1 de março de 2018

CNV: Jesus de Nazaré e a redenção pela Não-Violência

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Um dos que estavam com Jesus levou a mão à espada, desembainhou-a e feriu um servo do Sumo Sacerdote, cortando-lhe uma orelha. Jesus disse-lhe: «Mete a tua espada na bainha, pois todos quantos se servirem da espada morrerão à espada. Mateus 26,51-52

“Quem com ferro mata, com ferro morre” – É o provérbio ou expressão popular que tem provavelmente as suas raízes no texto citado acima. A violência não só resolve qualquer conflito ou problema, como cria outros problemas. Fala-se da espiral de violência, pois facilmente esta se alastra, envolvendo cada vez mais gente. Através da violência a única paz que se pode atingir é a paz do cemitério, da morte, da destruição.

Jesus de Nazaré desafiou o sistema de dominação e a sua ideia basilar do valor redentor da violência. E não permaneceu muito tempo com vida. A Igreja com a responsabilidade de proclamar os seus ensinamentos; não o fez em grande medida, porque não os entendeu verdadeiramente, ou porque para sobreviver, teve de adaptar-se à cultura e aliar-se ao poder dominante.

O Cristo que a comunidade passou para a História foi um Cristo aguado, diluído, menos radical, menos revolucionário. No entanto, providencialmente, este Jesus de Nazaré que não singrou na comunidade cristã nem fez História, está contido nos evangelhos, e é através deles que nos damos conta da dimensão revolucionária dos seus ensinamentos.

Jesus rejeitou o poder autocrático, (Mateus 20, 25-28), apelou à equidade económica, (Marcos 12, 30-31), rejeitou a violência, (Mateus 5, 38-41), quebrou costumes que tratavam as mulheres como inferiores, (Lucas 10, 38-42), quebrou as regras da pureza ritual por separar as pessoas umas das outras, (Marcos 1, 40-45), desafiou a visão patriarcal da família (Lucas 11, 27), e rejeitou a crença de que Deus requer sacrifícios de sangue, (Mateus 9, 9-13).

Poder como serviço e não como domínio
«Sabeis que os chefes das nações as governam como seus senhores, e que os grandes exercem sobre elas o seu poder. Não seja assim entre vós. Pelo contrário, quem entre vós quiser fazer-se grande, seja o vosso servo; e quem no meio de vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo. Também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgatar a multidão.» Mateus 20, 25-28

Quanto a vós, não vos deixeis tratar por “mestres”, pois um só é o vosso Mestre, e vós sois todos irmãos. E, na terra, a ninguém chameis “Pai”, porque um só é o vosso “Pai”': aquele que está no Céu. Nem permitais que vos tratem por 'doutores', porque um só é o vosso 'Doutor': Cristo. O maior de entre vós será o vosso servo. Quem se exaltar será humilhado e quem se humilhar será exaltado. Mateus, 23, 8-12

Jesus é anarquista não no sentido de defender que a sociedade não deva estar organizada e disciplinada, mas no sentido de afirmar que ninguém tem o direito de exercer poder sobre ninguém; o poder ou é serviço ou é malévolo.

Para Jesus todo o governo autocrático é naturalmente violento e opressivo. Jesus entende o poder como serviço e não como domínio sobre as pessoas. Jesus substitui o amor pelo poder, pelo poder do amor e do serviço aos outros. É este o caminho da grandeza e da popularidade que tanto buscam os poderosos.

Os que exercem o poder autocraticamente são temidos, e não amados; os líderes amados pelo povo são os que exercem o poder servindo; estes são os grandes na História da humanidade. Os grandes na nossa história pessoal são também aqueles que nos serviram e não aqueles que nos dominaram. Os nossos pais, professores, catequistas etc…

Igualdade e Equidade económica
Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças. O segundo é este: amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior que estes.» Marcos 12, 30-31

Num só mandamento Jesus une os dois valores onde assentam a vida humana. Em “amar a Deus sobre todas as coisas” significa não reconhecer nenhuma autoridade além de Deus, não se submeter a nada, nem a ninguém. Este é o garante da liberdade como valor onde assenta a dignidade da pessoa humana.

Por outro lado, como o ser humano não é uma ilha, a dimensão social assenta na igualdade; abaixo de Deus ninguém é mais que ninguém. A combinação destas duas dimensões vertical - do amor a Deus e liberdade, - e horizontal, no amor ao próximo como a nós mesmos, - forma a cruz símbolo do cristianismo.

Jesus alerta para o perigo das riquezas que fazem o homem insolidário e lhe barram a salvação (Marcos 10,25). Por isso, convida o jovem rico ao desprendimento e a repartir pelos pobres, para alcançar uma riqueza maior (Mateus 19,21). Louva Zaqueu pelo seu gesto de devolver e repartir o que lhe valeu a salvação (Lucas 19, 1-10). A partilha de bens materiais faz parte do critério de entada no Reino dos Céus (Mateus 25, 31-46).

Olho por olho dente por dente versus ama os teus inimigos
«Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, digo-vos: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está no Céu, Mateus 5, 43-45

Ouvistes o que foi ditoEu, porém, digo-vos – Várias vezes no Sermão da Montanha Jesus utiliza esta construção gramatical para, ao mesmo tempo, expor cada um dos enunciados da ideologia antiga ou sistema de domínio, rebatendo-os um a um com a sua doutrina.

Jesus veio provar que o sistema de domínio não é a única forma de viver em sociedade; O Reino de Deus, que Jesus trouxe com a sua vinda ao mundo, é na verdade a única alternativa ao sistema de domínio, a única de facto. O Reino de Deus iniciado por Jesus é uma “win win situation”, todos ganham, ninguém perde, não há oprimidos nem opressores, nem vencidos nem vencedores.

Para o sistema de domínio, o homem é lobo do homem por isso tem de se convencer a si e os seus congéneres de que os seus inimigos são pérfidos e de que a única forma de viver em paz é destruí-los. Para Jesus, não há inimigos. Mas se os há, estes não se vencem com ódio. O ódio fá-los mais fortes; é como pretender apagar o fogo com gasolina. Só o amor os pode derrotar verdadeiramente.

Para funcionar, a violência redentora requer que algumas pessoas sejam declaradas inimigas, para que a sua eliminação pela violência seja vista como um ato redentor. Ao exortar-nos a amar os nossos inimigos, Jesus deixa a violência redentora sem a sua justificação moral para operar. Neste contexto Rosenberg disse que quando compreendemos as necessidades que motivam o nosso e o comportamento dos outros, deixamos de ter inimigos.

“No estrañeis dulces amigos que tenga mi frente arrugada, yo vivo em paz con los hombres y en guerra con mis entrañas”. António Machado

Inteligentemente, o sistema de domínio buscou limitar a violência entre pessoas colocando-a no interior da consciência de cada um. O superego freudiano é de alguma forma o “Cavalo de Troia” do sistema de domínio dentro de nós. A coerção do sistema de domínio é assim exercida pela própria pessoa sobre si mesma. Como dizia o poeta popular espanhol

Para os que em vez de exercerem a violência sobre si mesmos por vias do superego, escolhem exercê-la sobre os outros, o mito da violência redentora tem a lei do Talião do código Hamurabi, o código de leis mais antigo do mundo, também nascido na Babilónia. Como bem observava Gandhi, olho por olho dente por dente vai-nos deixar a todos desdentados e zarolhos.

A crença é que esta lei restaura o equilíbrio rompido quando alguém comete um crime contra o seu próximo; porém na realidade, apenas consegue uma trégua durante a qual os adversários aproveitam para se armar. Esta trégua parece um tempo de paz, mas na realidade é um tipo de guerra a “Guerra fria”.

Assim sendo o mundo nunca tem paz, pois os tempos de guerra quente alternam-se com períodos de guerra fria. Durante a guerra fria carregam-se as armas, durante a guerra quente disparam-se. A única paz possível dentro do mito da violência redentora é a paz do cemitério.

O amor ao próximo como a ti mesmo, e o amor aos inimigos parecem ser as únicas ideias que superam o mito da violência redentora e estabelecem uma paz verdadeira e duradoira. Jesus veio para fazer deste mundo o Reino de Deus, um Reino de justiça e paz, uma “civilização do amor” como o Papa João Paulo II gostava de repetir. O Sermão da Montanha é a Magna Carta ou Constituição desse Reino. A CNV é o idioma deste Reino.

A não violência redentora
Ouvistes o que foi dito: Olho por olho e dente por dente. Eu, porém, digo-vos: Não oponhais resistência ao mau. Mas, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. Se alguém quiser litigar contigo para te tirar a túnica, dá-lhe também a capa. E se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, caminha com ele duas. Mateus 5, 38-41

O Código Hamurabi, que nasceu na Babilónia na mesma terra onde nasceu o mito da violência redentora, é o primeiro código de leis que a civilização humana conhece. Olho por olho e dente por dente, era uma lei desenhada para conter o escalar natural da violência, permitindo o uso controlado desta pela vingança, dentro do princípio da reciprocidade. Para Jesus esta não é a solução, pois opõe violência com violência.

Não oponhais resistência ao mau - Resistir violentamente, vingar-se ou vencer o mal por intermédio da violência, é deixar-se controlar pela violência e perpetuar o mito de que por ela se chega à salvação. Wink observa que este texto tem sido interpretado tradicionalmente como advogando a submissão passiva à opressão, pelo que, historicamente, o cristianismo rejeitou os ensinamentos de Jesus acerca da não violência como idealismo utópico, idealista e ingénuo.

A verdade, porém, é que o evangelho não ensina a não resistência ao mal; Jesus ensina a resistir, mas sem violência. Wink assegura-nos que se lermos as palavras de Jesus, no contexto histórico e cultural em que foram pronunciadas, fica claro que Jesus está advogando uma forma criativa de oposição não violenta à opressão, e não à submissão. Por outro lado, Wink entende que esta é uma má tradução do original grego que segundo ele, diz: “não reajais violentamente contra o mau”. Os exemplos a seguir são prova adicional disto mesmo.

Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra – A bofetada é dada com a mão direita pois a mão esquerda, segundo a lei dos judeus, só podia ser usada para tarefas impuras. Ora uma bofetada com a mão direita na face direita, só pode ser dada com as costas da mão.  Ainda hoje uma bofetada dada com as costas da mão não tem intenção de magoar fisicamente, mas sim de insultar humilhar e degradar.

Não era dada a uma pessoa de igual estatuto, mas sim a um inferior; era o tipo de bofetada que um mestre daria a um escravo, um marido à sua esposa, um pai a um filho, um romano a um judeu, para o recordar da sua posição de inferioridade e faze-lo regressar a ela. “Sapateiro à tua sovela”, dizemos em português.

Ao oferecera face esquerda, o agressor não pode voltar a agredir com as costas da mão, ou seja, não pode voltar a humilhar; para bater, teria que o fazer, desta vez, com a palma da mão coisa que só poderia acontecer entre pessoas do mesmo estatuto social. Se o agressor o fizesse, estaria a rebaixar-se à mesma condição do agredido.

Portanto, o ato de voltar a cara queria dizer naquele tempo “eu sou igual a ti em dignidade, não aceito ser humilhado”. Também não pode agredir com as costas da mão a face direita, pois esta está escondida, por isso mais que oferecer a esquerda ele está a ocultar a direita para não ser humilhado outra vez; está a rebelar-se e a deixar o mestre sem argumentos, ao não o poder agredir na esquerda sem se rebaixar e o reconhecer como igual.

Se alguém quiser litigar contigo para te tirar a túnica, dá-lhe também a capa – Para entender estas palavras é preciso estar ciente de que o sistema tributário de Roma levava os pobres agricultores a endividar-se, ao ponto de terem que pagar com as suas terras. Ficavam assim sem nenhum meio de sustento, completamente desfalcados e desprotegidos, ou seja, nus.

A parábola dos trabalhadores da vinha em Mateus 20, 1-16 refere-se aos que perderam as suas terras por terem ficado endividados se vêm agora na obrigação de todos os dias virem para a praça, na esperança de serem contratados. Ironicamente, o latifundiário contrata primeiro os que foram donos das terras pois esses conhecem bem o trabalho a fazer e só depois, precisando de mais mão de obra, volta à praça para contratar mais gente.

