15 de maio de 2014

Um certo Islão de agora e o Cristianismo de há dois mil anos

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«Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério. Moisés, na Lei, mandou-nos matar à pedrada tais mulheres. E Tu que dizes?» (…) Jesus, inclinando-se para o chão, pôs-se a escrever com o dedo na terra. Como insistissem em interrogá-lo, ergueu-se e disse-lhes: «Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra!» (…) Ao ouvirem isto, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher que estava no meio deles. Então, Jesus ergueu-se e perguntou-lhe: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?» Ela respondeu: «Ninguém, Senhor.» Disse-lhe Jesus: «Também Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não tornes a pecarJoão 8 1-11

O que era prática nos tempos de Jesus ainda é hoje, depois de 2000 anos, prática comum em alguns países muçulmanos fundamentalistas. De vez em quando os jornais falam-nos de mais um caso que horroriza a opinião pública mundial; o último foi o de Reza Aslan no Irão, mãe de dois filhos.

A net está cheia de fotografias e vídeos destas execuções barbáricas não ordenadas no Corão; de facto em todo o livro do Corão não se menciona apedrejamento prescrito para nenhum crime; segundo o Corão o adultério é punido com chicotadas. Quando comparamos esta prática, ainda hoje habitual, com a que Jesus preconizava já há dois mil anos, para o mesmo pecado, não deixa de ser surpreendente e comovente…

Por outro lado, a pena de morte é sempre uma injustiça pois as leis existem para julgar actos e não a totalidade de uma vida humana; mesmo quando o crime é homicídio, a pena de morte é pior crime que o crime que ela quer sancionar. Quem cometeu homicídio estava muito provavelmente possuído pela cólera ou pela raiva; os que condenam à morte fazem-no a sangue frio, no pleno uso das suas faculdades mentais e racionais.

Desde os primórdios da humanidade, todas as culturas e civilizações deste planeta foram, e em certa medida ainda são, sexistas patriarcais ou, como dizemos popularmente, machistas e chauvinistas. Além da Eva, na tradição judaica, e Pandora, na tradição grega, todas as culturas culpabilizam a mulher pelo aparecimento do mal no mundo, ela é o bode expiatório.

Se na Europa e no mundo ocidental em geral, América do Norte e de alguma forma América do Sul, Rússia, Austrália e Nova Zelândia, a mulher é mais respeitada é porque algo da mentalidade de Jesus, e do espirito do Cristianismo, influenciou a cultura.

Em grande parte da Africa Negra, a mulher é a única que verdadeiramente trabalha, na agricultura por ela inventada e em casa; os homens dedicam-se à guerra, quando a há, à caça, à pesca e ao governo da tribo; eu vi mulheres carregadas com um peso na cabeça, outro em cada mão, um bebé na barriga e outro nas costas, a viajarem por quilómetros, quando o marido ia de mãos a abanar. Em muitos países ainda hoje se considera normal raptar uma moça para casar; a circuncisão feminina priva a mulher de qualquer prazer no acto sexual.

Na Asia, dos tempos modernos, a mulher é igualmente objecto de vexames nos dias de hoje. A prostituição infantil está muito divulgada: tomemos como exemplo o Japão, país tão evoluído, é o único que não aceita as leis da ONU no que respeita à pornografia infantil. No Japão e na China há restaurantes onde a comida é servida no corpo nu de uma adolescente. Isto é impensável no mundo ocidental, nem mesmo nos tempos da Idade Media. Na India, e em outros países asiáticos, reina a impunidade no que respeita a violação de mulheres e a desfiguração do rosto com ácido sulfúrico. O único país onde a mulher é um pouco mais respeitada é as Filipinas, precisamente por ser uma cultura que foi de alguma forma moldada pelo cristianismo durante 500 anos, desde a colonização espanhola.

Uma leitura, por mais apressada que seja, dos evangelhos não deixa de surpreender o leitor mais desatento e imparcial pelo atitude que Jesus tem para com as mulheres; trata-as de igual para igual, defende-as e admite-as no seu grupo de discípulos coisa nunca vista. Jesus foi sem dúvida o maior defensor da mulher de todos os tempos.
Pe. Jorge Amaro



1 de maio de 2014

As visitas de Maria

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Por aqueles dias, Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se à pressa para a montanha, a uma cidade da Judeia. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Lucas 1, 39-40

Capelinha das (des)aparições
Aqui há tempos participei em Fátima num encontro de sacerdotes e religiosos que culminou numa missa na Capelinha das Aparições. Fiquei chocado pelo facto de o presidente dessa celebração, não ter feito menção à importância do lugar onde estávamos a celebrar a Eucaristia; não ter mencionado, nem uma só vez, Nossa Senhora de Fátima nem ter feito grande menção a Maria em geral.

Ao comunicar o sucedido, a outro colega, foi-me dito: “sabes, eu também não acredito muito nessas coisas de aparições”. Devoto, como sempre fui de Nossa Senhora, e crente nas suas aparições veio-me logo à mente a acusação feita ao Papa Paulo VI, de ter imposto Fátima à Igreja. Naquele tempo o Papa defendeu-se dizendo que não foi ele que impôs Fátima à Igreja, foi Fátima que se impôs a si mesma.

“A todos los tontos se les aparece la virgen”
Com este provérbio espanhol em mente, a Igreja é consciente de que muitas aparições não são genuínas; pelo que usa todo tipo de investigação científica, o que corresponde ao “advogado do diabo” na beatificação dos santos, para as desaprovar. A Igreja, só tira o chapéu e se inclina ante algo que é genuinamente sobrenatural.

“Contra factos não há argumentos”
Um investigador científico, desapaixonado e imparcial, aplicando todos os métodos e instrumentos de investigação científica moderna a Guadalupe, Lourdes e Fátima, as três grandes aparições que a Igreja propõe aos seus fiéis, não pode não ficar estupefacto ante a auréola, de mistério e sobrenaturalidade, que envolve os factos cuja explicação é irredutível à razão e à ciência.

Ante isto cabem duas opções livres mas sempre de fé: o deificar a ciência, crendo que no futuro ela há-de explicar o que hoje não pode; ou crer que, por trás destes factos, está Deus e neste caso que Maria visita realmente o seu povo.

Daqui até ao fim do mundo o céu já não pode dizer nada de novo
A razão pela qual escrevo estas linhas não é repropor as aparições de Maria, por virtude do mistério inexplicável que as rodeia, mas reflectir sobre as razões teológicas que as justificam.

É claro que nem Guadalupe, nem Lourdes, nem Fátima são dogmas de fé. O céu, em Jesus Cristo, Palavra Eterna de Deus feita carne, já disse tudo o que tinha a dizer, não faz sentido que volte a falar depois de Deus ter enviado o seu único filho; de facto Este quando regressar é para julgar os vivos e os mortos.

As visitas de Maria
Explicamos e justificamos que Maria é mediadora e nossa intercessora no Céu com o episódio das bodas de Cana (João 2, 1-11), no qual ela apresenta as necessidades dos convidados ao seu filho, ao mesmo tempo que os exorta a fazer tudo o que ele diz; e porque não explicar e justificar as visitas de Maria com o episodio da visita à sua prima Isabel? (Lucas 1, 39-45)

Maria, nas suas visitas, não traz um evangelho novo, uma mensagem nova mas, como o Espírito Santo de quem ela é Esposa, recorda partes esquecidas da mensagem (Cf. João 14, 26) do seu filho e reinterpreta-as no “aqui e agora” da historia dos homens. De facto um dos factores importantes da genuinidade destas mensagens é a sua concordância com o evangelho.

Maria continua a visitar aqueles de quem ela é mãe, em momentos fulcrais da Historia dos seus filhos, para ajudar a encarnar nesses momentos e lugares a Palavra eterna do seu filho.

Guadalupe – Apoio à evangelização
Como iam os indígenas em 1531 aceitar de bom grado a religião dos conquistadores, exploradores e massacradores espanhóis, se Maria não tivesse aparecido a um indígena. De facto os indígenas, até aquele tempo reticentes ao cristianismo, converteram-se em massa depois das aparições

Lourdes – O Céu confirmou
Parte importante da mensagem de Lourdes é a confirmação do Céu, no ano de 1858, do dogma da Imaculada Conceição, instituído pelo papa Pio IX quatro anos antes em 1854

Fátima – “Penitência e Oração” são a solução
Entre duas guerras mundiais, Maria propôs em Fátima, entre outras coisas, a “Penitência e a Oração” como meios para fazer frente, naquele tempo e ainda hoje, ao comunismo materialista e ateu, assim como ao capitalismo materialista e consumista e portanto não menos ateu.
Pe. Jorge Amaro, IMC



15 de abril de 2014

A Lição da Borboleta

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Um dia uma pequena abertura apareceu num casulo, um homem sentado observou a borboleta por várias horas, enquanto ela estava a tentar mover o corpo através do pequeno buraco. Depois de algum tempo parecia que ela tinha deixado de fazer qualquer progresso. Parecia que já tinha feito tudo o que podia e não tinha conseguido alargar o buraco. 

Então o homem decidiu ajudar a borboleta: agarrou numa tesoura e abriu o casulo. A borboleta pôde sair facilmente. O seu corpo estava murcho, era pequeno e tinha as asas enrugadas. O homem continuava a observá-la pois esperava que em qualquer momento, as asas se abrissem e esticassem para serem capazes de suportar o corpo, e que este se fizesse rijo. Nada disto aconteceu! Ao contrário, a borboleta passou o resto da sua vida rastejando com um corpo e asas murchas e encolhidas, e nunca foi capaz de voar.

Ajudar nem sempre ajuda
O homem, em sua gentileza e vontade de ajudar, não se apercebeu que o casulo apertado e o esforço necessário para a borboleta passar através da pequena abertura, era o estratagema que Deus tinha criado para que o fluido do corpo da borboleta fosse bombeado para as asas, capacitando-a assim para voar, depois de se ter libertado do casulo.

Há ajudas e ajudas… Todos devemos ser bons samaritanos mas não devemos substituir os outros; seria paternalismo. Podemos ajudar a resolver os problemas dos outros, mas resolve-los só eles os podem resolver. Podemos levar o boi à água mas só ele pode beber… forçar um adulto a fazer o bem é sempre mal… A ajuda positiva é dar uma cana e ensinar a pescar e não dar um peixe. Dar um peixe cria dependência e faz os ajudados preguiçosos.

A psicoterapia de hoje segue o princípio da não directividade, que é uma derivação da antiga maiêutica socrática; o psicoterapeuta não faz perguntas por curiosidade ou para conhecer o cliente, mas para ajudar o cliente a conhecer-se a si mesmo e a encontrar dentro de si a solução para os seus problemas, a motivação e a força de vontade para a mudança.

