15 de junho de 2024

Cosmovisão Maia - Asteca - Inca

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Ninguém duvida atualmente que os seres humanos cruzaram a pé a distância entre a Sibéria e o atual Alasca por um estreito hoje submerso. Para a ciência genética foi há 20 000 anos, para os arqueólogos foi há 16 000 anos. Prova disto é o facto de os indígenas do continente americano pertencerem à etnia mongol, ou seja, terem traços asiáticos.

Há 16 000 a.C., o ser humano estava ainda no Paleolítico Superior, ou seja, ainda na Idade da Pedra, mais propriamente no Mesolítico ou Neolítico e ainda não conhecia os metais. Ao chegarem a novos lugares, sempre havia seres humanos que aí se fixavam e outros que continuavam viagem, em busca de melhores condições de vida. Desta maneira foram-se deslocando para o Sul, pois a Norte predominava o gelo.

Os asiáticos que se foram fixando na parte setentrional do continente americano nunca chegaram a criar uma civilização; viveram sempre na Pré-história, nunca conheceram uma cultura, pois a vida deles era lutar pela sobrevivência. Caçavam, pescavam e pouco mais, não cultivavam a terra, sobretudo não cultivavam cereais.

Como dissemos noutro texto, onde não houve cereais não houve civilização, pois são os cereais que proporcionam excedentes que podem ser facilmente armazenados por muito tempo, levando o ser humano a emancipar-se da natureza. Sem agricultura não há cultura, e o rei da agricultura é o cereal, pois é de todos os alimentos o mais completo, que dá mais energia e por mais tempo e que pode ser arrecadado também de uns anos para os outros.

As únicas civilizações antigas que surgiram no continente americano são as da América Central, onde o clima ameno, semelhante ao do Crescente Fértil, permitiu a prática da agricultura, sobretudo do milho, que está na base das civilizações Maia, Asteca e Inca que aqui nasceram.

Civilizações anteriores aos Maias
 Se considerarmos que a história começa com o aparecimento da escrita, a civilização Maia é a primeira do continente americano. Porém, se considerarmos para além da escrita outros elementos que denotam cultura, como o desenvolvimento agrícola, a construção de monumentos em pedra, então teremos que nos questionar se é conveniente colocar a escrita como a divisória entre Pré-história e História.

A civilização de Caral
Também conhecida como Caral-Supe ou Norte Chico, é considerada com a mais antiga das Américas. Floresceu entres os anos 3 000 – 2 500 a.C. na região centro-norte da costa do Peru. Data do Neolítico pré-cerâmico.

A total ausência de cerâmica e a presença de grandes estruturas, como templos e pirâmides, denota primeiro que era uma sociedade muito religiosa com um alto grau de tecnologia e organização social para solucionar os problemas da construção e dos elevados custos de materiais e energia. É quanto podemos deduzir, pois não desenvolveram nenhuma escrita, pelo que não nos disseram sequer por que construíram tão complexos monumentos.

Civilização Olmeca
A civilização Olmeca floresceu na costa do Golfo do México entre 1 200-4 00 a.C. Construiu as primeiras pirâmides de pedra do continente norte-americano, bem como os famosos monumentos de cabeças "com cara de bebé". Os olmecas eram governados por reis, construíram enormes pirâmides, domesticaram feijões e desenvolveram a escrita mais antiga das Américas. O povo Olmeca também domesticou a árvore do cacau e deu ao mundo o chocolate.

Arqueólogos e linguistas decifraram recentemente a escrita antiga dos Olmecas que designaram como Epi-Olmeca. Esta escrita está intimamente ligada à antiga escrita Maia que também foi decifrada recentemente e que pode muito bem ter origem nos hieróglifos dos olmecas. Eis um pequeno texto nesta língua:

Era uma vez um guerreiro chamado Senhor da Montanha das Colheitas. Ele vivia numa terra quente e húmida junto à curva de um rio que corria para outro rio que corria para o mar. Muitas foram as batalhas que travou e os rituais de sangue que suportou, pois, este guerreiro era o governante do povo junto à curva do rio.

CIVILIZAÇÃO MAIA (2 500 a.C. – 1 500 d.C.)
Os principais centros onde esta civilização floresceu são a Guatemala, o sul do México com alguns vestígios em El Salvador, Belize e Honduras.

Religião
Tudo o que existe, seja pedra, vegetal, animal ou humano tem uma origem comum, que é espiritual, transcendente ou essencial (Uk’u’x). Esta origem comum invisível é a nossa verdadeira Mãe Formadora, pura inteligência Natura e o nosso verdadeiro Pai Criador, pura Consciência e Vontade. Por isso, os Maias dizem que “tudo tem pai e mãe”. Nisso reside a sacralidade da essência da totalidade de coisas e criaturas no universo.

Observamos ainda alguns resquícios de animismo, pois para os Maias tudo tem vida: os vales e montanhas, os lagos e o mar, o que há no céu e o que há na terra. Reconhecendo o sagrado da vida em nós, faz-se simples e vívida a sacralidade do outro. Com esta origem comum e nesta vida que nos completa, se fundamenta este princípio da Cosmovisão Maia: tudo é sagrado, Loq’ em língua maia k’iche’ tem sentido de “sagrado”, expressão que guarda uma relação estreita com o amor, pois a raiz de “loq’oq’ej” é literalmente amar.

Quando se descobre a origem comum da existência e da vida, fica claro o vínculo entre todas as coisas e seres, o que se traduz na experiência de “sentir o sagrado” como puro amor e devoção, respeito e gratidão.

Eram politeístas, consideravam que os deuses habitavam num local chamado Tamoanchan. Os acontecimentos do mundo natural eram regidos por forças espirituais e pelo poder dos ancestrais. Além disso, pensava-se que os locais da natureza eram locais sagrados. As cavernas, por exemplo, eram vistas como portas para o mundo sobrenatural e eram lugares nos quais se realizava uma série de rituais. Os Maias acreditavam que o destino da humanidade era regido pelos deuses, por isso a religião estava presente em todas as atividades culturais do povo.

Os sacrifícios humanos eram importantes para manter os deuses satisfeitos e assim garantir o funcionamento e a harmonia do universo. Os sacrificados eram quase sempre os prisioneiros de guerra, havendo também quem se entregasse voluntariamente. A forma mais comum do ritual sacrificial era a decapitação e a retirada do coração enquanto este ainda pulsava.

Sociedade, cultura e política
Os Maias possuíam uma sociedade hierarquizada, isto é, dividida em grupos sociais muito bem definidos, cada qual com funções distintas. O grupo mais numeroso da sociedade era o dos camponeses, os responsáveis pela agricultura e pelo abastecimento da cidade. Cultivavam o milho, cereal considerado sagrado, o algodão, o cacau e o agave. O modo de produção era coletivo, o solo não era propriedade privada e teoricamente o Estado era o proprietário de todas as terras. Como vimos noutras sociedades antigas.

A elite era a responsável pela administração das cidades-estado e pelas funções religiosas. A autoridade máxima e topo da pirâmide social Maia era o rei de cada cidade, chamado de ajaw. Também aqui a autoridade e o poder eram exercidos em nome de um deus.

Os Maias viam o mundo como um local que funcionava de maneira cíclica, isto é, em ciclos de fases que se repetiriam para sempre. Dentro dessa visão, possuíam um sistema duplo de calendário em que um era composto por 365 dias (chamado Haab) e outro era composto por 260 (era chamado de Tzolkin).

Desenvolveram um sistema próprio de escrita, até hoje quase indecifrável, baseado na representação de objetos e ideias. Sabe-se que possuía alto grau de abstração. Nunca chegaram a um alfabeto e fixaram-se na representação pictórica da realidade, como aconteceu com os hieróglifos antigos do Egito e da China.

Como os sumérios, os Maias nunca formaram um império propriamente dito; eram cidades-estado independentes entre si, com a mesma cultura em comum, mas o poder não era centralizado num imperador, como acontecia no Egito e na China. Isto fez com que fossem facilmente conquistados pelos Astecas do Norte, que chegaram a formar um império pois tinham uma ideia de poder centralizado.

Declínio dos Maias
Quando os europeus chegaram à América Central encontraram as cidades Maias desabitadas no meio de florestas que, entretanto, tinham crescido, prova de que os maias já as tinham abandonado há algum tempo. Há quem pense que foram as guerras entres as cidades-estado que dizimaram a população; outros que foram doenças e ainda outros um desastre ecológico.

Segundo esta última teoria, o que mantinha esta cultura e sociedade era a construção maciça de templos e pirâmides que requeria muita cal. Quando a cal começou a faltar porque já não havia mais lenha para transformar a pedra calcária em cal, a hierarquia da sociedade Maia começou a desmoronar-se, pelo que o povo abandonou a vida urbana e, para subsistir, regressou aos seus campos.

CIVILIZAÇÃO INCA (1200-1532)
Muito provavelmente eram herdeiros da civilização de Caral, pelo facto de partilharem o mesmo território, o Peru, Equador, Bolívia, sul da Colômbia, todo o Chile e Norte da Argentina

Organização política
A mais alta autoridade era o rei ou inca, considerado o filho do Sol, que governava por direito divino. As posições mais altas na administração do Império eram ocupadas pelos familiares do Inca. Estes formavam uma nobreza que cuidava da complexa organização do Estado. Um exército poderoso, dirigido por generais da família real, era responsável pela expansão, conquista e controlo dos territórios conquistados.

Sob o domínio da nobreza estava o resto da população, agricultores e artesãos. Os camponeses foram organizados em comunidades de pessoas relacionadas chamadas ayllus, chefiadas por um curaca. O curaca distribuía o trabalho e os produtos e respondia às autoridades pela sua ayllu.

Cada grupo social tinha as suas obrigações específicas. As hierarquias estabeleciam as atividades a serem executadas por cada grupo, e até mesmo o vestuário que podia usar, assim como os produtos que podia consumir. Alguns materiais, como o ouro, a prata e certos têxteis, eram reservados para o Inca e só podiam ser utilizados por ele e por alguns dos seus familiares diretos. Faz-nos recordar a Idade Média da Europa.

A economia Inca baseava-se na produção agrícola. As terras pertenciam ao Estado que as repartia: um terço dedicava-se à produção para o Inca, outro para os sacerdotes e o terceiro para as ayllus.
Os Incas formaram um autêntico império coeso e centralizado; possuíam uma rede de estradas que permitia uma rápida comunicação entre todas as regiões. Os mensageiros, chamados chasquis, levavam comunicações entre diferentes pontos. Estas estradas tinham postes, chamados tambos, onde os viajantes podiam descansar e alimentar-se. Faz-nos recordar os Sátrapas do Império Persa.

Embora não tivessem escrita alfabética, tinham vários métodos de gravação e comunicação de informação visual. Entre eles estava o quipus, série de cordas de diferentes cores com nós, que permitia manter a contabilidade e manter a memória de algumas narrativas.

Religião
Tal como os Maias, os Incas entendiam que a Natureza à sua volta era sagrada. Consideravam sagrados muitos elementos da Natureza, pessoas, objetos, etc. que eram chamados huaca. Respeitavam as crenças dos povos que conquistavam, mas impunham o culto ao Sol, a sua principal divindade. Também veneravam o Pachamama (Mãe Terra), Viracocha, o criador do mundo e Illapa, o deus da trovoada e da tempestade.

O império Inca foi conquistado pelos espanhóis sob o comando de Francisco Pizarro em 1532, quando o imperador Atahualpa foi feito prisioneiro. Embora algumas bolsas de resistência tenham permanecido até 1572, nunca representaram uma ameaça para a nova ordem colonial.

CIVILIZAÇÃO ASTECA (1345-1521)
Povo aguerrido, inteligente e empreendedor, proveniente do Norte do México onde eram caçadores e recolectores, emigraram para o sul, estabelecendo-se no lago Texcoco, onde se encontra a atual cidade do México. Em pouco tempo drenaram o lago e fundaram a sua primeira cidade, Tenochtitlán, estabelecendo alianças com cidades vizinhas. Pouco a pouco foram-se assenhoreando de tudo e de todos à sua volta, pelo bom desempenho nas artes da guerra.

Organização política
A sua forma de governo era monárquica e eletiva, ou seja, não era hereditária: o imperador não passava o poder para o seu filho; o seu sucessor era eleito através de um Conselho Supremo, chamado Tlatocan, cujos representantes pertenciam à nobreza Asteca e era geralmente um membro deste conselho que ascendia ao trono.

Uma vez eleito, o imperador (Tlatoani) era considerado divino e, portanto, possuía poderes ilimitados sobre a sociedade Asteca. Sob o seu comando, havia toda uma rede burocrática, composta por sacerdotes, cobradores de impostos (tecutli) e inspetores comerciais.