O endividado não tinha nenhuma hipótese de ganhar a causa pois o sistema favorecia o credor. Como vimos no caso de apresentar a outra face, e como veremos no caso de andar mais de uma milha, uma das regras da não violência é tomar a iniciativa; ao despojar-se da única coisa que lhe restava, a capa, e ficar nu, o endividado protesta e aponta o dedo ao sistema que assim o deixou.

A nudez era um tabu em Israel, mas a culpa não recaía sobre a pessoa que a exibia, e sim sobre os que a contemplavam e a tinham causado (Génesis 9, 20, 27). De facto, ainda hoje, em muitas situações, exibir nudez é uma forma de protesto. Despojar-se da capa e abandonar o tribunal nu equivale a dizer, “roubaste-me tudo, só me resta o meu corpo, que vais fazer agora?” As atenções e os olhares acusatórios voltam-se agora contra aquele que causou aquela nudez, o credor.

Como conclui Wink, o ensinamento de Jesus sobre a não-violência aponta para uma estratégia de confronto do sistema, desmascarando a sua crueldade essencial burlando-se das suas pretensões de justiça. Os que ouvem estes ensinamentos já não vão deixar-se tratar como se fossem esponjas espremidas pelos ricos. Aparentemente aceitam as regras do jogo dos ricos, exacerbando-as até ao absurdo e, expondo assim a sua crueldade. Ao despojar-se ante os seus companheiros, o que deixam a nu é precisamente o sistema e os seus credores.

Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, caminha com ele duas – Era um costume no tempo de Jesus quem quer que fosse encontrado na estrada ou na rua, podia ser obrigado a servir, como aconteceu ao Cireneu que foi obrigado a carregar a cruz de Cristo (Marcos 15, 21).

No Império Romano, os soldados de alta patente, tinham escravos, burros, cavalos ou carroças para carregar a sua bagagem; o mesmo não acontecia com os de baixa patente por isso podiam obrigar quem quer que fosse a carregar a sua bagagem durante uma milha. Carregar esta bagagem por mais de uma milha era ilegal e punido por lei.

Como nas duas instâncias anteriores, a questão aqui é como os oprimidos podem recuperar a iniciativa e afirmar assertivamente a sua dignidade humana, numa situação que de momento não pode ser alterada, ou seja o domínio dos romanos. Não podia deixar de se sentir interpelado e provocado o soldado que não só não precisou de coerção para obrigar o judeu como até excedeu o previsto. Ao privar o soldado da previsibilidade da resposta da vítima, este ficou desequilibrado e sem autoridade moral.

Agora é o soldado que tem de pedir a bagagem de volta para evitar de ser castigado pelos seus superiores. O humor desta cena pode-nos ter escapado, mas dificilmente escapou aos ouvintes de Jesus, que se devem ter deleitado com a perspetiva de ter dado uma lição de moral. Concluindo, Jesus é contra a passividade e a violência; o mal pode ser confrontado e vencido sem o uso da violência.

A terceira via
Ante um perigo ou uma ameaça, “Fight ou flight” – luta (revolta armada, rebelião violenta, vingança) ou fuga (submissão, passividade, rendição, retirada) são as duas reações possíveis de qualquer ser vivo vertebrado pois estão impressas como veremos no nosso primeiro cérebro, o cérebro reptílico.

Segundo Walter Wink, Jesus oferece uma terceira via. Este novo caminho marca uma mutação histórica no desenvolvimento humano: a revolta contra o princípio da seleção natural. Com Jesus uma nova via emerge, pela qual o mal pode ser combatido sem ser espelhado. Estas seriam as diretivas que se deduzem do Evangelho:
  • não fiques inativo e toma uma iniciativa moral;
  • encontra uma alternativa criativa à violência;
  • asserta a tua humanidade e dignidade como uma pessoa;
  • reage à violência com desdém e humor;
  • quebra o ciclo de humilhação;
  • sê insubmisso recusando qualquer posição de inferioridade;
  • expõe a injustiça do sistema;
  • assume dinamicamente uma posição de poder;
  • envergonha e verga o opressor ao arrependimento;
  • mantem-te firme;
  • obriga os poderes a tomar decisões para as quais não estão preparados;
  • reconhece o teu próprio poder;
  • esta disposto a sofrer, em vez de te vingares;
  • obriga o opressor a olhar para ti sob um novo prisma;
  • priva o opressor de uma situação onde uma demonstração de força seja eficaz;
  • está disposto a pagar o preço por quebrar leis injustas;
  • vence o medo ao sistema de dominação e às suas regras.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de fevereiro de 2018

CNV: O falacioso mito da Violência Redentora

2 comentários:
O que é um mito?
Os mitos, são narrativas que surgiram nos primórdios da civilização humana com o intuito de explicar e dar resposta às questões fundamentais que os homens desde sempre colocaram: a origem do mundo, do homem, de Deus, o sentido da vida, etc.

Os mitos não são históricos porque não se referem a coisas que realmente aconteceram; porém o facto de não o serem não significa que sejam falsos. São verdadeiros na medida que tentam explicar realidades num tempo em que a ciência não existia. Tomemos, por exemplo, o mito do deus do tempo chamado Cronos; Este dava à luz filhos e depois comia-os. É certo que não é histórico, mas é verdadeiro porque, de facto o tempo é algo que temos e depois consumimos; cada dia que nos levantamos pela manhã, damos à luz um dia e à noite já o temos consumido.

O sistema de domínio, ou estrutura de poder
Assim chama Walter Wink a um conjunto formado por relações económicas injustas, relações políticas opressivas, relações raciais tendenciosas, relações de género de tipo patriarcal; tudo isto dentro de uma sociedade que divide as pessoas em classes sociais, para que as relações entre estas sejam hierárquicas e não de igual para igual. Por fim, o uso da violência aparece para manter e  salvaguardar este “status quo”, que vigora desde o surgimento da Babilónia há 3000 anos AC.

As coisas não acontecem ao acaso, segundo Wink, um sistema de domínio tem que possuir necessariamente um mito de dominação: uma lenda ou narrativa que tenta explicar e justificar o porquê desta situação e como é que chegámos aqui.

“Might is right” - O mito chama-se “Violência redentora” que consagra a crença de que a violência salva e se justifica a si mesma, de que a guerra traz paz, “vis pacem para bellum”, como diziam os romanos, se queres a paz prepara-te para a guerra. Este mito defende que o poder é imprescindível para estabelecer a paz e a concórdia. Tal como recorremos a Deus quando tudo falha, assim recorremos à violência para solucionar os problemas individuais e sociais, pelo que esta parece funcionar como um deus. De facto, para Wink, esta, e não o Judaísmo, o cristianismo ou o islamismo, é a “religião” mais antiga e tem sido a mais predominante no mundo desde a Babilónia até aos dias de hoje.

O mito da violência redentora dota o sistema de domínio com uma narrativa que pode ser reproduzida de várias formas até ao infinito, convencendo todos os envolvidos nele, tanto os opressores, como os oprimidos, de que, sem este sistema de domínio, ou estrutura de poder, o mundo tal como o conhecemos colapsaria; portanto só a “violência legal”, ou seja a exercida pelo sistema de domínio, nos pode salvar deste destino.

O jogo dos polícias e dos ladrões ou do herói e do vilão
Vejamos paradigmaticamente o funcionamento deste mito: um indivíduo poderoso, um sistema ou grupo, causou dano ou angústia a um outro determinado indivíduo ou grupo. Dentro do grupo oprimido, surge um herói, ou grupo poderoso, que defronta violentamente, derrota e mata o opressor, terminando assim o seu reinado de terror.

A seguir, o protagonista vitorioso e herói cria um sistema no qual os libertados podem viver livres e em harmonia, durante algum tempo. Porém, como o poder corrompe, eventualmente, o anterior libertador justo, agora enamorado e agarrado ao poder, tornando-se ele mesmo num opressor, um vilão. Desta feita, o ciclo começa de novo, com o eventual surgimento de outro herói.

Com base neste mito que alguns historiadores afirmam que a história se repete. Tomemos como exemplo a Rússia opressora dos Czares; a revolução Bolchevique de 1917 libertou, por um curto período de tempo, o povo, do domínio absoluto dos Czares, para ficarem, talvez bem pior, debaixo do domínio de Stalin e dos que lhe seguiram na chamada “ditadura do proletariado”.

Desde muito cedo que as crianças são doutrinadas neste sistema de domínio por intermédio do culto e admiração pela figura do herói nos desenhos animados e depois em todos os filmes. A um herói invencível opõe-se um vilão aparentemente também invencível. As crianças, os jovens, ou nós mesmos, conscientemente identificamo-nos com o herói, neste caso temos um bom conceito de nós mesmos. Mas inconscientemente também nos identificamos com o vilão, no qual projetamos a nossa ira reprimida, a nossa rebeldia e luxúria e disfrutamos desta nossa maldade durante três quartos do filme em que o mau parece prevalecer.

Quando por fim, eventualmente, o bom prevalece, depois de muito esforço e sofrimento, é como se no nosso íntimo conseguíssemos reestabelecer a ordem sobre as nossas próprias maldades e maus instintos. Por isso gostamos tanto de ver filmes ou talvez necessitemos deles para manter a nossa agressividade debaixo de controlo ou a um nível manejável. Este tipo de sublimação acontece também com o desporto, sempre é preferível que os grupos ou os países rivais se defrontem no estádio ou nos jogos olímpicos que no campo de batalha.

Os filmes funcionam então como uma catarse libertadora, pois a punição do vilão no cinema corresponde a uma autopunição das nossas tendências más. A salvação encontra-se na identificação com o herói, ficando assim justificado e reforçado o uso da violência e auto violência e a perpetuação do sistema de domínio.

Tal como nas antigas arenas romanas onde os gladiadores lutavam entre si até à morte, onde os cristãos eram devorados pelas feras como, ainda hoje, nas arenas das touradas, a violência não é apenas um meio para obter a justiça e a paz; a nossa cultura tem feito dela um espetáculo agradável e gratificante.

A violência na educação
“La letra com la sangre entra”
Era o provérbio castelhano que exaltava a violência sobre as crianças como a melhor forma de aprendizagem. À mercê de professores sádicos e sem escrúpulos as crianças eram espancadas nas escolas e nos colégios além de o serem no seio da família. Sempre recordarei um colega de escola, que tinha perdido o pai; como a mãe já era idosa e não tinha força para lhe bater, e as pancadas da escola eram insuficientes, então sistematicamente ia ao posto da GNR para ser espancado todos os dias.

O mito babilónico da criação
O mito mais antigo da criação do universo e dos seres humanos reza que no princípio existiam o deus Apsu e a deusa Tiamat que tiveram vários filhos. Como os mais novos eram barulhentos quando brincavam e Apsu não conseguia nem dormir nem trabalhar, decidiu matá-los. Entretanto os deuses novos descobrem o plano e antecipam-se matando Apsu.

Tiamat prometeu vingança pela morte do marido. Cheios de medo os deuses rebeldes solicitam a ajuda do primo Marduk; este, capturou Tiamat e, matou-a despedaçando posteriormente o seu corpo e espalhando o seu sangue. Assim foi criado o Universo segundo o mito babilónico. Ou seja, a criação é um ato de violência e não de bondade como no mito bíblico da criação.

A ordem cósmica requer a supressão violenta do feminino e é espelhada na ordem social pela sujeição das mulheres aos homens e a dos homens ao seu governante. No princípio era o caos e a violência foi usada para estabelecer a ordem. Fica assim justificado o uso da violência pois sem ela não haveria ordem. O mito da violência redentora é a vitória da ordem sobre o caos por intermédio da violência.

Depois da criação do mundo, Marduk atirou para a prisão os deuses que estavam do lado de Tiamat; como estes protestavam, porque a comida na prisão não era boa, Marduk e o seu pai Ea (filho de Apsu), mataram um deles e, do seu sangue criaram os seres humanos para serem servos dos deuses.

Portanto, segundo o mito babilónico da criação, a violência é natural está incorporada nos nossos genes. Não foi a humanidade que criou a violência, como ato de desobediência a Deus, como no caso do mito bíblico; no mito babilónico a violência sempre esteve presente, fazendo parte da natureza cósmica e humana. Os seres humanos estão naturalmente incapacitados para a coexistência pacífica; a paz tem de ser imposta a partir de cima.

