15 de maio de 2016

O Ser e o Dever-Ser

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Porque reparas no argueiro que está na vista do teu irmão, e não vês a trave que está na tua vista? 4Como ousas dizer ao teu irmão: 'Deixa-me tirar o argueiro da tua vista', tendo tu uma trave na tua? Hipócrita, tira primeiro a trave da tua vista e, então, verás melhor para tirar o argueiro da vista do teu irmão. Mateus 7, 3-5.

Criticar os outros é quase sempre negativo; as tais ditas “críticas construtivas” não são mais que uma oportunidade, inconsciente e solapada, para punir e humilhar o outro exaltando-nos a nós próprios; de facto, sempre que humilhamos o outro, exaltamo-nos a nós mesmos, e sempre que nos enaltecemos humilhamos o outro. Há uma humilhação implícita em toda a exaltação.

Contigo em contradição/ pode estar um grande amigo/ livra-te daqueles que estão/ sempre de acordo contigo. António Aleixo

O que distingue uma crítica negativa de uma positiva, é a amizade provada que temos para com a pessoa que criticamos. Só temos “direito” de criticar a pessoa que amamos e na qual reconhecemos valores. E ainda neste caso a crítica vem sempre depois da afirmação desses valores. Se nunca reconhecemos nem afirmámos uma pessoa nos seus valores, não temos nenhum direito de a criticar e se o fazemos, a critica é negativa.

A Psicose geral dos nossos dias
Sem autoconsciência não nos conhecemos, sem autocrítica não há progresso nem crescimento pessoal. Como acima ficou dito, se por um lado é quase sempre negativo criticar os outros, por outro é quase sempre positivo criticar-se a si mesmo. O ser e o dever ser nunca coincidem; o que somos no momento presente e o que estamos chamados a ser no futuro nunca coincidem; é a consciência desta realidade que nos impulsiona a crescer, a progredir.

O amor é como a lua, quando não cresce mingua” - Montados num planeta em movimento, devemos ser conscientes que a nível físico nada na realidade que nos rodeia e que forma o nosso ser é estático. O mesmo acontece a nivele espiritual e moral: quando não estamos a crescer, para ser melhores, estamos a minguar e a tornar-nos cada vez piores.

Viver é como andar de avião; sem o impulso dos motores, para manter a altitude ou subir, inexoravelmente descemos; não existe uma inercia nem uma lei da gravidade que nos impulsione para cima, sempre nos puxa para baixo. Automaticamente, sem esforço e sem autoconsciência, só fazemos o que a nossa natureza animal nos dita pelo instinto, o qual tanto a nível pessoal como social quase sempre é mal.

A morte da consciência
(…) João dizia a Herodes: «Não te é lícito ter contigo a mulher do teu irmão.» Herodíade tinha-lhe rancor e queria dar-lhe a morte, mas não podia, porque Herodes temia João e, sabendo que era homem justo e santo, protegia-o; quando o ouvia, ficava muito perplexo, mas escutava-o com agrado. (…) Herodes, pelo seu aniversário, ofereceu um banquete (…). Tendo entrado e dançado, a filha de Herodíade agradou a Herodes e aos convidados. O rei disse à jovem: «Pede-me o que quiseres (…)  «Quero que me dês imediatamente, num prato, a cabeça de João Baptista.» Marcos 6, 17-26.

Quem não vive como pensa, pensa como vive – Quem, pelo esforço em melhorar, não consegue ajustar a sua vida, os seus atos e o seu comportamento aos ditames da sua consciência moral, acaba por ajustar a sua consciência moral à realidade da sua vida, justificando e racionalizando as suas ações e o seu comportamento. Se assim não fosse acabaria neurótico; para preservar a saúde mental, a luta não pode continuar indefinidamente; ou ganha a evolução ou ganha o status quo; ou ganha o modus vivendi ou ganha a consciência moral. Quem não consegue, ou não quer adaptar a sua vida à sua forma de pensar aos valores morais, acaba por adaptar a sua forma de pensar à sua forma de viver, matando assim a sua consciência moral.

A história da execução de João Batista, pode servir de parábola para ilustrar ou exemplificar a morte da consciência moral de Herodes. Herodes bem sabia que João Batista estava certo, que viver com a mulher do seu irmão era moralmente um erro. João era a consciência moral de Herodes, podia falar, mas não atuar por isso estava preso. Herodes gostava de ouvir a verdade, mas faltava-lhe a vontade para a pôr em pratica; assim andou sem se decidir até que as circunstâncias da vida decidiram por ele.

Psicose coletiva
O resultado da morte da consciência moral, que regula a nossa vida guia e julga os atos de cada dia, é a psicose. O psicótico é uma pessoa fria e cruel sem sentimentos, infringe ou presencia o sofrimento alheio sem compaixão; nos casos mais graves, pode chegar a torturar ou matar sem o mínimo sentimento de culpa ou remorso. A falta de uma consciência moral acusatória, hoje comum a muitas pessoas, poderia ser diagnosticada como psicose coletiva cronica.

Eu não tenho pecados ouvimos os que nos sentamos no confessionário. Por que a nossa vida está focada para a distância, e não para o perto, vemos o argueiro na vista do nosso vizinho e não a trave no nosso olho. A autoconsciência, que é o que nos distingue do resto dos seres vivos que habita o planeta, e que foi o resultado de uma evolução que durou cinco milhões de anos, nem sempre nos assiste. Muito do nosso comportamento, o que dizemos, o que fazemos e até muito do que pensamos, funciona independente da nossa vontade, ou seja, vivemos em piloto automático a maior parte do nosso dia.