Bebés da África e bebés de Europa
No campo da educação, Freud descobriu que a maturidade humana acontece quando se abandona o princípio do prazer e se abraça o princípio da realidade; Ou como diria Cristo, “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-me” (Lucas 9, 23). As crianças de Africa fazem essa transição muito antes que as crianças da europa.

Aqui quando um bebé chora é logo atendido, por isso muitos bebés já nem choram, basta fazerem uma beicinha para obterem o que desejam, e isto que outra coisa é que uma ameaça, um ultimato? O bebé cria a crença que é suficiente chorar para que as coisas apareçam feitas, por artes de magia, instalando-se no Princípio do Prazer. Ao contrário, dos superprotegidos bebés europeus, os africanos choram e choram e não são atendidos, pelo que cedo se habituam à dura realidade; se sentem frio, fome sede, ou estão molhados aguentam, pelo que depressa acordam para um mundo sem Pai Natal e fada madrinha amadurecendo mais cedo.

Muitos pais que passaram dificuldades, quando eram crianças, dizem que não querem que os seus filhos passem por onde eles passaram; por consequência são paternalistas e alcatifam a vida aos seus filhos pensando que os estão a ajudar; esquecem-se que se hoje são o que são é precisamente porque passaram por essas mesmas dificuldades.

A cruz é contra a lei do mínimo esforço
Não tinha o Messias de sofrer essas coisas para entrar na sua glória? Explica Jesus aos discípulos de Emaús (Lucas24,26). Tudo o que é bom na vida tem um preço, ou custa dinheiro, ou custa trabalho, ou custa esforço, ou as três coisas ao mesmo tempo.

A lei do mínimo esforço tem motivado o avanço científico e técnico, em todas as vertentes materiais da vida humana, mas não se aplica às vertentes psíquicas, éticas e espirituais; nestes reinos continua a prevalecer a lei do máximo esforço para obter o maior proveito; “Tristeza bem ordenhada é nata de alegria”, dizem os pastores da Serra da Estrela. Não se celebra uma vitória sem um batalha e quanto mais dura for a batalha mais alegre será a celebração da vitória.

Não há ressurreição sem morte. Cristo não podia ter entrado na sua glória sem sair deste mundo, onde tinha encarnado; a saída não seria airosa porque a vida não foi airosa. Cristo pagou o preço da sua liberdade e não submissão frente ao poder político, económico e religioso; pagou o preço da sua ousadia, em se ter enfrentado e denunciado as injustiças do establishment social e religioso do seu tempo.

Os grandes desafios fazem os grandes homens
“A situação faz o ladrão”, diz o povo, é valido também em sentido positivo. São as situações, os grandes desafios, que fazem, do que é movido por altos ideias, um herói e um covarde, e oportunista, o que é movido por interesses egoístas e mesquinhos.

Foi a escravidão do povo de Deus no Egipto que criou Moisés; foi a cicuta que enalteceu Sócrates e o desenterrou do esquecimento da história; foi a guerra de Tróia que criou o mito de Aquiles; foi a segunda Guerra Mundial que criou Winston Churchill; foi a independência da India que criou Gandhi; foi o apartheid na Africa do Sul que criou Nelson Mandela. Não é o homem que faz a situação, é a situação que faz o homem.

Eu pedi forças e Deus deu-me dificuldades para me fazer forte
Eu pedi sabedoria e Deus deu-me problemas para resolver
Pedi prosperidade, e Deus deu-me inteligência e força para trabalhar.
Pedi coragem e Deus deu-me obstáculos para superar.
Eu pedi amor e Deus deu-me pessoas para amar
Eu pedi favores e Deus deu-me oportunidades.
Deus não me deu nada do que pedi,
mas também não me faltou com nada do que eu precisava...
Autor desconhecido

Vive a vida sem medo, enfrenta todos os obstáculos que aparecerem no teu caminho pois “dá Deus o frio consoante a roupa”; tem fé, Deus não permitirá que sejas testado para além das tuas forças pois “Não há males que por bem não venham”.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de abril de 2014

Beleza versus Simpatia

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Os de cima envelheceram bem como um bom vinho; os debaixo parecem ter avinagrado...

Todo aquele que escuta estas minhas palavras e as põe em prática é como o homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, engrossaram os rios, sopraram os ventos contra aquela casa; mas não caiu, porque estava fundada sobre a rocha.

Porém, todo aquele que escuta estas minhas palavras e não as põe em prática poderá comparar-se ao insensato que edificou a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, engrossaram os rios, sopraram os ventos contra aquela casa; ela desmoronou-se, e grande foi a sua ruína. Mateus 7, 24-27

“Mens sanna in corpore sano” é sabido que a saúde do corpo e a da alma vão de mãos dadas e se auto implicam. O mesmo não acontece entre a beleza física de uma pessoa e a sua beleza interior.

“A cara é o espelho da alma” - Na atracção que sentimos, por uma pessoa fisicamente bonita, parece estar implícita uma crença irracional de que essa pessoa também é simpática; que a sua bela aparência não é mais que o signo e símbolo de beleza interior, firmeza de caracter, maturidade, autodomínio, generosidade etc..

Há pessoas bonitas que são antipáticas - Na realidade, em muita gente que conheci, esta correspondência entre os dois tipos de beleza, não só não se verifica como até parece que se auto-exclui. Há quem capitaliza com a sua beleza física, usando-a como cartão de crédito, na crença de que com ela tudo na sociedade são portas abertas; a admiração e o amor de todos estão garantidos. Assim pensando, estes indivíduos não se aplicam nem se esforçam por desenvolver a beleza interior, pelo que frequentemente estas pessoas são snobes, antipáticas, e orgulhosas.
  • A beleza é inata, a simpatia, ou beleza da alma e do carácter, é adquirida pelo esforço “No pain no gain” diz-se em psicoterapia, se não dói, se não custa não há ganho. Tudo o que é verdadeiramente bom na vida custa, ou dinheiro ou esforço ou as duas coisas.
  • A beleza é um bem individual, só aproveita à pessoa que a possui. Não é relacional, pois leva a pessoa a colocar-se num pedestal e dos outros só requer admiração. A simpatia é um bem social; as pessoas simpáticas saem de si mesmas e estabelecem relações de igual para igual com os outros, criam paz, harmonia e felicidade.
  • “Quem vê caras não vê corações” - A beleza física só serve para atrair as pessoas; é a beleza interior que as fixa umas com as outras em relações duradoiras de amor ou amizade. 
  • A beleza não cresce com o tempo, ao contraio, degrada-se; os cremes e as cirurgias plásticas só detêm a degradação por algum tempo; a simpatia é susceptível de crescer com o tempo; com um pouco de auto-observação, autocritica, autodisciplina e força de vontade, a pessoa coloca-se numa trajectória de contínuo crescimento, rumo à perfeição.

Envelhecem bem os que adoptam o primado da simpatia sobre a beleza; a simpatia é o melhor cosmético para as pessoas bonitas, pois mantem a sua beleza qual quer que seja a sua idade; por outro lado, com o tempo, a simpatia acaba por melhorar o aspecto das pessoas menos bonitas.

Envelhecem mal os que adoptam o primado da beleza sobre a simpatia; com o tempo a antipatia, o mau caracter, a imaturidade psíquica e afectiva, a ira e o ressentimento, acabam por degradar a beleza física, sobre a qual a pessoa construiu a sua vida; e tal como a casa construída sobre a areia, foi grande a sua ruina.
Pe. Jorge Amaro, IMC


15 de março de 2014

Migrantes & Emigrantes por causa do Evangelho

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O Senhor disse a Abrão: «Deixa a tua terra, a tua família e a casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te indicar Génesis 12,1

Quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, há-de salvá-la. Marcos 8, 35

Num dos concelhos mais fustigados e desertificados pela Emigração, como é Ribeira de Pena do distrito de Vila Real, nós os Institutos Missionários Ad Gentes, fizemos uma Semana Missionária sob o lema Migrantes & Emigrantes por causa do evangelho. Desde os descobrimentos, o país que “deu novos mundos ao mundo” tem também contribuído para o seu povoamento. Há Portugueses em todos os países do mundo. Alguém dizia que os Portugueses têm um berço muito pequenino mas um cemitério muito grande.

 “Dilatar a fé e o império”
Quando começamos a ser destino de imigrantes de outros países, porque apesar de pobres pertencemos a um clube de ricos, a Comunidade Europeia, pensávamos que a sangria do nosso país tinha acabado, mas eis que nos deparamos com a crise financeira atual e somos impelidos, e até mesmo convidados pelos nossos governantes, novamente a emigrar.

Logo após ganhar a identidade geográfica a mesma de há mais de 900 anos, que ainda hoje possuímos, de costas para a Europa fizemo-nos ao mar. Para Camões, legítimo intérprete da alma do povo Português, a razão última que nos levava a aventurar e sair da nossa terra, mar adentro à procura de novas terras e novas gentes, foi sempre “Dilatar a fé e o império”.

De facto nas nossas caravelas, entre nobres e burgueses comerciantes, iam também missionários. Um dos grandes missionários de todos os tempos, São Francisco Xavier, viajou nas nossas caravelas rumo à Índia e depois até às portas da China. Somos portanto, desde sempre, um país de emigrantes e de missionários.

Migrantes por causa do Evangelho
Como muitos outros concelhos do interior, Ribeira de pena, é vítima da migração, do interior para o litoral, do campo para a cidade; aquele tipo de migração que fez nascer a expressão, “Portugal é Lisboa, o resto é paisagem”.

Usando a migração como metáfora da Nova Evangelização, o primeiro objectivo da semana missionária era fazer passar a ideia ou espevitar a consciência de que todo cristão é missionário ou seja migrante que sai fora de si pelo evangelho.

A semana iniciou com a cerimónia do envio presidida pelo bispo de Vila Real Dom Amândio, que enviou os missionários de tocha na mão, simbolizando a luz do evangelho, às diversas paróquias do concelho.

Para encerrar a semana o povo, de cada uma das paroquias e aldeias do concelho, reuniu num ponto diferente, nas aforas de Ribeira de Pena, e caminhou, rezando o Terço Missionário, até um ponto estratégico onde se encontraram todas as comunidades. A partir desse ponto todas as comunidades unidas, cerca de 300 pessoas, iniciaram uma Via-Sacra em direção à Igreja do Salvador onde, para rematar a semana missionária, foi realizada uma adoração e bênção do Santíssimo.

Ca – fé a que nos salva
Além da caminhada juvenil ao santuário de nossa Senhora da Guia, a visita aos doentes de todo o concelho, um momento alto, e diferente da semana, foi o encontro em vários cafés das várias comunidades. Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé”. Se as pessoas não vão à Igreja a Igreja vai às pessoas.

Os temas de diálogo divergiam: nos cafés mais rurais centravam-se mais na prática da religião; no café Black & White, frequentado mais por jovens, o diálogo centrou-se sobre temas mais fundamentais e filosóficos, a existência de Deus, o sentido da vida, o aborto, religião cristã versus religião muçulmana… A experiência foi positiva e é de repetir.