Os mais espertos e poderosos apresentam-se então ante os outros, como reis, Czares, imperadores, príncipes, sacerdotes e mestres, representantes da bondade e justiça de Deus com a missão de combater os maus e de os punir. A violência “legal” dos líderes da sociedade opõe-se à violência “natural” para subjugar os maus, dissuadir os outros das suas más tendências e facilitar a convivência social.

Desta feita, as mulheres são aconselhadas a não ter necessidades, pelo que devem sacrificar-se para bem da família; os homens abdicam dos seus interesses pessoais para servirem o rei, a ponto de lhe darem a vida em guerras para proteger e aumentar os seus domínios. As crianças são instruídas desde muito pequenas de que há certo e errado, maus e bons, e que, para serem boas devem usar o seu poder natural não exteriormente, mas interiormente contra si mesmas reprimindo as suas más tendências e obedecendo à autoridade incondicionalmente sem a questionar.

O mito bíblico da criação
Deus disse: «Faça-se a luz.» E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. (…) Deus disse: «Reúnam-se as águas que estão debaixo dos céus, num único lugar, a fim de aparecer a terra seca.» E assim aconteceu. Deus chamou terra à parte sólida, e mar, ao conjunto das águas. E Deus viu que isto era bom. (…) Deus, vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa. Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o sexto dia. Génesis 1, 3, 9, 10, 31

Bem diferente é o mito bíblico da criação descrito no livro do Génesis. Foi redigido enquanto o povo judeu vivia exilado no cativeiro da Babilónia. Por isso tem semelhanças com este, mas no fundamental opõe-se ao mito babilónico. Na bíblia Deus é bom e a criação é um ato de bondade de Deus. À medida que Deus vai criando cada uma das várias realidades dá-se conta de que o que cria é bom. Deus é bom e dá origem a uma criação boa. (Génesis 1, 4, 12, 18, 21, 25)

O mal e a violência não fazem parte da criação tal como Deus a concebeu. A criação é um jardim idílico onde os primeiros seres humanos vivem em harmonia entre si, com a Natureza e com Deus. O mal entra posteriormente, como resultado de um mau uso ou abuso da liberdade. O mundo e a realidade que Deus criou eram inicialmente bons, tendo sido posteriormente corrompidos pelo pecado do Homem.

Na bíblia, depois de Adão e Eva terem roubado a Deus a prerrogativa do bem e do mal e de se colocarem a si mesmos como medida de todas as coisas, a arbitrariedade entrou no mundo e, com ela a violência, que se vê exercida logo na segunda geração por Caim sobre o seu irmão Abel. A violência nunca aparece na bíblia como uma realidade naturalmente boa, mas sempre como artificialmente má; não se apresenta como um facto natural que tem de ser assumido e aceitado, mas sim como um problema a resolver.

Está claro que este não foi o mito que prevaleceu em todo o mundo, desde a Babilónia ou Mesopotâmia ao Egipto, à Grécia, à Índia, à China. O mito da Babilónia é o mais antigo e o mais atual, e não tem rival; são bem poucos os que o confrontam e põem em causa. É uma espécie de religião civil que é transversal a todas as culturas, civilizações, e religiões, e a matriz sobre a qual estão feitos todos os filmes e desenhos animados, no intuito de educar as gerações jovens sobre a necessidade da violência para restabelecer a ordem.

A religião como legitimação do poder
Que todos se submetam às autoridades públicas, pois não existe autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Deus. Por isso, quem resiste à autoridade opõe-se à ordem querida por Deus, e os que se opõem receberão a condenação. Romanos 13, 1-2

A crença de que a autoridade vem de Deus e que quem a exerce na terra fá-lo em nome Dele é ideologia do sistema de domínio. Desta crença a idolatrar a autoridade vai um passo curto que muitos reis e imperadores deram. Já no nosso tempo, o ditador Francisco Franco, após a guerra civil, e para justificar a usurpação do poder, declarou-se, e fez até cunhar moedas com a sua efígie e as palavras “Francisco Franco, Caudillo de Espanha pela graça de Deus”.

A religião, em vez de fazer valer o seu mito, de que o homem não é violento de per se, pois, foi criado por um ato de amor de Deus, deixou-se influenciar pelo mito babilónico tornando-se numa religião violenta, no caso da religião judaica.

Todo o sistema sacrificial está baseado na crença de que só com sangue se redime ou resgata sangue.  A única diferença entre os judeus e os povos circundantes, ou os longínquos Maias e os Astecas, é que os sacrifícios humanos foram substituídos por sacrifícios de animais, sendo, de alguma forma o cristianismo uma volta a ao sacrifício humano, mas desta vez de um só por todos, válido para todo o tempo e lugar.

O cristianismo, sucessor do judaísmo, como o texto de S. Paulo acima citado sugere, seguiu as pisadas do judaísmo, abençoando e adotando o mito da violência redentora. É certo que Jesus de Nazaré é um caso aparte, e precisamente por isso, não foi entendido pelos seus discípulos. Por isso, este lado foi deslavado ou aguado já na geração apostólica pelos seus mesmos seguidores.

Para Walter Wink, o cristianismo foi pervertido e feito capelão, ou tutelar religioso e garante moral, de tudo o que o Estado fazia. O Cesaropapismo é a ideologia que passou a governar o mundo ocidental desde que o cristianismo se tornou religião de Estado com o imperador romano Constantino, não obstante Jesus ser contra a união de poderes como concluímos pela sua advertência de dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. (Mateus 22,21)

As cruzadas e a Inquisição são os casos mais exponenciais onde os interesses da política se unem e coincidem como os interesses da religião, fundindo-se num único objetivo e estratégia, justificando-se mutuamente. Pelas cruzadas a Igreja, que as declarou, mobilizou exércitos para defender os lugares santos ocupados pelos muçulmanos, o conceito de guerra santa, o matar em nome de Deus é o “non plus ultra” na autojustificação da violência.

A Inquisição, instrumento da Igreja para purificar e obrigar os fiéis à verdadeira fé e doutrina, foi mais usada pelo Estado que pela própria Igreja; o caso mais flagrante foi a condenação de Joana d’ Arc. Tanto no mundo católico como no mundo protestante, a caça às bruxas era promovida pelo Estado, com o beneplácito da Igreja, que dessa forma se via livre de indivíduos que ameaçavam o sistema.

O triangulo de Karpman ou das "Bermudas"
Em suma, o mito da violência redentora é a história da vitória da ordem sobre o caos através da violência. Como neste mito a violência se apresenta como a única solução possível ante o caos, a barbárie e a anarquia; como a violência não é um problema, mas sim um facto, o nosso mundo nem é perfeito nem é aperfeiçoável. O mundo é o teatro de um eterno conflito no qual vigora uma versão mais ou menos branda da lei da selva, ou seja, da lei do mais forte.

Em última análise, a violência redentora não redime coisa nenhuma, nem a vítima, nem o vilão, muito menos resolve o problema ou conflito que a originou. A única coisa que faz é perpetuar-se a si mesma numa espécie de eterno círculo vicioso. Assim sendo temos uma versão do triângulo de Karpman (perseguidor – salvador – vítima, equivalente a vilão – vítima – herói) e desta espécie de triângulo das Bermudas, ninguém sai vivo.

O pensamento grego está formatado no mito do eterno retorno, a própria dialética hegeliana de tese-antítese-síntese que se transforma numa nova tese à qual segue uma nova antítese e assim por diante ad infinitum… tem este mito como paradigma; é ao fim e ao cabo, o mesmo mito que faz dizer a alguns que a História se repete. Círculo vicioso é também a visão do tempo na filosofia grega; o deus do tempo chamado Cronos dá à luz filhos e come-os.

Se não mudarmos de paradigma, se não destituirmos o mito babilónico e adotarmos o mito bíblico, não há esperança, o mundo está num beco sem saída pelo que a autodestruição da humanidade é o fim mais provável.

Contrário ao paradigma grego do eterno retorno, o pensamento judeu é bem diferente pois está enraizado na epopeia hebraica da saída da escravidão do Egipto - passagem pelo deserto de purificação - e entrada na Terra prometida da liberdade. O tempo não é cíclico, mas sim linear; nesta visão do tempo nunca regressamos ao ponto de partida, como um rato a correr numa roda, mas caminhamos para um futuro que nos possibilita um progresso ad eternum.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de janeiro de 2018

CNV - Cosmovisão e Cosmovisões

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CNV = Comunicação Não-Violenta
Quando éramos bebés podíamos ter aprendido uma ou duas línguas sem necessidade de aprender a gramática, ou seja, a razão pela qual é assim que se deve falar. Quando crescemos e somos adultos para aprender uma língua precisamos de aprender gramática, ou seja, de saber as regras da língua, e de alguma forma obedece-las para falar bem e adequadamente.

A comunicação não violenta ou compassiva é uma nova língua. Para aprende-la na idade adulta, precisamos de aprender as suas regras, a filosofia, a cosmovisão, ou forma de pensar que lhe está subjacente. Se vamos aprender uma língua não violenta, precisamos de saber de que forma a língua que atualmente falamos é uma língua violenta. De onde vem essa língua violenta, o que está na sua base?

O que quer que seja tem a ver com a forma como conceptualizamos o mundo e a sua história, a natureza humana, a realidade que nos rodeia e o próprio sentido da vida. A cosmovisão é a pedra angular, os alicerces onde assenta o nosso pensamento. É composta por crenças, mitos e ideias basilares que em grande medida, são inconscientes e por isso, não se discutem nem se colocam em causa.

Para transformar a nossa linguagem violenta na linguagem do Reino de Deus, temos de mudar a nossa maneira de pensar e para mudar a nossa maneira de pensar, temos de confrontar e eventualmente mudar a cosmovisão na qual esta assenta.

O teólogo Walter Wink, no seu livro “The powers that be”, diz que a cosmovisão é o esqueleto do nosso pensamento e dá exemplos de cosmovisões que vigoraram na civilização ocidental:

A cosmovisão antiga
Apresenta o mundo celestial em paralelo com o mundo terrestre; o que acontece no Céu também acontece na Terra e vice-versa; é o que se verifica nas mitologias grega e romana. Todas as realidades terrestres têm uma dimensão divina; e uma divindade que as representa no céu; assim, o deus da guerra é Marte, a deusa do amor é Vénus, o deus do mar é Neptuno, o chefe ou pai dos deuses é Júpiter, etc… No mundo antigo os gregos, os romanos, os egípcios, os babilónios, os indianos e os chineses, todos partilhavam esta forma de entender a realidade.

A cosmovisão espiritualista
Aparece no século II da era cristã e em direto confronto com a ideia de que a criação é basicamente boa. Impõe-se o dualismo grego, o espírito é bom a matéria é má; o mundo é a prisão do espírito o corpo é a prisão da alma. Considera o sexo e em geral as coisas do corpo como más; para vencer o mal, o corpo precisa de ser mortificado e negado para que o espiritual possa impor-se.  Este mundo é um “vale de lágrimas” e a morte é vista com uma libertação da alma dos grilhões do corpo que a faz impura.

A cosmovisão materialista
Em contraposição com a espiritualista, a cosmovisão materialista estabelece que o real é o que pode ser conhecido através dos nossos cinco sentidos, e para além disto tudo é superstição; o Céu não existe, nem Deus, nem a alma; os seres humanos não são mais que matéria, o universo não tem nenhum significado intrínseco pelo que carece de sentido e finalidade. A ética é inexistente, o bem e o mal, o certo e o errado são arbitrários e convencionais e resultam de um acordo social com vistas à sobrevivência e convivência pacífica entre os cidadãos.

Walter Wink diz que este é o ethos dominante no mundo pós-moderno; é a estrutura mental ou a matriz (mother board do computador) sobre a qual assentam e operam as universidades, a política, os meios de comunicação e a cultura em geral. Esta cosmovisão tornou-se tão invasiva da sociedade e pensamento moderno, que até se afirma científica ou baseada na ciência, quando a ciência, em especial a física, há muito se desmarcou da visão materialista do mundo para uma visão do “universo reencantado”.

As pessoas que vivem nesta cosmovisão julgam-se que acompanham a ciência a par e passo, mas ao contrário ficaram para trás. Ficaram agarrados e amarrados à física de Newton para a qual o mundo é como um relógio que funciona previsivelmente com uma precisão matemática.