Os Astecas formaram um império totalitário que era constituído por cidades-estado com governantes locais eleitos pelo mesmo conselho superior responsável pela eleição do Imperador. A sua responsabilidade era manter o controlo destas pequenas cidades para garantir com sucesso o domínio absoluto do império.

Religião
“Amor com amor se paga” diz-se em Asteca “sangue com sangue se paga”. Os deuses Astecas requeriam muito sangue de sacrifícios de animais e humanos para serem apaziguados. O sangue era o alimento primordial dos deuses que, se não fossem alimentados regularmente, dificultariam em muito a vida dos Astecas.

A maioria dos deuses que formava o panteão Asteca estava relacionada com o ciclo solar e, por sua vez, com todas as atividades agrícolas que dele dependiam. Entre os deuses mais importantes, devemos primeiro destacar Huitzilopochtli, deus da guerra, Tlaloc que era a deusa da chuva. A esta eram anualmente sacrificadas inúmeras crianças no cume das montanhas. Quanto mais estas crianças choravam, mais chuva cairia nesse ano. Outros deuses eram Quetzalcoatl, a serpente emplumada e Coatlicue, a deusa mãe.

Cultura, usos e costumes
A educação era obrigatória, as crianças Astecas iam às escolas para estudar, constituindo a educação militar uma parte do currículo. O povo Asteca era um povo guerreiro, tal como que os espartanos da Grécia: as crianças eram treinadas para a guerra desde tenra idade.

A sociedade Asteca era patriarcal e, por isso, a mulher ficava em casa a cuidar das tarefas domésticas, enquanto o homem tinha a seu cargo o trabalho e as relações comerciais e sociais. Os Astecas estavam intimamente ligados ao mundo espiritual e religioso, pelo que entre os seus costumes se destaca a prática de muitos rituais e orações.

Cada casa tinha um lugar reservado, considerado um pequeno santuário, onde cada família se recolhia em oração. Entre outras práticas de ascese espiritual, a prática do jejum era muito importante na vida dos Astecas. Era praticado pela grande maioria da população, inclusive pelos próprios imperadores.

Conquista do Império por Hernan Cortez
Montezuma foi o décimo primeiro e último imperador antes da chegada de Hernan Cortez e da conquista do Império Asteca que se encontrava no seu apogeu. Não aconteceu do pé para a mão, pois os Astecas eram aguerridos, estavam bem organizados e possuíam, é claro, superioridade numérica. Naquele tempo como hoje, a superioridade das armas é mais importante que a numérica e Cortez teve uma vitória relativamente fácil.

Esta conquista aconteceu apesar dos muitos avanços destas sociedades Maia, Inca e Asteca, sobretudo os Maias que possuíam conhecimentos bastante avançados de astronomia, de matemática e de arquitetura, e que desenvolveram uma escrita que só começou a ser decifrada no final do século XIX.

Os ricos sacerdotes idealizaram um sistema de numeração vigesimal que empregava o zero, e as suas noções de astronomia permitiram-lhes conceber um calendário de 365 dias e observar o céu a partir de pirâmides escalonadas.

Apesar destes avanços, estes três povos não tinham ainda chegado à Idade do Ferro, enquanto que os espanhóis, para além das armas de ferro, possuíam canhões, mosquetes e cavalos para serem mais rápidos. A conquista foi tristemente fácil.

Há uma inscrição no sopé de um monumento no centro da Cidade do México que reza assim: Na conquista não houve nem vencedores nem vencidos, foi apenas o doloroso nascimento da nação mestiça que é hoje o México. De facto, mais de 80%, da população do México é mestiça, ou seja, resultado da união ou cruzamento entres espanhóis, Astecas, Maias e outros indígenas. 

O mesmo não aconteceu na colonização da América do Norte, feita por povos também europeus, mas de outra índole. Aqui há poucos mestiços porque os indígenas não só foram vencidos como foram dizimados numa campanha de autêntica limpeza étnica que dura até aos nossos dias. Os poucos que escaparam vivem hoje paternalisticamente em reservas, onde não faltam as drogas e o álcool para que se dizimem a eles mesmos.

Conclusão: duas coisas aprendemos da visão do mundo dos povos Maia, Inca e Asteca: primeiro, que toda a Natureza está integrada, ordenada e interrelacionada. Segundo, que todos os elementos que existem na Natureza, ou seja, tudo no universo é animado e tem vida; cada ser complementa e completa os outros.

Pe. Jorge Amaro, IMC








1 de junho de 2024

Cosmovisão do Rio Amarelo

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Também chamado “Rio de tristeza”, o Rio Amarelo (Huang He) é um dos mais perigosos rios do mundo. Desde que há memória, já mudou de curso 26 vezes, produziu mais de 1 500 inundações e matou milhões de pessoas. Chama-se Amarelo porque as suas águas são sempre barrentas; ainda hoje, quando os chineses querem dizer nunca, dizem, “Quando as águas do Rio Amarelo correrem cristalinas”, coisa que nunca acontecerá.

O Rio Amarelo nasce no planalto do Tibete e atravessa o norte da China, de oeste a este, desaguando no Mar da China, no Oceano Pacífico. O potencial de destruição deste rio deve-se à imprevisibilidade das suas cheias, ao contrário do que acontecia com os rios Indo, Tigre, Eufrates e Nilo cujas inundações eram periodicamente esperadas e onde se desenvolveram as outras civilizações que estudámos.

Apesar da destruição que causou, a bacia hidrográfica deste rio foi o berço da civilização chinesa, a quarta civilização depois da Mesopotâmia, do Egito e do Vale do Indo. Pela arqueologia sabemos que o Homo Sapiens habitou esta zona desde o ano 6 000 a.C., no Neolítico, mas só começou a constituir civilização depois da criação da escrita, já na Idade do Bronze (1 600 a.C.–1 046 a.C.).

Os primeiros chineses, estabeleceram-se nas terras férteis do Rio Amarelo, compostas por um sedimento trazido e depositado pelas águas ao longo de milénios dos planaltos da China central e pelos ventos que vinham dos desertos a oeste. Nesta terra irrigada, os chineses cultivaram painço, hortaliças e frutas nativas, sobretudo ao longo do alto e médio curso do rio.

No setor baixo do Rio Amarelo, cultivavam arroz. Durante o terceiro milénio a.C., o excedente de produção favoreceu o estabelecimento de vilarejos permanentes e, em meados daquele milénio, havia quase uma sucessão contínua de povoados e vilas ao longo do rio, dando forma a um princípio de civilização.

Génese da civilização
A teoria clássica é de que a civilização chinesa do Rio Amarelo apareceu como que por geração espontânea, uma vez criadas as circunstâncias ideais, da mesma forma que surgiram a civilização suméria do Tigre e Eufrates, a egípcia do Nilo e a indiana do vale do Indo.

Embora esta seja uma perspetiva aceite de forma geral, tanto arqueólogos chineses como europeus e americanos defendem, por mais atualizados estudos feitos, que a civilização do Rio Amarelo foi importada tanto da Mesopotâmia como do Egito.

Era de esperar que China se defendesse ideologicamente afirmando que isto não é verdade, da mesma forma que certos arqueólogos contrapõem se calhar também ideologicamente com provas de que houve muitas influências do Crescente Fértil. A melhor forma de apurar a verdade seria descobrir a verdadeira idade da Rota da Seda, a famosa rota comercial que unia a Europa com a Asia..

Longe destas polémicas, com influências ou sem elas, a civilização do Rio Amarelo que deu lugar à cultura chinesa cresceu em total ou parcial isolamento relativamente às outras civilizações e a prova está não só no tipo de escrita, mas também em outras descobertas mais tardias que são autêntica e genuinamente chinesas.

Lenda da criação do mundo
Todas as culturas têm um mito de criação para explicar as suas origens. Na China, é a lenda de Pan Gu que, entre muitas outras, relata a seguinte história: no início, o cosmos era um gás que se solidificou numa colossal pedra. Desse ovo cósmico, nasceu uma criatura chamada Pan Gu, que viveu 18 mil anos, crescendo 3 metros por dia, e que ocupava o seu tempo picando a pedra até que se dividisse em duas partes:  uma tornou-se no céu (yang) e a outra tornou-se na terra (yin).

Quando Pan Gu completou o seu trabalho e morreu, a sua cabeça transformou-se em montanhas; a sua respiração tornou-se no vento e nas nuvens; a sua voz, no trovão; o seu olho esquerdo, no sol, e o seu olho direito, na lua. Os seus músculos e veias tornaram-se na matriz da terra, e a sua carne, no solo. O seu cabelo e barba viraram constelações, e a sua pele e pelos do corpo transformaram-se em plantas e árvores. Os seus dentes e ossos tornaram-se em metais, e o seu tutano tornou-se em pérolas e pedras preciosas. O seu corpo formou a chuva, e os piolhos sobre ele foram impregnados pelo éter e tornaram-se em seres humanos (Wong e Wu, 1936).

Os antigos chineses acreditavam que tudo no mundo tinha duas forças aparentemente opostas que existiam em relação uma com a outra. Chamaram a estas forças Yin e Yang. A qualidade das nossas vidas e o bem-estar geral do nosso mundo dependem de tendências opostas estarem em equilíbrio uma com a outra. Poderíamos estabelecer um paralelo entre o Yin/Yang da civilização chinesa com o Eros/Thanatos Instinto de vida, e Instinto de morte, agressão e afeição freudiano.

As forças "masculinas" foram definidas como Yang, simbolizadas pelo sol, e as forças "femininas" foram consideradas Yin e simbolizadas pela lua. Para manter o céu a funcionar sem problemas, o Rei na China antiga tinha o trabalho de manter o equilíbrio entre o sol e a lua; da sua saúde dependia também a saúde do povo.

Céu e Terra são o reflexo um do outro
O que acontece na Terra acontece no céu e vice-versa: é a ideia típica da cosmovisão de todos os povos antigos e também da cultura greco-romana. Os reis chineses e os seus astrónomos mediram, rastrearam e previram o comportamento dos corpos celestes porque acreditavam que o que acontecia nos céus estava intimamente ligado com o que acontecia na Terra.

Como todos os opostos de Yin-Yang, o Céu (masculino) e a Terra (feminino) refletiam-se mutuamente. Se houvesse uma perturbação nos Céus, a causa provavelmente estava na Terra. Da mesma forma, se algum dos corpos celestes se desviasse de lugar, o desequilíbrio de forças resultante causaria problemas na Terra.

Pensamento e medicina chinesa
O pensamento chinês baseia-se no princípio do conhecimento da natureza como caminho para atingir o estado de harmonia. A conceção de harmonia é inerente a diversas culturas antigas, traz em si a ideia do equilíbrio entre os diferentes aspetos do cosmos. Dentro desta visão holística, o homem é visto como parte integrante e inseparável deste todo e, além disso, como um microcosmo que contém em si processos semelhantes aos que ocorrem na natureza.

Citada no Livro das Mutações, em aproximadamente 700 a.C., a teoria do Yin Yang é a base da medicina chinesa. A energia Qi é considerada vital, a principal que dá origem ao céu, à terra e ao Yin-Yang, ou seja, a dualidade energética. O Yin é a energia que está relacionada com a insuficiência enquanto o Yang se relaciona com os excessos.

Acredita-se que as doenças são resultado do desequilíbrio entre Yin e Yang. Assim, as que se caracterizam como Yin são calmas, fracas, frias, húmidas, hipofuncionantes e crónicas. Já as que possuem características Yang são agitadas, fortes, quentes, secas, hiperfuncionantes e agudas. Após determinar se a pessoa é Yin ou Yang, é possível escolher os componentes que irão funcionar melhor na terapia que terá como principal objetivo ajustar a circulação do Qi pelo corpo.

Embora opostos, Yin e Yang são interdependentes, não podendo existir de forma isolada um do outro e estão em estado de constante mudança, de modo que, quando um é consumido, o outro aumenta. O consumo de Yin leva a um ganho de Yang e o consumo de Yang leva a um ganho de Yin.

Yin e Yang podem transformar-se um no outro. Essa transformação ocorre quando as condições adequadas se reúnem. Por exemplo, ao final do dia começa a noite e, do mesmo modo, uma estação sucede a outra, no ciclo das estações. No limite da fase Yin de um ciclo começa a fase Yang do mesmo.