Emigrantes por causa do Evangelho
Para além da migração, do campo para a cidade, Ribeira de Pena foi também assolada com a emigração para o estrangeiro, sendo a França o destino mais escolhido. Hoje todo o concelho não tem mais de 6 mil habitantes. Isto não nos impediu de convidar o povo a participar na Missão sem fronteiras, a Missão Ad gentes, especialmente pela oração…

Usando a emigração como metáfora da Evangelização Ad Gentes, o segundo objectivo da semana missionária era renovar o apelo de Cristo “Ide e fazei discípulos de todas as nações” que é o lema da diocese de Vila Real para este ano.

Partir para o desconhecido é difícil tanto para emigrantes como para missionários, ambos sentem o medo e partem na esperança de que tudo irá correr bem; o emigrante parte para receber, o missionário parte para dar. Difícil é também deixar a própria terra, a família e os amigos, diferentes são as motivações, o emigrante é impelido pela necessidade, o missionário é impelido pela fé e pelo amor. Enquanto o emigrante vai ganhar a vida, o missionário vai dar a vida.

Oração da Semana Missionária
Senhor Jesus Cristo,
que disseste aos vossos apóstolos
“Ide e fazei discípulos”,
enviai sobre nós o vosso Espírito
e renovai em nossos corações
o vosso mandato missionário
para sermos mensageiros do evangelho
e profetas da esperança e do amor
e assim como Maria vossa mãe,
num sim dócil e obediente à vossa vontade,
pela palavra e pelo exemplo
façamos discípulos de todas as nações.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de março de 2014

Carnaval sem Quaresma

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Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-me. Lucas 9, 23

Toda a gente sabe que o Carnaval nasceu em função da Quaresma. Antigamente a Quaresma era um longo tempo, mais de quarenta dias de jejum, abstinências, penitencia e sacrifícios. Algo assim como um tempo de luto; propositadamente não havia festas nem celebrações de efusão e alegria; como podia ser um casamento; durante a Quaresma não se celebram casamentos.

Neste tempo os cristãos eram exortados a fazer exercícios de introspecção que levassem a uma maior auto consciência, ou seja, ser conhecedor da sua vida e responsável pelo comportamento do dia a dia numa atitude de autocrítica com vistas a uma metanóia ou seja mudança de mente e de vida, conversão.

Os dias de Carnaval, que antecediam a Quaresma de penitência e disciplina, eram todo o contrário da Quaresma. Se na Quaresma não se come carne, no Carnaval carne-vale. O dia de Carnaval, ou seja a terça-feira de Carnaval, precede quarta-feira de cinzas, o início da Quaresma. Na tradição italiana e francesa é chamado mardi grass, terça-feira gorda, por ser o dia em que se abusava da carne a modo de despedida deste alimento até ao dia de Páscoa.

Se a Quaresma é tempo de melancolia, dolência e introspeção, o Carnaval é tempo de alegria, extroversão e folia; se a Quaresma é tempo de disciplina, o Carnaval é tempo de indisciplina; no Carnaval tu vale; “È Carnaval, ninguém leva a mal”.

Quebrando um dia muitas das regras, jejuns e dietas, dizia um monge ao seu discípulo escandalizado e boquiaberto, um arco de flechas para funcionar bem não pode estar sempre tenso. O nosso povo diz sabiamente, “um dia não são dias”.

O mal do nosso tempo é que o Carnaval já não antecede a Quaresma. Voltamos ao “pão e circo” dos romanos como único modus vivendi. Há Carnaval sim, e cada vez mais refinado, mas não há Quaresma; o Carnavale ficou a Quaresma desapareceu até mesmo na Igreja na qual hoje se vive de uma forma “light” ou descafeinada.

O diabo a que foge da cruz
O mundo habitou-se ao tabaco sem nicotina, ao café sem cafeína, à coca-cola light sem calorias, à cerveja sem álcool; este paradigma de rosas sem espinhos facilmente extrapolou para outras realidades e áreas da vida individual e social, de modo que hoje temos também o Natal, do pai Natal consumista, sem nascimento de Jesus; a Páscoa, do coelhinho e da amêndoa, sem morte e ressurreição de Jesus; Halloween, (all hallows eve) ou seja véspera de todos os santos, sem festa de todos os santos.

Extrapolando ainda mais, temos sexo sem amor (one night stand), viver juntos sem compromisso, existindo a crença de que é possível viver sem inconvenientes, e incomodidades, sofrimento, desconforto, sacrifício, trabalho, esforço em definitiva sem cruz.

Num mundo onde se contraria a realidade e a verdade das coisas; onde se quer ao mesmo tempo ter o sol na eira e a chuva no prado, onde se quer comer o bolo e tê-lo, as palavras de Jesus, que nos convida a abraçar a cruz, soam contracultura, contra corrente.

Sabemos, pelos exorcismos, que o diabo foge da cruz; como o diabo somos nós quando fugimos da cruz porque esta faz parte da vida. Não é possível a vida sem sofrimento, sem sacrifício e sem esforço. Apesar de que a maturidade humana, como diz Freud, implica abandonar o princípio do prazer para abraçar o princípio da realidade, o mundo teima em assentar arraiais no princípio do prazer. Ao contrário do mundo nós, os cristãos, somos chamados a não “fugir com o rabo à seringa” e como dizem os espanhóis, “enfrentar el toro por los cuernos”. Abraçar a cruz e o sofrimento que a vida nos depara como meios para um bem maior e um futuro melhor.

Abraçar a cruz sem ser masoquista
A cruz é o deserto que os judeus atravessaram para chegar à terra prometida; e apesar da tentação em rejeitar tal cruz, inspirada pela fome, e voltar para às panelas cheias de carne da escravidão do Egipto, os judeus entenderam que a liberdade tinha um preço e eles dispuseram-se a paga-lo seguindo em frente abraçando a cruz.

Esta história tornou-se paradigmática para o abandono de todos os vícios e comportamentos repetitivos obsessivos e aditivos. O Egipto é a substancia ou comportamento ao qual estou adito e me priva da liberdade; a terra prometida é a plena liberdade e recuperação do controle da minha vida; no meio está o deserto ou seja o preço a pagar a purga, a purificação; a tentação de arrepiar caminho e voltar à adição é causada pelo síndrome de abstinência. Sem dor nem sacrifício não se deixa a droga ou o álcool, nem se começa uma dieta e se é fiel até ao fim.

Tudo o que há de bom na vida custa e tem um preço, ou dinheiro, ou esforço ou as duas coisas. A alegria da vitória não se sente sem o ardor e o sacrifício da batalha, e quanto mais difícil foi a batalha mais intensa é a alegria da vitória e a sua celebração. Mas não há alegria de vitória sem ardor da batalha. A cruz é sempre o meio para se chegar ao fim desejado. A cruz do estudante é obrigar-se a estudar em vez de ir de farra em farra; a cruz dos que querem emagrecer é a sua dieta; a cruz do atleta é a dieta rigorosa, a forma de vida e o treino no qual investe horas para ganhar segundos ao próprio recorde

O ginásio e a ginástica da cruz
Os cristãos não andam à procura da cruz, apenas a aceitam quando se a encontram no caminho. Neste sentido, a uma primeira vista, as práticas quaresmais do jejum, abstinência, e sacrifício, podem parecer artificiais e masoquistas, mas se pensarmos bem elas servem para fortalecer a nossa força de vontade, o espírito, a liberdade e a independência com relação às coisas do mundo. Da mesma forma que o que fazemos num ginásio, exercícios sem sentido, correr e nadar sem meta, têm como objectivo fortalecer o corpo e potenciar a saúde.
Pe. Jorge Amaro, IMC







1 de fevereiro de 2014

Oração da Missão Itinerante

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Senhora da Consolata,
Intercedei por mim
Para que o Espírito Santo
Em todo momento me inspire:
Onde ir,
A quem encontrar
E o que dizer…
Senhora da Guia,
Estrela da evangelização,
Dirigi os meus passos
Para que a todos anuncie Cristo
E a consolação do seu Evangelho
AMEN

O núcleo central desta oração não é de minha autoria, foi adaptado de uma oração em inglês, que me foi dada por uma senhora, Polaco-Canadiana, de Toronto que não tive o prazer de conhecer enquanto trabalhei, naquela cidade. Vim a conhece-la enquanto a guiava pela recente exposição Missionária, realizada em Fátima entre Maio e Outubro de 2012.

No final da visita guiada, à exposição, tive oportunidade de falar um pouco com esta senhora. da sua vida, do motivo que a trazia a Fátima e de como, pela oração, fez voltar os seus dois filhos à fé e a práticas cristãs. Deu-me, no final, uma pagela com a Nossa Senhora de Fátima no verso e uma oração no inverso. Para não desviar a minha atenção, naquele momento, da senhora coloquei no bolso sem ler.

Já em casa ao ler a oração, cujo núcleo central dizia: Dear Mother take me by your hand and tell me where to go, whom to see and what to say..., apercebi-me que a senhora tinha sido o meu arcanjo Gabriel. O meu encontro com ela tinha sido, para mim, o equivalente à Anunciação de Maria; a confirmação do Céu de que estou no bom caminho; que a Missão itinerante é o que Deus quer para mim aqui e agora.

Onde ir – Estando eles a celebrar o culto em honra do Senhor e a jejuar, disse-lhes o Espírito Santo: «Separai Barnabé e Saulo para o trabalho a que Eu os chamei.» (…) Enviados, pois, pelo Espírito Santo, Barnabé e Saulo desceram a Selêucia e ali meteram-se num barco, rumo à ilha de Chipre. (…) E agora, obedecendo ao Espírito, vou a Jerusalém, sem saber o que lá me espera.  Actos 13, 2, 4; 20, 22

A quem encontrar – O Espírito disse a Filipe: «Vai e acompanha aquele carro.» Filipe, acorrendo, ouviu o etíope a ler o profeta Isaías e perguntou-lhe: «Compreendes, verdadeiramente, o que estás a ler?» Actos 8,29-30.