Depois de Einstein, a física mecanicista de Newton deu lugar à física quântica; esta fundada no princípio da incerteza e casualidade de Heisenberg, substituiu a previsibilidade do mundo real por um cálculo de probabilidades.

Cosmovisão teológica
Aparece como reação espiritual à cosmovisão materialista. Reafirma a existência de um mundo sobrenatural e amuralha-o declarando que a sua existência é puramente matéria de fé; não se pode aceder a ele pelos sentidos pelo que a sua existência não pode ser provada, nem desmentida, pela ciência.

Nesta forma de entender a realidade, a ciência e a religião vivem de costas voltadas. Isto obriga os crentes com um alto grau de cultura a viver uma esquizofrenia; durante a semana acreditam que o homem é o resultado da evolução de outras espécies de animais, ao Domingo que foi criado diretamente e expressamente por Deus; evolucionistas durante a semana criacionistas ao fim de semana.

Cosmovisão integral
Esta cosmovisão é ao mesmo tempo uma combinação e superação das anteriores ao colocar o espírito no coração da matéria. Deus é transcendente, ou seja, é diferente, está destacado e a cima de tudo e de todos, mas, ao mesmo tempo é o coração de cada coisa e de cada pessoa. Esta combinação harmónica entre imanência e transcendência não se pode confundir-se com o panteísmo que afirma que tudo é Deus.

A cosmovisão integral tem a ver com o panenteísmo:  tudo está em Deus e Deus está em tudo. É de alguma forma a visão que São Francisco tinha das criaturas como sendo manifestações de Deus porque Deus é imanente a todas elas.

Wink afirma que esta é a cosmovisão da nova física quântica, da teologia da libertação, da teologia feminista, de muitas das religiões nativas dos Estado Unidos e nomeia como expoentes desta cosmovisão o psicólogo Karl Jung e o paleontólogo jesuíta Pierre Teilhard de Chardin.

A forma como estão apresentadas estas cosmovisões, dá a entender que houve um processo de evolução e que agora a maioria das pessoas neste planeta é guiada pela cosmovisão integral. Mas pode não ser assim. Todas elas são atuais e provavelmente pouca gente se guia na sua vida por uma só. Wink diz que todos possuímos pedaços de umas e de outras, consoante seja o assunto que nos ocupa.

Para Wink, entender as cosmovisões que inspiram, guiam e governam o nosso pensamento é importante para que o ser humano e as suas instituições se libertam dos poderes que as dominam.

“Beau sauvage” ou “Homo omini lupus”?
Homo homini lupus – Para o filósofo inglês Thomas Hobbes (1679) o Homem em estado natural, julga-se com direito a tudo, usando o seu poder de uma forma arbitrária para preservar a própria vida; como o seu interesse egoísta prevalece não pode haver segurança e paz pois vigora a lei do mais forte. Não sendo sociável por natureza, a coexistência social obriga o indivíduo a abdicar da sua vontade em favor de um líder ou assembleia que o representa, - o rei ou o Estado, - perdendo assim a sua liberdade e abdicando até da violência.

Beau Sauvage – O Homem em estado natural é bom, sadio e feliz; a criação da propriedade privada leva a diferenciação entre ricos e pobres, escravos e livres, predominando assim a lei do mais forte. O homem, que surge da desigualdade é corrompido pelo poder e esmagado pela violência. Propõe um contrato em que a vontade geral seja soberana: como todos perdem por igual, ninguém perde.

Qual destas teorias descreve melhor a verdadeira natureza humana? Como o ser humano vem de uma evolução de 5 milhões de anos de mamíferos e primatas seria bom que chegássemos primeiro a uma conclusão sobre os animais que nos precedem na história da evolução das espécies: estes animais são por natureza violentos ou não violentos? Não precisamos de observar muito o mundo animal para concluir que, por regra geral, os animais não são violentos gratuitamente ou seja por natureza; só se comportam violentamente quando as suas necessidades não são satisfeitas.

Como a vida só se alimenta de vida, no contexto biológico da cadeia alimentar, toda a forma de vida é alimento para outra forma de vida: a gazela come a erva, o leão come a gazela, o leão morre é comido pelas hienas e pelos abutres estes morrem e são comidos pelos vermes, que ao morrer fecundam a terra onde volta a crescer a erva. Um corpo morto chama-se cadáver; curiosamente esta palavra é composta pelas iniciais das palavras “carne-dada-aos vermes”: ca-dá-ver.

Se qualquer um dos animais acima mencionados tiver uma via alternativa de se alimentar, deixará imediatamente de caçar, ou seja, deixará de ser “violento”. Tomemos como exemplo os nossos animais de estimação, os cães e os gatos, que outrora eram caçadores implacáveis e hoje convivem em perfeita harmonia nos nossos lares.

Milhões de anos de evolução nos separam dos animais mais próximos, os primatas. Criado à imagem e semelhança de Deus Pai universal, o Homem não é lobo do Homem, mas sim irmão. O mundo criado por Deus tem recursos suficientes para que as necessidades de todos sejam satisfeitas sem recorrer à violência.

Isto leva-nos de volta a um dos postulados fundamentais da linguagem não violenta: tal como se verifica no resto dos seres vivos, a violência e os conflitos entre as pessoas acontecem quando as necessidades não são satisfeitas. A CNV é, neste sentido, uma técnica que leva a que as necessidades de uns e outros sejam satisfeitas, aplacando-se assim a violência e resolvendo qualquer conflito resultante das necessidades de alguns não serem satisfeitas.

A crença de que o homem é, por natureza, mau, egoísta e violento tem a sua origem na mitologia e serviu, ao longo dos séculos, para justificar a violência de uns sobre outros e até sobre si mesmo no sentimento de culpa e vergonha.

“Se vis pacem para bellum” – Se queres a paz, prepara-te para a guerra. Tem sido o lema desta cosmovisão do homem como ser individual e comunitário. Segundo este lema, entende-se que o homem é por natureza violento, a paz não pode ser conseguida por meios pacíficos, mas sim por meios violentos.

A sociedade educa o indivíduo a ser violento consigo mesmo e a reprimir a sua ira inata; àqueles que não o conseguem fazê-lo a sociedade exerce sobre eles o seu poder coercivo e punitivo. Desta forma, com base numa ideia falsa, a de que o ser humano é mau por natureza, se perpetuam as estruturas de poder e a violência.

A cosmovisão sobre a qual assenta a linguagem não violenta enquanto linguagem de um Mundo Novo, o Reino de Deus que Jesus veio trazer ao mundo, é a de que Deus só criou coisas boas. O autor do livro do Génesis apresenta-nos um Deus que se regozija com cada realidade criada dizendo: “E Deus viu que era bom” (Génesis 1, 4, 12, 18, 21, 25) … Ora se tudo é bom muito mais será o ser humano que foi criado à imagem e semelhança do próprio Deus criador de tudo. (Génesis 1, 26)

Os homens do futuro
Para além de Walter Wink e de outros teólogos, como Paul Tillich e Teilhard de Chardin, quem mais influenciou Rosenberg foi o seu professor Carl Rogers, o grande mestre da psicoterapia não diretiva centrada na pessoa.

Num artigo escrito no fim da sua vida Rogers descreveu como seria o gosto do homem de amanhã. As suas previsões foram acertadas e as suas ideias continuam a ser atuais e inspiradoras em relação à cosmovisão que deve guiar o nosso pensamento:
  • Abertos ao mundo interior e exterior, a novas formas de ver, de ser, a novas ideias e conceitos;
  • Desconfiados em relação à ciência e tecnologia que tem como finalidade controlar o mundo da Natureza e o mundo das pessoas;
  • Investigadores de novas formas de comunicação, cercania e intimidade.;
  • Detentores de uma consideração positiva e um olhar benévolo pelos outros quando prestam ajuda, fazem-no de uma forma gentil e cortês, não moralista e não julgadora;
  • Ecológicos, aliados às forças da natureza e não em guerra pela sua conquista;
  • Discordantes com as instituições altamente estruturadas, inflexíveis e burocráticas; entendem que as instituições existem para as pessoas e não ao contrário;
  • Desconfiados da autoridade externa, são pessoas moralmente autónomas, ou seja, confiam na sua própria experiência e consciência moral para fazer juízos de valor que podem ir contra leis que consideram injustas;
  • São pessoas espirituais, ou seja, buscam um sentido, um desígnio e uma razão de vida que sejam maiores que o indivíduo e a própria vida.
Pe. Jorge Amaro, IMC







1 de janeiro de 2018

CNV - A linguagem da paz

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Um dos logotipos da CNV
Eu vim para que tenham vida e a tenham abundantemente. João 10, 10

Ano Novo, vida nova” – Fazendo jus ao provérbio, vou escrever, este ano, sobre uma nova forma de viver que quero progressivamente adotar à medida que investigo e escrevo sobre ela. Não me custa admitir que esta é, provavelmente, a razão principal pela qual decidi escolher este tema para o blogue de 2018. 

Investigo e escrevo sobre este assunto, para me convencer a mim mesmo de que, até agora, vivi de uma forma errada, pelo que este ano será para mim o noviciado nesta outra forma alternativa de viver. Se, com estas letras, alguém mais chegar à mesma conclusão que eu, tanto melhor. Como dizia Mahatma Gandhi: “Se não encarnarmos, ou não nos tornarmos na mudança que queremos ver no mundo, nunca no mundo haverá mudança”. 

O tema chama-se CNV (Comunicação Não-Violenta) mais conhecido em inglês por NVC, (Non-Violent Communication) - Tomei conhecimento desta técnica num curso de Bíblia que fiz em Jerusalém, e rapidamente me dei conta do potencial que esta teoria tem para transformar a vida das pessoas, da sociedade e do mundo.

No entender do seu fundador, Marshall Rosenberg, CNV não é somente uma forma de comunicar, nem se refere apenas à não-violência. Mais que uma simples teoria ou técnica, CNV é toda uma nova filosofia de vida e uma nova língua, que tem como base uma nova cosmovisão ou forma de ver, pensar e sentir a vida e tudo o que a ela se refere.

Marshall Rosenberg, judeu norte-americano, formou-se em Psicologia Clínica e, ao iniciar a sua carreira de psicoterapeuta, rapidamente deu conta de que a Análise e a Psicanálise e o Diagnóstico da ira ou de outros problemas psicológicos que as pessoas lhe apresentavam não levavam à mudança que ele e as pessoas desejavam. Rosenberg percebeu que o problema era mais sistémico do que individual, e que a solução do mesmo deveria, também, ser sistémica.

A comunicação não-violenta pretende ser uma forma alternativa de comunicação, uma linguagem nova para enfrentar o problema da violência individual e social, e criar uma nova civilização, um mundo novo - O reino de Deus em termos cristãos. A linguagem que temos vindo a utilizar desde o começo da civilização humana é violenta, porque nós somos violentos, não por natureza, mas por educação. Somos violentos, porque nascemos, crescemos e somos educados numa sociedade cujas estruturas e instituições sociais assentam numa cosmovisão e numa cultura violentas.

O sucesso do uso de técnicas de CNV em psicoterapia catapultou Rosenberg para fazer workshops e, assim, atingir mais gente. Desde então, o fundador de CNV tem viajado por todo o mundo, ensinando e levando as pessoas a falar esta nova língua, sobretudo em zonas de conflito. O sucesso tem sido enorme. Todas as pessoas que entram em contacto com CNV dão-se conta de que têm vivido no erro, e sorriem esperançadamente ante a possibilidade de viver de uma forma mais plena, mais genuína e mais feliz.

Como somos chamados a viver
Como eleitos de Deus, santos e amados, revesti-vos, pois, de sentimentos de compaixão, de bondade, de humildade, de mansidão, de paciência, suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, se alguém tiver razão de queixa contra outro. Tal como o Senhor vos perdoou, fazei-o vós também. Colossenses 3, 12-13

Rosenberg, ao dar-se conta de que lidava com um assunto global, sentiu surgir no seu interior uma pergunta: como somos chamados a viver? Atendendo a que esta pergunta não podia ser respondida no âmbito da psicologia, recorreu às religiões. Em todas elas encontrou a palavra compaixão; somos chamados a viver compassivamente connosco mesmos e com os outros.