Ao encontrar-se dois amigos, depois de algum tempo sem se verem, diz um ao outro; “Ouve lá, disseram-me que vendeste um chanfalho velho ao nosso amigo António por um preço exorbitante, o carro valia muito menos do que lhe pediste, tu enganas-te o homem”. “Não enganei nada, o que eu fiz foi um bom negócio” respondeu o vendedor. Entristecido, e abanando a cabeça num gesto de desaprovação, disse o amigo, “Ouve lá sei que tu és um católico praticante, quando te ajoelhas na confissão, o que é que contas ao padre? “Ao padre”, respondeu o vendedor, “conto-lhe os meus pecados não os meus negócios”

Ainda ontem estavas a sulfatar as couves e hoje já as vais vender? Constata o amigo de um produtor agrícola. Quero lá saber, responde o produtor, não sou eu que as vou comer! - No nosso mundo o lucro pessoal ou coletivo, é um valor que está por cima da saúde pública. Este senhor não come essas couves, mas consome outros produtos agrícolas que são produzidos da mesma forma assim como a comida produzida industrialmente. Quando o lucro está por cima da saúde pública ninguém ganha, e todos perdemos.

O mesmo vale para a fuga aos impostos, um pecado que em 31 anos de sacerdote nunca ouvi ninguém mencionar. Aparentemente ou a curto prazo, quem foge ganha, fica com mais dinheiro na algibeira, mas na realidade a longo prazo, todos perdem incluído o que foge.

O sacramento da autocritica
O sacramento da Penitência, ou confissão, é em si mesmo um exercício de autocrítica. Já poucos o usam e os poucos que o fazem, fazem-no por rotina ou para observar o preceito da Igreja popularmente chamado de “desobriga”, de se confessar e comungar pelo menos uma vez no ano por Páscoa florida. Não o fazem, portanto, por necessidade, e para crescer espiritualmente, mas sim por obrigação.

E porque é por obrigação e rotina, quando se ajoelham diante do confessor, não sabem que dizer e recorrem a uma lenha lenga tantas vezes repetida: matar não matei, roubar não roubei etc. Por mais que tente espiolhar, sem ter a curiosidade morbosa de alguns antigos confessores, não consigo arrancar nenhum pecado pessoal e frequentemente o que ouço são os pecados dos outros, do marido, dos filhos, dos cunhados e das noras, das sogras etc; quantas vezes tenho de parar o penitente na sua lamúria e recordar-lhe que eu não posso perdoar os pecados dos outros mas só os próprios…

Comparo a nossa consciência moral a uma peneira daquelas que todas as mulheres usavam para peneirar, purificar a farinha, retirando-lhe as impurezas, que constituíam o farelo que se dava às galinhas, ficando a farinha branca com a qual se amassava o pão. Quanto mais fina e fechada é a malha, ou rede da peneira, mais pura fica a farinha.

A consciência moral de muitas pessoas do nosso tempo está tão laxa, a rede é tão grossa, ou está tão cheia de buracos que ao peneirar os atos de um dia nada fica na peneira. Não é, portanto, verdade que não tenham pecados, têm-nos e fazem-nos, mas não são conscientes de os ter e de os fazer. O justo, diz a bíblia, peca sete vezes ao dia; sendo o sete o número perfeito significa que peca muitas vezes; quantas não pecaremos nós que somos injustos…

Afogar-se na culpa como Judas
Nas antípodas da consciência laxa, está a consciência escrupulosa; aquela que não se consegue libertar da culpa.

Uma mulher foi um dia ter com o seu pároco e revelou-lhe que Deus lhe aparecia muitas vezes. O pároco incrédulo, para confirmar a veracidade das aparições ou ironicamente para gozar com a senhora, autorizou-a a perguntar a Deus pelos seus pecados, pensando para consigo, “só Deus conhece os meus pecados, se ela me relatar algum então terei que acreditar nas aparições”. A senhora, tomando em sério a proposta do pároco sem se aperceber da ironia, foi-se embora. Passados uns dias voltou à presença do pároco e este com ar de troça perguntou; “então Deus voltou a aparecer-lhe”? “Voltou sim senhor”, respondeu ela, “e a senhora perguntou-lhe pelos pecados”? “Perguntei sim senhor padre” disse ela; “e que disse Deus”? Inquiriu o pároco, “a respeito dos seus pecados senhor padre, Deus disse-me que já se tinha esquecido”.

 Não há miséria superior à misericórdia divina. Deus perdoa-nos e esquece, passa página coisa que nós não fazemos. Deus que nos conhece melhor do que nós nos conhecemos, que nos ama mais que nós a nós mesmos, por muita que seja a nossa autoestima, também nos perdoa muito mais do que nós nos perdoamos a nós mesmos.

Ao fim de uma guerra fratricida entre hindus e muçulmanos, nos alvores da independência da India, um hindu veio ter com Gandhi para que ele o ajudasse a libertar-se da sua culpa. Contou que um dia, durante a guerra, entrou numa casa muçulmana onde se encontrava uma mulher que ia dar de mamar a um bebé, que lhe retirou o bebé e o arremeçou contra a parede da casa. A imagem do bebé esmagado contra a parede e o seu sangue a escorrer, dizia, persegue-me para onde quer que vá, eu vivo num inferno… Gandhi, para o livrar da culpa, propôs-lhe adotar um bebé muçulmano, dos muitos que ficaram órfãos com a guerra, e de o educar na religião muçulmana.

Nos meus 31 anos de ministério, não foram poucas as mulheres que à idade de oitenta e tantos anos ainda confessavam obsessivamente, uma e outra vez, o aborto que tinham cometido quando eram adolescentes. O escrupuloso acredita mais num Deus vingativo, à maneira humana, que num Deus amor. É uma ofensa a Deus não acreditar no seu perdão, quando Deus não sabe fazer outra coisa…

Anulou o documento que, com os seus decretos, era contra nós; aboliu-o inteiramente, e cravou-o na cruz. (Colossenses 2, 14).

Deus perdoa e esquece, como sugere São Paulo, destrói a fatura da nossa dívida para não mais se recordar dela; somos nós, que pela nossa natureza, não nos conseguimos perdoar nem esquecer.

O purgatório, do qual a bíblia não fala diretamente, foi criado por Deus, não porque Ele precise de que expiemos a nossa culpa, mas sim porque nós precisamos.

Reconhecer e chorar o erro como Pedro
 (Ante a quantidade de peixes resultante da pesca milagrosa) Simão caiu aos pés de Jesus, dizendo: «Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador”. (Lucas 5, 8)

In medio vírtus” – Entre o extremo da consciência moral laxa, e a consciência moral escrupulosa, está a consciência recta de Pedro, que nem é laxa, nem escrupulosa. Pedro, tem ante Deus a atitude correta; reconhece-se pecador ao ver os poderes de Deus manifestados em Cristo Jesus a quando da pesca milagrosa.