Que dizer – Quando vos levarem para serdes entregues, não vos inquieteis com o que haveis de dizer; dizei o que vos for dado nessa hora, pois não sereis vós a falar, mas sim o Espírito Santo. Marcos 13,11

A Missão vem de Deus e é sempre propriedade de Deus, primeiro do Pai, depois do Filho e agora do Espirito Santo. A Igreja, dócil à voz do Espirito, é uma mera executora.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de janeiro de 2014

Praxe académica um "Bullying" permitido

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As árvores puseram-se a caminho para ungirem um rei para si próprias. Disseram, então, à oliveira: 'Reina sobre nós.' Disse-lhes a oliveira: 'Irei eu renunciar ao meu óleo, com que se honram os deuses e os homens, para me agitar por cima das árvores?' As árvores disseram, depois, à figueira: 'Vem tu, então, reinar sobre nós.' Disse-lhes a figueira: 'Irei eu renunciar à minha doçura e aos meus bons frutos, para me agitar sobre as árvores?' Disseram, então, as árvores à videira: 'Vem tu reinar sobre nós.' Disse-lhes a videira: 'Irei eu renunciar ao meu mosto, que alegra os deuses e os homens, para me agitar sobre as árvores?' Então, todas as árvores disseram ao espinheiro: 'Vem tu, reina tu sobre nós.' Disse o espinheiro às árvores: 'Se é de boa mente que me ungis rei sobre vós, vinde, abrigai-vos à minha sombra; mas, se não é assim, sairá do espinheiro um fogo que há-de devorar os cedros do Líbano!' Juízes 9, 8-15

O lado bom da praxe
A saída da escola secundaria e a entrada na Universidade é um marco na vida do jovem de hoje. As praxes, de alguma forma, são com um rito de passagem da adolescência para a juventude e idade adulta, da escola secundária para a Universidade. É também a celebração de uma vitória, o ter conseguido entrar numa faculdade, e o culminar de muitos anos de esforço para conseguir a média exigida. Muitos tentam mas nem todos o conseguem, por isso vestir o traje preto de estudante de universidade tem o seu garbo e é todo um distintivo de sucesso. 

As praxes ajudam a integração, criam uma identificação com a universidade, com o curso, com os colegas, cria laços de amizade e cria uma comunidade. A praxe pode transformar a massa informe, da multidão de alunos de uma universidade, na familiaridade de um lar académico ao que os alunos se tinham habituado na sua escola secundaria.

As praxes constam de jogos ou rituais ridículos e parvos que fazem rir o próprio, a comissão dos que praxam e a grande assistência: seguir uma pessoa como se fossemos a sua sombra; buscar coisas com a boca num pote cheio de farinha; fazer uma declaração de amor, matar uma formiga com gritos, cortar a relva com um corta-unhas etc…

Assim sendo, e se assim sempre fosse, as praxes seriam positivas pois funcionariam como “icebreakers”, dinâmicas de conhecimento, comunicação, afirmação, confiança, cooperação para intimidar os mais tímidos a sair da casca e integrar-se no grupo. Tudo isto envolto em clima de festa, riso, comédia e farra.

A institucionalização do “bullying”
Há uns anos a esta parte a prática da praxe, supostamente ainda cumprindo com a tradição e a razão para a qual foi criada, tem vindo a descambar. Em muitos casos já não é um divertimento inocente, mas uma brincadeira de mau gosto, um atentado contra a dignidade, decência e integridade moral e física dos jovens que a ela se submetem. Facilmente se recorre à humilhação, ao insulto, à violência, ao álcool e ao sexo. Tem havido estudantes traumatizados, física e psiquicamente, com mazelas para o resto da vida e até algumas mortes, pelo que já não podemos considera-las praxes mas crimes.

Uma caloira conta que foi insultada durante horas, coberta de excrementos e obrigada a ficar assim até ficarem secos; um caloiro foi suspenso pelos pés de cabeça para baixo no alto de uma ponte; outros foram obrigados a beber copos de bar em bar até cairem para o lado.

Ante esta perspectiva uma caloira, inteligentíssima com média de dezanove, no dia anterior a entrada na universidade teve um ataque de pânico ante o prospecto da praxe que a aguardava; tiveram que vir os pais da sua terra natal, para a acalmar, e teve que haver uma intercessão do namorado na comissão das praxes para serem lenientes com ela.

Uma actividade completamente desbocada, arbitraria e desbalizada, que não se limita a um espaço, nem a um tempo, nem se regula por umas normas, praticada pelos piores alunos da universidade sobre jovens vulneráveis por serem novos e quererem integrar-se, só pode dar problemas.

Há vários elementos que levaram a este desvio e que seria bom que o ministério da educação, reitores e professores tivessem em conta para que a praxe volte a ser o que era e deixe de ser o que se tornou: limite ilimitado

  • Já raramente são praticadas no campus, e durante o dia mas sim muitas vezes à noite e fora dele. Reitores e professores podem ver nisto uma vantagem mas a falta, de toda e qualquer, supervisão só pode levar ao abuso.
  • Já não é só no primeiro dia de aulas, mas estendem-se por toda a semana, por varias semanas, todos o ano e frequentemente todos os anos do curso tendo já acontecido até depois do curso.
  • A “peer pressure”, e o medo a ser ostracizado, é tal que os jovens caloiros estão dispostos a submeter-se a tudo com o objetivo de se integrarem bem; isto coloca-os num posição muito vulnerável, susceptíveis de serem abusados.
  • O secretismo e o silêncio que envolve estas práticas são de tipo mafioso, e onde há máfia há impunidade
  • Não se entende como um ritual de passagem para a idade adulta possa constar de uma submissão acrítica a uma autoridade tão frouxa como é o Dux.
  • Se a praxe é as boas vindas à universidade, teria lógica que praxasse o aluno mais brilhante mas a realidade é que é todo o contrário; quem praxa, o Dux é o mais imbecil, o que tem mais matriculas. O que se instalou existencialmente na universidade; o que quer ser sempre estudante como diz o fado; um Peterpan que não quer crescer para continuar a viver parasitariamente à custa do suor dos seus pais e dos impostos dos contribuintes. Assim se premeia o insucesso a preguiça e a irresponsabilidade. Um antigo dux da Lusófona disse em entrevista à TVI que era  sempre convidado a todos os actos públicos da universidade, a todas as festas e farras, chegava a ser mais conhecido e mais popular que o reitor.
  • A não existência de quaisquer regras ou normas faz depender estas práticas do critério e da arbitrariedade do Dux e demais membros da comissão que praxa. A falta de carácter e de maturidade psicológica pode levar estes senhores a projectar, sobre os caloiros cheios de esperança, o ressentimento do seu insucesso escolar e existencial em forma de vingança, endurecendo as praxes. “Se queres conhecer o vilão mete-lhe a vara na mão” O Dux, ou Duce como se chamava o ditador Mussolini, é a pessoa menos indicada para fazer praxes.
Pe. Jorge Amaro, IMC


1 de janeiro de 2014

A vida em três tempos e em três actos

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O homem de hoje é fortemente influenciado pela espiritualidade do “presentismo”, vinda do extremo oriente, e pela filosofia de vida do consumismo, que apela mais aos nossos instintos básicos e menos à nossa razão, buscando desligar os nossos actos no presente, das suas causas no passado e das suas consequências no futuro. O objectivo é levar o homem a viver no pseudo eterno presente de um nirvana consumista.

Quando, na última etapa da nossa vida,  vivermos no verdadeiro eterno presente, o Céu, então o passado e o futuro deixarão de ser importantes; mas até lá, e enquanto vivermos limitados pelas coordenadas do espaço e do tempo, o passado e o futuro são de capital importância.

A vida é como uma peça de teatro em três tempos e em três actos. Quem vive no passado é um morto-vivo, porque o passado já não está operativo, não se pode actuar nele, está fechado, passou; “Águas passadas não movem moinhos”.

Quem vive no presente desintegrado e sem referência ao passado é um vivo-morto, pois não possuindo memória histórica, é uma cana agitada pelo vento, e como não sabe de onde vem não sabe quem é, não tem identidade; quem vive no presente desintegrado e sem referência ao futuro, sem um sonho, sem um projecto, não sabe para onde vai, e “para quem não sabe para onde vai não há ventos favoráveis”.

Quem vive só no futuro, perde muitas oportunidades no presente e esquece-se que esse futuro, para ser possível, tem de ter um pé no presente, ou seja há coisas no presente que devem ser feitas para preparar o projecto a ser completado no futuro; se o futuro é o telhado da casa, o presente são os alicerces e as paredes. Um futuro sem presente é uma utopia, uma fantasia; é viver no limbo num eterno “stand by”.

A vida humana resulta de um vivência equilibrada e harmónica dos três tempos, entre os quais decorre. Vivemos no presente e só no presente; mas ao olhar para o passado descobrimos quem somos e o sentido da nossa vida; e ao projectar-nos no futuro encontramos a motivação do nosso viver. O presente é só uma peça de um puzzle que na sua totalidade inclui o passado e o futuro.

  • O passado é a razão, o presente a nossa acção, o futuro a nossa motivação.
  • O passado é a tradição, o presente a acção, o futuro a inovação.
  • O passado é o que fomos, o presente o que somos, o futuro o que seremos.
  • O passado é o ser, o presente o existir, o futuro o transcender.
  • O passado é Deus Pai que nos criou por amor, o presente Deus filho que nos salvou e salva dando-nos saúde aqui e agora; e o futuro é Deus Espírito Santo que nos anima, inspira e dá força no nosso caminhar.
  • O passado é a fé, o futuro a esperança, e o presente a caridade.
A fé identifica-nos com um passado
O património da humanidade não é constituído só pelos monumentos históricos, mas por tudo o que a raça humana é e fez ao longo dos 5 milhões de anos da sua existência neste planeta. Tudo isto é geneticamente incorporado no ADN, de cada criança que vem a este mundo, é algo assim como o inconsciente colectivo de Jung, é parte de nós e define-nos como tal. Tudo isso é passado.

“Libris ex libris fiunt”, quando quero criar algo novo, em qualquer campo do saber, tenho que pesquisar sobre o que já foi feito naquela matéria, para assim agregar o fruto do meu trabalho. Só Deus tem a capacidade de criar do nada.

A fé num Deus pessoal, criador de tudo e de todos, que se revelou pelos profetas e depois no Seu Filho, que nos enviou o Espírito Santo, já tem uma história. A minha aderência a esta fé leva-me a fazer parte desta história, e dá-me identidade, e sentido de pertença a um povo e uma comunidade.

O mesmo sucede a nível individual; sei o que sou e do que sou capaz ao olhar para trás, e ver o desempenho dos meus talentos e dos meus defeitos nas diversas circunstancias que a vida me deparou ao longo da minha história pessoal. É a aprovação desse passado que me dá o sentido de autoestima, que preciso para me relacionar adequadamente comigo mesmo, com Deus, com os outros e como o meu entorno.

Até Deus que vive na eternidade, fora do espaço e devir do tempo, para se apresentar aos homens, fez-se valer da sua convivência com eles no passado, apresentando-se a Moisés como sendo o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob…

A esperança projecta-nos no futuro
Obstinado o burro, como não queria andar, o moço atou uma cenoura, na ponta de um cordel, que pendurou num pau, depois montou no burro e colocou a cenoura dois palmos à frente do focinho do burro. Na esperança de trincar a cenoura o burro lá ia andando, não se dando conta que a cenoura também se deslocava.