Neste ponto, fica claro como o conhecimento se torna num instrumento de prevenção, e também como a medicina chinesa é, acima de tudo, uma medicina preventiva ao ajudar-nos a estar em conformidade não apenas com o nosso próprio ritmo, mas também com o ritmo do que nos cerca. A perceção dos padrões específicos de cada situação torna possível identificar tanto a origem quanto o provável desenvolvimento de uma patologia.

Sociedade patriarcal chinesa
Ao princípio masculino Yang eram atribuídas qualidades frequentemente interpretadas como superiores, ao passo que ao princípio feminino Yin eram atribuídas qualidades consideradas como inferiores. É fácil ver como esta cosmovisão antiga chinesa levou a uma sociedade patriarcal, com base nesta justificação antiga do baixo estatuto das mulheres na sociedade.

A preferência por rapazes refletia-se na família, que era uma instituição venerada na antiga sociedade chinesa. Esta preferência nos tempos modernos da política do filho único tem levado ao mascare de milhares de milhões de meninas, a tal ponto que hoje há mais homens que mulheres na China.

Os laços familiares eram sagrados e hierárquicos. Numa sociedade agrária, era o trabalho dos filhos que daria aos pais segurança na velhice. Como a propriedade da família passava para o filho mais velho, eram os meninos que asseguravam a continuidade familiar ao longo de gerações.

As filhas, por outro lado, eram consideradas meramente como bocas para alimentar que acabariam noutras famílias, normalmente à custa de um precioso dote. As raparigas eram tratadas como propriedade, compradas e vendidas entre famílias, ou mesmo intermediadas através de casamenteiras. Se uma esposa não conseguisse produzir um filho, era muitas vezes substituída ou despromovida pelo marido, que se casava com outras esposas até que a família tivesse o seu filho.

Não havia aqui nada de novo, o que vemos na sociedade chinesa vemos em todas as culturas e civilizações do globo, onde a mulher é ser humano de segunda categoria para ser explorada e submetida e cuja única função é a reprodutiva e pouco mais.

Cultura - língua - religião
A família tinha um lugar preponderante na antiga sociedade chinesa. O pai controlava a casa e tomava as decisões importantes. O respeito pelos anciãos era muito valorizado, e esperava-se que as crianças honrassem os seus pais. Os chineses também acreditavam na adoração dos seus antepassados: manter contentes o espírito destes membros da família mortos era crucial para obter boa sorte e evitar desastres.

A religião era politeísta. Os sacerdotes também aqui assumiam o papel de intermediários: falavam com estes deuses através do uso de ossos oráculos; escreviam perguntas para os deuses sobre os ossos do oráculo que eram depois queimados. O fogo causaria rachaduras nos ossos que eram então interpretadas pelos sacerdotes como respostas dos deuses às suas perguntas.

A escrita usada era semelhante à dos sumérios e egípcios: os chineses usavam pictogramas, ou desenhos simplificados de objetos ou conceitos.

Dinastias chinesas
Em todas as civilizações deste planeta o poder é sempre delegado: pelo povo nos seus líderes por um período de tempo até novas eleições ou delegado por Deus. A civilização chinesa não foi exceção neste sentido. O que é particular na civilização chinesa é que as dinastias não eram eternas como a Davídica de Israel e tantas outras na Europa e resto do mundo.

A antiga China era governada por uma linhagem de governantes de uma única família a que chamamos de dinastia. Porém, se o povo e os deuses não estivessem satisfeitos com a dinastia no poder, este passaria para outra família nobre, criando-se assim uma nova dinastia.

Este processo é chamado de ciclo dinástico e isso explicou a ascensão, declínio e substituição de muitas dinastias ao longo da história da Antiga China. Se um rei tivesse feito algo de errado, podia perder o mandato do Céu, o que significava perder o direito de governar. Isto porque o povo acreditava que todas as dinastias recebiam o direito de governar através da aprovação dos deuses.

De acordo com a tradicional lenda de nascimento da civilização chinesa, uma enorme inundação que durou meses teria coberto a região do Rio Amarelo. Mas um homem chamado Yu, conhecido também como Yu, o Grande, teria desenvolvido um sistema de drenagem que conseguiu restabelecer as áreas das margens do rio. Seria após esse episódio que Yu teria recebido um “chamado divino” para estabelecer então a Dinastia Xia.

Cronologia das dinastias chinesas
Dinastia Xia (2100 - 1600 a.C.) – Envolta na lenda acima descrita, há quem pense que não existiu.
Dinastia Shang (1600 - 1046 a.C.) – Pensa-se que a mais antiga forma de escrita seja desta geração.
Dinastia Zhou (1046 - 256 a.C.) – A mais longa de todas as dinastias chinesas; é comumente conhecida como o ápice da civilização antiga chinesa; a filosofia confucionista, por exemplo, teria sido desenvolvida durante este período, influenciando a China até hoje.
Dinastia Qin (221 - 207 a.C.) – São desta época os dois ex libris da cultura chinesa, a Grande Muralha e o exército de terracota recentemente descoberto.
Dinastia Han (206 a.C. - 220 d.C.) – Pensa-se ser deste tempo o estabelecimento da Rota da Seda, mas é bem provável que a origem desta rota seja pré-histórica. Ou seja, o caminho que o Homo Sapiens tomou desde o Crescente Fértil até aos confins da Ásia e da China. Seriam também desta dinastia o taoísmo e a chegada do budismo à China.
Período das Seis Dinastias (220 - 589 d.C.) – Expansão do budismo.
Dinastia Sui (581 - 618 d.C.) – De curta duração.
Dinastia Tang (618 - 906 d.C.) – Entre as invenções que surgiram durante a dinastia Tang, estariam o primeiro relógio mecânico do mundo, a bússola e a máquina de imprimir livros.
Período das Cinco Dinastias (907 - 960 d.C.) – Declínio e agitação política e social.
Dinastia Song (960 - 1279 d.C.) – Nova reunificação da China.
Dinastia Yuan (1279 - 1368 d.C.) – Abertura ao ocidente; são deste tempo as viagens de Marco Polo. Invenção da pólvora e da porcelana.
Dinastia Ming (1368 - 1644 d.C.) – Foi durante este período que foi construído o palácio imperial, a Cidade Proibida, em Pequim.
Dinastia Qing (1644 - 1912 d.C.) – Com a queda da dinastia Qing, em 1912, foi oficialmente fundada a República Popular da China.

Conclusão – O poderoso rio Amarelo, nascido da cadeia montanhosa mais alta do planeta, foi a origem de uma cosmovisão marcadamente diferente da ocidental que influenciou a vida e o pensamento do resto do norte asiático, em especial da Coreia e do Japão. 

Pe. Jorge Amaro, IMC


15 de maio de 2024

Cosmovisão do Vale do Indo

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A sucessão e a cronologia das civilizações obedecem a muitos fatores, um deles e talvez o mais importante, é o fator geográfico. Todas as grandes civilizações nasceram nas margens dos grandes rios; todas dependeram da agricultura, pois sem agricultura excedentária não haveria tempo nem disposição para dedicar-se a outras atividades, ou seja, sem agricultura não haveria cultura.

Ligado ao fator geográfico está o clima. Todas as grandes civilizações nasceram em climas temperados ou subtropicais. O frio excessivo não permite a agricultura, por outro lado lutar contra o frio não deixa tempo nem disposição para criar cultura.

Quando à cronologia com que estas se sucederam, é claro que as primeiras surgiram perto de África, na ponte entre a África, a Ásia e a Europa. Os humanos que se estabeleceram nas bacias do Tigre e do Eufrates criaram cultura antes dos que decidiram continuar a colonizar a Ásia e a Europa.

 Por este motivo, as últimas culturas são as da América Central, pois foram precisos muitos anos até o ser humano colonizar toda a Ásia e depois fazer a travessia do estreito de Bering e descer o continente americano até à América Central onde encontraram um clima semelhante ao do crescente fértil, e assim poderiam desenvolver uma cultura baseada na agricultura do mais. Os índios da fria América do norte nunca constituíram uma civilização que se pudessem equiparar à dos Maias e Astecas, pelo que permaneceram primitivos até à vida dos colonos europeus.

Origem e descoberta da civilização do vale do Indo
Foram provavelmente nómadas provenientes do Crescente Fértil que se deslocaram mais para este, em busca de condições de vida semelhantes às do Nilo, do Tigre e Eufrates e encontraram o vale do Indo, na zona que hoje pertence ao Paquistão, perto da cidade de Carachi. O rio Indo é o rio mais longo do Paquistão; nasce nos Himalaias e percorre 3 000 km até ao Mar Arábico.

Nascida algum tempo depois da civilização Sumérica e Egípcia, a civilização Harappa é praticamente contemporânea destas duas, entre os anos 3 300 a.C.–1 900 a.C. Ainda não se sabe muito desta civilização e há quem diga que é anterior ao Egipto e Mesopotâmia. No entanto, penso que não faz sentido que o homem proveniente de África tenha construído uma civilização longe deste continente, antes de construir uma mais perto, quando as condições eram as mesmas em termos de rios e terra fértil.

As principais cidades ou locais arqueológicos desta civilização são Harappa, Mohenjo-Daro e Lothal. Enquanto que a Suméria foi descoberta em 1825, os locais arqueológicos da civilização do vale do Indo foram descobertos muito recentemente Harappa em 1921, Mohenjo-Daro em 1922.

Planeamento urbano
Antes da escavação destas cidades pensava-se que a civilização indiana tinha começado no vale do rio Ganges, quando imigrantes arianos da Pérsia e da Ásia Central povoaram a região por volta de 1 250 a.C. A descoberta da civilização do vale do Indo veio revogar esta teoria, dando à cultura indiana um começo muito mais antigo.

No seu auge, a Civilização do Vale do Indo pode ter tido uma população de mais de cinco milhões de habitantes. As cidades do Indo distinguem-se pelo seu elaborado planeamento urbano, que sugere a existência de um processo técnico, político e administrativo relacionado com a utilização racional da terra para a agricultura e a conceção do ambiente urbano. Os harappianos foram dos primeiros a desenvolver um sistema de pesos e medidas padronizados.

As casas eram feitas de tijolo cozido, todas elas da mesma dimensão, o que nos leva concluir que esta era uma sociedade igualitária sem grande estratificação social. As cidades possuíam um sofisticado e elaborado sistema de drenagem, esgotos e abastecimento de água.

Cada casa possuía um poço de água, enquanto as águas residuais eram direcionadas para canais cobertos nas ruas principais. Até as casas mais pequenas da periferia da cidade estavam ligadas ao sistema, apoiando assim a ideia de que a higiene e o saneamento eram uma questão de grande importância.

Possuíam também piscinas de água reservadas aos banhos públicos que já naquele tempo eram usados mais para purificação ritual espiritual do que para higiene corporal, algo muito característico da sociedade indiana ainda hoje. Na imagem que ilustra este texto podemos ver em primeiro plano um desses banhos públicos da cidade de Mohenjo-Daro.

Religião, língua e cultura
Pouco se sabe sobre a religião e a língua harappiana. Uma coleção de textos escritos sobre tábuas de argila e pedra desenterradas em Harappa, com uma datação de carbono de 3 300-3 200 a.C., contêm marcas em forma de vegetal e de tridente que parecem ser escritas da direita para a esquerda.

Há um debate considerável sobre se se tratava de uma língua codificada e se estará relacionada com as famílias indo-europeias e do sul da Índia. A escrita do vale do Indo permanece indecifrável, sem símbolos comparáveis e acredita-se que tenha evoluído independentemente da escrita na Mesopotâmia e no Antigo Egito. Os investigadores estão a usar os avanços tecnológicos e informáticos para tentar decifrá-la.

A religião harappiana também continua a ser um tema de especulação. Tem sido amplamente sugerido que os harappianos veneravam uma deusa mãe que simbolizava a fertilidade. Ideia que concorda com a primeira conceção do divino das sociedades pré-históricas. Em contraste com civilizações egípcias e mesopotâmicas, a Civilização do Vale do Indo parece não ter tido templos ou palácios que comprovem claramente a existência de ritos religiosos ou divindades específicas.

Muitos dos símbolos da escrita harappiana aparecem em selos e carimbos. Foi encontrado um selo em que um homem surge em posição ioga em meditação. Está rodeado por um búfalo, um rinoceronte, um elefante e um tigre, com dois veados aos seus pés. Está sentado debaixo de uma árvore Pipa e chamava-se Pashupati. É talvez uma representação daquele que seria depois conhecido no hinduísmo como o deus Shiva.

Sistema de governo
Registos escritos deram aos historiadores uma grande visão sobre as civilizações da antiga Mesopotâmia e do Egito, ao contrário, são muito poucos os materiais escritos foram descobertos no vale do Indo. Há quem opine que o sistema de governo era centralizado como o do Egito pelas medidas standard dos tijolos e outras medidas de peso e distância; assim como há quem entenda que eram cidades-estado com as da antiga Suméria.

