rituais. Os Maias acreditavam que o destino da humanidade era regido pelos deuses, por isso a religião estava presente em todas as atividades culturais do povo.

Os sacrifícios humanos eram importantes para manter os deuses satisfeitos e assim garantir o funcionamento e a harmonia do universo. Os sacrificados eram quase sempre os prisioneiros de guerra, havendo também quem se entregasse voluntariamente. A forma mais comum do ritual sacrificial era a decapitação e a retirada do coração enquanto este ainda pulsava.

Sociedade, cultura e política
Os Maias possuíam uma sociedade hierarquizada, isto é, dividida em grupos sociais muito bem definidos, cada qual com funções distintas. O grupo mais numeroso da sociedade era o dos camponeses, os responsáveis pela agricultura e pelo abastecimento da cidade. Cultivavam o milho, cereal considerado sagrado, o algodão, o cacau e o agave. O modo de produção era coletivo, o solo não era propriedade privada e teoricamente o Estado era o proprietário de todas as terras. Como vimos noutras sociedades antigas.

A elite era a responsável pela administração das cidades-estado e pelas funções religiosas. A autoridade máxima e topo da pirâmide social Maia era o rei de cada cidade, chamado de ajaw. Também aqui a autoridade e o poder eram exercidos em nome de um deus.

Os Maias viam o mundo como um local que funcionava de maneira cíclica, isto é, em ciclos de fases que se repetiriam para sempre. Dentro dessa visão, possuíam um sistema duplo de calendário em que um era composto por 365 dias (chamado Haab) e outro era composto por 260 (era chamado de Tzolkin).

Desenvolveram um sistema próprio de escrita, até hoje quase indecifrável, baseado na representação de objetos e ideias. Sabe-se que possuía alto grau de abstração. Nunca chegaram a um alfabeto e fixaram-se na representação pictórica da realidade, como aconteceu com os hieróglifos antigos do Egito e da China.

Como os sumérios, os Maias nunca formaram um império propriamente dito; eram cidades-estado independentes entre si, com a mesma cultura em comum, mas o poder não era centralizado num imperador, como acontecia no Egito e na China. Isto fez com que fossem facilmente conquistados pelos Astecas do Norte, que chegaram a formar um império pois tinham uma ideia de poder centralizado.

Declínio dos Maias
Quando os europeus chegaram à América Central encontraram as cidades Maias desabitadas no meio de florestas que, entretanto, tinham crescido, prova de que os maias já as tinham abandonado há algum tempo. Há quem pense que foram as guerras entres as cidades-estado que dizimaram a população; outros que foram doenças e ainda outros um desastre ecológico.

Segundo esta última teoria, o que mantinha esta cultura e sociedade era a construção maciça de templos e pirâmides que requeria muita cal. Quando a cal começou a faltar porque já não havia mais lenha para transformar a pedra calcária em cal, a hierarquia da sociedade Maia começou a desmoronar-se, pelo que o povo abandonou a vida urbana e, para subsistir, regressou aos seus campos.

CIVILIZAÇÃO INCA (1200-1532)
Muito provavelmente eram herdeiros da civilização de Caral, pelo facto de partilharem o mesmo território, o Peru, Equador, Bolívia, sul da Colômbia, todo o Chile e Norte da Argentina

Organização política
A mais alta autoridade era o rei ou inca, considerado o filho do Sol, que governava por direito divino. As posições mais altas na administração do Império eram ocupadas pelos familiares do Inca. Estes formavam uma nobreza que cuidava da complexa organização do Estado. Um exército poderoso, dirigido por generais da família real, era responsável pela expansão, conquista e controlo dos territórios conquistados.

Sob o domínio da nobreza estava o resto da população, agricultores e artesãos. Os camponeses foram organizados em comunidades de pessoas relacionadas chamadas ayllus, chefiadas por um curaca. O curaca distribuía o trabalho e os produtos e respondia às autoridades pela sua ayllu.

Cada grupo social tinha as suas obrigações específicas. As hierarquias estabeleciam as atividades a serem executadas por cada grupo, e até mesmo o vestuário que podia usar, assim como os produtos que podia consumir. Alguns materiais, como o ouro, a prata e certos têxteis, eram reservados para o Inca e só podiam ser utilizados por ele e por alguns dos seus familiares diretos. Faz-nos recordar a Idade Média da Europa.