O episodio da pesca milagrosa vem provar que não foi a negação do mestre, pecado equivalente ao de Judas, que lhe deu a Pedro a consciência de ser pecador; Pedro sempre se teve como tal, consciente de que ante Deus não há justos.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de maio de 2016

O Rico e o pobre Lázaro

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Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino e fazia todos os dias esplêndidos banquetes. Um pobre, chamado Lázaro, jazia ao seu portão, coberto de chagas. Bem desejava ele saciar-se com o que caía da mesa do rico; mas eram os cães que vinham lamber-lhe as chagas. Ora, o pobre morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão.

Morreu também o rico e foi sepultado. Na morada dos mortos, achando-se em tormentos, ergueu os olhos e viu, de longe, Abraão e também Lázaro no seu seio. Então, ergueu a voz e disse: 'Pai Abraão, tem misericórdia de mim e envia Lázaro para molhar em água a ponta de um dedo e refrescar-me a língua, porque estou atormentado nestas chamas.' Abraão respondeu-lhe: 'Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em vida, enquanto Lázaro recebeu somente males. Agora, ele é consolado, enquanto tu és atormentado. Lucas 16, 19-31

Na única “história aos quadradinhos” que Jesus contou, observamos reversão de cenários de vida e fortuna entre dois homens na sua passagem de este mundo para o outro. No primeiro quadradinho observamos um o céu de luxo e prazer do rico em contraste com o inferno também temporal de penúria e sofrimento do pobre Lázaro. No segundo quadradinho no qual tantos os papeis como os cenários são invertidos: O rico que vivia num Ceu temporal de prazer insolidário, vive agora no eterno inferno de penúria e sofrimento, ao contraio o pobre Lázaro que vivia na penúria a e no sofrimento vive agora no eterno céu de abundancia e consolação.

A morte, que na natureza não existe mais que como passagem entre duas diferentes formas de vida, também aqui é apresentada como ponte entre o quadradinho da vida na terra e o quadradinho da vida no céu. Contrariamente ao que a maioria pensa, a morte não é o grande raseiro, que a todos nos faz iguais. No entender da parábola, contada por aquele que um dia disse, “pobres sempre os tereis convosco” (Jo 12,8), as desigualdades sociais que encontramos na terra vamos encontra-las invertidas no céu. Por isso, a igualdade social é a utopia que em todo momento e lugar deve inspirar e guiar a nossa ação.

O pobre que se senta à nossa porta
A parábola não nos diz o nome do rico, não tem identidade humana porque é definido pelo seu modo de vida, como ainda hoje se definem muitos ricos:

Vestia de púrpura e linho fino – O rico não tem nome porque a sua identidade não é definida de dentro para fora, mas de fora para dentro. É a púrpura e o linho fino que o definem, o seu estatuto é-lhe conferido pelo tipo de roupa que veste. Quem se sente um Zé Ninguém usa certos subterfúgios para vestir o vazio da sua alma: a roupa de marca, telemóvel ultima geração, carro topo de gama…

Muitos adolescentes, nas nossas escolas, em vez de buscarem o prestígio no desempenho moral e académico, buscam-no na roupa de marca. Compram camisolas caras, que exibem no peito um determinado logotipo de exageradas dimensões. Caro lhes fica o tal “prestígio” que buscam, pois além de terem comprado bem cara a camisola, ainda fazem publicidade gratuita à marca sempre que a vestem. Eles exibem-se à custa da marca, a marca faz-se pagar bem e ainda se exibe á custa deles. No fim não sei quem ganha mais os adolescentes ou a marca.

 Fazia todos os dias esplêndidos banquetes – O pobre tem banquetes muito de vez em quando, o rico é todos os dias. O pobre diverte-se de tempos a tempos, o rico vive para se divertir. Não vive a vida, goza a vida, consome a vida que para ele não é mais que um passatempo.

O rico não é criticado por ser rico, mas por ser insolidário; as riquezas no evangelho têm o mesmo valor que os talentos, não são para ser possuídas, mas para ser usadas para o bem comum, pelo que devem ser bem administradas. Quanto maior é o poder económico de um individuo, maior é a sua responsabilidade social. Como recorda o evangelho, a quem muito lhe foi dado muito lhe será exigido (Lc 12,48). O pobre que se senta à nossa porta, ou que se cruza no nosso caminho, nem sempre é o que necessita de pão e vestido; às vezes só necessita que lhe demos tempo e ouvidos; muitas são as necessidades da pessoa humana e muitas são as formas de ajudar.

Para o rico, Lázaro não era mais que um aspecto da paisagem à qual se tinha acostumado. O seu modo de vida na opulência tinha-o anestesiado, insensibilizado perante a miséria e o sofrimento do que jazia à sua porta. Ao contrário do rico, a parábola diz-nos o nome do pobre, Eleazar que em hebreu significa “Deus ajuda”. Sozinho, sem sustento e doente, este pobre está às portas da vida, do lado de fora, na esperança de poder alimentar-se com as migalhas caídas da mesa farta do rico, mas nem isso lhe é dado. Jesus, o autor da parábola, termina a primeira vinheta ou quadradinho dizendo que os cães vinham lamber as chagas ao pobre Lázaro. Os humanos têm para com Lázaro uma atitude inumana e irracional; ao contrário os cães, seres irracionais, têm para com o pobre uma atitude “humana”.

Na verdade, ele tomou sobre si as nossas doenças, carregou as nossas dores. (…) Ferido por causa dos nossos crimes, esmagado por causa das nossas iniquidades. O castigo que nos salva caiu sobre ele, fomos curados pelas suas chagas (Isaías 53, 4-5).

Segundo o canto de Yaveh de Isaías, as chagas de Cristo têm para nós poder curativo. Da mesma forma, a salvação do rico estava nas chagas do pobre Lázaro, porque como diz Mateus 25, o que fizestes a um destes pequeninos foi a mim que o fizestes. “Quem dá aos pobres empresta a Deus” diz o ditado. De facto se os ricos salvam os pobres nesta vida, são os pobres que salvam os ricos na vida futura. São os cães que se aproveitam das propriedades curativas das chagas. Recordemos que os judeus chamavam cães aos pagãos; são precisamente os pagãos que se salvam pelas chagas de Cristo.