Não possuímos dados suficientes para nos inclinarmos por uma ou outra teoria, ambas são formas antigas de governo, uma mais democrática, como a sociedade suméria e até mesmo a sociedade Maia da América Central e a outra mais ditatorial, como a do Egito e dos Astecas na América Central.

Sociedade pacífica
Acredita-se amplamente que a civilização harappiana foi uma civilização pacífica que não se envolveu em nenhuma guerra, mas não há evidências conclusivas para confirmar esta crença, e alguns arqueólogos consideram-na um mito generalizado. Alguns estudiosos argumentam que os harappianos eram pacíficos principalmente porque não tinham inimigos naturais, devido à localização geográfica das grandes cidades. Foram encontradas armas nos locais arqueológicos, mas debate-se se foram usadas em conflito com outros grupos ou como defesa contra animais selvagens.

Declínio da civilização do Vale do Indo
A Civilização do Vale do Indo colapsou por volta de 1 800 a.C. Os estudiosos debatem sobre quais foram os fatores que resultaram na morte da civilização. Uma teoria sugere que uma tribo nómada e indo-europeia, os arianos, invadiu e conquistou a Civilização do Vale do Indo, embora evidências mais recentes tendam a contradizer esta afirmação. A maior parte dos historiadores acredita que o colapso da Civilização do Vale do Indo foi causado por alterações climáticas. Alguns especialistas acreditam que a seca do rio Saraswati, que começou por volta de 1 900 a.C., foi a principal causa para estas alterações climáticas e das condições de vida.

Em 1 800 a.C., o clima do Vale do Indo tornou-se mais frio e seco, e um evento tectónico pode ter desviado ou perturbado os sistemas fluviais, que eram as linhas de vida da Civilização do Vale do Indo. Os harappianos foram obrigados a emigrar para a bacia do Ganges no Leste, onde podem ter estabelecido aldeias e usado os terrenos para praticar a agricultura.

Estas pequenas comunidades não teriam sido capazes de produzir os mesmos excedentes agrícolas para apoiar as grandes cidades. Com a redução da produção de bens, teria havido um declínio nas trocas comerciais com o Egito e a Mesopotâmia. Por volta de 1 700 a.C., a maioria das cidades da Civilização do Vale do Indo tinham sido abandonadas.

Daqueles que foram para a bacia do rio Ganjes, por volta do ano 800 a.C., alguns estabeleceram-se como eremitas (os Vedas) nas florestas do rio Ganjes. Inspirados na religião Dravidia, originária do vale do Indo, adoravam espíritos naturais. Estas religiões acreditavam que as almas adquiriam uma outra forma física depois da morte do corpo; nasceu assim a teoria da reencarnação, tão popular no hinduísmo.

Os Vedas, palavra que significa "conhecimento", são os textos mais antigos do hinduísmo. São derivados da antiga cultura indo-ariana do subcontinente indiano e começaram como uma tradição oral que foi passada através de gerações, antes de finalmente serem escritos em sânscrito védico, entre 1 500 e 500 a.C.

Conclusão: higiene física, saneamento e pureza ritual e espiritual, assim como organização urbana e precisão matemática em pesos e medidas, sugere que esta era uma sociedade avançada para o seu tempo, “democrática”, igualitária e pacífica. Pena que ainda não tenhamos decifrado os símbolos que nos deixaram para saber mais. A cosmovisão indiana acabou por influenciar o pensamento e a vida de todo o sul da Ásia.

Pe. Jorge Amaro, IMC


1 de maio de 2024

Cosmovisão do Crescente Fértil

Sem comentários:

Depois de nos debruçarmos sobre a cosmovisão pré-histórica, estudemos agora as cosmovisões que lhe sucederam depois do aparecimento da escrita que é a linha que divide a pré-história da história. Por muito tempo se pensou que a escrita apareceu na Suméria, antiga Mesopotâmia, e que dali se foi alastrando para as demais civilizações. A descoberta de uma forma de escrita na América Central, sem conexão com o Crescente Fértil ou o Extremo Oriente, prova que a escrita surgiu em diferentes civilizações desconectadas entre si.

Esta é apenas uma de tantas provas de que há apenas um único modelo de desenvolvimento e que a natureza humana é a mesma porque o planeta está povoado por um único hominídeo, o Homo Sapiens que deixou a África há cerca de 200 000 anos. A escrita é, portanto, concomitante ao aparecimento das primeiras civilizações. Em cada uma destas civilizações aparece uma versão diferente da mesma.

A primeira e mais antiga versão de escrita é a escrita cuneiforme que aparece de facto na Suméria (4000 a.C.). Por este motivo, a Suméria é também conhecida como a primeira civilização humana. Depois vem a escrita hieroglífica do Egito (3 000 a.C.). A escrita pictórica da China surge por volta de 1 200 a.C. e a escrita Maia, da América Central, no ano 500 a.C. Há uma incógnita sobre a escrita da civilização Harapa no vale do Indo e que seria a segunda, depois da Suméria. Esta forma de escrita data de 3 500 anos a.C., mas até à data não foi decifrada e, por isso, não conta como escrita, mas como símbolos desconectados entre si.

Vamos, portanto, estudar estas primeiras grandes civilizações antigas que estão na base das nuances civilizacionais que encontramos aqui e ali neste mundo globalizado e cada vez com menos diferenças. Estas civilizações são o Crescente Fértil, a civilização do vale do Indo, a civilização chinesa e, por fim, as civilizações da América Central, Maias, Astecas e Incas. Debrucemo-nos então sobre o Crescente Fértil (berço da civilização ocidental) e das culturas que ali se foram sucedendo, a começar pela Suméria, até ao aparecimento do Primeiro Império.

A civilização suméria surge com alguma anterioridade em relação ao Egito. No entanto, estas duas culturas crescem e desenvolvem-se contemporaneamente, com pouca ou nenhuma relação entre si, porque estavam separadas pelo deserto e nunca se confrontaram em guerra.

SUMÉRIA
Questiona-se hoje se a Suméria é anterior ao Egito. No entanto e enquanto não se prove inequivocamente o contrário, adotamos aqui a visão ortodoxa de que a civilização suméria, a primeira do planeta, surgiu um pouco antes da egípcia, 4 000 anos antes de Cristo, entre os rios Tigre e Eufrates no sul da Mesopotâmia (atual Iraque).

As inundações regulares dos rios tornavam fértil a terra e permitiam uma agricultura baseada sobretudo nos cereais que, como estudámos em outros textos, permitiam armazenar bens por muito tempo, libertando assim o Homem da tutela da natureza e da constante procura de alimentos, como acontece com os outros seres vivos.  

Estudaremos o Crescente Fértil desde a primeira civilização suméria até ao aparecimento do Primeiro Império.

Religião
Os sumérios sabendo que não podiam controlar o vento, o ar e o sol e outros elementos, acreditavam que um poder superior controlava estas realidades. A palavra suméria para universo era AN-KI, ou seja, o deus AN e a deusa KI. Os filhos deste matrimónio divino eram ENLIL, o deus do ar, que era visto como o deus mais poderoso, semelhante a Zeus na mitologia grega. ENKI era a deusa do amor e da guerra. Eros e Thanatos, afeição e agressão, eram controlados pela mesma divindade. Para além destes, havia muitos outros deuses mais pequenos e cada cidade-estado tinha o seu deus protetor.

Politeísmo antropomórfico
Os sumérios acreditavam que os seus deuses eram muito parecidos com as pessoas; comiam, bebiam, dormiam e casavam-se. Ao contrário dos humanos, os deuses viviam eternamente e exerciam poder sobre os humanos. Por este motivo, os humanos tinham de os manter contentes, com orações, oferendas e sacrifícios para que estes lhes fossem favoráveis e trouxessem fortuna e prosperidade à cidade. Se isso não acontecesse, podiam trazer guerra, inundações e outros desastres.

Zigurate, o primeiro templo da história
Na Mesopotâmia, no centro de cada cidade num lugar mais elevado, existia sempre um zigurate, ou seja, um templo em forma helicoidal ou em caracol ascendente. Este templo é comum a todas as civilizações à volta dos rios Tigre e Eufrates: Suméria, Acádia, Assíria e Babilónia.

A filosofia de vida da Suméria no poema de Gilgamesh – primeira obra da literatura mundial
Na história épica do herói Gilgamesh, rei de Uruk, a primeira pérola da literatura mundial escrita em placas de argila por volta do ano 3 400 a.C. na escrita cuneiforme inventada pelos sumérios descreve-se a humanidade representada em Gilgamesh, despertando do seu longo sono de inconsciência, dando-se conta, ao mesmo tempo, da sua brutalidade, mas também da sua cultura e sabedoria.

Gilgamesh dá-nos uma ideia de como o ser humano se vê a si mesmo e o mundo à sua volta. Vence todos os seus inimigos e obstáculos que se apresentam, e vê-se como um ser todo-poderoso, por isso, não aceita as suas limitações, sobretudo a sua mortalidade. Não é perfeito e no poema começa por ser um mau rei, o que leva o povo a protestar junto de deus. Mas depois a sabedoria vai-o domesticando, revelando-se uma pessoa de grandes sentimentos, sobretudo de amizade pelo seu amigo Enkidu.

Muitas realidades se concentram nesta história, sentimento de solidão, amizade, perda de um ente querido (o seu amigo Enkidu), amor, vingança e o medo da morte. Gilgamesh é um líder, um varão forte, destemido e bonitão, meio deus meio humano. Rei da cidade-estado de Uruk na velha Suméria.

Tem uma vida sexual desenfreada, instintiva, sem sentimentos, mas quando conhece o seu amigo Enkidu descobre a afeição por um amigo, coisa que nunca tinha encontrado em nenhuma mulher. Este afeto leva-o a pôr de lado o sexo e o prazer, ou seja, a trocar o Eros pela Philia. Doravante não lhe interessam as mulheres e não se deixa seduzir nem por Enki a deusa da guerra e do amor.

Nesta cultura, o homem é dominante porque as mulheres não conseguem controlar o sexo e o amor (eros). Amor e guerra são atos emocionais, não da razão, daí o facto de ambas realidades serem representadas na mesma divindade ao contrário da mitologia grega e romana. O líder é masculino, alguém que sobressai em relação aos outros, pela sua força física, coragem e sabedoria. Porém, entre os reis da Suméria há uma lista que inclui uma mulher, Kubaba, como rainha da cidade-estado de Kish.

Gilgamesh luta contra a fatalidade de mortalidade e procura uma maneira de derrotar o inevitável. No final, após ser incapaz de encontrar a imortalidade e uma maneira de reviver a sua vida, Gilgamesh encontra paz na morte.

Invenções
A Suméria é famosa pela invenção da cerveja e tinha até uma deusa chamada NinKasi como deusa da cerveja. Os sumérios inventaram a roda, o arado, o arco, o bronze e a medição do tempo, dividindo a hora em 60 minutos, o minuto em 60 segundos.

O IMPÉRIO ACÁDIO
Ao não haver obstáculos nem a norte nem a sul, nem a este ou oeste, neste mesmo lugar da Mesopotâmia várias civilizações se sucederam até à consolidação dos grandes impérios. Enquanto isto acontece, o Egito, como adiante veremos, desenvolve a sua própria civilização, a escrita hieroglífica e a sua própria forma de entender a vida.

Por volta de 3 000 a.C., os sumérios tiveram um intercâmbio cultural significativo com um grupo do norte da Mesopotâmia, conhecido como os acádios – em homenagem à cidade-estado de Akkad. A língua acádia está relacionada com as línguas semíticas do hebraico e do árabe.

O termo semítico provém do personagem bíblico Shem, filho de Noé, o suposto progenitor de Abraão e, consequentemente, do povo judeu e árabe. Por volta de 2 334 a.C., Sargão de Akkad chegou ao poder e estabeleceu o que pode ter sido o primeiro império dinástico do mundo. O Império Acádio governou tanto os falantes acádios como sumérios na Mesopotâmia e no Levante – a Síria moderna e o Líbano. O Império Acádio entrou em colapso em 2 154 a.C., aos 180 anos após a sua fundação.

IMPÉRIO ASSÍRIO
A Assíria, deve o seu nome à sua capital original, a antiga cidade de Ashur, no norte da Mesopotâmia. Ashur foi originalmente uma das várias cidades-estado de língua acádia, governadas por Sargão e seus descendentes durante o Império Acádio. Centenas de anos após o colapso do Império Acádio, a Assíria tornou-se num grande império.