A economia Inca baseava-se na produção agrícola. As terras pertenciam ao Estado que as repartia: um terço dedicava-se à produção para o Inca, outro para os sacerdotes e o terceiro para as ayllus.
Os Incas formaram um autêntico império coeso e centralizado; possuíam uma rede de estradas que permitia uma rápida comunicação entre todas as regiões. Os mensageiros, chamados chasquis, levavam comunicações entre diferentes pontos. Estas estradas tinham postes, chamados tambos, onde os viajantes podiam descansar e alimentar-se. Faz-nos recordar os Sátrapas do Império Persa.

Embora não tivessem escrita alfabética, tinham vários métodos de gravação e comunicação de informação visual. Entre eles estava o quipus, série de cordas de diferentes cores com nós, que permitia manter a contabilidade e manter a memória de algumas narrativas.

Religião
Tal como os Maias, os Incas entendiam que a Natureza à sua volta era sagrada. Consideravam sagrados muitos elementos da Natureza, pessoas, objetos, etc. que eram chamados huaca. Respeitavam as crenças dos povos que conquistavam, mas impunham o culto ao Sol, a sua principal divindade. Também veneravam o Pachamama (Mãe Terra), Viracocha, o criador do mundo e Illapa, o deus da trovoada e da tempestade.

O império Inca foi conquistado pelos espanhóis sob o comando de Francisco Pizarro em 1532, quando o imperador Atahualpa foi feito prisioneiro. Embora algumas bolsas de resistência tenham permanecido até 1572, nunca representaram uma ameaça para a nova ordem colonial.

CIVILIZAÇÃO ASTECA (1345-1521)
Povo aguerrido, inteligente e empreendedor, proveniente do Norte do México onde eram caçadores e recolectores, emigraram para o sul, estabelecendo-se no lago Texcoco, onde se encontra a atual cidade do México. Em pouco tempo drenaram o lago e fundaram a sua primeira cidade, Tenochtitlán, estabelecendo alianças com cidades vizinhas. Pouco a pouco foram-se assenhoreando de tudo e de todos à sua volta, pelo bom desempenho nas artes da guerra.

Organização política
A sua forma de governo era monárquica e eletiva, ou seja, não era hereditária: o imperador não passava o poder para o seu filho; o seu sucessor era eleito através de um Conselho Supremo, chamado Tlatocan, cujos representantes pertenciam à nobreza Asteca e era geralmente um membro deste conselho que ascendia ao trono.

Uma vez eleito, o imperador (Tlatoani) era considerado divino e, portanto, possuía poderes ilimitados sobre a sociedade Asteca. Sob o seu comando, havia toda uma rede burocrática, composta por sacerdotes, cobradores de impostos (tecutli) e inspetores comerciais.

Os Astecas formaram um império totalitário que era constituído por cidades-estado com governantes locais eleitos pelo mesmo conselho superior responsável pela eleição do Imperador. A sua responsabilidade era manter o controlo destas pequenas cidades para garantir com sucesso o domínio absoluto do império.

Religião
“Amor com amor se paga” diz-se em Asteca “sangue com sangue se paga”. Os deuses Astecas requeriam muito sangue de sacrifícios de animais e humanos para serem apaziguados. O sangue era o alimento primordial dos deuses que, se não fossem alimentados regularmente, dificultariam em muito a vida dos Astecas.

A maioria dos deuses que formava o panteão Asteca estava relacionada com o ciclo solar e, por sua vez, com todas as atividades agrícolas que dele dependiam. Entre os deuses mais importantes, devemos primeiro destacar Huitzilopochtli, deus da guerra, Tlaloc que era a deusa da chuva. A esta eram anualmente sacrificadas inúmeras crianças no cume das montanhas. Quanto mais estas crianças choravam, mais chuva cairia nesse ano. Outros deuses eram Quetzalcoatl, a serpente emplumada e Coatlicue, a deusa mãe.

Cultura, usos e costumes
A educação era obrigatória, as crianças Astecas iam às escolas para estudar, constituindo a educação militar uma parte do currículo. O povo Asteca era um povo guerreiro, tal como que os espartanos da Grécia: as crianças eram treinadas para a guerra desde tenra idade.

A sociedade Asteca era patriarcal e, por isso, a mulher ficava em casa a cuidar das tarefas domésticas, enquanto o homem tinha a seu cargo o trabalho e as relações comerciais e sociais. Os Astecas estavam intimamente ligados ao mundo espiritual e religioso, pelo que entre os seus costumes se destaca a prática de muitos rituais e orações.