Na tradição Judaico-Cristã, a compaixão que Deus tem do seu povo é incondicional (Isaías 54, 10). Para Jesus, é um sentimento natural a Sua compaixão pelas pessoas com quem se cruzava na Sua vida; assim, Jesus sentiu compaixão pelas multidões que andavam como ovelhas sem pastor (Mateus 9, 35-38). Sentiu compaixão pelos dois cegos à beira da estrada da vida sem poderem participar nela plenamente (Mateus 20, 29-34).

Os conceitos e as ferramentas de comunicação não-violenta são projetados para nos ajudar a pensar, ouvir e falar de forma a despertar a compaixão e a generosidade dentro de nós mesmos e para com os outros. A comunicação não-violenta ajuda-nos a interagir uns com os outros de forma a sentirmo-nos mais vivos, genuínos e solidários.

A forma de pensar e as técnicas necessárias para viver compassivamente são muito diferentes daquelas nas quais fomos educados ao longo dos séculos.

Como temos vivido
Longe de comunicarmos compassivamente connosco mesmos e com os outros, sem nos apercebermos, a nossa linguagem é ofensiva e violenta: fere, causa e alimenta conflitos. A linguagem que a maior parte dos seres humanos usa é uma linguagem estática, baseada no uso e no abuso de um verbo estático, como o verbo “ser”, usado para julgar, interpretar, diagnosticar, classificar e rotular as pessoas com as quais se relaciona. Temos o mau hábito de apontar defeitos às pessoas, dizendo-lhes qual é o seu problema e dando-lhes conselhos sobre como deveriam comportar-se.

Desde tempos imemoráveis, nós, seres humanos, usamos uma linguagem que promove o conflito interno e externo, a guerra fria ou aberta, a agressividade passiva ou explosiva e assim vivemos num mundo de explorados e exploradores, mestres e escravos, dominados e dominadores - nem uns, nem outros são felizes. Não vive em paz quem promove nem quem sofre a guerra; como diz o povo, “Quem vai à guerra dá e leva”.

Fomos educados em estruturas de poder nas quais alguns se julgam superiores aos outros, arrebatando para si a prerrogativa do bem e do mal, do certo e do errado, do justo ou injusto, adequado ou inadequado. Bons são os que se submetem e obedecem às regras por eles impostas; maus são, os insubmissos e os que se rebelam. A justiça deste mundo é retributiva; os bons, os que obedecem, são premiados e os maus, os que desobedecem, são castigados. A CNV confronta e expõe a falácia da linguagem e dos comportamentos que estão subjacentes a esta cosmovisão.

Uma linguagem que avalia e rotula
São raras as vezes em que observamos e referimos o observado sem opinar, avaliar e julgar o que observamos. A nossa cultura abusa em demasia do verbo “ser”, pois estamos viciados em rotular e encaixilhar tudo o que observamos. Porque um matou um cão, já todos o chamam mata-cães e, assim sucessivamente, colocamos etiquetas em tudo e todos os que observamos: fulano é egoísta, preguiçoso, vaidoso, cruel, mentiroso…

O uso e abuso do verbo “ser” amarra as pessoas a uma identidade estática, impede-as de crescer, de mudar, de serem elas mesmas. Com o tempo, os nossos olhos enevoam-se com as cataratas dos preconceitos que nos vão cegando, pouco a pouco, para a realidade tal como ela é, acabamos por ver apenas o que queremos ver, e ouvir apenas o que queremos ouvir.

Uma linguagem que nega responsabilidade e capacidade de escolha
O uso e abuso, com os outros e connosco mesmos, de expressões como: “Eu tenho de fazer isto ou aquilo” quer goste ou quer não goste; “É meu dever fazer tal coisa…” retira-nos a liberdade e faz de nós escravos de um dever, de algo que não é da nossa escolha.

A negação ou abdicação da nossa capacidade de escolha e de decisão, tem como consequência imediata, a negação de responsabilidade pelos atos praticados. Como não é da nossa escolha, não respondemos nem nos sentimos responsáveis pelo que fazemos.

Ao abrigo deste constructo mental se assassinaram milhões de judeus nas câmaras de gás durante a Segunda Guerra Mundial; os que os mataram defenderam-se em tribunal, dizendo que apenas obedeciam a ordens - desta forma se dessensibilizavam da crueldade que era preciso ter para fazerem o que fizeram. Hoje, usamos a mesma técnica quando dizemos: são ordens superiores, é a regra, é a constituição, é a política da empresa.

Uma linguagem coerciva que intimida com castigos
Uma linguagem coerciva que intimida com castigos
As pessoas que são obrigadas a fazerem o que quer que seja por medo de serem castigadas, por vergonha ou por sentimentos de culpa sentem-se constrangidas, ao dar-se conta de que alguém as pode castigar e fazer sofrer, se não fazem o que lhes é ordenado.

Os que foram obrigados a determinado tipo de tarefa, podem até realizá-la bem, mas o custo a pagar, tanto pelo que obedeceu, sentindo-se coagido, como pelo que ordenou, intimidando com castigos, é muito alto, porque a violência só pode gerar violência. Por esta via nunca se chega ao dar e receber compassivamente.

Uma linguagem que seduz com prémios
O mesmo pode ser dito quando a tarefa a realizar, está motivada por um prémio que ansiamos e prevemos receber. Também neste caso, o motivo não é a compaixão, a alegria de contribuir para o bem dos outros. Fazer algo para receber um prémio não provém daquela energia que tem por objetivo enriquecer a nossa vida e a dos outros.

Quem faz para receber, deixa de fazer, se deixar de receber; ao passo que, “quem corre por gosto, não cansa”. Tão violentas são as tarefas motivadas por prémios como as motivadas por castigos; como nem umas nem outras são voluntárias, ou seja, por livre opção, não enriquecem a vida nem de quem as ordena nem de quem as executa; ao contrário empobrece a vida de ambos pois estabelecem relações humanas de desigualdade que, por sua vez, geram ainda mais violência.

Viver compassivamente
A linguagem é a interação entre palavras e conceitos; a inteligência é a interação entre neurónios. Ao longo de milhões de anos de evolução da humanidade, a linguagem e a inteligência evoluíram paralelamente. É impensável a inteligência sem a linguagem e a linguagem sem a inteligência; mesmo assim, não é a questão do ovo e da galinha. O bebé aprende a falar e com esta aprendizagem é, ao mesmo tempo, educado; a educação não seria possível sem o uso da linguagem.

Poderíamos equacionar mudar de vida e depois, e só depois, aprender uma nova linguagem que se adequasse a essa nova forma de viver; mas tal como o bebé é educado ao mesmo tempo que aprende a falar, convertamo-nos, ou seja, assimilemos a nova cosmovisão e a nova forma de viver, ao adotar e usar connosco próprios e com os outros, a nova língua que lhe subjaze.

Aprendamos e adotemos a linguagem da não violência que o resto virá por acréscimo. Foi disso que Rosenberg se deu conta, pelo que abandonou a psicoterapia e começou a fazer workshops de cidade em cidade, ensinando esta nova língua. Todos os que a aprenderam viram os seus problemas resolvidos sem os resolverem e experimentaram uma “metanoia” - mudança de mentalidade - seguida de uma mudança de vida e entendimento dessa mesma a vida, sem necessidade de nenhuma psicoterapia baseada na análise ou na psicanálise.

Subjacente a toda a ação humana, estão as necessidades que todas as pessoas buscam satisfazer; a compreensão e o reconhecimento destas necessidades pode levar à criação de uma base compartilhada para uma maior conexão e cooperação entre indivíduos e assim contribuir de forma, definitiva e mais global para a paz.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de dezembro de 2017

Fátima: Teologia da mensagem

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Feliz Natal e próspero ano novo!
O centro da mensagem de Fátima, é o mistério da Santíssima Trindade; por ser objeto de uma oração ensinada pelo Anjo e outra por Nossa Senhora, podemos dizer que as aparições de Fátima, abrem e fecham com este mistério.

Lúcia, porém, disse, ao então cardeal Ratzinger, que o objetivo “prático” de todas as aparições era fazer crescer o povo de Deus nas virtudes teologais da Fé, Esperança e Caridade, que estão presentes na mensagem desde a primeira oração ensinada pelo Anjo: Meu Deus eu creio, Adoro, Espero e Amo-vos…

No meu entender, ao contrário de alguns teólogos, Guadalupe, Lourdes e Fátima são teofanias e não marianofanias. Quando os pastorinhos inquiriram de onde era a Senhora ela respondeu que era do Céu; portanto foi o Céu que se manifestou por intermédio dela e a mensagem que veio comunicar não era dela, mas sim do Céu, ou seja, de Deus.

As revelações de Deus acontecem em diferentes tempos, em diferentes lugares, e por intermédio de diferentes pessoas. A teofania de Fátima, é um pouco mais complexa que outras teofanias, pois acontece em diferentes lugares, por diferentes pessoas, e em tempos diferentes.  Assim podemos distinguir três ciclos diferentes nas aparições de Fátima:

Ciclo angélico nas Aparições do anjo em 1916
deixando de fora as experiências da Lúcia e suas amigas no ano 1915 por serem muito difusas e inconsequentes. Mesmo assim, puseram a Lúcia de sobreaviso para as aparições do anjo no ano seguinte, não já com estas amigas, mas sim com os seus primos. Em linha com o papel dos anjos na bíblia, este anjo é um mensageiro, e tal como o Arcanjo Gabriel anunciou a Maria que ela tinha sido escolhida por Deus para ser a mãe do Verbo encarnado, o anjo também anuncia às crianças que foram escolhidas:

“Os corações de Jesus e de Maria, estão atentos à voz das vossas súplicas (…) têm sobre vós desígnios de misericórdia. No caso de Fátima, o anjo extrapola o papel de só mensageiro e prepara as crianças para as verdadeiras aparições, as de Nossa Senhora. Algo assim como João Batista, percursor do Messias, o anjo prepara as crianças para o encontro com o sobrenatural.

Talvez seja por isso que os encontros com o anjo tenham sido de diferente natureza; as crianças referem que os três encontros com o anjo foram extenuantes; sentiam-se sugados das suas energias e ficavam quase fora de si; ao contrário os encontros com a Senhora deixavam-nos radiantes, confortados e cheios de energia.

Há um outro pormenor que pode suscitar dúvidas em alguém. Nas representações de anjos que vemos nas esculturas, nas pinturas, nos teatros e filmes, e é claro no imaginário dos pastorinhos, os anjos sempre aparecem com asas; O anjo de Fátima, porém, tal como os pastorinhos o descrevem, não tinha asas. A razão está com os pastorinhos e até podíamos ver aqui mais uma prova da veracidade destas aparições, ou manifestações do divino; os anjos de facto, na Bíblia, não têm asas, os que têm asas são os Querubins e os Serafins de guarda à Arca da Aliança.

Ciclo Mariano as aparições de Nossa Senhora em 1917
O centro da mensagem de Fátima são as aparições marianas, ocorridas de maio a outubro de 1917; as do anjo, como dissemos, foram uma preparação para estas, e as seguintes uma ajuda e interpretação destas.

Nas aparições da virgem se revela o núcleo doutrinal que é vasto, completo e a razão pela qual Fátima é a aparição mais doutrinal, mais profética e se quisermos também a mais social e política, pois, inspirou e influenciou medidas sociais e políticas concretas no século XX.

Ciclo do Coração de Maria aparições em Pontevedra 1925-1926 e Tuy 1929
Nestas aparições já anos depois, e quando a Lúcia ainda talvez não estava habituada à solidão a que fora votada depois da morte dos seus primos, a Senhora favoreceu-a com estas aparições, como aliás já o tinha feito com a sua prima Jacinta no leito de morte, para cumprir o que lhe prometera, de nunca a abandonar, dar força e a ajudar na interpretação da mensagem.

Estas visões tiveram para Lúcia o efeito que a transfiguração do Senhor teve para Ele e os apóstolos, o de confirmar a Lúcia no rumo que tinha tomado, tanto em relação à interpretação da mensagem como ao percurso da sua vida na terra, e a razão pela qual tinha sido deixada cá. Estas aparições também serviram para a Lúcia tirar dúvidas e clarificar alguns aspetos da mensagem sobretudo no que respeita à devoção dos cinco primeiros sábados.