Durante grande parte dos 1 400 anos desde o final do século XXI a.C. até ao final do século VII a.C., os assírios de língua acádia foram a potência dominante na Mesopotâmia, especialmente no Norte. O império atingiu o seu auge perto do final deste período, no século VII. Nessa altura, o Império Assírio estendeu-se desde a fronteira do Egito e Chipre, a Oeste, até às fronteiras da Pérsia – atual Irão – a Leste.

BABILÓNIA
Por fim sucede-se a grande Babilónia, onde os judeus, segundo reza a Bíblia, estiveram exilados. Uma das obras mais importantes da cultura da Babilónia foi a compilação por volta de 1 754 a.C., de um código de leis, chamado Código de Hamurabi, que espelhou e melhorou as anteriores leis escritas da Suméria, Acádia e Assíria. O código de Hamurabi é o código de leis mais antigo do mundo. Escrito por volta de 1 754 a.C., pelo sexto rei da Babilónia, Hamurabi, o Código foi escrito em estelas de pedra –lajes – e tábuas de argila. É constituído por 282 leis, com punições em escala, em função do estatuto social, ajustando "um olho por um olho, um dente por um dente", para evitar a espiral de violência.

O Império Babilónio, fundado por Hamurabi, durou 260 anos, até que a Babilónia foi saqueada por invasores em 1 531 a.C. No período entre 626 a.C. e 539 A.C., a Babilónia voltou a afirmar-se na região com o Império Neo-Babilónio. Este novo império foi derrubado em 539 a.C. pelos persas que passaram a governar a região até à época de Alexandre, o Grande, em 335 a.C.

O mito babilónio da criação
Para além do código mais antigo de leis, a Babilónia possui também o mito mais antigo da criação do universo e dos seres humanos. Reza que, no princípio, existiam o deus Apsu e a deusa Tiamat que tiveram vários filhos. Como os mais novos eram barulhentos quando brincavam e Apsu não conseguia dormir nem trabalhar, decidiu matá-los. Entretanto, os jovens deuses descobriram o plano e anteciparam-se, matando Apsu.

Tiamat prometeu vingança pela morte do marido. Cheios de medo, os deuses rebeldes solicitaram a ajuda do primo Marduk. Este, capturou Tiamat e matou-a, despedaçando posteriormente o seu corpo e espalhando o seu sangue. Assim foi criado o Universo segundo o mito babilónio. Ou seja, a criação é um ato de violência e não de bondade, como no mito bíblico da criação.

A ordem cósmica requer a supressão violenta do feminino e é espelhada na ordem social pela sujeição das mulheres aos homens e dos homens ao seu governante. No princípio era o caos e a violência foi usada para estabelecer a ordem. Fica assim justificado o uso da violência pois, sem ela, não haveria ordem. O mito da violência redentora é a vitória da ordem sobre o caos por intermédio da violência.

Depois da criação do mundo, Marduk atirou para a prisão os deuses que estavam do lado de Tiamat. Como estes protestavam porque a comida na prisão não era boa, Marduk e o seu pai Ea (filho de Apsu), mataram um deles e, do seu sangue, criaram os seres humanos para serem servos dos deuses.

Portanto, segundo o mito babilónio da criação, a violência é natural e está incorporada nos nossos genes. Não foi a humanidade que criou a violência como ato de desobediência a Deus, como no caso do mito bíblico. No mito babilónio, a violência sempre esteve presente, fazendo parte da natureza cósmica e humana. Os seres humanos estão naturalmente incapacitados para a coexistência pacífica e a paz tem de ser imposta a partir de cima, pelo poder reinante. Muito mais tarde é esta a ideia subjacente à “Pax Romana”, imposta pelos romanos.

Os mais espertos e poderosos apresentam-se então perante os outros, como reis, faraós, czares, imperadores, príncipes, sacerdotes e mestres, representantes da bondade e justiça de Deus, com a missão de combater os maus e de os punir.

A violência “legal” dos líderes da sociedade opõe-se à violência “natural” para subjugar os maus, dissuadir os outros das suas más tendências e facilitar a convivência social. Daí nasce a lei de olho por olho e dente por dente, para conter a violência conatural ao ser humano e tornar possível a convivência.

O EGITO DOS FARAÓS
É certamente a cultura mais emblemática e fascinante do mundo antigo, não só pela grandiosidade das pirâmides e tantos outros monumentos que nos deixaram, mas por continuarem a despertar curiosidade no homem de hoje. A arqueologia até mudou de nome para egiptologia, pelos milhões de documentos históricos que esta civilização nos deixou.

A civilização egípcia estende-se por vários períodos diferentes: o Primeiro Reino (3 000-2 660 a.C.), I e II dinastias; o Reino Antigo no início da Idade do Bronze (2 660-2 180 a.C.), III a VI dinastias; o Primeiro Reino Médio (2 180-2 040 a.C.), VII a XI dinastias; o Reino Médio (2 040-1 780 a.C.), XI e XII dinastias; o Segundo Reino Médio (1 780 a 1 560 a.C.), XIII a XVII dinastias; o Reino Novo (1 560-1 070 a.C.), XVIII a XX dinastias; o Terceiro Período Intermédio (1 070-664 a.C.), XXI a XXV dinastias; a Época Baixa (664-332 a.C.), XXVI a XXX dinastias; o Domínio Grego (332-30 a.C.) e o Domínio Romano (30 a.C.-359 d.C.).

O sucesso da antiga civilização egípcia veio, em parte, da sua capacidade de adaptação às condições do vale do rio Nilo para a agricultura. As previsíveis inundações e a irrigação controlada do vale fértil produziram culturas excedentárias, relatadas também na Bíblia na história de José do Egito.

Esta agricultura racionalizada permitiu um aumento considerável da população. Com recursos de sobra, a administração patrocinou a exploração mineira do vale e das regiões circundantes do deserto, o desenvolvimento de um sistema de escrita, a organização de projetos de construção coletiva e agrícola, o comércio com as regiões circundantes e um exército destinado a afirmar o domínio egípcio.

Para motivar e organizar estas atividades existia uma força burocrática de escribas de elite, líderes religiosos e administradores, sob o controlo de um faraó que garantia a cooperação e unidade do povo egípcio no contexto de um elaborado sistema de crenças religiosas.

A vida no Egito
•    “Não separes a tua mente da tua língua e todos os teus projetos serão bem-sucedidos”
•    “Que os teus conhecimentos não sejam motivo de arrogância; aconselha-te tanto com o sábio como com o ignorante”.
Quase todas as pessoas estavam envolvidas na agricultura e provavelmente estavam ligadas à terra. Em teoria, toda a terra pertencia ao rei, embora, na prática, aqueles que nela viviam não pudessem ser facilmente removidos e algumas categorias de terras pudessem ser compradas e vendidas. As terras abandonadas voltavam a ser propriedade do Estado e transferidas para outros que as cultivassem.

Um Estado central forte tornou possível as construções em massa que conhecemos no Egito. A construção das grandes pirâmides da quarta dinastia (2 575–2 465 a.C.), ainda não está totalmente explicada. As casas das pessoas eram feitas de adobe ou tijolos de terra não cozida; os templos, pirâmides, palácios reais e tumbas eram construídos em pedra.

Ao contrário da escrita cuneiforme que permitia escrever outras línguas, a escritura hieroglífica só permitia escrever uma única língua. Porém, é destes hieróglifos que descende o nosso alfabeto, o alfabeto romanao. Esta civilização deixou-nos inúmeras obras literárias, como tratados sobre matemática, astronomia, medicina e magia, bem como vários textos religiosos, recolhidos mais tarde na famosa biblioteca de Alexandria.

No antigo Egito comia-se o todo tipo de carne, inclusive carne de porco. O casamento era monogâmico, o divórcio era possível e fácil, mas dispendioso. As mulheres tinham um estatuto algo inferior ao dos homens; as casadas tinham o título de donas de casa, mas trabalhavam também na agricultura ao lado dos maridos.

O Faraó era divino e a sua divindade era reafirmada em sumptuosos rituais. No entanto, era uma divindade inferior à dos grandes deuses. Ele era a garantia de unidade da sociedade egípcia, bem organizada e hierarquizada. Foi por isso no Egito que o monoteísmo foi inventado, precisamente como fator de união entre as pessoas e as classes sociais.

Foi o faraó Akenaten que promulgou a existência de um só deus, o deus Aten, ou seja, o deus sol em substituição de todo o panteão de deuses. Contudo, este monoteísmo durou pouco tempo. Os egípcios, como todos os povos daquele tempo e lugar, eram naturalmente politeístas. É provável que a ideia de um Deus único dos judeus tenha surgido nesta época e que eles a retivessem durante o período de escravatura no Egito e depois da sua libertação.

Conclusão: No final do Neolítico, entre o Calcolítico e a Idade do Bronze, nasceram as primeiras civilizações humanas à volta dos rios Tigre, Eufrates e Nilo. A terra fértil das bacias destes rios proporcionou uma agricultura excedentária e esta, por sua vez, uma cultura superior, patente nas invenções tecnológicas, na escrita e nos monumentos que nos deixaram estas civilizações, base da civilização ocidental.
Pe. Jorge Amaro, IMC


15 de abril de 2024

A Cosmovisão Pré-Histórica

Sem comentários:

É comummente aceite pela antropologia e arqueologia que o ser humano atual é Homo Sapiens que descende de outras espécies de primatas já extintas. De há 4 a 6 milhões de anos, existiram outros hominídeos, ainda pertencentes ao reino animal: o Ardipithecus Ramidus na Etiópia; depois deste, veio o Australopitecus Afarensis, nome técnico da Lucy, que também habitou a Etiópia na região chamada Afar.

Sucederam-se o Homo Habilis e o Homo Erectus que habitaram o Leste da África. Deste descende o Homo Heidelbergensis que é o antepassado comum dos completamente humanos Neanderthal e Homo Sapiens. Temos antepassados comuns com os chimpanzés, macacos e gorilas. No entanto, evoluímos até ao que hoje somos, enquanto o mesmo não aconteceu com eles. Porquê?

A ciência nunca chegará a descobrir, porque o ser humano foi a única espécie de ser vivo que evoluiu. Nunca vai descobrir porque a resposta está em Deus que pensou em nós como expoente máximo da evolução das espécies, desde que a vida surgiu no Oceano em forma de um organismo unicelular chamado Arqueia.

Cosmovisão e autoconsciência
Sabemos que o Homo Sapiens adquiriu a mesma estrutura anatómica que hoje temos há 130 000 anos. Mas quando começou este a ser autenticamente humano, ou seja, a ter consciência de si mesmo? A maior parte dos paleontólogos pensa que isto começou a acontecer há cerca de 40 000 anos quando se deu o ponto de viragem na criatividade humana, quando o Homo Sapiens deixou África e chegou à Europa, desenvolvendo as ferramentas, primeiro de pedra, depois de metal, para agir sobre a realidade à sua volta. Num processo de conhecer e dominar a natureza à sua volta, o Homem foi-se conhecendo a si mesmo como diferente da realidade que o rodeava.

Para além das ferramentas, o pensamento abstrato e simbólico, próprio do homem moderno, pode ver-se também na decoração das paredes das suas cavernas com pinturas rupestres, que nos contam um pouco das suas vidas e mentes em esplêndidas pinturas de veados, cavalos e touros selvagens, assim como dos seus rituais funerários. O mesmo expressam os objetos de ornamentação corporais que usavam e as estatuetas modeladas em barro, exaltando a feminidade e fertilidade da mulher.

Tanto na Idade da Pedra (Paleolítico, Mesolítico, Neolítico) como na idade dos Metais (Calcolítico ou Cobre – Bronze – Ferro), o Homem não tinha ainda uma cosmovisão definida, pois para ter uma cosmovisão ou uma visão do cosmos ou mundo que o rodeava, era preciso, de alguma forma, ter a capacidade de se abstrair de si próprio. O homem pré-histórico ainda se encontrava, como todos os animais, vivendo maioritariamente em simbiose com a natureza. Dado que não se via como separado dela, não podia ter uma ideia dela.

Como o bebé que ao nascer corta o cordão umbilical com a natureza, assim o homem primitivo experimentou uma rutura através do processo de ganhar gradualmente consciência de si mesmo. Ao ganhar autoconsciência, o ser humano ainda se via na natureza, mas em oposição a esta que já não era tanto uma pródiga Mãe, mas mais madrasta, pois agora tinha de lhe arrancar o sustento, como o bebé tem de chorar se quiser mamar.