Cada casa tinha um lugar reservado, considerado um pequeno santuário, onde cada família se recolhia em oração. Entre outras práticas de ascese espiritual, a prática do jejum era muito importante na vida dos Astecas. Era praticado pela grande maioria da população, inclusive pelos próprios imperadores.

Conquista do Império por Hernan Cortez
Montezuma foi o décimo primeiro e último imperador antes da chegada de Hernan Cortez e da conquista do Império Asteca que se encontrava no seu apogeu. Não aconteceu do pé para a mão, pois os Astecas eram aguerridos, estavam bem organizados e possuíam, é claro, superioridade numérica. Naquele tempo como hoje, a superioridade das armas é mais importante que a numérica e Cortez teve uma vitória relativamente fácil.

Esta conquista aconteceu apesar dos muitos avanços destas sociedades Maia, Inca e Asteca, sobretudo os Maias que possuíam conhecimentos bastante avançados de astronomia, de matemática e de arquitetura, e que desenvolveram uma escrita que só começou a ser decifrada no final do século XIX.

Os ricos sacerdotes idealizaram um sistema de numeração vigesimal que empregava o zero, e as suas noções de astronomia permitiram-lhes conceber um calendário de 365 dias e observar o céu a partir de pirâmides escalonadas.

Apesar destes avanços, estes três povos não tinham ainda chegado à Idade do Ferro, enquanto que os espanhóis, para além das armas de ferro, possuíam canhões, mosquetes e cavalos para serem mais rápidos. A conquista foi tristemente fácil.

Há uma inscrição no sopé de um monumento no centro da Cidade do México que reza assim: Na conquista não houve nem vencedores nem vencidos, foi apenas o doloroso nascimento da nação mestiça que é hoje o México. De facto, mais de 80%, da população do México é mestiça, ou seja, resultado da união ou cruzamento entres espanhóis, Astecas, Maias e outros indígenas. 

O mesmo não aconteceu na colonização da América do Norte, feita por povos também europeus, mas de outra índole. Aqui há poucos mestiços porque os indígenas não só foram vencidos como foram dizimados numa campanha de autêntica limpeza étnica que dura até aos nossos dias. Os poucos que escaparam vivem hoje paternalisticamente em reservas, onde não faltam as drogas e o álcool para que se dizimem a eles mesmos.

Conclusão: duas coisas aprendemos da visão do mundo dos povos Maia, Inca e Asteca: primeiro, que toda a Natureza está integrada, ordenada e interrelacionada. Segundo, que todos os elementos que existem na Natureza, ou seja, tudo no universo é animado e tem vida; cada ser complementa e completa os outros.

Pe. Jorge Amaro, IMC








1 de junho de 2024

Cosmovisão do Rio Amarelo

Sem comentários:

Também chamado “Rio de tristeza”, o Rio Amarelo (Huang He) é um dos mais perigosos rios do mundo. Desde que há memória, já mudou de curso 26 vezes, produziu mais de 1 500 inundações e matou milhões de pessoas. Chama-se Amarelo porque as suas águas são sempre barrentas; ainda hoje, quando os chineses querem dizer nunca, dizem, “Quando as águas do Rio Amarelo correrem cristalinas”, coisa que nunca acontecerá.

O Rio Amarelo nasce no planalto do Tibete e atravessa o norte da China, de oeste a este, desaguando no Mar da China, no Oceano Pacífico. O potencial de destruição deste rio deve-se à imprevisibilidade das suas cheias, ao contrário do que acontecia com os rios Indo, Tigre, Eufrates e Nilo cujas inundações eram periodicamente esperadas e onde se desenvolveram as outras civilizações que estudámos.

Apesar da destruição que causou, a bacia hidrográfica deste rio foi o berço da civilização chinesa, a quarta civilização depois da Mesopotâmia, do Egito e do Vale do Indo. Pela arqueologia sabemos que o Homo Sapiens habitou esta zona desde o ano 6 000 a.C., no Neolítico, mas só começou a constituir civilização depois da criação da escrita, já na Idade do Bronze (1 600 a.C.–1 046 a.C.).

Os primeiros chineses, estabeleceram-se nas terras férteis do Rio Amarelo, compostas por um sedimento trazido e depositado pelas águas ao longo de milénios dos planaltos da China central e pelos ventos que vinham dos desertos a oeste. Nesta terra irrigada, os chineses cultivaram painço, hortaliças e frutas nativas, sobretudo ao longo do alto e médio curso do rio.