Vale de prazeres – Vale de lágrimas
Eventualmente a morte chega para os dois, e como ela a parábola apresenta-nos o segundo quadradinho ou vinheta. Lázaro, que antes vivia num “vale de lágrimas”, passa agora a viver num “vale de prazeres”; ao contrário o rico, que vivia num “vale de prazeres”, passa agora a viver num “vale de lágrimas”. Invertem-se os cenários com a diferença de que na primeira vinheta tanto as lágrimas como os prazeres eram temporais; “não há mal que sempre dure nem bem que sempre ature”, na segunda os prazeres e as lágrimas são eternos.

Existe uma fatalidade na forma como a morte do rico é descrita; morre e é sepultado, como para dizer para ele acabou tudo. O inferno é, portanto, a morte eterna que se contrapõe á vida eterna. As poucas vezes em que, como aqui, na biblia aparece como sofrimento eterno tem um valor pedagógico de nos meter medo, como os pregadores antigos faziam baseados no facto de que temos mais medo do sofrimento que da morte.

Como quase sempre acontece “a morte abre os olhos aos vivos”. De facto o rico, que anteriormente não conseguia ver Lázaro, agora vê-o perfeitamente. Mas continua ainda egoísta; antes não via o pobre porque este não tinha nada para lhe dar, agora, vê-o porque precisa dele. Muitos de nós vemos a vida e as relações humanas como um grande buffet; relacionamo-nos com os outros, não pelo que lhes possamos aportar, mas, pelo que estes possam contribuir para uma melhoria na nossa vida.

O que antes se revestia de linho fino está agora revestido de chamas; e é no meio delas que se lembra de que tem Pai e irmãos e quer que Lázaro seja enviado para os salvar. Abraão refere-lhe que têm os mesmos meios que ele tinha para se salvar, a Lei e os Profetas, que Jesus resume em amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo.

Pensa o rico que se Lázaro ressuscitasse, os seus familiares iam acreditar nele e mudar de vida. Contrariamente a esta crença, sabemos muito bem que quando Jesus ressuscitou um Lázaro, não levou os judeus a acreditarem mais nele, apenas os levou a decidir matar o recém-ressuscitado Lázaro juntamente com Jesus.

A fé continua a ser a única porta para a salvação, não vai haver nenhum sinal do outro mundo, nenhum milagre que prove de forma irrefutável a verdade destas coisas; pela fé vivemos e na fé nos salvamos, não há garantias científicas, nunca as haverá, de que Deus existe e que sustem a vida dos que têm fé aqui agora como a susterá depois da nossa morte.

O pobre que se assoma à nossa janela
O ano passado a Oxfam informou, no Fórum económico Mundial em Davos na Suíça (21-24 janeiro 2015), que este ano 1% da humanidade possuirá mais riqueza que o resto dos 99%. Mais concretamente 1% da humanidade possuirá 54% da riqueza mundial, o resto dos 99% possuirão 46%.

Uma realidade que nos faz pensar… Depois de tanto progresso cientifico e técnico, a raça humana progrediu bem pouco em humanidade, o abismo cada vez maior entre os ricos e os pobres prova inequivocamente que, na raça humana, o que verdadeiramente guia e inspira o comportamento não é a inteligência nem a bondade, como seria desejável, mas sim o instinto egocêntrico e irracional que temos em comum com os animais.

Ao longo da historia da humanidade, a inteligência humana parece ter estado mais ao serviço do egoísmo que do altruísmo; o homem parece que é mais criativo para o mal que para o bem, só desta forma se explicam tantos factos como o holocausto dos judeus, e tantos outros genocídios (o aborto, os crimes de guerra e a própria guerra…). Temos que concluir tristemente que a raça humana supera os animais, não só na sua racionalidade como também na sua irracionalidade.

Nos países pobres ainda se morre de doenças que há muitíssimos anos têm cura: a lepra, a febre tifóide, a tuberculose, e todas as conectadas com a falta de higiene, água potável e alimentação precária… Nos países ricos morre-se pelo excesso de consumo; nos países pobres morre-se por falta de consumo do imprescindível.

Se partilhássemos nem os pobres morriam da pobreza nem os ricos da riqueza. Eramos todos mais saudáveis...

As leis ou o sistema que fez isto possível é simplesmente injusto. O fosso entre os ricos e os pobres vai sempre aumentando. Como o planeta não permite que todos vivam como nós vivemos, há mecanismos que fazem com que os ricos nunca percam a sua riqueza, e o seu nível de vida, e os pobres como Lázaro sejam sempre pobres e não possam sair da sua pobreza, porque se saíssem e consumissem tanto quanto nós consumimos o nosso planeta depressa se tornaria inabitável.

Uma e outra vez se reúnem as potências mundiais para discutir as mudanças climatéricas, que são um sintoma de que o nosso planeta está doente e a doença é provocada pelo nosso abuso dos seus recursos, e pouco se tem conseguido.

Todos sabemos quais serão as consequências e, no entanto, não conseguimos travar os comportamentos que inexoravelmente nos estão a levar a um suicídio coletivo. Há um mês a cidade de Pequim declarou pela primeira vez alerta vermelho, fechou as escolas e os edifícios públicos; o ar estava tão contaminado que além de ser irrespirável dificultava a visibilidade.

O facto de a pobreza ser um problema global cada vez mais difícil de resolver porque o fosso que separa os ricos dos pobres é cada vez maior, não deve motivar a nossa inação. Deus não me vai pedir contas pelos pobres do mundo, mas por aquele que se senta à nossa porta ou se cruza no nosso caminho.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de abril de 2016

O Bom Samaritano

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Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto. Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo. Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante.

Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: 'Trata bem dele e, o que gastares a mais, pagar-to-ei quando voltar.'

Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?» Respondeu: «O que usou de misericórdia para com ele.» Jesus retorquiu: «Vai e faz tu também o mesmo.» Lucas 10, 25-37

A segunda parábola mais conhecida depois do Filho Pródigo, é sem duvida a do Bom Samaritano. De tal forma esta parábola influenciou a cultura ocidental que hoje o termo “samaritano”, mais que referir-se a um habitante da Samaria, aplica-se a toda a pessoa que é solidária, se compadece e ajuda os que estão em dificuldades.

Como ganhar a vida eterna
A parábola está inserida no contexto do diálogo que Jesus tem com um doutor da lei que o interpela sobre o que deveria fazer para ganhar a vida eterna. Jesus, tal como um bom psicoterapeuta não diretivo, ao estilo de Rogers, ajuda-o a buscar ele mesmo a resposta à sua pergunta remetendo-o para a sua leitura da Lei. O doutor da lei diz em resposta o que Jesus quer ouvir; ou seja, em vez de mencionar leis concretas, dá ao amor o estatuto e a importância de uma lei, assumindo que Jesus faria isso mesmo.

A resposta do doutor da lei sintetiza o Antigo Testamento, a Lei e os profetas, ao unir o amor a Deus, descrito no livro do Deuteronómio (6, 4-8), como o amor ao próximo, descrito no livro do Levítico (19, 18). A esta síntese Jesus limitou-se a aprovar dizendo faz isso e viverás; viverás aqui e agora segundo a Lei e entrarás na vida eterna.

Se alguém disser: «Eu amo a Deus», mas tiver ódio ao seu irmão, esse é um mentiroso; pois aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. 1 João, 4,20

Com este texto podemos concluir que o amor a Deus que não se verifica e manifesta no amor ao próximo, não é real nem genuíno; porem, como diz o evangelho, só podemos verdadeiramente amar o próximo, quando entendemos que o fazemos aos outros, o estamos a fazer a Deus. 'Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes. (Mateus 25, 40)

Desta forma estamos de volta ao amor a Deus comos sendo o primordial e o mais importante, porque só quando vemos a Deus como Pai a que vemos o outro como nosso irmão. Se Deus não é Pai de todos, então o meu próximo não é meu irmão, mas sim meu rival, meu inimigo, a quem temo invejo ou odeio. Por melhor que estejam na vida os nossos irmãos de sangue, não os invejamos, da mesma forma quando verdadeiramente amo a Deus como Pai, todas as pessoas que me rodeiam, grandes e pequenos, de perto ou de longe, são meus irmãos de sangue porque Deus é Criador e Pai de tudo e de todos.

Cristianização da gramática
Quem é o meu próximo? – Tal como os outros doutores da lei que vieram ter com Jesus, também este não veio com a intenção de enfatizar a doutrina de Jesus. A primeira pergunta que faz a Jesus é só a preparação da segunda, na qual pretende denunciar o facto de Jesus não aceitar diferenças entre as pessoas. Portanto, a segunda pergunta deixa supor que há pessoas que podem ser consideradas como próximo e outras, pelo contrário, não. E assim era para os Judeus; eles eram o povo escolhido por Deus, por isso para eles o próximo era o que era da sua mesma tribo e religião; os outros eram gentios, pagãos e como tal não podiam ser tidos como próximo para um Judeu.

 Para Jesus não existe diferença entre pessoas. É o que tenta explicar com a parábola do bom samaritano. Em pleno deserto de Judá jaz um ferido; ninguém o conhece; não se sabe nada dele; o rosto desfigurado, pelo que não podemos ler as feições do seu rosto para o definir etnicamente; meio morto, pelo que não pode falar para sabermos que idioma fala ou que dialeto ou sotaque tem; talvez despojado meio nu, pelo que não sabemos como veste para saber quais são os seus usos e costumes e poder identificá-lo. Jesus não menciona nenhum destes detalhes, porque para Ele não são importantes, a única coisa que é clara é que é um ser humano, isso é o único que conta. A dignidade não está subjugada a diferenças étnicas, linguísticas ou politicas, mas simplesmente ao facto de ser um ser humano.

Deus é Pai de todos pelo que quando rezamos o Pai Nosso, ninguém deveria ficar excluído do pronome “nosso”. Aliás se levássemos a nossa fé até às últimas consequências, modificaríamos a gramática e aboliríamos todos os pronomes pessoais ficando só com três, pois trinitária é a nossa fé; Eu + Tu = Nós.

Começando por mim pois me reconheço com um ser livre autónomo, distinto de tudo e de todos os que me rodeiam; seguidamente, olhando à minha volta e reconheço um alter ego, um Tu, diferente de mim, mas de igual dignidade; por fim, o facto de precisarmos um do outro, e de termos iguais direitos e deveres, faz surgir uma terceira entidade o “Nós” ou seja o eu e o tu juntos; para alem destes, os restantes podemos descarta-los por ser discriminativos.

Os pronomes “Ele” e “ela” “Vós” e “Eles” estabelecem distinções que ao ser irrelevantes quanto á dignidade da pessoa humana, abrem o passo para a discriminação que pode até estar camuflada no reconhecimento objetivo de diferenças entre pessoas. Uma vez mais, como cristãos que somos, o nosso, do Pai Nosso, deve englobar toda a gente sem distinção e discriminação.

Anatomia geográfica
A ciência diz-nos que o ser humano vem de um tronco comum. Com a filosofia grega na mente, verificamos que a dignidade da pessoa humana está ligada à essência e não aos acidentes. O que Jesus quer que este doutor da lei entenda é que as diferenças étnicas, de género, de posição social, de classe, de cor da pele, de tipo de cabelo etc., são acidentes, ou seja, são formas de existir e nada têm que ver com a essência pois não a alteram. Como a dignidade da pessoa humana provém da essência e não dos acidentes, Jesus conta a parábola na esperança que o seu interlocutor conclua por ele mesmo que o próximo, de cada pessoa humana, é toda a pessoa humana.