Cosmovisão e ciência
O Homem procurou emancipar-se, libertar-se das amarras e tutela da Natureza, ganhando independência e autonomia em relação a esta. Ainda hoje são estes os valores sobre os quais se fundamenta a vida do ser humano como ser individual. Nesta luta pela liberdade, criou instrumentos cada vez mais potentes para modificar a natureza e adaptá-la às suas necessidades. Com a descoberta do fogo pode combinar diferentes elementos criando outros novos.

Substituiu a caça pela domesticação dos animais, de modo a ter carne quando quisesse e não quando a Natureza permitia; substituiu a recoleção de frutos pela agricultura, para poder armazenar comida quando esta escasseava e poder ter tempo para outras coisas como inventar, descobrir, criar.

A cosmovisão como visão ou conceptualização do mundo à nossa volta, como mentalidade ou padrão em relação ao qual medimos e julgamos todas as coisas, vê-se afetada e confrontada por cada descoberta científica. Cada nova conclusão científica obriga a nossa mente a conceptualizar a realidade de outra forma, a olhar para o mundo de outra maneira. Por outras palavras, opera na nossa mente uma autêntica metanoia, ou seja, mudança de paradigma mental.

A descoberta do fogo
Esta descoberta modificou de tal maneira a vida das pessoas que o fogo passou a ser entendido mitologicamente como tendo sido roubado aos deuses. O fogo era para os nossos antepassados como a lâmpada de Aladino que, através de fricção, apareceria como que por magia, fazendo os homens com ele o que quisessem.

O fogo teve uma importância grande para a coesão de famílias e comunidades, pois todos se reuniam à volta da fogueira para se aquecerem. Como ninguém queria ficar de fora, ao frio, o fogo atuava como fator dissuasor de atitudes antissociais.

Permitiu estender a luz do dia pela noite adentro e, como de noite não se podia trabalhar, as duas ou três horas extra de luz ténue serviam para manifestações culturais, para o partilhar de experiências e para a transmissão da cultura de pais para filhos. A luz à noite aumentou a segurança dos seres humanos em relação aos animais que caçavam de noite, uma vez que servia para os afugentar.

No entanto, a utilização mais importante do fogo, nesta altura, foi a preparação dos alimentos. O alimento cozido ou assado melhorou a dieta do ser humano. Certos alimentos são mais nutritivos cozidos que crus. Ao fogo e ao cozinhar dos alimentos se deve o aumento populacional e a sobrevivência dos seres humanos. Por fim, foi precisamente o fogo que permitiu aos humanos passarem da Idade da Pedra à Idade dos Metais.

Sociedade igualitária da velha Europa
Num espaço de tempo que vai do Paleolítico superior, há 50 000 anos até ao princípio do Calcolítico (Idade do Cobre), o Homo Sapiens deixou-nos não só as famosas pinturas rupestres, mas também inúmeras estatuetas femininas onde os atributos sexuais da mulher são acentuados e até exagerados.

A arqueóloga Marija Gimbutas crê que estas estatuetas são a prova da existência de uma sociedade não matriarcal, mas sim mais igualitária na velha Europa, depois de o Homo Sapiens deixar África. Nestas sociedades antigas, as mulheres e os homens viviam como iguais em praticamente todos os aspetos da vida diária. Para além disso, às mulheres era-lhes atribuído um estatuto superior devido às suas capacidades reprodutivas. Na verdade, a identidade das mulheres como dadoras de vida ficou intimamente ligada à deusa mãe que dá vida e que serviu como o ponto focal da velha religião europeia.

O papel do pai na antiguidade pré-histórica era inexistente, como o é nos animais mais próximos de nós na evolução das espécies. Isto aconteceu porque o corpo feminino, pela sua fisionomia, dava provas de maternidade, enquanto que o corpo masculino não dava provas de paternidade. No Neolítico, assim como no Paleolítico superior, a religião estava centrada no poder da mulher em gerar vida.

Podemos concluir que a primeira divindade venerada pelos seres humanos era uma deusa, não um deus. A reverência era dada à deusa Mãe de tudo quanto vive, identificada tanto como Natureza ou solo. A Terra, como planeta ou como solo, a Natureza, assim como os nomes de todos os continentes são nomes femininos.

O varão observa com fascínio como do seio da terra vem a vida das plantas que são a vida dos animais, e ao seio da terra volta essa vida quando plantas e animais morrem. Observa também que à imagem da terra também a mulher e só ela, gera vida. Dada a inteligência rudimentar do ser humano naquele tempo, a conexão entre as relações sexuais e o parto ainda não tinha sido estabelecida, isto porque a causa e o efeito estavam separados por nove meses.

Num tempo em que os humanos não teriam mais inteligência que a que tem um rato de hoje, pensemos que se um rato comer um veneno e morrer, de imediato os outros ratos nunca mais tocam nesse veneno, pois estabelecem uma conexão entre a morte do seu congénere e o pó que comeu. Porém, se o veneno for um anticoagulante pelo qual o rato não morre, mas se perder todo o sangue no caso de ter um acidente ou brigar com um congénere, a conexão entre a morte e o anticoagulante não é estabelecida, o que faz do anticoagulante o melhor veneno.

Enquanto a paternidade não foi estabelecida, as mulheres da tribo detinham um certo poder e alta estima, sendo respeitadas pelos varões, apesar de estes, como é natural, possuírem maior força física. Por outro lado, basta olhar para os seres vivos mais perto de nós na evolução das espécies, para vermos situações semelhantes.

Olhemos para os cães, como reverenciam as cadelas, sobretudo quando acabaram de parir (dadoras de vida): não se chegam a elas e, embora fisicamente sejam mais fortes, não usam de violência física contra as mesmas, mostrando até uma certa “reverência”. Em caso de conflito, a fêmea prevalece, não só porque se torna muito agressiva, tirando forças da fraqueza, mas também porque o macho se afasta em sinal de respeito e não confronta a fêmea, embora o pudesse fazer por ter mais força física.

Em todas as culturas, a divindade é geradora de vida. Por outro lado, também, no entender de Rudolf Otto, a divindade é identificada em todas as culturas como sendo um “misterium tremedum et fascinans”, o qual podemos traduzir pelo amor e temor de Deus. Quando se representa Deus como sendo mulher, imediatamente todas as mulheres são uma imagem desse Deus, pelo que serão tão respeitadas quanto Deus o é.

Nunca houve e podemos dizer que nunca haverá uma sociedade que seja puramente matriarcal, enquanto o varão tiver uma força física superior à mulher. Sociedades matrilineares ou igualitárias existiram e podem ainda existir.

Quando a conexão entre o coito e o parto foi estabelecida, o estatuto do homem começou a subir. Começou então a ser visto como crucial para o processo reprodutivo que garantia a vida. A deusa original da Terra Mãe passou a ser complementada por um consorte, primeiro pensado como o deus Pai Céu. A chuva vinda do céu era o sémen divino enviado para engravidar a Mãe Terra para que a vida pudesse surgir.

Herbert W. Richardson, no seu livro Nun, Witch and Playmate, escreve que esta compreensão maternal de Deus e da vida humana prevaleceu até ao amanhecer da autoconsciência, quando uma divisão apareceu na vida humana entre o instinto natural e o ego emergente que se atreveu a enfrentar e confrontar-se com esse instinto.

Quando isto aconteceu, deu-se uma reviravolta na cosmovisão humana, ou seja, uma nova definição de todos os aspetos da vida. Quando a vida humana é definida de uma nova forma, o Deus adorado por causa da vida humana também passa a ser definido de uma nova forma. Os antropólogos entendem que isto aconteceu por volta de 7 000 AC.

Génese da cosmovisão andro-cêntrica na Bíblia
O bispo protestante John Shelby Spong no seu livro “Viver no pecado”, descreve muito bem como a Bíblia faz eco do processo de transição da conceptualização feminina (deusa Asherah) para a conceptualização masculina da divindade (Yahweh). Este processo não aconteceu de um dia para o outro, foi um processo demorado e doloroso, com inúmeras recaídas. O primeiro livro dos Reis (18:40) dá-nos um exemplo da perseguição que os seguidores de Yahveh moveram contra os seguidores dos deuses da fertilidade, no episódio do confronto entre os profetas de Baal e Elias, o profeta de Yahveh.

No século VII antes de Cristo, ainda existiam pequenos santuários dedicados à deusa da fertilidade Asherah e ao seu consorte Baal, nos quais se realizavam liturgias explicitamente sexuais que incluíam prostituição sagrada, tanto masculina como feminina. Nem a reforma do Deuteronómio nem a de Ezra, no século V AC, conseguiram extinguir completamente estas práticas.  

Yahweh era um deus masculino, solitário, que tudo criou por intermédio da Palavra pronunciada, sem precisar de uma parceira feminina. O culto a Baal, mais antigo, partiu da observação do poder sexual da reprodução.

John Shelby Spong vê na história de Abraão um eco bíblico do momento em que o ser humano ganhou autoconsciência. Rompeu com a natureza, como Abraão rompeu com a sua terra Natal Ur, na fértil Mesopotâmia, para peregrinar pelo deserto, descobrindo-se a si mesmo. Os deuses da fertilidade exigiam sacrifícios humanos, Abraão rompeu com essa tradição, ao não sacrificar o seu filho por um impulso interior.

Com o surgir da consciência e do pensamento, a sobrevivência do ser humano passou a não depender já tanto da Natureza seguir o seu curso, mas do pensamento humano que conhece, descobre e domina a natureza.

A supressão bem-sucedida do culto da fertilidade, com a sua divindade feminina, faz parte do contexto histórico da criação do Javismo, no qual a deusa Eva, mãe de todos os seres vivos, convive com o mal e é banida para sempre do paraíso pelo deus superior masculino.

Segue-se a insistência bíblica na natureza totalmente masculina de deus e a atribuição correspondente de prerrogativas divinas (ou seja, masculinas) aos homens, que sozinhos, argumenta o mito, foram criados à imagem deste Deus.

Nasceu assim a cosmovisão andro-cêntrica da vida, o domínio do varão sobre a mulher que se estende até aos nossos dias. Com o aparecimento da paternidade, não só se ofuscou o valor da maternidade, como se destituiu a mulher do seu lugar na sociedade. Como a paternidade não é tão patente como a maternidade, o estabelecer da paternidade passou a ser a pedra angular da sociedade patriarcal que insistiu em controlar o comportamento reprodutivo das mulheres. Assim nasceu o valor ou contravalor da virgindade e outras formas de domínio da mulher.

Conclusão – Enquanto Deus foi conceptualizado como Mãe, a mulher era respeitada, admirada e vivia em pé de igualdade com o varão. Com a conceptualização de Deus como Pai, a mulher foi destituída da sua dignidade, dominada, torturada, vituperada, vexada e ultrajada até aos dias de hoje, na sociedade ocidental e em outras sociedades.
Pe. Jorge Amaro, IMC


1 de abril de 2024

Cosmovisão, Ciência e senso comum

Sem comentários:

Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a Terra. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se movem na terra.» Deus disse: «Também vos dou todas as ervas com semente que existem à superfície da Terra, assim como todas as árvores de fruto com semente, para que vos sirvam de alimento.

E a todos os animais da terra, a todas as aves dos céus e a todos os seres vivos que existem e se movem sobre a Terra, igualmente dou por alimento toda a erva verde que a terra produzir.» E assim aconteceu. Deus, vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa. Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o sexto dia.
Génesis 1, 28-31

A ciência veio substituir o mito na explicação da realidade. Os romanos viam as tempestades como batalhas entre os deuses; os gregos entendiam que os raios eram lanças dos deuses contra os humanos. Hoje sabemos que as tempestades se formam quando ar quente e húmido sobe rapidamente para as camadas mais altas e mais frias da atmosfera, formando nuvens e chuva. Os raios são uma forma de eletricidade que se desenvolve dentro das nuvens. O trovão é provocado pelo ar quente que se dilata até rebentar.

Desde as origens da humanidade, a nossa espécie tem perseguido afanosamente o conhecimento. Chamamos ciência ao conjunto de técnicas e métodos utilizados para alcançar o conhecimento. Substantivo proveniente do latim, “scientia”, faz referência ao verbo scire, ou seja, saber.  O Homem foi criado no último dia da criação, pois Deus descansou no sétimo, é a ciência que faz dele o rei da criação. Por ela, o Homem, domina, controla e administra os bens que Deus colocou nas suas mãos.

Ciência – arte – cultura – cosmovisão
O ser humano expressa a sua idiossincrasia, a sua forma de ser, de proceder, o seu pensamento, os seus valores, religião, crenças, filosofia, etc., nas artes e não na ciência. A arte expressa conhecimento, a ciência é um instrumento para conhecer, compreender o mundo à nossa volta, explorando as suas possibilidades no sentido de tornar, pela tecnologia, a nossa vida mais aprazível.