No setor baixo do Rio Amarelo, cultivavam arroz. Durante o terceiro milénio a.C., o excedente de produção favoreceu o estabelecimento de vilarejos permanentes e, em meados daquele milénio, havia quase uma sucessão contínua de povoados e vilas ao longo do rio, dando forma a um princípio de civilização.

Génese da civilização
A teoria clássica é de que a civilização chinesa do Rio Amarelo apareceu como que por geração espontânea, uma vez criadas as circunstâncias ideais, da mesma forma que surgiram a civilização suméria do Tigre e Eufrates, a egípcia do Nilo e a indiana do vale do Indo.

Embora esta seja uma perspetiva aceite de forma geral, tanto arqueólogos chineses como europeus e americanos defendem, por mais atualizados estudos feitos, que a civilização do Rio Amarelo foi importada tanto da Mesopotâmia como do Egito.

Era de esperar que China se defendesse ideologicamente afirmando que isto não é verdade, da mesma forma que certos arqueólogos contrapõem se calhar também ideologicamente com provas de que houve muitas influências do Crescente Fértil. A melhor forma de apurar a verdade seria descobrir a verdadeira idade da Rota da Seda, a famosa rota comercial que unia a Europa com a Asia..

Longe destas polémicas, com influências ou sem elas, a civilização do Rio Amarelo que deu lugar à cultura chinesa cresceu em total ou parcial isolamento relativamente às outras civilizações e a prova está não só no tipo de escrita, mas também em outras descobertas mais tardias que são autêntica e genuinamente chinesas.

Lenda da criação do mundo
Todas as culturas têm um mito de criação para explicar as suas origens. Na China, é a lenda de Pan Gu que, entre muitas outras, relata a seguinte história: no início, o cosmos era um gás que se solidificou numa colossal pedra. Desse ovo cósmico, nasceu uma criatura chamada Pan Gu, que viveu 18 mil anos, crescendo 3 metros por dia, e que ocupava o seu tempo picando a pedra até que se dividisse em duas partes:  uma tornou-se no céu (yang) e a outra tornou-se na terra (yin).

Quando Pan Gu completou o seu trabalho e morreu, a sua cabeça transformou-se em montanhas; a sua respiração tornou-se no vento e nas nuvens; a sua voz, no trovão; o seu olho esquerdo, no sol, e o seu olho direito, na lua. Os seus músculos e veias tornaram-se na matriz da terra, e a sua carne, no solo. O seu cabelo e barba viraram constelações, e a sua pele e pelos do corpo transformaram-se em plantas e árvores. Os seus dentes e ossos tornaram-se em metais, e o seu tutano tornou-se em pérolas e pedras preciosas. O seu corpo formou a chuva, e os piolhos sobre ele foram impregnados pelo éter e tornaram-se em seres humanos (Wong e Wu, 1936).

Os antigos chineses acreditavam que tudo no mundo tinha duas forças aparentemente opostas que existiam em relação uma com a outra. Chamaram a estas forças Yin e Yang. A qualidade das nossas vidas e o bem-estar geral do nosso mundo dependem de tendências opostas estarem em equilíbrio uma com a outra. Poderíamos estabelecer um paralelo entre o Yin/Yang da civilização chinesa com o Eros/Thanatos Instinto de vida, e Instinto de morte, agressão e afeição freudiano.

As forças "masculinas" foram definidas como Yang, simbolizadas pelo sol, e as forças "femininas" foram consideradas Yin e simbolizadas pela lua. Para manter o céu a funcionar sem problemas, o Rei na China antiga tinha o trabalho de manter o equilíbrio entre o sol e a lua; da sua saúde dependia também a saúde do povo.

Céu e Terra são o reflexo um do outro
O que acontece na Terra acontece no céu e vice-versa: é a ideia típica da cosmovisão de todos os povos antigos e também da cultura greco-romana. Os reis chineses e os seus astrónomos mediram, rastrearam e previram o comportamento dos corpos celestes porque acreditavam que o que acontecia nos céus estava intimamente ligado com o que acontecia na Terra.

Como todos os opostos de Yin-Yang, o Céu (masculino) e a Terra (feminino) refletiam-se mutuamente. Se houvesse uma perturbação nos Céus, a causa provavelmente estava na Terra. Da mesma forma, se algum dos corpos celestes se desviasse de lugar, o desequilíbrio de forças resultante causaria problemas na Terra.