As dimensões da mensagem de Fátima
Como aparição de maior amplitude doutrinal, no entender de muitos teólogos, Fátima é toda uma “Suma Teológica” pois toca todos os temas que são essências à nossa fé e dá pistas para os viver, tanto no campo da espiritualidade individual como litúrgica, de uma forma bem prática e pedagógica.

Dimensão sacrificial – Entendida como sacrifício eucarístico, e oferta de si mesmo no contexto da eucaristia e da vida, ou seja, fazer da vida uma eucaristia. Quereis oferecer-vos… Logo na primeira aparição mariana, parafraseando Tiago e João que pediram sentar-se um à direita e o outro à esquerda do Senhor no seu Reino, mas primeiro teriam de beber do mesmo cálice do Senhor (Marcos 10,35-45); assim os pastorinhos pediram para ir para o Céu, mas primeiro a Senhora perguntou-lhe se se queriam oferecer…

Cristo foi o que deu a sua vida, o cristão, ou seguidor de Cristo, é o que ama os outros não como a si mesmo, mas sim como Jesus nos amou, mais que a si mesmo, ou seja, dando a vida. (João 13,34-35)

Dimensão escatológica – Traduz a advertência evangélica, “se não vos converteis perecereis do mesmo modo” (Lucas 13, 3). Trata das desgraças que pendem sobre o mundo por causa do pecado. Trata também da conversão dos pecadores, e como nos podemos implicar nela e a visão profética e pedagógica do inferno, assim como a forma de o evitar.

Dimensão missionária - A Missão é transversal a toda a mensagem de Fátima; todas as práticas que Nossa Senhora pede de oração, sacrifícios, o Rosário, a consagração, os primeiros Sábados, têm como objetivo os outros, ou seja, a conversão e salvação dos pecadores e não a santificação pessoal. O seguidor e devoto da mensagem de Fátima converte-se rezando pela conversão dos outros. Tudo é orientado para os outros é, portanto, uma espiritualidade “altruísta” e não “egocentrista”.

Ao contrário da maioria dos Católicos que, naquele e também neste tempo, vivem obcecados com ganhar o Céu e o bem que fazem tem como finalidade a sua salvação individual, os pastorinhos nada fizeram para salvar as suas almas, pois a Senhora já tinha dito que os levaria para o Céu.

É como se praticassem a teologia da reforma protestante, e agora também católica, segundo a qual o Céu é gratuito para todos pois Cristo pagou o bilhete de entrada por inteiro. Com o Céu garantido os pastorinhos dedicaram a sua vida a garanti-lo também para os outros.

Assim sendo, os pastorinhos tudo o que faziam era Missão, em forma de “Apostolado da Oração”, na qual se distinguiu Francisco, buscando tempo e lugares para estar a sós com Deus consolando-o, e em forma de “Apostolado do Sacrifício”, no qual se distinguiu Jacinta que era incansável em encontrar ocasiões para fazer mais e mais sacríficos, pois ela queria que toda a gente também fosse para o Céu.

Dimensão mariana – Devoção ao imaculado coração de Maria, o Rosário como contemplação com Maria do mistério de Cristo. A manifestação da Senhora identificando-se como senhora do Rosário.

Dimensão eclesial – Comunhão solidária de toda a igreja, na oração pela paz no mundo e pela conversão dos pecadores.

Dimensão Petrina – Fátima começou com um apelo do papa e sempre envolveu os papas; o que não queria deixar-se envolver por ela foi precisamente o maior protagonista da sua mensagem, João Paulo II.

Dimensão profética – Fátima representou para milhares de cristãos, o opor o exército azul de Maria - o ativismo evangélico, contra o exército vermelho da Rússia - o ateísmo militante. O ateísmo militante continua a existir mesmo sem a tutela da Rússia, nos maçons e certos grupos de agnósticos que sempre tentam influenciar políticas contra a Igreja.

Neste tempo como em todo o tempo, Fátima é uma chamada perene a ser ativistas do evangelho dando razões da nossa esperança (1 Pedro 3:15). Ou como alguém dizia, depois do Concílio Vaticano II, um apelo a ser cristãos como membros de um partido político e militantes como membros da Igreja.

Dimensão pedagógico-religioso – Aprendizagem de orações, devoções práticas de piedade. Reparar consolar e desagravar o Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria.

Encarnar a mensagem de Fátima
É pôr em prática aquilo que Maria pediu aos pastorinhos e que eles generosamente satisfizeram, encarnando todos os aspetos desta mensagem. Toca a nós fazer o mesmo se somos amantes de Maria nossa mãe e se, tal como os pastorinhos, queremos colaborar na redenção do mundo.

Parar de ofender a Jesus – Foi o primeiro que os pastorinhos fizeram; primeiro deixaram de ser pecadores, ganhando uma consciência mais desperta que lhes permitia julgar cada um dos seus atos e expor o pecado nas suas vidas por pequeno que fosse.

Rezar o rosário todos os dias – Pelo rosário somos levados das mãos de Maria nossa mãe, a contemplar os mistérios da Nossa Redenção, ou seja, a vida do Seu filho; como ela o conhece mais que ninguém, ela, mais que ninguém nos pode introduzir ao seu filho, à sua vida e doutrina.

Oferecer sacrifícios – Ao oferecer sacrifícios estamos a pôr em prática a razão pela qual participamos na eucaristia. Ao fim da Missa em Latim, o sacerdote despede as pessoas dizendo, “Ite missa est” o qual significa não só que a missa termina, mas que estais em Missão; ou seja, termina a Missa começa a Missão.

Parte dessa missão é trazer para a vida a dimensão eucarística; comemos o corpo entregado e bebemos o sangue derramado, para sermos nós mesmos nas nossas vidas, corpo entregado e sangue derramado. Participamos na eucaristia para sermos eucarísticos e fazermos da nossa vida uma doação pela redenção dos outros. Isto fazemos, quando, como os pastorinhos, nos oferecemos ao negarmo-nos a nós mesmos, abraçando a cruz de Cristo todos os dias, negando-nos a nós mesmos, para afirmar o outro nas nossas vidas.

Devoção ao Imaculado Coração de Maria – A oração assídua coloca-nos diante de Deus que atua como um espelho que nos faz ver quem realmente somos; uma falsa imagem de nós mesmo leva a uma falsa imagem de Deus. A oração purifica as duas imagens de Deus e de nós próprios; por outro lado a oração ao Imaculado Coração de Maria purifica o nosso coração e trona-o semelhante ao dela. É do nosso interesse esta devoção pois segundo a Bem-aventurança, só os puros de coração a que vêm a Deus.

Observância dos 5 primeiros Sábados – São uma bela campanha para revigorar a nossa fé e a nossa prática cristã. São como os exercícios espirituais de Santo Inácio ou como os cursilhos de cristandade; é um começar de novo, o despertar de uma fé adormecida que perdeu o sal que dava sentido e sabor à vida que deixou, por isso, de ser luz do mundo.

Usar o escapulário – Esta prática que chegou a ser muito popular, ainda não perdeu o seu valor. Não é que o escapulário seja um talismã que nos protege de por si sem a nossa colaboração; isso seria idolatria. O uso do escapulário serve para nos recordar, hora a hora, minuto a minuto, que estamos chamados a revestir-nos de Cristo como diz São Paulo. (Efésios 4, 22-24)

Conclusão
Temos, porém, esse tesouro em vasos de barro, para demonstrar que este poder que a tudo excede provém de Deus e não de nós mesmos. (2 Coríntios 4:7)

Ao fim desta longa digressão e estudo do acontecimento Fátima, o seu significado e mensagem, apercebo-me da riqueza, da profundidade doutrinal, profética, social e politica da mensagem. Quase nem posso acreditar como possa ter sido depositada em três crianças de tão tenra idade completamente incultas, e como apesar destas limitações, como dizemos em bom português, elas deram bem conta do recado no viver, anunciar e custodiar a mensagem de Fátima, apesar da incredulidade das suas próprias famílias a da Igreja e os obstáculos e ameaças do poder político e administrativo.

Quero terminar esta reflexão da mesma forma que a comecei: O mistério escondido aos sábios, orgulhosos da sua sabedoria, foi revelado aos simples e aceite por aquele tipo de sábios que são os verdadeiros, os que mantém a mente aberta, sem preconceitos, os que reconhecem que só sabem que nada sabem. (Mateus 11, 25)
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de dezembro de 2017

Fátima: "Rezai o Rosário todos os dias"

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Em Portugal chama-se terço, o que nos demais países se chama Rosário. O que nós rezávamos, de facto, era um terço do Rosário que completo seriam três terços, somando o total de 150 Ave Marias. 150 são também o número de Salmos, do livro com o mesmo nome, que faz parte da literatura sapiencial do Antigo Testamento.

De aí alguém dizer que o rosário completo era o breviário do povo ou dos leigos que não podiam como os clérigos e os religiosos rezar a salmodia.

O rosário completo eram, portanto, três terços que se rezavam meditando no primeiro os Mistérios Gozosos, que correspondiam ao nascimento e infância de Jesus: no segundo os mistérios Dolorosos, que correspondiam à Sua Paixão e Morte: no terceiro os mistérios Gloriosos que correspondiam à sua Ressurreição e Ascensão aos Céus.

A Igreja tardou em descobrir que o Rosário estava incompleto com tão só a meditação dos mistérios da encarnação nascimento, paixão e morte e Ressurreição do Senhor. Faltava a vida pública na qual Jesus de Nazaré, pela sua pregação, as suas atitudes e forma de viver e atuar, modela para nós o homem novo, aquele que é caminho verdade e vida para todo o ser humano.

Com a criação e integração dos Mistérios Luminosos pelo Papa João Paulo II numa carta apostólica intitulada Rosarium Virginis Mariae, escrita em 2002, a lógica dos três terços serem um Rosário completo desfez-se. O Rosário completo são agora quatro “terços” de 50 Avé Marias cada um fazendo o total de 200 e não de 150 como era antes.

Em concordância com esta nova realidade, ao que antes chamávamos “Terço”, deveríamos agora chamar Quarto, pois ao incluir a vida pública de Jesus nos Mistérios Luminosos, são agora quatro os mistérios a contemplar. Como não vamos rebatizar o “Terço de “Quarto”, o melhor seria abandonarmos esta palavra, e, no seu lugar, como o resto da cristandade sempre fez, usar a palavra Rosário.

A Composição do Rosário
Chama-se “Rosário”, porque as 150, agora 200, ave-marias, entrelaçadas em grupos de 10, com a oração do Pai Nosso, do Glória e as meditações dos mistérios da vida de Jesus, e da nossa redenção, formam uma “Coroa de Rosas”, que se oferece a Maria, Mãe do Senhor e nossa Mãe.

Os vinte mistérios da vida do Senhor repartem-se em quatro series de 5 mistérios cada uma. Em cada Rosário, rezamos apenas os cinco mistérios de uma destas series:

Nos Mistérios Gozosos, meditamos o começo da redenção da humanidade, desde a anunciação a Maria, e a encarnação do filho de Deus no seu seio, até à adolescência de Jesus.

Nos Mistérios Luminosos, meditamos os momentos mais importantes da vida pública de Jesus, desde a sua investidura no Batismo até à instituição da Eucaristia como memorial da sua paixão. É nos anos da Sua vida pública que Jesus verdadeiramente, se revela como sendo a Luz do Mundo (Jo 8, 12), pelas suas atitudes ante as mais diversas situações da vida em que se foi encontrando, pela doutrina que ensinou, e pelos seus atos.

Nos Mistérios Dolorosos, meditamos o processo a paixão e morte de Jesus, desde a sua agonia no jardim das Oliveiras até ao ultimo suspiro no alto da cruz. Quando dizemos que Jesus morreu pelos nossos pecados, quer dizer que saldou a dívida que nós eramos incapazes de pagar; mas também quer dizer que os pecados dos que intervieram na sua morte ainda hoje se cometem, pelo que podemos concluir que foi o pecado de toda a humanidade que o matou.

Nos Mistérios Gloriosos, meditamos o triunfo de Jesus sobre a morte com a Sua Ressurreição. A morte foi vencida assim como o pecado que a causa. Depois da Ressurreição de Jesus, a morte já não é o destino final da humanidade, mas sim uma passagem para a vida eterna. A vida de Jesus que começa com o Sim de Maria ao plano de Deus termina agora com a glorificação daquela que é para todos, modelo de vida cristã.