A esperança é a fé com rodas; a fé dinâmica que nos projecta no futuro. Todos precisamos de uma “cenoura” para caminhar. O sonho é o motor da vida; não está no presente o que inspira o nosso presente.

Martin Luther king foi um daqueles que, projectado no futuro, hipotecou a sua vida na luta pela igualdade entre brancos e pretos; um sonho que ele sabia que não se realizaria na sua vida. No dia anterior ao seu assassinato, inspirando-se em Moisés que depois de 40 anos a caminhar pelo deserto viu a Terra Prometida, na qual não entrou, desde o alto do Monte Nebo disse: Estou grato a Deus porque me concedeu ver a Terra Prometida, posso não entrar nela convosco mas estou certo de que nós, como povo, um dia entraremos nela.

Só se vive com sentido no presente se este está impregnado de futuro. Viver um presente sem a presença do futuro é andar à deriva. E quando o presente é doloroso, é a esperança num futuro melhor que nos ajuda a suporta-lo.

A caridade preenche o nosso presente
Ao contrário do passado e do futuro, o presente está nas nossas mãos, nele e só nele somos livres para actuar. O presente é o aqui e agora da nossa vida que devem ser cheios de acção, de actos de caridade e amor. Para o cristão viver é amar e amar é servir, colocar-se ao serviço dos que mais necessitam.

Pondo em proporção o que a Madre Teresa de Calcutá fazia, e o muito que havia para fazer ante tanta pobreza e miséria, um jornalista disse um dia, “O que a Madre faz é como uma gota de água no oceano”; ao que ela respondeu com muita humildade, “sim mas se o não fizesse o oceano teria uma gota de água menos”. 

Deus não nos pede que revolucionemos o mundo, ou que façamos o melhor, só nos pede o nosso melhor. Na parábola dos talentos, o que conseguiu mais não é mais louvado que o que conseguiu menos; na parábola dos trabalhadores da vinha, os que trabalharam o dia inteiro não receberam mais do que os que trabalharam só uma hora; na parábola do semeador, os que produzem 100% não são mais exaltados que os que produzem 60% ou os que só produzem 30%.

Muito ou pouco, tudo o que o Senhor nos pede é que demos fruto. Que a nossa vida seja produtiva; que deixemos cá mais do que o que cá encontramos. Que sejamos parte da solução e não parte do problema; ou seja que o nosso viver e actuar seja um contributo para a solução dos problemas deste mundo e não um contributo para os agravar.

Três virtudes três Papas
Há quem queira ver uma encarnação das virtudes teologais na vida dos três últimos papas da Igreja. João Paulo II, o que transpôs o umbral do terceiro Milénio, é o papa da Esperança; Bento XVI, que escreveu uma encíclica sobre a fé, proclamou o ano da fé e toda a usa vida como teólogo se debateu pela razoabilidade da fé, é por consequência o papa da Fé; O Papa Francisco, pelo nome que escolheu pelas suas palavras e gestos, o papa da caridade.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de dezembro de 2013

O Embuçado

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(…) E nesse salão dourado / de ambiente nobre e sério / para ouvir cantar o fado / ia sempre um embuçado / personagem de mistério

Mas certa noite houve alguém / que lhe disse erguendo a fala: / -"Embuçado, nota bem, / que hoje não fique ninguém / embuçado nesta sala!"

E ante a admiração geral / descobriu-se o embuçado / era el-rei de Portugal, / houve beija-mão real / e depois cantou-se o fado. / João Ferreira Rosa, O Embuçado

A vida numa gaiola de ouro
A curiosa história, à qual alude este fado clássico, pode não ter nunca acontecido em Portugal, mas nada impede que possa ter acontecido, e voltar a acontecer, em qualquer tempo ou lugar. Isto porque coloca em evidência uma verdade incontornável; dizem que os poderosos em geral: reis, imperadores, presidentes ou papas, são as pessoas mais bem informadas, e de certa forma é verdade, mas também o contrário pode acontecer. A informação que lhes chega não é nem de primeira, nem de segunda, nem de terceira mão; frequentemente a notícia passou por várias pessoas e, como “quem conta um conto acrescenta um ponto”, já chega ao destinatário demasiado filtrada e/ou carregada de conotações e interpretações, que a colocam cada vez mais longe da verdade e da realidade; por vezes, a informação, pode mesmo não chegar ao destinatário porque foi retida por alguém, que segundo o seu critério, a achou irrelevante

Muitas vezes os círculos concêntricos de pessoas, que rodeiam um governante ou qualquer pessoa importante, são autênticas muralhas, que a impedem de ter uma visão clara e objectiva do mundo que a rodeia e dos problemas que é chamada a resolver. A título de anedota: alguém definia segredo pontifício como sendo aquilo que todos sabem, menos o papa. Frequentemente aqueles, considerados poderosos, vivem numa gaiola de ouro e têm menos liberdade que nós… Um dos que tradicionalmente vive em Gaiola de ouro, com liberdade de movimentos bastante reduzida, é a figura do Papa. Contrariando este facto e em linha com o Embuçado, a guarda suíça, encarregada da segurança do papa,  confirma que o papa Francisco" já se aventurou à noite, vestido como um padre normal, para se encontrar com os sem-abrigo de Roma."

Mediadores
Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por meio de quem fez o mundo. Este Filho, que é resplendor da sua glória e imagem fiel da sua substância. Hebreus 1, 1-3

Durante muito tempo, “isolado” no céu, também Deus tinha o seu círculo de intermediários e mensageiros, que toldavam as mensagens de Deus, ao seu povo, com a sua personalidade, preconceitos e ideias próprias, pelo que Deus se encontrava impossibilitado de comunicar-se plenamente com a humanidade. Com efeito,  “Traductor, tradictor” diz um proverbio latino; um tradutor ou intérprete é sempre um traidor, pois no acto da tradução deixa trespassar a sua idiossincrasia.

No Natal o invisível faz-se visível
A Bíblia diz-nos que Deus é espírito. O Espírito é imaterial e portanto é invisível e incomensurável aos nossos sentidos. Nós somos seres espácio-temporais, Deus vive na eternidade, um Reino completamente diferente do nosso. Não vemos as ondas da rádio, da TV e do telemóvel, e precisamos de dispositivos adequados para as captar; como Deus é espírito, só o nosso espírito está preparado para o captar.

Sendo de condição divina, (…) esvaziou-se a si mesmo, (…) tornando-se semelhante aos homens. Filipenses 2,6-7. Num determinado momento da história da humanidade, decidiu Deus despir-se da sua divindade e vestir-se, ou disfarçar-se, de ser humano. “Cansado” de mandar recados, decidiu, Ele mesmo, visitar e viver no meio de nós. Desde dentro da nossa natureza humana, totalmente assumida por Ele, mostrou-nos pela sua palavra, o seu comportamento e a sua acção como é, e deve viver, o homem.

Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. João 1,11. Jesus, Deus feito homem, nasceu em Belém numa manjedoura, cresceu e foi educado humildemente numa aldeia de periferia, Nazaré, foi aprendiz de carpinteiro e dotado de uma aparência física sem relevância. De acordo com a nossa expectativa natural, Deus deveria ter vindo em glória e cheio de poder, com milhares de anjos, flanqueando-o em ambos os lados. A voz dele deveria ter sido como um trovão. O Seu rosto deveria ter sido brilhante como o sol.

Eis porque foi difícil reconhecê-lo como Deus para as pessoas daquele tempo; eles não entendiam que Deus tinha que vir de forma humilde, para ser nosso amigo e nosso irmão, para nos falar de tu a tu, desde dentro da nossa natureza e condição humana. Como naturalmente o esperaríamos, um dia ele virá pela segunda vez, em plena glória como o rei dos reis, para julgar e fechar a história humana da qual Ele é Alfa e Omega.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de dezembro de 2013

Advento, Tempo de Esperança

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(…) O monte do templo do Senhor estará firme, será o mais alto de todos, e dominará sobre as colinas. Acorrerão a ele todas as gentes, virão muitos povos e dirão: «Vinde, subamos à montanha do Senhor, à casa do Deus de Jacob. Ele nos ensinará os seus caminhos, e nós andaremos pelas suas veredas; (…) dará as suas leis a muitos povos, os quais transformarão as suas espadas em relhas de arados, e as suas lanças, em foices. Uma nação não levantará a espada contra outra, e não se adestrarão mais para a guerra. Vinde, Casa de Jacob! Caminhemos à luz do Senhor.» Isaías 2,1-5

Para nós os cristãos o ano começa com o Advento. O optimismo e a esperança são os melhores companheiros de viagem, neste novo ano que começamos a percorrer meditando à volta do mistério de Cristo o único caminho, verdade e vida.

Inspirador, guru, mestre e guia, para este tempo, é o profeta Isaías consagrado "ex libris" do Advento. Ele nos faz sonhar com um mundo melhor, onde os instrumentos de guerra se transformam em instrumentos de paz; onde naturais inimigos, como o lobo e o cordeiro, se fazem amigos.

“Será o mais alto de todos” - É Deus a montanha mais alta na tua vida? O que é prioritário para ti? Amas a Deus com todo o teu coração, como todo o teu entendimento? Amas a Deus mais que tudo e todos: a família, os amigos o poder, a fama, a honra, a riqueza, o prazer? Se alguma destas realidades é prioritária na tua vida, vais estar sempre em conflito e rivalidade com os que também têm essa realidade como prioritária. Exemplo disto é a inveja que o rei Saul sentia ante a crescente fama de David.

Os que têm o poder, a riqueza, a fama, e o prazer, como principal objetivo na sua vida, não estão dispostos a partilhar nenhum destes bens pois vivem na crença de que nunca têm o suficiente. Os que dão cultos a estes bens isolam-se e vem os outros como potenciais inimigos e rivais. São muitos cães a um osso; o destituído de poder, fama e riqueza inveja quem o tem e tudo faz para o obter; o que tem poder fama e riqueza olha para os outros como ameaça constante.

Se em vez destes ídolos escolhes a primazia de Deus que é Pai e criador de tudo e de todos, descobres que os outros não são rivais, mas irmãos, com os quais tudo se pode partilhar. De facto, as coisas foram feitas para serem usadas, as pessoas para serem amadas. Vive ao contrário da ordem natural quem usa as pessoas e amam as coisas.

Quando todos amam a Deus sobre todas as coisas extingue-se a rivalidade e inimizade entre os homens pois há Deus suficiente para todos. Porque é que ninguém tem inveja de um santo? Porque todos o podem ser, a santidade está acessível a todos; a santidade de um não nega nem rivaliza com a santidade do outro.

“Acorrerão a ele todas as gentes” - Todas as tuas gentes correm para Jerusalém? Amas a Deus como todo o teu ser ou és uma pessoa dividida porque algumas instâncias da tua personalidade e carácter não se te submetem? És livre e senhor do teu nariz, ou dependes de pessoas, de hábitos, de substâncias que exercem poder e controle sobre ti?