A ciência tem que ver com o nosso pão quotidiano; como tal, é pragmática, objetiva e é trabalho. A arte não tem que ver com o nosso pão quotidiano, pois é o que fazemos por amor; por isso é subjetiva. Há sempre um objetivo naquele que quer conhecer, enquanto o que se expressa numa arte não tem objetivo preciso, procura simplesmente uma forma de expressão. O objeto da ciência é o não conhecido, o da arte é o já conhecido.

O ser humano cultural não se expressa na ciência e a sua cosmovisão não é objeto da ciência nem interessa à ciência. Porém, esta tem o condão de modificar a nossa cosmovisão de um momento para a outro. Pensemos, por exemplo, na revolução copernicana, quando o Homem descobriu que não era o Sol que girava à volta da Terra, mas, pelo contrário, que era esta que girava à volta daquele. Qualquer descoberta científica pode virar o nosso pensamento do avesso e obrigar-nos a repensar as coisas e a olhar para a realidade com outros olhos.

A cultura evolui, a ciência revoluciona
Há revoluções sociais que não têm nada que ver com a ciência. A chamada Revolução Francesa, pode antes ser vista com uma evolução lenta da monarquia absoluta até se tornar obsoleta. Neste sentido, todas as revoluções sociais podem ser vistas como evoluções, para quem tiver olhos para ver e prever, como os profetas de um tempo.

Pura e verdadeira revolução é uma descoberta científica – não se previa e a todos apanha de surpresa. Tem a potencialidade de nos tirar o tapete debaixo dos pés, de nos deixar boquiabertos, confusos, escandalizados, traumatizados e até agressivos. Imaginemos o que foi para as pessoas religiosas quando Darwin descobriu que o ser humano tinha o macaco como parente mais próximo, numa evolução das espécies onde toda as formas de vida vêm de um tronco comum e estão emparentadas umas com as outras. Ainda hoje há gente que rejeita a ideia.

E não é só o povo que rejeita certas descobertas. O próprio Einstein que revolucionou o mundo com a sua teoria da relatividade teve dificuldades em aceitar um postulado essencial da física quântica, o chamado princípio de incerteza de Heisenberg, chegando a dizer que Deus não joga aos dados.

A cosmovisão materialista da qual falaremos largamente é a que governa o mundo da filosofia, ciência e política atuais. Os intelectuais de hoje, se são religiosos, ou seja, se têm fé na existência de Deus, têm vergonha de o afirmar em público, pois a tendência atual é os intelectuais serem ateus ou agnósticos.

Esta atitude materialista perante a vida e a realidade, melhor se coaduna com a física determinista e mecanicista de Newton, que vê o mundo funcionando mecanicamente com a precisão de um relógio, que com a física e mecânica quânticas de hoje, onde até mesmo as leis da natureza escapam ao determinismo. O mundo da física quântica é um mundo mágico, onde o material e o espiritual se tocam, onde o tangível e o intangível se abraçam e o milagre se dá.

As universidades, a política, os intelectuais estão, portanto, desfasados, atrasados, fora de moda, na medida em que ainda não se adaptaram à nova realidade, ainda vivem com uma cosmovisão falsa. Para se atualizarem têm de se divorciar de Newton e casar-se com Heisenberg. O mundo não é nem funciona como eles pensam que é e funciona.

As descobertas científicas que revolucionaram a nossa cosmovisão
No campo da energia

A descoberta do fogo, a aplicação da energia animal (cavalo, burro, boi), os moinhos de vento, as caravelas, os moinhos de água, os moinhos de marés, a máquina a vapor (carvão), os motores de explosão, o automóvel, o barco, o avião (petróleo), a energia hidroelétrica, a energia eólica, a energia solar, a energia nuclear, as baterias que alimentam um sem número de pequenas aplicações que usamos no nosso dia a dia – cada fonte de energia modificou o mundo e a nossa forma de olharmos para ele e de com ele nos relacionarmos.

No campo da biologia e da medicina
O físico inglês Robert Hooke (1635-1702) publicou os primeiros desenhos de células observadas ao microscópio, impulsionando as pesquisas sobre as unidades fundamentais da vida.

A Evolução das Espécies, de Darwin, veio destronar o livro de Génesis como um livro histórico, e provou que a vida no nosso planeta nasceu no mar e proveio de um tronco comum que faz com que tanto plantas como animais tenham relações de parentesco.

A penicilina – o primeiro dos antibióticos, descoberto por acidente pelo escocês Alexander Flemming em 1928 (embora já existissem estudos anteriores sobre o tema), foi um verdadeiro marco na história da medicina, já que passou a salvar incontáveis vidas de várias doenças infeciosas.

A anestesia – o médico americano Crawford Long (1815-1878) usou pela primeira vez o éter como anestésico geral durante uma cirurgia.

O raio X – o alemão Wilhelm Conrad Röntgen é considerado o grande inventor do raio X (apesar de outros cientistas terem estudado os seus efeitos antes e depois da descoberta), uma forma de radiação eletromagnética que consegue penetrar em objetos sólidos e que passou a permitir que os diagnósticos médicos fossem mais rigorosos, não se baseando apenas em sintomas e cirurgias.

A genética – o monge austríaco Gregor Johann Mendel (1822-1884) criou a ideia de gene, ao estudar os diferentes tipos de ervilhas que nasciam de sucessivos cruzamentos.

A dupla espiral do ADN: a belíssima estrutura do ADN foi creditada aos cientistas Francis Crick e James Watson em 1953. O que surgiu daí: a engenharia genética cresceu muito nos últimos 50 anos, chegando à discussão ética de poder “copiar” seres vivos o que se fez com a ovelha Dolly.

O inconsciente – o neurologista austríaco Sigmund Freud (1856-1939) publicou nesse ano o seu Estudo sobre a Histeria, demonstrando que o homem não domina completamente a mente e propondo a ideia de que o inconsciente é o responsável pelos desejos e sonhos e por tantos comportamentos reativos do nosso dia a dia.

No campo da guerra
Desde a descoberta do ferro, e da invenção da pólvora, o ser humano parece ser mais criativo e motivado pelo ódio que pelo amor. Muitas descobertas nasceram no âmbito da guerra e só depois foram encontradas aplicações pacíficas para as mesmas. A bomba atómica transformou-se em energia nuclear, o sistema usado nos mísseis teleguiados transformou-se em GPS para nos guiar a nós.

O radar – a equipa de pesquisadores liderada pelo físico escocês Robert Watson-Watt (1892-1973) criou o primeiro radar. Embora fosse originalmente um instrumento de guerra, o radar é atualmente fundamental para a navegação.

O raio laser – Theodore Maiman (1927-) construiu o primeiro laser. Entre outros usos, estes raios servem hoje como bisturis na medicina, réguas na ciência e arma militar.

No campo das comunicações
A prensa de Gutenberg, a fotografia, o cinema, a gravação de som, a rádio e a televisão, o computador que surgiu como uma máquina de escrever com memória, são hoje transversais a toda a atividade humana e integram a maior parte das máquinas que o homem criou, desde o automóvel ao avião, passando pela máquina de lavar.

O telégrafo, o telefone, o fax, a internet, o telemóvel, revolucionaram a forma como os humanos comunicam entre si   e transformaram o mundo já globalizado numa casa comum.

O transístor – os americanos John Bardeen (1908-1991) e Walter Houser Brattain (1902-1987) criaram o transístor. Imagine o mundo sem transístores: não haveria computadores pessoais nem telemóveis.

O satélite artificial – A extinta União Soviética lançou o Sputnik 1 – uma esfera de 58 centímetros de diâmetro e 84 quilos de peso. Os satélites revolucionaram o mundo das comunicações.

No campo da física e mecânica quântica  
A teoria do Big Bang, do padre Georges Lemaître, postula que o Universo teve origem na explosão de um ponto ínfimo, que condensava toda a matéria existente. Por esta teoria, já não é só a Bíblia que fala do princípio e do fim do mundo, pois estes são também o objeto da ciência. Por isso, muitos dizem agora que a Bíblia tinha razão.

A descoberta do telescópio por Galileu para observar a macro realidade e a do microscópio para observar a micro realidade, estão na base dos avanços registados na física moderna, a começar pela teoria da relatividade que revolucionou a forma como o ser humano entende o universo, o espaço e o tempo; que nos disse que a matéria é uma forma de energia e a energia uma forma de matéria. A descoberta das partículas subatómicas e do mundo mágico e imprevisível que elas formam ainda não mudou a nossa forma de pensar, a nossa cosmovisão, mas não tarda que isso aconteça.

Ciência e “cultura aplicada”, ou seja, senso comum
O senso comum é uma forma de conhecimento com base na experiência quotidiana e na opinião pública de um determinado grupo social ou cultura, que é transmitido de geração em geração. É composto por valores e tradições e opera com base numa lógica de probabilidades que garante a confiança do indivíduo de poder viver e relacionar-se da forma mais adequada com o seu mundo, ou seja, que garante a sua forma de ser e estar na vida.

Muito deste senso comum vem da nossa própria experiência, quando aprendemos com os nossos erros. No entanto, a vida é curta, não há tempo para efetuar todas as experiências, além de que seria perigoso fazê-lo, pelo que também podemos aprender com os erros dos outros. Por exemplo, não preciso tomar drogas para saber que são nocivas para a saúde.

Neste sentido, o senso comum é positivo. Por outro lado, o assimilar acriticamente postulados que vêm do passado sem os comprovarmos, abre a porta aos clichés culturais e preconceitos que vão passando de geração em geração, sem que ninguém os ponha à prova ou os confronte. No confronto com o conhecimento científico, com a realidade do presente, alguns destes postulados podem revelar-se como completamente irracionais e, no entanto, as pessoas continuam a agarrar-se a eles porque lhes dão um sentido de segurança. Há um provérbio que explica esta atitude: “Vale mais o mal conhecido que o bom por conhecer”.

O cientista é o que pesquisa para obter conhecimento, para esclarecer uma dúvida, para resolver um problema, para explicar uma reação ou um fenómeno da natureza. Ao contrário do senso comum que muitas vezes consta de uma crença que, mesmo sem verificação empírica, ninguém põe em dúvida, a ciência começa por duvidar de tudo e de todos, já que as aparências iludem.

A ciência nasce como reação ao senso comum. Porém, o senso comum integra a descoberta científica que passa a fazer parte da opinião pública e a ser sinónimo de senso comum. A ciência de ontem vulgarizada, ou seja, assimilada pelo povo, transforma-se em senso comum, da mesma forma que uma descoberta científica encontra a sua aplicação prática na tecnologia.

A ciência mudou a forma como olhamos para o mundo. Esta constatação deu origem ao positivismo como corrente filosófica, que entende que a ciência é o caminho para o progresso e ordenamento da sociedade. É precisamente neste ponto que choca com o senso comum que não quer perder o lugar que ocupa na mente das pessoas.

Há muito que a ciência deixou de ser a expressão da curiosidade inata do ser humano que quer conhecer pelo mero prazer de conhecer. A investigação de ponta requer dinheiro e gera muito dinheiro em patentes tecnológicas. A ciência não é desinteressada no nosso mundo capitalista, é uma mina de ouro. Por isso, o povo ataca-a com mil e uma teorias da conspiração, umas verdadeiras, outras falsas, disseminadas pelas redes sociais.

No caso da medicina, os médicos receitam químicos por tudo e por nada. Em vez de aconselharem as pessoas a fazer exercício, a mudar de dieta, dão um comprimido para reduzir o colesterol que vai desestabilizar o equilíbrio natural do corpo, isto porque os lucros das farmacêuticas são enormes. Uma das razões da morte da minha mãe, confirmada por um médico, foi o facto de estar excessivamente medicada. Não deixa de ser irónico, pois se estava excessivamente medicada é porque excessivamente a medicaram os próprios médicos.

Dissemos que a ciência parte da dúvida e que o senso comum assenta numa crença. Em relação à ciência em si, os cientistas têm uma crença cega na sua capacidade de construir um mundo melhor, enquanto o senso comum, hoje na vanguarda da cultura, duvida mais do que nunca da ciência e dos seus objetivos pouco claros.

A ciência dá lucro, o senso comum é grátis, está orientado para a defesa da vida humana; a ciência nem sempre é a favor da vida humana, procura solucionar o imediato sem ter em conta as repercussões ou efeitos secundários. Por exemplo, o trigo e o milho geneticamente modificados para combater as pestes, acabam por matar as borboletas monarca e desequilibram a natureza. Muitas vezes, a ciência soluciona um problema criando dois ou três. Como diz o povo e bem, não morreu da doença, morreu da cura.