O Pai Nosso – O Pai Nosso, que intercala cada mistério, é muito mais do que uma simples oração que o Senhor nos ensinou para recitar ocasionalmente. Ela contém o mais importante do Evangelho de uma forma resumida; é neste sentido todo um Evangelho de bolso pois contem o que devemos conhecer e praticar.

Como é composto por vários enunciados, sem relação uns com os outros, pode ser olhada como uma lista, como as listas de compras que fazemos para não nos esquecermos de nada. Esta lista diz respeito ao protocolo da nossa relação com Deus, ou seja, como deve estar estruturada a nossa oração; como nos devemos dirigir a Deus, como louvá-Lo, o que devemos pedir, em que ordem, quando e como. Portanto, mais que uma oração, é fundamentalmente um guia pratico de oração e vida.

A Ave Maria – Divide-se em duas partes; a primeira é bíblica e é composta pelas saudações do Anjo Gabriel e da Sua prima Isabel; a segunda tem origem na fé da Igreja, não se sabe como nem quando nem onde começou a ser usada. Por isso a Ave-maria representa a perfeita união entre a Bíblia como Palavra de Deus e a Igreja como comunidade dos crentes.

Num movimento ascendente, a primeira parte, decalcada da Bíblia, é constituída por 5 escadas que sobem até Jesus. Num movimento descendente a segunda parte é constituída também por 5 escadas que descem até a realidade humana, a nossa morte.

Não pode ser entendida pelos advogados de “sola fide sola scriptura solus christus” pois nela se unem de uma forma harmoniosa a Escritura, a Palavra de Deus, descrita na primeira parte, com a Tradição, ou seja, a história da fé da comunidade cristã ao longo dos tempos plasmada na segunda parte. “Jesus” alfa e Omega, principio e fim e centro da história é a cerneira que une as duas partes.

Gloria ao Pai – É a invocação de Deus como Uno e Trino. Uma só divindade em três pessoas diferentes unidas num triângulo de amor. É a solução à dialética da filosofia grega entre o uno e o múltiplo. Esta oração também nos recorda que feito à imagem e semelhança de Deus, o ser humano também é uno e trino: não existe nem subsiste fora da família.

Origem e história do Rosário
Como instrumento de oração as contas do rosário, têm a sua origem na India, no terceiro século antes de Cristo. No cristianismo foram os padres do deserto do terceiro e quarto século que começaram a usar instrumento de contagem de orações, sobretudo do Pai-Nosso.

Por outro lado, na antiguidade os gregos e os romanos costumavam coroar, com uma coroa de Rosas, as estátuas dos seus deuses como prova de amor e gratidão. Talvez baseada nesta tradição as mulheres cristãs que eram levadas ao martírio iam vestidas a rigor levando nas suas cabeças uma coroa de rosas, como símbolo de alegria e entrega caminhando ao encontro do esposo, Cristo. Depois do seu martírio os cristãos recolhiam estas coroas e rezavam, uma oração por cada rosa, pela alma dos mártires.

A Lúcia e a Jacinta de Fátima gostavam de usar flores no cabelo. No dia das aparições os três vestiam as melhores roupas que tinham como se fossem à missa ao Domingo; as duas meninas colocavam flores no cabelo em especial a Jacinta que foi fotografada usando uma coroa de rosas na cabeça por ocasião das aparições.

A oração do rosário surge no ano 800 à sombra dos mosteiros como saltério dos leigos. Foi só no ano 1214, no entanto que a Igreja recebeu o rosário na sua forma presente. A tradição diz que foi dado à Igreja por Santo Domingos de Gusmão que por sua vez o recebeu da Virgem Maria como arma poderosa contra os inimigos da fé.

O rosário ganhou grande pujança depois da batalha naval de Lepanto, na qual os cristãos venceram os turcos eliminando para sempre o perigo dos muçulmanos subjugarem o cristianismo. Antes da batalha, o Papa Pio V pediu aos cristãos que rezassem o rosário para apoiarem a frota cristã, pelo que depois da vitória, foi instituída a festa da Senhora das Vitórias no dia da batalha a 7 de outubro de 1571, mais tarde mudada para Senhora do Rosário.

As aparições marianas, em especial a de Fátima no seu insistente apelo a rezar o Rosário todos os dias, fizeram desta prática um distintivo dos católicos em contraposição com o resto da cristandade, os ortodoxos e os protestantes.

Modo de rezar o Rosário
Em cada dia da semana meditamos uns mistérios diferentes; assim Segunda Feira e Sábado meditamos os mistérios Gozosos; terça feira e sexta-feira meditamos os mistérios dolorosos, Quarta Feira e Domingo os mistérios Gloriosos, reservando a Quinta Feira para os mistérios Luminosos.

Há vários modos de rezar o terço, mas a maior parte das pessoas inicia com o sinal da cruz, seguido do Credo, de um Pai-Nosso uma Ave-Maria e um Gloria. Terminadas estas orações introdutórias, anuncia-se o primeiro mistério seguido ou não de uma pequena meditação e secundado por uma dezena de ave-marias precedidas de um Pai-Nosso.

Depois da decima Ave-Maria de cada dezena, reza-se o Gloria seguido de várias jaculatórias, dependendo do lugar e de quem reza e termina-se com a oração que a Nossa Senhora em Fátima recomendou aos pastorinhos que rezassem depois de cada mistério: "Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as alminhas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais precisarem"… (da vossa misericórdia). Por fim rezam-se três Ave-Marias pelas intenções do Santo Padre para assim estarmos unidos a toda a cristandade, nele representada, e termina-se com a Salve Rainha precedida ou não, segundo o tempo que se dispõe, pela Ladainha da Nossa Senhora.

A importância do Rosário
O Rosário é ao mesmo tempo uma oração mariana e Cristo-Centrica porque repetidamente invocamos Maria como Mãe de Deus e nossa Mãe, e lhe pedimos que se junte a nós na nossa oração ao Pai, ao recitarmos o Pai Nosso e à Santíssima Trindade ao recitarmos o Glória, e nos ajude a meditar e contemplar os mistérios da vida do Seu filho, nosso irmão mais velho e nosso salvador, dos quais ela também faz parte.

Em Fátima, como nas demais aparições marianas, Maria não atrai nenhuma atenção para si mesma, mas sim e exclusivamente para o Seu filho. O seu contentamento não lhe vem de a louvarmos, mas sim de louvarmos o seu filho. Como diz o provérbio, “Quem o meu filho beija, minha boca adoça”.

Não se ama o filho sem se amar a mãe, por isso todo o amor dirigido ao filho indiretamente é dirigido à mãe. Assim como todo louvor dado à mãe se dirige ao filho como foi o caso daquela mulher que no meio da multidão, levantou a voz para dizer a Jesus, Bem-aventurada aquela que te deu à luz, e os seios que te amamentaram!” (Lucas 11, 27)

O Rosário não é uma oração de Ação de Graças, nem uma oração de petição, nem sequer uma oração de lamentação como alguns salmos da bíblia. O Rosário, é fundamentalmente uma oração de meditação e contemplação. De facto, anunciamos e enunciamos cada mistério dizendo neste mistério contemplamos….

Conta-se que um dia alguém confessou ao Papa João XXIII a dificuldade de rezar o terço pois frequentemente se distraía no rezo maquinal e rotineiro das Ave-Marias, ao que o papa respondeu, para que serve o Rosário se não para nos distrairmos?

Ao ser uma oração contemplativa, a recitação repetitiva de Ave-marias no Rosário tem a mesma função que os mantras na espiritualidade Budista; ocupam a mente impedindo que esta salte de um pensamento para outro, permitindo e facilitando a contemplação dos mistérios da vida do senhor.

A finalidade, portanto, não é colocar a nossa atenção em cada Ave-Maria e Pai-Nosso que rezamos, mas sim ocupar a mente com estas orações como se tratassem de mantras e saltar assim para a contemplação do divino.

O Rosário e Fátima
Nas aparições de Fátima, Nossa Senhora pediu aos pastorinhos que rezassem o Rosário todos os dias, não numa ou duas aparições, mas em todas as ocorridas em de 1917, assim como nas que ocorreram em Tuy e Pontevedra à irmã Lúcia. Porquê o Rosário, pergunta-se esta, por ser uma oração acessível a todos, pequenos e grandes sábios e ignorantes.

Naquela região, e um pouco por todo o Portugal, a recitação do Rosário era parte integrante dos serões da província, antes ou depois da Ceia ao calor da lareira, o pai ou a mãe lideravam a reza e ninguém pedia a bênção do pai e da mãe e se ia deitar antes de terminar mesmo que o sono já fizesse cair as cabeças.

Família que reza unida mantêm-se unida; a Televisão qual cavalo de Troia veio perturbar a candura e harmonia do lar e o terço foi substituído pelas telenovelas. Talvez esta seja uma das razões pela qual, somos um dos países com uma das mais altas taxas de divorcio, 70%.

Os pastorinhos que já rezavam o Rosário, mas apressadamente, passaram a reza-lo como a Senhora queria. Em especial o Francisco a quem a Senhora disse que tinha de rezar muitos terços para ir para o Céu.

Com efeito o terço identificou Francisco na sua vida pois havia dias que rezava dez terços, e também identificou as suas ossadas quando o seu corpo foi exumado. Entre tantas ossadas enterradas na mesma sepultura comum, o Ti Marto, pai de Francisco, identifico os ossos do seu filho pois agarrado a eles estava o Rosário ainda intacto que o Francisco usava.

Penitência e oração pedia Maria em Fátima tanto por nós como pelos outros. O Rosário catapulta-nos para a contemplação do Mistério de Deus, sobretudo do Verbo incarnado. Por isso, meditando ou não meditando, distraídos ou não, os que amam profundamente o Rosário e não podem deixar passar um dia sem o recitar, são, “ipso facto”, verdadeiramente pessoas de oração.
Pe. Jorge Amaro, IMC
r.

15 de novembro de 2017

Fátima: A Oração como Missão

2 comentários:
A Penitência e a Oração são o cerne da mensagem e espiritualidade de Fátima. O objetivo principal da Penitência e Oração, que Maria pede aos pastorinhos em Fátima, não é o aperfeiçoamento pessoal. A Nossa Senhora não exorta as três crianças a fazerem sacrifícios e a rezar pela sua santificação pessoal; por isso, espiritualidade de Fátima não é uma espiritualidade egocêntrica, ou seja, um conjunto de praticas espirituais que têm como objetivo o benefício, ou perfeição de quem as pratica; não é por isso comparável à ascética dos monges, que sim tem como finalidade a santificação, a mística e a visão beatifica.

Muito pelo contrário, tanto a penitência como a oração que Maria pede aos pastorinhos, têm um fim muito concreto e específico: a da conversão dos “pobres pecadores” e o desagravo do Sagrado Coração de Jesus e do Coração Imaculado de Maria; é, portanto, uma espiritualidade “altruísta”.

É certo que nestas práticas os pastorinhos se santificaram, mas não as praticaram para se santificar, mas sim para contribuir ao bem espiritual de outros. Não foi para salvar-se que as praticaram, mas sim para salvar os outros. Neste sentido tanto a sua oração pessoal como a sua penitência eram o seu contributo para a missão universal de salvação.

Até quando os pastorinhos resolveram não pecar mais, a razão fundamental que os levou a esta resolução não foi o ser santos, mas sim para não ofenderem mais a Nosso Senhor; ou seja, até no evitar o pecado, o objetivo é altruísta; os pastorinhos não pecaram por amor a Deus. Os videntes nunca fizeram nada cujo objetivo fosse a santidade.

A oração de intercessão
Abraão aproximou-se e disse: «E será que vais exterminar, ao mesmo tempo, o justo com o culpado? Talvez haja cinquenta justos na cidade; matá-los-ás a todos? Não perdoarás à cidade, por causa dos cinquenta justos que nela podem existir? (…) Se encontrar em Sodoma cinquenta justos perdoarei a toda a cidade, por causa deles. Génesis 18, 23-33

E acontecia que, enquanto Moisés tinha as mãos levantadas, era Israel o mais forte; mas quando descansava as mãos, o mais forte era Amalec. Êxodo 17, 11

Os dois grandes patriarcas da nossa fé, Abraão e Moisés, experimentaram o valor e a eficácia da oração de intercessão a Deus pelo povo. Mais tarde cabe aos sacerdotes, descendentes de Aarão, esta tarefa de pedir a Deus pelo bem-estar do povo. A sociedade medieval cristã estava dividida em classes e cada classe tinha uma tarefa específica; os nobres defendiam o clero e o povo, o clero intercedia pelos nobres e pelo povo, e o povo sustentava materialmente o clero e os nobres.