“Subamos à montanha do Senhor” – A colina do Templo domina toda a cidade de Jerusalém. Ir a Jerusalém equivale hoje a ir à Igreja frequentar os sacramentos. Os sacramentos instituídos por Cristo, e a sua prática pelos fiéis, já provaram ao longo e largo de 2000 anos que são imprescindíveis para a vida cristã. Se deixaste de ir à Igreja onde vais agora? Ao futebol? Às grandes superfícies comerciais?

“Ele nos ensinará os seus caminhos” – Se já não lês nem escutas a bíblia, nem fazes comunidade com os outros cristãos, nem escutas os conselhos da Igreja, quem é o teu mestre ou guru? Onde encontras guia e ajuda para víveres com sentido a tua vida? Na TV que no seu horário mais nobre apresenta os programas mais ignóbeis? A fome do espirito é bem mais penosa que a fome do corpo.

“E nós andaremos pelas suas veredas” - Como podes andar nos seus caminhos se não os conheces? Se não tens nenhum contacto com Deus, nem com a comunidade cristã, nem com a Palavra de Deus como podes andar pelas suas veredas. “Quem de Deus se não lembra todo o bem lhe falta” diz o povo

“Transformarão as suas espadas em relhas de arados, e as suas lanças, em foices” – “homo homini lupus”, somos seres violentos por natureza, mas podemos transformar as nossas armas de guerra, espada e lanças, em armas de paz, arados e foices. Lester Pearson, primeiro ministro do Canada, dizia: “preparamos a guerra como gigantes precoces e a paz como pigmeus retardados”. De facto, parece que estamos mais motivados e somos mais criativos ao preparar a guerra que a preparar a paz.

O microondas, o GPS, a energia atómica, são alguns dos muitos inventos e artefactos que nasceram para a guerra e que só muito depois se lhes encontrou uma aplicação pacífica. Se alguém nos pode ajudar a redireccionar a nossa personalidade básica esse é São Paulo, ao anunciar por todo o lado Cristo, e o seu Evangelho, com a mesma veemência e convicção com que outrora denunciava e perseguia os seguidores de Cristo e do seu Evangelho.
Pe. Jorge Amaro. IMC

16 de novembro de 2013

Missão até aos confins do Tempo

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Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, (…) E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos.» Mateus 28, 19-20

(…) Quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra? Lucas 18, 8b

O mandato missionário de Cristo dá-se quando Ele, antes de subir ao céu, deu por cumprida a Sua Missão como enviado do Pai. Assim começou a Missão “Ad Gentes”, ou a missão do espaço, pois Cristo mandou os seus discípulos por todo o mundo.

Mas como seres espácio-temporais que somos, a Missão tem também uma dimensão temporal e histórica, “Intra Gentes”, que consiste em passar o evangelho de geração em geração até aos confins dos tempos. Em suma: Missão Ad Gentes” até aos confins do Mundo, Missão “Intra Gentes” até aos confins dos Tempos.

Recapitulação do dito anteriormente
O testemunho de cristãos autênticos suscita a fé dos que o presenciam; os que ousam fazer a opção da fé chegarão, pela experiência de Deus, à plena convicção de que não acreditaram em vão; esta experiência, ou seja o encontro pessoal com Cristo e o estabelecimento de uma relação amorosa e íntima com Ele, leva à salvação, por outras palavras, à saúde da alma e do corpo, à conversão, à mudança de vida.

Por fim, este novo cristão começa ele mesmo a ser testemunho da salvação que Deus actuou na sua vida, podendo também ele suscitar a fé em quantos entram em contacto como ele. É neste sentido que nós, os missionários, sempre insistimos que todo cristão autentico ou é missionário, ou não é cristão. Começámos pelo testemunho, e regressamos ao testemunho como principio do processo que leva - à opção da fé - à experiência de Deus  - à mudança de vida, e  - à missão que não é outra coisa que entoar como Maria, o nosso Magnificat pessoal ou seja, dar testemunho das maravilhas que o Senhor operou em mim.

Missão “Intra Gentes”
Quando desde Jerusalém os discípulos começaram a pôr em prática o mandato que receberam do Senhor, foram surgindo convertidos por toda a parte. Esses novos cristãos eram convidados a agruparem-se em pequenas comunidades. São Paulo foi o fundador de muitas delas, a dos Coríntios, a de Éfeso, Tessalonica etc.

Enquanto São Paulo e os outros apóstolos continuavam a sua faina de “pescadores de homens”, nome que o próprio Senhor tinha dado aos seus apóstolos, alguém tinha que cuidar dessas pequenas comunidades recém constituídas. Nasceram assim os primeiros pastores cuidadores do rebanho das ovelhas do Senhor. Tito, Timóteo e Filémon, são alguns desses colaboradores a quem o Apostolo, confia as comunidades por ele constituídas. 

Portanto já nos tempos apostólicos como consequência lógica da missão “Ad Gentes” – a de levar o evangelho a todo o mundo – nasceu a missão “intra gentes” ou seja a que decorre no seio de um povo e que consta de fazer passar o evangelho de geração em geração até aos confins dos tempos. Podemos concluir então que a Missão “Ad Gentes” é a missão dos pescadores enquanto que a missão “Intra Gentes” é a missão dos pastores.

A missão “intra gentes”, como todo Estado Social, assenta no valor ético da solidariedade entre gerações: os que agora trabalham descontam uma percentagem do seu salário para que os seus pais, a geração anterior, possam usufruir de uma pensão de reforma. No Estado social a solidariedade é para com a geração anterior; na missão “Intra Gentes” é para com a geração posterior. Como toda educação também a cristã é aérea, quando os pais vivem o seu cristianismo autenticamente, suscitam a fé e a mesma vivência nos seus filhos.

Com tudo o que tem feito pelo progresso espiritual e material dos povos, a missão Ad Gentes foi por alguns chamada “a cara lavada da Igreja”. Assolada por escândalos e desistências a missão “Intra Gentes” parece ter uma cara menos apresentável. O evangelho parece estar a progredir na vanguarda e regredir na retaguarda.

No mundo ocidental, durante a idade antiga e média, passar o evangelho de geração em geração, foi tarefa relativamente fácil; desde o Renascimento o redil tem vindo a perder ovelhas; a tentativa do Vaticano II, em adaptar a Igreja ao mundo moderno, não inverteu esta tendência; hoje o problema é alarmante. Prova disto é a preocupação constante dos papas, desde Paulo VI que proclamou o primeiro ano da fé; João Paulo II, que lançou a nova Evangelização, e Bento XVI, que proclama pela segunda vez na Igreja um ano da fé.

“A fé ou se apega ou se apaga”
Não rogo só por eles, mas também por aqueles que hão-de crer em mim, por meio da sua palavra, João 17, 20. Na sua oração sacerdotal Cristo pensou em todos os que, de geração em geração iriam receber a Boa Nova. A nossa fé em Cristo é apostólica porque desde os apóstolos tem vindo a passar de geração em geração, como o testemunho na corrida de estafetas passa de atleta para atleta.

Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos. Podemos dar por descontado que Cristo estará sempre connosco mas estaremos nós sempre com ele?

Quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra? É um enigma e uma possibilidade; os pais, os catequistas, os professores, os pastores e educadores em geral não estão a conseguir passar a fé para as gerações vindouras, que são cada vez mais descrentes. Uma fé enfraquecida de geração em geração pode acabar por desaparecer da história da humanidade, sendo possível que quando Cristo vier pela segunda vez, para julgar os vivos e os mortos, não encontre fé na terra.

Quando o sinal de rádio ou TV chega fraco a um sítio é preciso erguer uma torre de antena para fortalecer o sinal. Como alguém disse, “A fé ou se apega ou se apaga”. A passagem de Cristo, de geração em geração, tem a equivalência da ressurreição de Cristo para essa geração e para as gerações seguintes; a não passagem equivale à sua morte tanto para a geração presente como para as futuras.

Cristo vai ressuscitando, de uma geração para a seguinte, ou morrendo de geração em geração. Se a tendência actual continua, um dia, a morte histórica de Cristo pode transformar-se na morte de Cristo na História. Para não seremos parte do problema, sejamos parte da solução; ou seja, nesta corrida de estafetas, ou corrente de transmissão da fé, não sejamos nós, o elo mais fraco. Estamos sempre em tempo de Missão pois ela só termina quando Cristo for tudo em todos. 1ª Coríntios 15,28
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de novembro de 2013

Missão até aos confins do Mundo

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Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura. Marcos 16, 15

Cristo não veio ao mundo para salvar só os que viveram no seu país, durante os 33 anos da sua vida terrestre. Era consciente de ser, na Sua pessoa, a salvação da humanidade, tanto para os que viviam durante a Sua existência no mundo, como para os que viveram antes Dele, assim como para os que viveriam depois Dele.

Tal como a pedra, que lançada no meio de um lago, provoca ondas em forma de círculos concêntricos, que desde o centro se vão alargando em direcção à periferia até aos confins do lago, assim Cristo surgindo no meio da história da humanidade, estende a sua acção salvífica até aos confins da Terra e aos confins do tempo.

A Igreja é Cristo aqui e agora
Como somos seres espácio-temporais, ou seja, ocupamos um espaço durante um tempo, Cristo fundou a Igreja para que continuasse a sua Missão em todo o tempo e em todo o lugar. A Igreja, como corpo místico de Cristo, representa Cristo em todos os “aquis” e “agoras” da história da humanidade. 

Todo cristão é missionário, como toda a semente tem a vocação de ser fruto, como todo homem a vocação de ser pai, e toda a mulher de ser mãe. Um copo só prova que está cheio quando derrama algum do líquido que contém; “A boca fala da abundancia do coração”, um cristão por inteiro não pode não anunciar por obras e por palavras o que o anima. A vizinha que se sentiu curada por este chá, ou aquela mezinha, não pára de exortar as suas companheiras para que experimentem também elas.

Tudo na vida, incluindo a vida em si mesma, é um dom. Os dons, só se têm quando se dão e perdem-se quando não se partilham e exercitam. Como o dom de cantar, o dom de pintar, de escrever, jogar futebol aumentam quando exercitados e partilhados, assim o dom da fé. Aquele que não exercita os seus dons, como sugere a parábola dos talentos, perde o pouco que tem.

Pela Missão “Ad Gentes” a Igreja está chamada a sair de si mesma, a deixar a zona de conforto de passivamente pastorear as 99 e partir, como pescador ou caçador, em busca da ovelha perdida, enfrentando os perigos e os riscos de ir como cordeiro para um mundo de lobos.

Motivam e inspiram os missionários, de todos os tempos, o zelo do grande apóstolo Paulo que tinha como objectivo levar o evangelho até aos confins do mundo do seu tempo, a Espanha, e o zelo de São Francisco Xavier, que levou o evangelho até ao fim das suas forças às portas da China, onde faleceu.