Nascidos de um tronco comum, há cinco milhões de anos no vale de Rift na África, as características fisiológicas, que apresentam os seres humanos de hoje, devem-se às condições morfológicas e climatéricas do meio ambiente em que habitaram por muitos milhares de anos. Por exemplo, a cor da pele é proporcional à distância do equador; quanto mais perto mais preta, quanto mais longe mais clara; os Congoleses são os seres humanos mais pretos, os Marroquinos são mais claros que os Congoleses, os Portugueses mais claros que os Marroquinos e os Noruegueses mais claros que os Portugueses.

Com a distância do equador tem que ver também a cor dos olhos e do cabelo; no norte da Europa proliferam os azuis, no centro os castanhos, no Sul os pretos; o mesmo vale para a cor do cabelo; no norte da Europa é louro, no centro castanho, no sul preto. O tamanho do nariz tem que ver com a temperatura do ar; além de o filtrar, o nariz tem também a função de o aquecer, pelo que nos países frios as pessoas têm um nariz maior.

Também tem que ver com a temperatura e incidência do sol o cabelo encaracolado e o cabelo liso. O cabelo encarapinhado dos africanos forma uma caixa de ar a qual permite que o ar circule, protegendo assim a cabeça dos raios solares e do calor. Por fim os olhos dos asiáticos tem que ver com o clima extremo das estepes asiáticas; no inverno muito frio e muita luminosidade, no verão muito vento e pó.

A revolução francesa “avant la lettre”
No ocidente, foi a revolução francesa instituiu a ideia que tem sido a pedra angular da democracia de que pelo nascimento e perante a lei, somos todos iguais; desta forma não há escravo nem senhor, nem nobre e plebeu. No entanto muito antes de sermos iguais perante a lei já eramos iguais perante Deus.

Se observarmos atentamente, verificamos que os ideais da revolução francesa, não são verdadeiramente descoberta dos revolucionários, mas já estavam implícitos no mandamento do amor, a Deus e ao próximo.

Liberdade – Está implícita no mandamento do amar a Deus sobre todas as coisas; só quando amamos a Deus sobre todas as coisas, e sobre todas as pessoas, é que colocamos ordem e hierarquia no nosso coração e somos verdadeiramente livres. Ao prestar vassalagem a um ser Transcendente transcendo-me, coloco-me por cima de todos as coisas que não são Deus; assim e só assim sou verdadeiramente livre.

Igualdade – Está Implícita no mandamento do amar ao próximo como a mim mesmo; o outro é um alter-ego, um outro eu de onde vem o conceito de altruísmo. Não é um estranho, portanto, mas sim uma pessoa de igual dignidade, iguais direitos e deveres. Como me amo a mim mesmo assim devo amar o outro que está na minha frente, nem mais nem menos; a medida da minha autoestima é a medida do meu amor pelo outro, pelo que não há melhor afirmação de igualdade que esta.

Fraternidade – Esta palavra é uma derivação de “frater” que em latim significa irmão. Uma das marcas do cristianismo é o considerar que Deus é Pai de todos, o qual nos faz a todos seus filhos e portanto irmãos entre nós. Por isso tudo o que faço, de bem ou de mal, a um irmão o estou a fazer; e por outro lado, como diz Mateus 25, a Cristo o nosso irmão mais velho o estou a fazer.

Fraternidade é ao mesmo tempo sinónimo de amor ao próximo e de igualdade, pois tendo em mente o conto do Príncipe Encantado que se apaixona pela gata borralheira ou Cinderela, há proverbio que no assegura que “O amor ou nasce entre iguais ou faz as pessoas iguais”. Assim sendo, podemos concluir que igualdade e fraternidade são uma e a mesma coisa. A fraternidade leva á igualdade e a igualdade leva à fraternidade. A liberdade, ou o amor a Deus é o alicerce da vida humana na sua vertente individual; a igualdade ou o amor ao próximo, o alicerce da vida humana na sua vertente social; Uma não existe sem a outra

Ante o dito é inadmissível que existam castas, como na Índia, e que estas ainda hoje pautem as relações entre pessoas a ponto de não serem iguais perante a lei. Como também é inadmissível que os muçulmanos considerem infiéis a todos os que não adoram o seu deus e não se comportam segundo a lei da Sharia.

Religião como opio
Discordamos de Karl Marx quando diz que a religião é o ópio do povo. A religião em si não é ópio, mas a sua pratica pode ser. Uma religião que crie diferenças entre as pessoas, que me leve a relacionar-me com elas diferentemente é opio do povo; porque me aliena, aliena outros e cria ódios e contendas. Uma religião que me afasta dos outros, que desumaniza, que me impede ajudá-las e que busca desculpas para não o fazer é ópio. Uma religião que não me ensina o caminho para sair da minha zona de conforto, do meu egocentrismo, não é sequer uma religião. Religião vem de “religare” relação, a verdadeira religião é a que motiva o maior número de relações possíveis e todas elas baseadas no amor.

O sacerdote e o Levita passam de largo para não serem contaminados e poderem praticar a sua religião, oferecer sacrifícios no templo; por isso têm desculpa, têm alibi; a própria religião os proíbe de fazerem o bem; uma religião que é ópio funciona assim, justifica, ilumina e fundamenta ideologicamente o egoísmo e a inatividade, acabando até por matar a compaixão que surge natural, quando presenciamos o sofrimento humano e até mesmo o sofrimento de um animal. Uma religião assim é uma superestrutura, na linguagem de Karl Marx, que desumaniza o ser humano.

O sacerdote e o levita, algo assim como o padre e diácono nos nossos tempos, são por sua natureza pontífices; ou seja, pontes entre Deus e os homens. A sua função é a de interceder a Deus pelos seus semelhantes; levar Deus aos homens e os homens a Deus. Estes clérigos ficaram-se com a teoria, iam certamente para o templo para interceder pelos homens, mas por um homem genérico inexistente, pois homem era aquele que viram a precisar de ajuda e passaram de largo. A sua religião era ópio e ideologia, pois em vez de os aproximar dos homens e mulheres concretos distanciava-os deles.

A compaixão vem de quem menos se espera, de um homem de negócios, em quem normalmente se presume a ganância e busca do proveito próprio em todo tempo e lugar. Um para quem o tempo é dinheiro e todas as atividades devem ser lucrativas. Sendo um homem de negócios, se alguém tinha “desculpas” para passar de largo era o samaritano, e, no entanto, é precisamente ele que pára e coloca de lado a sua agenda e atende o desafortunado.