Hoje a oração não é tarefa exclusiva de uma classe de pessoas, mas todos estão chamados a rezar. A oração não é só um meio para expressarmos o nosso amor a Deus. De facto, a oração tanto expressa o nosso amor a Deus como o nosso amor ao próximo, quando rezamos por ele. A oração pode ser a nossa resposta a Deus, que nos pergunta onde está o teu irmão (Génesis 4,9). Ao contrário de Caim devemos sentir-nos guardiães do nosso irmão, preocuparmo-nos por ele, querer o seu bem, atuar em seu favor, não só nas obras, mas também na oração, intercedendo por ele a Quem lhe pode fazer mais bem do que eu, especialmente onde eu não posso chegar.

A oração do Pai “Nosso” e da Ave Maria, assim como a maior parte das orações, nunca excluem os outros; podemos rezá-las na privacidade do nosso quarto e no íntimo do nosso coração, os outros estão sempre lá, pois a Deus nos dirigimos em plural como comunidade; e o que quer que peçamos, nestas ou noutras orações, não o pedimos para nós somente, mas para a toda a comunidade dos crentes.

O capitulo 17 do Evangelho de São João apresenta a chamada oração sacerdotal, que é a oração mais longa de toda a bíblia. Na segunda e a terceira parte dessa oração Jesus pede ao Pai pelos seus discípulos e depois por todos os crentes; ponto importante nesta oração é a unidade entre todos; é nesta unidade de sermos todos membros do corpo místico de Cristo que assenta a oração de interseção. 

A comunhão dos santos é uma crença muito querida do catolicismo; esta consta da solidariedade que se estabelece entre todos os batizados, vivam eles no espaço e no tempo, ou para além destes, no purgatório ou no seio de Deus. É com base nesta comunhão que o povo português tem um afeto especial em rezar e oferecer o sacrifício da Eucaristia pelas almas mais abandonadas do purgatório; aqueles que não têm ninguém que interceda por elas.

Quando já tinha decidido não ir hoje a cortar o cabelo, comecei a escutar com insistência uma voz no meu interior que me dizia que tinha de ir; como eu recusava a voz fez-se cada vez mais insistente até ser uma obsessão. Decidi então aceder e fui. Ao entrar o barbeiro surpreendeu-me dizendo estava agora mesmo a rezar para que o senhor viesse hoje.

"... A oração é o complemento mais eficaz depois da medicina tradicional, superando a acupuntura, ervas, vitaminas e outros remédios alternativos." Washington Post, March 24, 2006

É difícil quantificar a eficácia da oração; nas aparições de Fátima são muitas as intenções que Lúcia apresenta à Senhora e ela mesmo respondia que algumas as satisfazia outras não. Ante esta realidade, só temos uma certeza que é mais fácil que os nossos pedidos sejam atendidos se os formulamos que se não os formulamos. No entanto, quer os nossos pedidos sejam atendidos quer não, é a vontade de Deus que se cumpre; uma vontade que devemos aceitar incondicionalmente, porque Deus, porque é Pai, sabe, muito mais que nós, o que nos convém e verdadeiramente nos faz falta

Mateus 5, 44 - Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem; - Até o inimigo deixa de ser inimigo quando tenho a coragem de rezar por ele como o evangelho nos manda. É de facto algo misterioso que todos podemos experimentar; no momento em que conseguimos rezar pelos que nos querem mal, cessa o nosso ódio por eles.

Francisco e Jacinta reparadores da humanidade
No Verão de 1916, enquanto os três brincavam no quintal da casa da Lúcia, junto ao Poço do Arneiro o Anjo aparece-lhes e diz-lhes:
– Que fazeis? Orai! Orai muito! Os Corações de Jesus e Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia. Oferecei constantemente ao Altíssimo orações e sacrifícios.

À distancia do tempo, a irmã Lúcia interpreta esta interpelação do Anjo não como uma repreensão por estarem a brincar, mas como uma chamada de atenção para algo de suprema importância, a oração. Esta chamada de atenção deve ainda ecoar nos nossos corações porque como cristãos perdemos o tempo em mil e uma coisa, como a Marta do Evangelho, e não escolhemos o mais importante… sentar-se, parar no meio do frenesi dos nossos dias e como Maria, a irmã de Marta, dirigir-nos a Ele que é tudo em todos.

Os pastorinhos responderam fielmente à chamada de atenção do Anjo e um ano depois às exortações da Senhora, em rezar e oferecer sacrifícios, de tudo o que podiam, como lhes tinha sugerido o Anjo, pela conversão dos pecadores. Tomaram essa tarefa como uma missão, e encarnaram-na em conformidade com a sua personalidades e carácter:

Jacinta sendo emocional, e sem descuidar a oração, sobretudo a eucarística ao Jesus escondido, era mais dada aos sacrifícios, pois tinha muita pena dos pecadores, queria salvar quantos mais melhor. Francisco como era mais instintivo, sem descuidar como a irmã os sacrifícios, era mais dado à oração; estava particularmente sensibilizado pela tristeza de Jesus e passava horas e horas a sós com Ele para o consolar.

Oração & Sacrifício é um binómio inseparável, como a teoria e a praxis. Rezar sem fazer sacrifícios é comparável aquela personagem do Evangelho que diz “Senhor, Senhor”, mas nada faz para encarnar a Palavra, ou seja pô-la em pratica (Mateus 7,21).

Por outro lado, o sacrifício sem oração não seria cristão; por isso mais tarde a Virgem Maria ensina aos pastorinhos uma oração que deve acompanhar todos os sacrifícios que fazem: "Ó Jesus, é por Vosso amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria".

Usando uma carta dos correios como alegoria para explicar a relação entre o sacrifício e a oração, o sacrifício é o texto da carta, a oração é o envelope onde está escrita a direção à qual é dirigida a carta, neste caso a Deus para interceder pelos “pobres pecadores”.

Francisco consolador do Senhor
Um dia a Lúcia perguntou a Francisco:
– Francisco, por que não me dizes para rezar contigo e mais a Jacinta?
– Gosto mais – respondia – de rezar sozinho, para pensar e consolar a Nosso Senhor que está tão triste.
Um dia, perguntei-lhe:
– Francisco, tu, de que gostas mais: de consolar a Nosso Senhor ou converter os pecadores, para que não (vão) fossem mais almas para o inferno?
– Gostava mais de consolar a Nosso Senhor. Não reparaste como Nossa Senhora, ainda no último mês, se pôs tão triste, quando disse que não ofendessem a Deus Nosso Senhor que já está muito ofendido? Eu queria consolar a Nosso Senhor e depois converter os pecadores, para que não O ofendessem mais.

Francisco reconhece simultaneamente a transcendência de Deus e o júbilo pela sua presença. Confessa: «do que gostei mais foi de ver a Nosso Senhor, naquela luz que Nossa Senhora nos meteu no peito. Gosto tanto de Deus!». Francisco Sente-se «a arder, naquela luz que é Deus [...]. e afirma Como é Deus! Não se pode dizer!».

É esta união com Deus que o faz perceber a dor que lhe provocam as ofensas humanas. Dá-lhe pena por «Ele estar tão triste» e, por isso, brota nele a resposta enternecedora: «Se eu O pudesse consolar! ( Cfr. Conferencia episcopal Portuguesa 2017)

Será talvez a parte mais contemplativa da mensagem de Fátima. Francisco era de facto um contemplativo, afastava-se dos outros companheiros, teria vocação de monge se tivesse vivido. No entanto a contemplação que faz a sua oração, de manhãs inteiras na igreja de Fátima diante do Jesus escondido, enquanto Jacinta e Lúcia iam à escola, não era para se sentir bem na companhia de Deus, mas sim para consolar Jesus triste pelas ofensas dos pecadores.

Devoção ao Imaculado Coração de Maria
… A Jacinta e o Francisco levo-os em breve. Mas tu ficas cá mais algum tempo. Jesus quer servir-Se de ti para me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. [A quem a abraçar, prometo a salvação; e serão queridas de Deus estas almas, como flores postas por Mim a adornar o Seu trono].

O mundo moderno frio e tecnológico é pouco dado aos símbolos. Para melhor entendermos o que significam o Coração de Jesus e o Coração de Maria, é de ajuda que nos adentremos no mundo da poesia.  Todos conhecemos a expressão de “falar com o coração na mão” que segundo o dicionário significa: Estar muito aflito, muito angustiado, preocupado ou nervoso com alguma assunto ou alguma situação. Pois assim se apresentam o Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria; angustiados e preocupados pela situação da humanidade.

No sentido bíblico, e também na mensagem de Fátima, o coração não é somente o músculo de forma arredondada, que coloca o sangue em movimento, mas também o símbolo do mais íntimo do homem, onde se conjugam os pensamentos, os afetos e a vontade.

O Sagrado Coração de Jesus – A imagem de Jesus, com o coração diante do peito e às vezes na mão, quer ser uma representação gráfica para deixar bem patente, o quanto Jesus nos amou nos homens do seu tempo a ponto de sofrer e dar a vida por eles, seus amigos e pela humanidade inteira neles representada. A devoção a esta imagem tem inspirado a cristandade desde as aparições a Sta. Margarida em 1675. Estas visões não estão descabidas de sentido histórico e bíblico se pensamos que verdadeiramente foi o soldado que abriu o peito de Jesus e nos mostrou o seu coração.

O Imaculado Coração de Maria – A imagem de Maria, representada como a de Jesus com o coração diante do peito, significa o amor e dedicação e padecimento pelo seu filho desde a sua conceção até à morte na cruz; já crucificado e antes de morrer, Jesus entrega-nos a sua mãe como nossa mãe, começando assim a paixão Desta pelos irmãos do seu filho.

A virgem Maria comunica aos pastorinhos em Fátima que o seu filho quer estabelecer esta devoção na terra, sendo também esta uma das razões pela qual a Lúcia ficaria ainda algum tempo em vida. Também esta imagem não está descabida de sentido histórico e bíblico se pensamos no vaticínio do velho Simeão em relação à Virgem Maria: “uma espada atravessará a tua alma”.

Amor com amor se paga” – A devoção ao coração de Jesus, como ao Coração Imaculado de Maria, como todas as devoções e atos de amor a Deus não se justificam pelo facto de que Deus precise deles. Somos nós os que precisamos, pelo facto de que só quando nos abrimos ao amor de Deus é que o amor de Deus produz frutos na nossa vida.

Enquanto permanecemos de costas voltadas para Deus, o seu amor, que não cessa nunca, não produz nenhum efeito nas nossas vidas. Por outro lado, não é possível ao mesmo tempo estar abertos ao amor de Deus sem o amar, por isso o provérbio faz todo sentido; Deus precisa do nosso amor para nos amar. Se alguém me tem amor, há-de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada. João 14,23

O Imaculado Coração de Maria é medianeiro de todas as graças; foi este coração, imaculado por ter sido concebido sem pecado, que acedeu ao plano de Deus, concebendo o Seu filho para salvação da humanidade. Por ser medianeira da Graça primigénia que é Cristo, também em graças menores, Maria é sempre medianeira entre a Terra e o Ceu.

Por isso, Jacinta fervente devota do coração Imaculado de Maria, exorta a sua prima Lúcia que propague essa devoção que por essa razão fica mais algum tempo em vida:

Já me falta pouco para ir para o Céu. Tu ficas cá para dizeres que Deus quer estabelecer no Mundo a devoção do Imaculado Coração de Maria. Quando for para dizeres isso, não te escondas. Diz a toda a gente que Deus nos concede as graças por meio do Coração Imaculado de Maria; que Ihas peçam a Ela; que o Coração de Jesus quer que, a Seu lado, se venere o Coração Imaculado de Maria; que peçam a paz ao Imaculado Coração de Maria, que Deus Lha entregou a Ela. Se eu pudesse meter no coração de toda a gente o lume que tenho cá dentro no peito a queimar-me e a fazer-me gostar tanto do Coração de Jesus e do Coração de Maria…
Pe. Jorge Amaro, IMC