Conclusão: Uma descoberta científica modifica primeiro a nossa maneira de ver a realidade, ou seja, a nossa cosmovisão; posteriormente, a aplicação tecnológica dessa descoberta vai, eventualmente,  modificar a cultura.
Pe. Jorge Amaro, IMC


15 de março de 2024

Cosmovisão e a sua expressão

Sem comentários:

Refletimos que a cosmovisão é como a placa-mãe de um computador à qual se agregam elementos como, mitos, lendas, contos populares, crenças, rituais, religiões, arquétipos, símbolos, normas ou regras e valores. Todos estes conteúdos são de alguma forma abstratos, virtuais e precisam de um suporte físico para se fazer ver.

Podemos estudar a cosmovisão de povos antigos que já não existem, os seus mitos e lendas, os seus símbolos e crenças, pelos documentos que nos deixaram. Sabemos muito da cosmovisão, da maneira de viver e pensar de povos como os Vikings do norte da Europa, dos Maias e dos Aztecas da América Central

Para descobrir a estrutura do pensamento de um povo, a sua cosmovisão e os elementos que a compõem, como os mitos e crenças, a religião, as regras e valores, precisamos de estudar os veículos onde esses elementos se encontram plasmados ou expressados. Essas formas de expressão coincidem com as sete artes clássicas. Preferimos dividi-las de uma forma mais antropomórfica, usando os nossos cinco sentidos: artes literárias, gráficas, visuais, auditivas, audiovisuais.

ARTES VISUAIS:  arquitetura, escultura
As primeiras coisas que o ser humano fabricou - martelos de pedra, machados e facas de pedra lascada – foram utensílios que mais tinham a ver com a ciência que com a arte. Estes utensílios estavam ligados ao conhecimento das coisas e à sobrevivência num mundo hostil. Referimo-nos à Idade da Pedra e dos Metais, há milhares de anos, portanto.

Imediatamente após a saída do homem de África, há cerca de 150 000 anos, as primeiras manifestações artísticas que porventura tinham também o objetivo prático de ensinar técnicas de caça, foram as pinturas rupestres, relacionadas com as artes gráficas, pois são, de alguma forma, antepassadas da escrita.  

As três construções mais antigas da humanidade pertencem à primeira civilização humana que o nosso planeta conheceu, o Crescente Fértil, hoje chamado Médio Oriente. São elas: Tell Qaramel, construída há cerca de 11 000 anos AC na Síria, 25 Km a norte de Aleppo; Göbekli Tepe, construída há 9 600 AC no sudeste da Turquia, a 12 km da cidade de Sanhurfa e a Torre de Jericó construída há 8 000 AC nesta que é a cidade mais antiga do mundo.

Podemos estudar as diferentes cosmovisões, desde as mais antigas à mais moderna, pelo tipo de construções criadas pelo ser humano. Os antigos não faziam palácios sumptuosos com piscina e todos os luxos para habitar.

Mais preocupados com o Além do que com o aqui e agora, verifica-se que desde as pirâmides dos egípcios, dos Maias e dos Aztecas, aos zigurates da Mesopotâmia, passando pelas catedrais góticas e pelos templos hindus e budistas, a transcendência, a religião são o principal motivo para construir, não a política nem o bem viver.

É caso para pensar… que deixa para a posteridade este mundo materialista, consumista, utilitarista, pragmático, ateu, agnóstico? Nada ou reflexos do seu vazio interior, arranha-céus, as pinturas chamadas de modernas e contemporâneas que não são mais que quatro rabiscos que uma criança do ensino básico também podia fazer. O ser humano moderno não cria arte, por isso o turismo de hoje vive da arte criada pelos antigos há muitos, muitos anos.

ARTES GRÁFICAS: pintura, desenho, escrita
As pinturas rupestres mais antigas encontram-se na Península Ibérica e França, sendo a mais antiga de há 62 000 anos. No progresso da pintura para a escrita, o documento mais antigo do mundo vem precisamente da cultura mais antiga também, a suméria do Crescente Fértil - a escrita cuneiforme da antiga Mesopotâmia, anterior aos hieróglifos egípcios.

As pinturas rupestres ilustram a cosmovisão do homem pré-histórico, a sua vida, os seus costumes e até os seus sentimentos. Estas gravuras ou manifestações artísticas do Paleolítico, Mesolítico e do Neolítico representam frequentemente cenas de caça, mas também danças e outras cenas da vida diária, fenómenos cósmicos, mitos religiosos, costumes, campanhas militares.

Desde que o Homem começou a pintar, nunca mais deixou de o fazer. Muito do que sabemos das primeiras civilizações da Mesopotâmia, Egito e Grécia foi-nos transmitido por estas gravuras, imagens, desenhos, grafitis deixados por estas civilizações.

A imagem foi a primeira forma de expressão do ser humano e foi a evolução desta forma de expressão por imagens que nos levou aos pequenos desenhos que traduziam ideias - a escrita cuneiforme da Mesopotâmia, juntamente como os hieróglifos egípcios, que foram os antecessores do alfabeto grego e romano.

Outras línguas, como o chinês, mantiveram e mantêm até aos nossos dias uma escrita pictórica, ou seja, cada letra é uma pequena gravura ou desenho que representa um conceito, uma ideia; por isso necessitam de milhares de desenhos para se expressarem. Se considerarmos que o ser humano começou a usar imagens há 40 000 anos e que a escrita só foi inventada há 3 500 anos, a imagem pode ser considerada como a pré-história da escrita.

Desde o início, a imagem nasceu da comunicação e para a comunicação; nasceu da necessidade de comunicarmos e também como forma de comunicação. Atingiu o seu apogeu na segunda metade do século XX, quando foi inventada a fotografia, ou seja, a fixação ou gravação da imagem em fotografia. Na nossa sociedade visual, é frequente ouvir que “uma imagem vale mais que mil palavras”.

ARTES LITERÁRIAS: literatura, provérbios, ciências humanas
Se o ser humano fosse um ser solitário como o tigre, nunca teria desenvolvido uma língua. A língua nasceu no seio da sociedade, da comunidade, como forma de os seres humanos comunicarem entre si. Esta necessidade aconteceu quando os humanos se tornaram bípedes e conseguiram olhar-se nos olhos.
Começou provavelmente por expressar necessidades, como acontece quando viajamos para um país estrangeiro cuja língua não falamos e procuramos comunicar as nossas necessidades por sons e gestos. Numa fase posterior, os seres humanos expressaram emoções, sentimentos, e, mais tarde, pensamentos.

O que verdadeiramente cria um povo é uma obra literária. É impensável o povo judeu sem a Torah, sem os livros da lei e os profetas. O que define e caracteriza o povo grego são a Ilíada e a Odisseia de Homero; ex libris do povo italiano é a Divina Comédia de Dante Alighieri; o que define o carácter do povo espanhol é o Dom Quixote de la Mancha de Cervantes; a alma russa encontra-se em Dostoievski no seu livro Os Irmãos Karamazov. A alma portuguesa ou lusitana está nos Lusíadas de Camões.

Para o rei D. Afonso Henriques, Portugal eram as suas terras, os seus domínios. Foi Camões que criou a nacionalidade; que nos deu uma pré-história, os feitos dos lusitanos, que descreveu o nosso caráter e a nossa história no decorrer da grande epopeia da nossa nação, a descoberta do caminho marítimo para a Índia. Foi fiel às raízes da nossa língua, escrevendo em verso ao estilo das cantigas de amigo, berço do português.

O provérbio é decerto o género literário que concentra mais a cultura, a idiossincrasia e a cosmovisão em menos palavras. Fácil de recordar porque rima, frequentemente deita mão de uma metáfora ou comparação, ou seja, não usa nunca a linguagem abstrata, mas sim a narrativa e metafórica. O provérbio passa de geração em geração mais facilmente que outra forma de cultura porque é fácil de recordar; as pessoas usam-no na sua vida diária como conselho e como forma de justificar e encorajar comportamentos específicos.

ARTES AUDITIVAS:  música, oratória
A palavra música é de origem grega e significa a “arte das musas”. É constituída por uma associação de sons entremeados por pausas ou curtos períodos de silêncio ao longo de um determinado tempo. A música é, de facto, a arte de combinar sons com silêncio. A história da música acompanha a par e passo o desenvolvimento da inteligência, da linguagem e da cultura humanas. Também há quem pense que a música é anterior à humanidade, se considerarmos o canto melodioso de alguns pássaros.

É provável que na espécie humana a música tenha surgido há 40 000 anos, a julgar pelas cenas de dança que aparecem nalgumas pinturas rupestres e que sugerem um provável acompanhamento musical. Ao longo do tempo, foram aparecendo flautas primitivas e outros instrumentos, como o xilofone. Os instrumentos musicais dividem-se em três tipos: de percussão, de cordas e de sopro. A voz humana é o instrumento musical mais complexo, pois é, ao mesmo tempo, de cordas e de sopro.

A palavra comunica o pensamento, a música comunica o sentimento, a emoção. Neste sentido, é a linguagem de comunicação universal, utilizada como forma de sensibilizar para uma causa, para fins religiosos, para protestar, para acompanhar filmes e intensificar uma mensagem ou emoção. Um filme de terror sem música que lhe é própria, não aterrorizaria ninguém. Tal como a língua, faz parte da idiossincrasia de um povo e fala da sua cultura - por isso existe a chamada música popular. Traduz atitudes, sentimentos e valores culturais de um povo.

Oratória é a arte de falar em púbico comunicando ideias, ideologias e pensamentos com eloquência, articulação e clarividência, no intuito de ensinar ou persuadir os ouvintes e motivá-los a determinada ação. É uma arma muito importante na política e na religião, para o bem e para o mal. Tanto os grandes políticos e filósofos como os profetas foram bons oradores, como Nelson Mandela, Mahatma Ghandi, Martin Luther King. Porém, também os grandes ditadores tinham o mesmo poder de convencer, como Hitler e Estaline.

A oratória tem o dom de unir as diferentes e dispersas vontades numa só, faz de muitas cabeças uma só; transforma os indivíduos numa comunidade ou numa massa, num rebanho, tanto para o bem como para o mal.  

ARTES AUDIOVISUAIS: teatro, cinema, dança
As artes audiovisuais combinam o som e a imagem. Por isso têm mais força que o som e a imagem em separado. O teatro, o cinema e a dança são algumas das mais importantes artes que movem as multidões e também a economia.

Antigamente, os grandes atores de cinema iniciavam a sua carreira no teatro, e o cinema era mais parecido com o teatro. Favoreciam-se aptidões como a expressividade, tanto linguística como corporal, a dicção, o timbre de voz. Hoje, o cinema é mais ação que diálogo, pelo que os dotes do ator de teatro ficam mais reservados ao teatro e menos ao cinema. O teatro está em franca decadência se o compararmos com o cinema.

Inicialmente, o cinema pretendia comunicar valores, dentro do binómio herói/vilão, em que o herói sempre vencia. O cinema moderno, porém, já não é usado com fins pedagógicos, mas sim para mostrar a realidade tal qual ela é; por isso, vemos muitas vezes a injustiça triunfar sobre a justiça, a mentira sobre a verdade e o crime sobre a lei e a ordem. Esta situação é perigosa, pois quem vê estes filmes, sem consciência crítica, sobretudo as gerações mais jovens, pode crescer na convicção de que o ser e o dever ser são uma e a mesma coisa, de que na vida vale tudo…

A dança sempre foi uma manifestação cultural muito importante. Culturalmente, pode dizer muito pouco o ballet ou a dança clássica; mas um tango diz muito da cultura argentina, um passo doble diz muito da cultura espanhola, e o samba representa bem a cultura brasileira. Todos os povos têm uma forma própria de bailar. Se quem canta reza duas vezes, quem dança reza três.

“Ars lunga vita brevis”, a arte é eterna, a vida é breve. Ao cultivar uma arte, o indivíduo entra numa relação simbiótica com ela. Ele dá-lhe a sua temporalidade, elevando essa arte a um novo máximo ou record; ela dá-lhe a sua eternidade, tanto na mente da comunidade humana, humanizando-o, como na mente de Deus, fazendo-o seu filho.

Conclusão: "Ars lunga vita brevis" - "As artes são eternas, a vida é curta" Usa a tua vida para cultivar artes e valores humanos e serás eterno, viverás para sempre, em Deus e na memória da humanidade.
Pe. Jorge Amarao, IMC