Ásia, nova fronteira da Missão
Passaram dois mil anos depois de Cristo nos ter enviado pelo mundo inteiro, a anunciar o evangelho a toda a criatura; e se bem que evangelizamos a Africa e a América, a maior parte das pessoas da Ásia, o continente mais extenso deste planeta, ainda não foi exposta à luz de Cristo. Estamos longe de poder dizer missão cumprida, pelo que, mãos à obra, não podemos cruzar os braços.

Fiz-me judeu com os judeus, para ganhar os judeus; (…) com os que estão sujeitos à Lei, comportei-me como se estivesse sujeito à Lei (…) com os que vivem sem a Lei, fiz-me como um sem Lei (…) para ganhar os que vivem sem a Lei. (…) Fiz-me tudo para todos, para salvar alguns a qualquer custo. E tudo faço por causa do Evangelho. 1.ª Coríntios 9, 20-23

Na Ásia, especialmente no Japão e na China, mas também na Índia a Igreja não soube imitar o grande apostolo Paulo, que conseguiu purgar o Cristianismo do judaísmo fazendo-o mais credível para os gentios do seu tempo.

O Jesuíta Mateo Ricci foi um verdadeiro seguidor de São Paulo no seu esforço de purgar o Evangelho da cultura ocidental para o versar na cultura chinesa. Mas como outrora, no tempo de São Paulo, os fundamentalistas da comunidade de Jerusalém tentaram obstaculizar o seu esforço de inculturação do evangelho na cultura greco-romana, mas não foram bem-sucedidos, os de Roma no tempo de Mateo Ricci fizeram o mesmo e por desgraça, foram bem-sucedidos.

Eis aqui o nosso calcanhar de Aquiles. Foi fácil a Missão na América, porque ante uma cultura primitiva, um pouco pela espada, outro pouco pela cruz, o evangelho foi mais imposto que proposto. Na Africa, a Missão triunfou porque ia de mãos dadas com o progresso material: escolas, clínicas, luta contra a fome etc… nos tempos da fome na Etiópia, a Igreja Ortodoxa Copta chegou a acusar-nos de comprarmos prosélitos com farinha.

Na Ásia embatemos contra uma cultura diferente, em nada inferior à nossa, e não tivemos nem a valentia de São Paulo, para inculturar o cristianismo no mundo pagão do seu tempo, nem a sabedoria dos padres da Igreja, para inculturar o cristianismo na cultura superior greco-romana que reinava na Europa do tempo.

Ainda estamos a tempo de fazer da Igreja mais universal, quanto à diversidade de culturas, e não esperar que o mundo se vá ocidentalizando cada vez mais.

Como dizia o maior teólogo do século passado, Karl Rahner, Deus na sua infinita misericórdia salvará todos aqueles que, sem culpa própria, não tiveram a oportunidade de conhecer a Cristo e o seu evangelho; mas salvar-nos-emos nós, que tínhamos o dever de lho anunciar?
Pe. Jorge Amaro, IMC


15 de outubro de 2013

O "Bypass" da Fé

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Avô nosso que estais nos Céus, santificado seja o vosso nome…

Há pequenas comunidades cristãs que o missionário só pode visitar de tempos a tempos. Numa dessas visitas, um sacerdote missionário encontrou um catequista que ensinava às crianças uma versão insólita do Pai Nosso. Deus não era invocado como Pai mas sim como Avô.

Aquele catequista estava simplesmente a fazer o que todo o bom catequista deve fazer; partir da realidade existencial de cada pessoa para lhe poder anunciar a Palavra de Deus, de uma forma que a entenda e se adeqúe à sua realidade. O conceito de Pai não era compreensível por crianças que estavam a ser criadas pelos seus avós, porque os seus pais tinham morrido vítimas da Sida. 

O problema da Sida é gravíssimo em Africa; dos 35 milhões de pessoas infectadas com esta doença, 25 vivem em Africa. “Al perro flaco todo son pulgas” diz um proverbio castelhano. Era o que faltava à Africa, já dizimada por tantas outras doenças devido ao nível de subdesenvolvimento em que ainda se encontra.

O testemunho que recebemos dos nossos pais não está a passar para os nossos filhos porque a fé, da presente geração de pais, parece estar a ser afectada pelo equivalente à doença da Sida. Os pais transmitem a vida aos seus filhos, mas não lhes transmitem a fé sem a qual a vida não tem sentido.

A fé é para a vida o que o sistema operativo é para um computador; sem ele nada no computador funciona pois é a base sobre a qual funcionam todos os programas. É triste existir sem saber porque se existe e para que se existe; estudar para ter uma profissão, para trabalhar, para comer e para divertir-se é muito pobre; a vida humana é mais que isto e não é por isto que somos radicalmente diferentes das outras espécies de seres vivos.

O natural seria, como noutro tempo, que os pais transmitissem a fé que receberam aos seus filhos; que depois de mamã e papá, Jesus fosse a terceira palavra que os miúdos aprendessem; e que o colo, fosse o primeiro banco da Igreja e a primeira catequese. Mas não é assim, os pais de hoje se acaso baptizam os seus filhos é por tradição ou superstição; se os mandam à catequese é para que façam a primeira comunhão, que também é uma tradição e o equivalente aos ritos de passagem noutras culturas.

Toda esta endoutrinação é vista como uma seca tanto por pais como por filhos; nem uns nem outros chegam a ter nunca uma relação pessoal com Cristo, pelo que uns e outros olham para a religião com ignorância e preconceito; desde o seu simplismo concluem que não serve para nada na vida do dia-a-dia.

Onde falham os pais podem ser bem-sucedidos os avós. Quando uma artéria se encontra obstruída, e a passagem normal do sangue é impedida, faz-se um bypass. A mesma coisa pode acontecer na passagem da fé de geração em geração; quando os progenitores abandonam a fé que receberam dos seus pais, não a transmitindo aos seus filhos, os avós podem assumir esta tarefa e chegar aos seus netos. Muitos já fazem precisamente isto nas horas que passam com os seus netos, pois sabem que a fé é tão vital para a criança como o sangue que lhe corre nas veias.

A criança tem só dois pais mas tem quatro avós; seria triste que nenhum dos quatro assumisse este compromisso do "bypass" da fé para os seus netos.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de outubro de 2013

Falhas na transmissão da Fé

1 comentário:
Obama, jurou o seu cargo sobre a Bíblia
A transmissão da fé cristã, de geração em geração desde os Apóstolos, tem vindo a enfraquecer; o rebanho de Cristo diminuiu drasticamente; hoje são mais as ovelhas perdidas que as que continuam no redil. O que estará a acontecer? Inúmeras podem ser as causas, enumero algumas na esperança de que os leitores, destas linhas, possam descobrir outras.

Transmite-se uma doutrina, não uma relação pessoal com Cristo – O cristianismo não é uma doutrina, uma ideologia, nem sequer uma filosofia de vida. O cristianismo é sobretudo, e acima de tudo, uma relação pessoal, íntima e amorosa com Cristo. São poucos os educadores da fé (Clérigos, pais, catequistas e professores) que a têm; e como ninguém dá o que não tem, o que transmitem estes educadores da fé, às gerações vindoiras, é uma doutrina e uns preceitos que em grande medida a cultura ocidental já assimilou ao longo dos séculos.

Por isso, sobram os cristãos que o são desde um ponto de vista sociológico, cultural ou de cosmovisão e faltam os cristãos que põem em prática a sua fé, esforçando-se por ser como Cristo no seu dia-a-dia; faltam os cristãos que celebram a sua fé em comunidade; faltam os cristãos éticos que são pessoas de bem e se debatem por um mundo melhor às vezes com o risco da própria vida.

Falta de pedagogia – O homem pós-moderno, sobretudo o jovem, fez de si próprio medida de todas as coisas. Não há verdades objectivas, universais e eternas; só é verdade, só tem valor e é normativo, o que ele descobre por si mesmo, não o que lhe vem imposto desde fora por quem quer que seja.

Ante esta realidade impõe-se não uma “nova evangelização”, como propunha João Paulo II, mas sim uma “evangelização nova”, como propunha o Cardial Martini. A solução não é evangelizar de novo, mas sim evangelizar de outra forma.

É certo que Cristo continua a ser o único caminho, verdade e vida, não havendo uma alternativa igualmente valida e viável para viver a vida humana em plenitude e com sentido. Só que agora, para que esta verdade seja operativa, o homem pós-moderno tem que a descobrir, ele mesmo, no interior do seu ser.

Algo de semelhante se passa na psicoterapia. As descobertas que o psicoterapeuta faz e declara ao cliente a modo de diagnóstico, não só não têm nenhum valor para o dito cliente como podem até ser contraproducentes. O que verdadeiramente tem valor terapêutico, e pode ser o princípio de uma transformação interior, é o que o cliente descobre de si mesmo e por si mesmo com a ajuda do psicoterapeuta.

É com base neste princípio que operam duas grandes correntes de psicoterapia, a não directiva de Carl Rogers e a Guestaltica de Fritz Perls, assim como as teorias de intervenção social de Paulo Freire.

O que fazem estes autores é adaptar a velha maiêutica de Sócrates; a arte de ajudar a dar à luz. A verdade ou já está dentro de nós ou temos capacidade para a descobrir. Jesus de Nazaré usou este mesmo método na sua forma de evangelizar. Dialogava com os seus interlocutores e por meio de parábolas que revelavam a verdade da vida do dia-a-dia que eles conheciam, interpelava-os, exortava-os e ajudava-os a descobrir verdades eternas que desconheciam:
  • «Simão, que te parece? De quem recebem os reis da terra impostos e contribuições? Dos seus filhos, ou dos estranhos?» Mateus, 17,25
  • Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?» Lucas 10, 36
  • «Um prestamista tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos denários o outro cinquenta. Não tendo eles com que pagar, perdoou aos dois. Qual deles o amará mais?» Lucas 7,41-42
  • O Reino dos Céus é semelhante a um grão de mostarda, fermento, tesouro escondido num campo, negociante de pérolas, uma rede lançada ao mar, um proprietário que saiu ao romper da manhã, 10 virgens…

  Faltam ícones ou de pontos de referência – Os Ícones são imagens ou pessoas que nos fazem recordar as verdades da nossa fé; quando olhamos para eles, e os contemplamos, somos magicamente transportados do presente imediato para o eterno de Deus; de uma forma genérica, ícone é tudo o que nos invoca algo para além de si mesmo; os ícones são assim ponto de referencia da nossa fé, recordatórios e contínuos convites a encarnar a nossa fé no aqui e agora da nossa historia pessoal. Enfim são são da terra e luz do mundo, sem eles andamos todos mais perdidos e não encontram ajuda os homens de pouca fé. Vejamos alguns exemplos:
  • Alguns sacerdotes, religiosas e religiosos, sem nenhum signo exterior que os identifique, optam por andar camuflados;
  • Crucifixos e imagens foram retirados de lugares públicos e das paredes dos nossos lares
  • Os célebres, políticos, cientistas, famosos das artes e do desporto declaram-se agnósticos, como se essa fosse agora a moda, e se por ventura são religiosos entendem que a fé pertence ao domínio privado;
  • Em vez de jurar o cargo sobre a constituição, muitos presidentes dos Estados Unidos juram-no sobre a bíblia, e não começam nem terminam um discurso sem invocar a Deus, os políticos europeus, quando religiosos, têm vergonha ou medo de se assumirem como cristãos, temem perder os votos dos agnósticos talvez.
  • O primeiro banco da Igreja era o colo dos pais e Jesus era a terceira palavra que um bebé aprendia depois de papa e mamã…
Ciência e a técnica como nova religião – Um crescente número de pessoas, substituíram a fé na omnipotência de Deus pela fé na pseudo omnipotência da ciência e da técnica. A ciência e a técnica são de facto importantes, pois solucionam inúmeros problemas e fazem a nossa vida mais confortável; a ciência e a técnica dizem-nos ou respondem-nos ao “como”, Mas nunca nos dirão o “porque” nem o “para que”.