Talvez por não ser religioso, o sentimento natural de compaixão não estava anulado ideologicamente pelo que, anacronicamente, é precisamente nele que vemos a compaixão e a misericórdia, atributos de Deus que não os vemos nos religiosos, o sacerdote e o levita, que teoricamente mais perto de Deus, mais deveriam ser como Ele.

O samaritano não só sente compaixão, mas atua com base nessa compaixão; muitos há que sentem e nada fazem. A sua compaixão faz com que coloque o seu programa de lado, não só oferece tempo, a sua montada e ele vai a pé, mas abre os cordões à bolsa, e paga por ele o equivalente ao ordenado de dois dias e comprometendo-se a pagar ainda mais caso fosse necessário. O samaritano é-nos apresentado como um ícone vivo da misericórdia divina, um exemplo que o próprio Cisto nos convida a seguir.

Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericordiae Vultus Papa Francisco.
Pe. Jorge Amaro, IMC



1 de abril de 2016

Perdidos & Achados - Os dois filhos

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A parábola do filho pródigo é sem lugar a dúvidas, a narrativa mais notável de todos os tempos. É realmente uma obra-prima e de alguma forma o ex libris do Evangelho. Para além de “Parábola do filho pródigo” é também chamada a parábola dos dois filhos, pois a atitude pouco louvável do filho mais velho, é parte integrante da história; por esta mesma razão outros chamam-lhe O menos mau de dois maus filhos, e por fim, retirando o protagonismo aos dois filhos para o dar ao Pai, também há quem lhe chame a parábola do Pai Misericordioso.

Disse ainda: «Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: 'Pai, dá-me a parte dos bens que me corresponde.' E o pai repartiu os bens entre os dois.

Disse ainda… - Jesus introduz esta parábola ligando-a às duas precedentes, a da ovelha e da dracma perdidas. Uns perdidos em casa dentro do rebanho:  a dracma, o filho mais velho e as 99 ovelhas que simbolizam os fariseus; outros perdidos para fora do rebanho, a ovelha perdida e o filho pródigo, que simbolizam os publicanos, as prostitutas e os pecadores em geral; para Jesus tanto uns como outros, todos são pecadores necessitados de perdão, doentes necessitados de cura. Na verdade, como diz a Escritura, Todos nós andávamos errantes como ovelhas perdidas, cada um seguindo o seu caminho. Mas o Senhor carregou sobre ele todos os nossos crimes (Isaías 53,6). Cristo morreu por todos porque todos eramos pecadores.

'Pai, dá-me a parte dos bens – Segundo a lei Judaica, um pai não podia dispor da sua propriedade como quisesse. O filho mais velho tinha direito a dois terços e o mais novo a um terço da propriedade (Deuteronómio 21:17). Nesta terceira parábola o drama acentua-se, não se trata já da perda de uma ovelha, um dracma, nem mesmo de parte da propriedade; o que preocupa este pai é a perda do filho. Para entender a aflição daquele pai, recordemos a angústia de Jacob quando julgou ter perdido José, o seu filho mais novo e preferido, por ser filho de Raquel a mulher que ele amou à primeira vista e por quem teve de trabalhar 14 anos.

O drama deste pai, implícito na parábola, é a ingratidão do seu filho mais novo. Pedir a herança antes da morte, da sua morte, é como dizer-lhe: “Para mim já morreste por isso herança deve ser repartida; não vales pelo que és, ou por quem és para mim, mas pelo que tens, como não quero viver contigo não vou ficar aqui à espera da tua morte, quero o que me pertence já”.

E o pai repartiu os bens entre os dois – Apesar de profundamente ofendido pela ingratidão do seu filho, o pai não discute, nem tenta convence-lo de que está a proceder mal; sabe muito bem que o que ele não lhe conseguiu ensinar com amor a vida lho ensinará com dor; o erro e o sofrimento como consequência é muitas vezes parte integrante do processo de aprendizagem. De facto, aprendemos mais com os nossos erros de que com os nossos acertos; neste sentido “Não há males que por bem não venham”.

No respeitar a liberdade do homem, revela Deus Todo-Poderoso a sua impotência. Como não se pode obrigar um adulto a fazer o bem, tal como Deus, quantos pais contemplam como os seus filhos destroem as suas vidas, pelo vício ou a preguiça, sem nada poderem fazer.

Não há mulheres nesta parábola porque as mulheres naquele tempo nem possuíam bens nem eram herdeiras deles; mas vemos um pai com atitudes e rasgos que tradicionalmente são mais próprios de uma mãe, pelo que podemos dizer que a mulher, o caracter feminino, está também presente nesta parábola.

Poucos dias depois, (…) juntando tudo, partiu para uma terra longínqua e por lá esbanjou tudo quanto possuía, numa vida desregrada. Depois de gastar tudo, (…) começou a passar privações. (…) E, caindo em si, disse: 'Quantos jornaleiros de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome!

Caindo em si - Foi preciso cair bem fundo para cair em si e se dar conta da sua situação; passar fome, descer à condição de guardador de porcos, animal impuro por excelência, e nem sequer ter acesso às alfarrobas que estes comiam.

Deus intimior intimo meo est- Deus está para além do meu intimo; pelo que o caminho para Deus passa pelo profundo do meu ser; quando caminhamos para Deus caminhamos para uma maior consciência de nós mesmos; ao contrário, quando voltamos as costas a Deus, como o filho pródigo fez, voltamos as costas a nós mesmos; fora de si como os drogados, os alcoolizados, andou desvairado enquanto fugia de Deus e de si mesmo.

Não aceitava a sua realidade de ser filho de Deus, pelo que de certa forma, voltou à “animalidade”, ao tempo em que os seres humanos ainda primitivos não tinham consciência de si mesmos lá longe na evolução das espécies. Possuídos por uma paixão ou por um vício, quando fazemos o mal andamos fora de nós mesmos; perdemos a autoconsciência, o autocontrole, e a identidade.

Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e vou dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus jornaleiros.' E, levantando-se, foi ter com o pai.