Pensamento e medicina chinesa
O pensamento chinês baseia-se no princípio do conhecimento da natureza como caminho para atingir o estado de harmonia. A conceção de harmonia é inerente a diversas culturas antigas, traz em si a ideia do equilíbrio entre os diferentes aspetos do cosmos. Dentro desta visão holística, o homem é visto como parte integrante e inseparável deste todo e, além disso, como um microcosmo que contém em si processos semelhantes aos que ocorrem na natureza.

Citada no Livro das Mutações, em aproximadamente 700 a.C., a teoria do Yin Yang é a base da medicina chinesa. A energia Qi é considerada vital, a principal que dá origem ao céu, à terra e ao Yin-Yang, ou seja, a dualidade energética. O Yin é a energia que está relacionada com a insuficiência enquanto o Yang se relaciona com os excessos.

Acredita-se que as doenças são resultado do desequilíbrio entre Yin e Yang. Assim, as que se caracterizam como Yin são calmas, fracas, frias, húmidas, hipofuncionantes e crónicas. Já as que possuem características Yang são agitadas, fortes, quentes, secas, hiperfuncionantes e agudas. Após determinar se a pessoa é Yin ou Yang, é possível escolher os componentes que irão funcionar melhor na terapia que terá como principal objetivo ajustar a circulação do Qi pelo corpo.

Embora opostos, Yin e Yang são interdependentes, não podendo existir de forma isolada um do outro e estão em estado de constante mudança, de modo que, quando um é consumido, o outro aumenta. O consumo de Yin leva a um ganho de Yang e o consumo de Yang leva a um ganho de Yin.

Yin e Yang podem transformar-se um no outro. Essa transformação ocorre quando as condições adequadas se reúnem. Por exemplo, ao final do dia começa a noite e, do mesmo modo, uma estação sucede a outra, no ciclo das estações. No limite da fase Yin de um ciclo começa a fase Yang do mesmo.

Neste ponto, fica claro como o conhecimento se torna num instrumento de prevenção, e também como a medicina chinesa é, acima de tudo, uma medicina preventiva ao ajudar-nos a estar em conformidade não apenas com o nosso próprio ritmo, mas também com o ritmo do que nos cerca. A perceção dos padrões específicos de cada situação torna possível identificar tanto a origem quanto o provável desenvolvimento de uma patologia.

Sociedade patriarcal chinesa
Ao princípio masculino Yang eram atribuídas qualidades frequentemente interpretadas como superiores, ao passo que ao princípio feminino Yin eram atribuídas qualidades consideradas como inferiores. É fácil ver como esta cosmovisão antiga chinesa levou a uma sociedade patriarcal, com base nesta justificação antiga do baixo estatuto das mulheres na sociedade.

A preferência por rapazes refletia-se na família, que era uma instituição venerada na antiga sociedade chinesa. Esta preferência nos tempos modernos da política do filho único tem levado ao mascare de milhares de milhões de meninas, a tal ponto que hoje há mais homens que mulheres na China.

Os laços familiares eram sagrados e hierárquicos. Numa sociedade agrária, era o trabalho dos filhos que daria aos pais segurança na velhice. Como a propriedade da família passava para o filho mais velho, eram os meninos que asseguravam a continuidade familiar ao longo de gerações.

As filhas, por outro lado, eram consideradas meramente como bocas para alimentar que acabariam noutras famílias, normalmente à custa de um precioso dote. As raparigas eram tratadas como propriedade, compradas e vendidas entre famílias, ou mesmo intermediadas através de casamenteiras. Se uma esposa não conseguisse produzir um filho, era muitas vezes substituída ou despromovida pelo marido, que se casava com outras esposas até que a família tivesse o seu filho.

Não havia aqui nada de novo, o que vemos na sociedade chinesa vemos em todas as culturas e civilizações do globo, onde a mulher é ser humano de segunda categoria para ser explorada e submetida e cuja única função é a reprodutiva e pouco mais.

Cultura - língua - religião
A família tinha um lugar preponderante na antiga sociedade chinesa. O pai controlava a casa e tomava as decisões importantes. O respeito pelos anciãos era muito valorizado, e esperava-se que as crianças honrassem os seus pais. Os chineses também acreditavam na adoração dos seus antepassados: manter contentes o espírito destes membros da família mortos era crucial para obter boa sorte e evitar desastres.