O agnóstico dirá que a ninguém importa saber o “porque” e "para que"; É verdade, como dizem os ateus, que o homem é o momento em que a natureza tomou consciência de si mesma. Precisamente desde esse momento o ser humano busca sentido para o seu viver. Todo individuo no momento em que toma consciência de que existe, à volta dos 6 ou 7 anos de idade se pergunta de onde vem a onde vai e que sentido tem a vida; só os animais, o não fazem porque não têm consciência de que existem.

Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de setembro de 2013

Da vida à Missão

Sem comentários:
O que existia desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e as nossas mãos tocaram relativamente ao Verbo da Vida, (…) isso vos anunciamos. 1ª João 4, 1, 3b

A fé leva à experiência de Cristo; a experiência de Cristo ressuscitado leva a uma vida nova pois reconfigura, inspira, guia e dá sentido ao nosso viver. Esta maneira nova de viver em Cristo é já “per se” evangelizadora. Missão, portanto, não é fundamentalmente, pregar a Palavra de Deus e ser caritativo para com o próximo, especialmente os mais desfavorecidos, isso vem depois; missão é primordialmente dar testemunho da relação íntima, pessoal e amorosa que temos com Cristo, que nos trouxe saúde ao corpo e à alma e sentido ao nosso viver.

Encontrar a Cristo na nossa vida é como aquele que tendo encontrado uma pérola de grande valor, vende tudo quanto possui e compra a pérola. Mateus 13, 46. É como um tesouro escondido num campo, que um homem encontra. Volta a escondê-lo e, cheio de alegria, vai, vende tudo o que possui e compra o campo. Mateus 13, 44       

“Missionaria”, é aquela vizinha, que experimentou este ou aquele chá, esta ou aquela mezinha ou medicamento e que ao ver-se curada não se cansa de anunciar, aos quatros ventos, o milagre que o medicamento em questão operou nela. Aqueles que a ouvem, movidos pelo seu testemunho, acreditam e a sua fé compele-os a experimentar por si próprios; se essa experiencia se dá, com a consequente transformação da vida, o processo começa de novo.

A minha alma glorifica o Senhor. Meu espirito se alegra em Deus, meu Salvador. Porque pôs os olhos na humildade da sua serva. Doravante todas as gerações me proclamarão Bem-aventurada.
Porque o Todo-poderoso fez em mim maravilhas. Santo é o seu nome. Lucas 1,46-55

Ser missionário é, tal como Maria, entoar o Magnificat das maravilhas que o Senhor operou na nossa vida, de como a reprogramou, reorientou e lhe deu um objectivo. O Magnificat de Maria, como o de qualquer pessoa que experimentou a presença de Deus actuante na sua vida, é uma explosão de alegria; é um “non plus ultra”, o constatar que Deus nos enche as medidas; que “Nele vivemos, nos movemos, e existimos” Actos 17, 28

O missionário, portanto, não é primeiramente aquele que anuncia o evangelho, o que catequiza, o que fala “objectivamente” de Jesus, da sua história, vida e milagres; isso seria proselitismo não missão. O missionário não fala “objectivamente” de Cristo mas subjectivamente pois é desde a sua experiencia e vivência de Cristo que anuncia o “Kerigma”, ou seja, o evangelho.

Speak the gospel at all times and if it is necessary use words. Viver a vida como cristãos autênticos já é missão, por isso Jesus chamou aos apóstolos luz e sal do mundo; o sal e a luz não falam, operam no silêncio. As obras substituem as palavras, as palavras não substituem as obras e são ocas, e sem poder de convicção, se não são reforçadas pelas obras. Jesus falava com autoridade porque havia completa correspondência entre o que dizia, o que era e o que fazia.

A modo de conclusão, poderíamos dizer que o anuncio missionário é feito em três etapas: 
  1. Começa com o testemunho silencioso da nossa vida; o nosso “modus vivendi”; de como somos sal da terra e luz do mundo; a nossa forma de ser e estar no mundo, o comportamento do dia-a-dia, as obras e o nosso compromisso social sobretudo com os mais desfavorecidos;
  2. Continua na entoação do nosso magnificat, das maravilhas que o Senhor operou na nossa vida: Quando o Senhor trouxe do cativeiro os que voltaram a Sião, éramos como os que estão sonhando. Então a nossa boca se encheu de riso e a nossa língua de cânticos. Então se dizia entre as nações: Grandes coisas fez o Senhor por eles. Sim, grandes coisas fez o Senhor por nós, e por isso estamos alegres. Salmo 126,1-3
  3. E desemboca na evangelização, ou seja, o anúncio sistemático da vida e obra de Jesus e evangelho do Reino.
    O encontro com Jesus, à beira do poço de Jacob, transformou e salvou a vida da samaritana. (João 4, 5-42). Esta, mesmo sem ter sido enviada, sentiu o desejo irresistível de partilhar a sua experiencia de Cristo com os habitantes da sua aldeia. Estes, movidos pelo entusiasmo da Samaritana, acreditaram e vieram eles mesmos encontrar-se com Jesus.

    A Palavra sábia, que emana do intelecto e da erudição, pode ou não gerar vida; mas a palavra testemunho, que brota da experiência vivida, gera sempre vida.
    Pe. Jorge Amaro, IMC

    2 de setembro de 2013

    Da Experiência à Vida

    1 comentário:

    -    Ouvi dizer que te converteste a Cristo, pelo que deves saber muito sobre ele; em que país nasceu?
    -    Não sei
    -    Com que idade morreu?
    -    Também não sei
    -    Deves saber pelo menos quantos sermões pregou?
    -    Hum… pois também não sei
    -    Pareces saber muito pouco para um homem que se diz convertido a Cristo.
    -    É verdade e eu mesmo me envergonho de saber tão pouco. Mas o que sei é que eu antes era viciado no álcool; estava com dividas até ao pescoço; a minha família estava despedaçada; a minha mulher e filhos temiam a hora em que voltava a casa a altas horas; não havia dinheiro para cadernos nem móveis. Depois de conhecer a Cristo deixei de beber, não tenho dívidas, o nosso lar é um lar feliz.
    -    Hum… e acreditas mesmo que ele transformou a agua e vinho?
    -    Não sei, não estava lá, mas o que sei é que na minha casa transformou vinho em móveis, cadernos e a miséria em felicidade.

    Um cão ou um gato sem dono estão em perigo de vida deambulam e abeiram-se de pessoas pedindo que os salvem. Se alguém se comove deles e lhes dá uma caricia ou alimento eles seguem essa pessoa para onde quer que ela vá. A mesma coisa acontece entre humanos apesar dos milhões de anos de evolução que nos separam destes animais. O cego de Jericó, a Samaritana, Zaqueo, Maria Madalena, são exemplos de pessoas perdidas na vida, sem pão, sem saúde e sem amor; ao encontrarem Jesus encontraram a salvação e deixando para trás a antiga vida, seguiram-no fazendo-se seus discípulos.

    Sempre me impressionou o facto de a maior parte dos santos, da Igreja Católica, serem pessoas que possuíam tudo, o que o mundo pode oferecer e que nós tanto procuramos: juventude, riqueza, nobreza, beleza, fama, poder. Se tudo isso deixaram, ao encontrar-se com Cristo, não deve ser porque eram estúpidos mas sim porque encontraram em Cristo algo melhor e maior.

    Na vida aprende-se mais dos erros que dos acertos; no entanto, e uma vez que a vida é curta e não há tempo para os cometer todos e retirar deles as devidas lições, porque não aprender com os erros dos outros? Neste sentido porque não aceitar o testemunho de tantos santos, e deixarmos de buscar o que eles tiveram e julgaram como porcaria, para nos agarramos a Cristo, único caminho verdade e vida?

    Bartimeu – O encontro com Jesus curou-o da sua cegueira; abriu-lhe os olhos e começou a ver a vida de outra forma, de um salto deixou para trás a vida prévia (simbolizada na capa) e seguiu Jesus. Marcos 10, 46-52

    Samaritana – Encontrando em Jesus a verdadeira água, abandonou no poço o cântaro, símbolo de uma vida feita de vaivéns, em busca de uma água que nunca chega a saciar.

    Paulo de Tarso – O encontro com Cristo inverteu a marcha da sua vida; a mesma energia que usou para combater Cristo, serviu depois para difundir a boa nova do Mestre por todo o mundo antigo.

    Francisco de Assis – Jovem e filho único de uma rica família burguesa que podia pagar todos os seus caprichos; encontrou Cristo e abandonou a riqueza material para se abraçar à riqueza espiritual.

    Nuno Alvares Pereira – Jovem, nobre, famoso herói de Aljubarrota, possuía meio Portugal e merecia, mais que o Mestre de Avis, ter sido rei de Portugal; abandonou tudo por uma riqueza maior, Cristo.

    Francisco de Borgia - Nobre da grande família dos Borgia servia com dedicação o Emperador da Europa Carlos V casado com a belíssima Isabel de Portugal filha mais velha de Dom Manuel I. Ao contemplar a jovem e bela imperatriz no seu leito de morte disse: "Nunca más, nunca más, servir a señor que se me pueda morir".

    Beatriz da Silva – Os ciúmes da rainha fizeram encerrar num cofre a bela e jovem Beatriz; ali se encontrou com Cristo, ao conseguir soltar-se disse adeus à corte e seguiu o seu mestre.

    Em todas estas vidas, há um antes de conhecer Cristo e um depois de o conhecer. Quem diz que se encontrou com Cristo e mantem com ele uma relação intima e pessoal mas não mudou de vida, anda enganado e iludido.
    Pe. Jorge Amaro, IMC