A religião era politeísta. Os sacerdotes também aqui assumiam o papel de intermediários: falavam com estes deuses através do uso de ossos oráculos; escreviam perguntas para os deuses sobre os ossos do oráculo que eram depois queimados. O fogo causaria rachaduras nos ossos que eram então interpretadas pelos sacerdotes como respostas dos deuses às suas perguntas.

A escrita usada era semelhante à dos sumérios e egípcios: os chineses usavam pictogramas, ou desenhos simplificados de objetos ou conceitos.

Dinastias chinesas
Em todas as civilizações deste planeta o poder é sempre delegado: pelo povo nos seus líderes por um período de tempo até novas eleições ou delegado por Deus. A civilização chinesa não foi exceção neste sentido. O que é particular na civilização chinesa é que as dinastias não eram eternas como a Davídica de Israel e tantas outras na Europa e resto do mundo.

A antiga China era governada por uma linhagem de governantes de uma única família a que chamamos de dinastia. Porém, se o povo e os deuses não estivessem satisfeitos com a dinastia no poder, este passaria para outra família nobre, criando-se assim uma nova dinastia.

Este processo é chamado de ciclo dinástico e isso explicou a ascensão, declínio e substituição de muitas dinastias ao longo da história da Antiga China. Se um rei tivesse feito algo de errado, podia perder o mandato do Céu, o que significava perder o direito de governar. Isto porque o povo acreditava que todas as dinastias recebiam o direito de governar através da aprovação dos deuses.

De acordo com a tradicional lenda de nascimento da civilização chinesa, uma enorme inundação que durou meses teria coberto a região do Rio Amarelo. Mas um homem chamado Yu, conhecido também como Yu, o Grande, teria desenvolvido um sistema de drenagem que conseguiu restabelecer as áreas das margens do rio. Seria após esse episódio que Yu teria recebido um “chamado divino” para estabelecer então a Dinastia Xia.

Cronologia das dinastias chinesas
Dinastia Xia (2100 - 1600 a.C.) – Envolta na lenda acima descrita, há quem pense que não existiu.
Dinastia Shang (1600 - 1046 a.C.) – Pensa-se que a mais antiga forma de escrita seja desta geração.
Dinastia Zhou (1046 - 256 a.C.) – A mais longa de todas as dinastias chinesas; é comumente conhecida como o ápice da civilização antiga chinesa; a filosofia confucionista, por exemplo, teria sido desenvolvida durante este período, influenciando a China até hoje.
Dinastia Qin (221 - 207 a.C.) – São desta época os dois ex libris da cultura chinesa, a Grande Muralha e o exército de terracota recentemente descoberto.
Dinastia Han (206 a.C. - 220 d.C.) – Pensa-se ser deste tempo o estabelecimento da Rota da Seda, mas é bem provável que a origem desta rota seja pré-histórica. Ou seja, o caminho que o Homo Sapiens tomou desde o Crescente Fértil até aos confins da Ásia e da China. Seriam também desta dinastia o taoísmo e a chegada do budismo à China.
Período das Seis Dinastias (220 - 589 d.C.) – Expansão do budismo.
Dinastia Sui (581 - 618 d.C.) – De curta duração.
Dinastia Tang (618 - 906 d.C.) – Entre as invenções que surgiram durante a dinastia Tang, estariam o primeiro relógio mecânico do mundo, a bússola e a máquina de imprimir livros.
Período das Cinco Dinastias (907 - 960 d.C.) – Declínio e agitação política e social.
Dinastia Song (960 - 1279 d.C.) – Nova reunificação da China.
Dinastia Yuan (1279 - 1368 d.C.) – Abertura ao ocidente; são deste tempo as viagens de Marco Polo. Invenção da pólvora e da porcelana.
Dinastia Ming (1368 - 1644 d.C.) – Foi durante este período que foi construído o palácio imperial, a Cidade Proibida, em Pequim.
Dinastia Qing (1644 - 1912 d.C.) – Com a queda da dinastia Qing, em 1912, foi oficialmente fundada a República Popular da China.

Conclusão – O poderoso rio Amarelo, nascido da cadeia montanhosa mais alta do planeta, foi a origem de uma cosmovisão marcadamente diferente da ocidental que influenciou a vida e o pensamento do resto do norte asiático, em especial da Coreia e do Japão. 

Pe. Jorge Amaro, IMC