Decide voltar não tanto porque estivesse arrependido, mas porque tem fome… primum vivere deinde filosofare… ao voltar ainda está à procura do seu interesse; volta porque tem fome e precisa de mais bens; não volta por saudades do pai, mas porque na sua casa até os servos estão melhor do que ele como guardador de porcos. Não é digno de ser filho, diz no seu discurso em preparação, e não parece interessado em ser filho.
   
O filho pródigo queria impor-se uma penitência; queria de alguma forma fazer restituição, compensar pelo que ele fez, mas o pai não o deixa concluir o discurso que tinha preparado de antemão, e detém-no após ter escutado a sua confissão.  Deus não precisa de nossa restituição e da nossa penitência para nos perdoar; Deus perdoa e esquece. Mas então e o purgatório? É uma necessidade da nossa natureza e não de Deus; porque Deus perdoa-nos mais facilmente e mais depressa do que nós nos perdoamos a nós mesmos.

Quando ainda estava longe, o pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos. O filho disse-lhe: 'Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho.' Mas o pai disse aos seus servos: 'Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha; dai-lhe um anel para o dedo e sandálias para os pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o; vamos fazer um banquete e alegrar-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado.' E a festa principiou.

Ao longe não é o filho que vê o pai, mas o pai que vê o filho por quem estava à espera, pois nunca deixou de o esperar, nunca se esqueceu dele e refez a sua vida, como se costuma dizer; ao contrário nunca o deu por perdido, nunca prescindiu dele e viveu na esperança de que ele um dia ia voltar. O lugar que ocupamos no seio de Deus não pode ser ocupado por mais ninguém e fica sempre vazio até que regressemos a Ele.

O filho fez um pouco de estrada em direcção ao pai e a ele mesmo, mas foi o pai quem mais estrada fez; pois foi ele que nunca o deu por irremediavelmente perdido, nunca o esqueceu, sempre esteve de atalaia à sua espera, e quando o filho se apresentou como jornaleiro ele sem ressentimentos e cheio de compaixão recebeu-o como filho. Abraça-o, não se abraçam jornaleiros, beija-o como a um filho e de igual para igual pois não o deixa ajoelhar-se, depois coloca-lhe um anel de herdeiro com o selo do poder; veste-lhe a veste melhor de filho predilecto, como Jacob fez com José. Por fim mata o bezerro mais cevado e é festa.

Ora, o filho mais velho (…) ouviu a música e as danças. Chamou um dos servos e perguntou-lhe o que era aquilo. Disse-lhe ele: 'O teu irmão voltou e o teu pai matou o vitelo gordo, porque chegou são e salvo.' Encolerizado, não queria entrar;

O filho que pecou aprendeu uma lição; quantas vezes precisamos de nos ver privados das coisas para nos darmos conta do seu valor. O filho mais novo entendeu o que era o amor do pai porque o negou e porque fugiu para longe dele. O filho mais velho nunca chegou a entender. É precisamente neste sentido que Sto. Agostinho desenvolve a sua teologia da “Felix culpa” referindo-se ao pecado de Adão, e Lutero agrega o seu paradoxo “pecca fortiter”; se pecas peca forte pois só um pecado forte, é motivo para uma forte conversão. A “peccata minuta” do filho mais velho não o demoveu da sua vida também pecaminosa.

'Há já tantos anos que te sirvo sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos; e agora, ao chegar esse teu filho, que gastou os teus bens com meretrizes, mataste-lhe o vitelo gordo.' O pai respondeu-lhe: 'Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado.'» Lucas 15, 11-32

O pecado do filho mais novo foi rejeitar a paternidade do seu pai, o pecado do filho mais velho é o mesmo; também ele não se considera como filho mas como jornaleiro, entendendo o seu pai um capataz justiceiro pelo que lhe obedece não por amor mas por medo. Tal como o jovem rico e os fariseus nunca transgrediu um só mandamento. Cumpriam só a letra da lei porque, como bem dizia Jesus, o seu interior estava cheio de imundícia como fica claro pela forma como o filho mais velho descreve a vida dissoluta do seu irmão. O filho mais velho é, de alguma forma, como os que só se comportam bem diante da polícia e da autoridade; patrão fora dia santo na loja

Um filho verdadeiro partilha a vida e os bens com o pai e comporta-se segundo a “liberdade dos filhos de Deus” (Romanos 8,21). Por isso não precisava de pedir um cabrito pois dispunha da herança que é devida aos que são e se comportam como filhos de Deus (Mateus 25).

De como o filho pródigo gastou o dinheiro não o sabemos do narrador mas do filho mais velho; em todo o texto não se fala de prostitutas até o filho mais velho as mencionar apelando à possibilidade de que o pai fosse puritano e rigoroso contra este tipo de pecados. Há uma certa moralidade católica que julga toda a matéria sexual como pecaminosa e que faz a vista gorda aos pecados de justiça social.

Por outro lado, se psicanalisamos o enfase que o filho mais velho dá à forma como o seu irmão gastou o dinheiro chegamos à conclusão que afinal o filho pródigo só fez o que o irmão mais velho sempre quis e desejou, mas nunca teve a coragem de fazer. É, portanto, uma questão de inveja.

Ao contrário do filho mais novo que chama ao Pai, pai, o filho mais velho ao dirigir-se ao Pai não o trata como tal. E também não trata o irmão como irmão referindo-se a ele como “esse filho teu”. Quando Deus não é Pai os outros não são irmãos, mas sim inimigos ou rivais. Ante os quais sentimos inveja, ressentimento e ódio. Muito se fala do amor ao próximo como sendo o mais importante e a prova de que amamos a Deus; mas é só quando amamos a Deus que o nosso próximo é verdadeiramente próximo e não um estranho.

Uma catequista depois de ter contado a parábola do filho pródigo às crianças pediu-lhes que a contassem por palavras suas. Uma criança recontou parábola tal qual até ao momento em que o filho pródigo aparece no horizonte. Depois disse que quando pai viu o filho agarrou num cacete e pôs-se a correr ao encontro do filho.

No caminho encontrou o filho mais velho que lhe perguntou para onde ia, o pai disse-lhe que ia ao encontro do seu irmão, este ao ouvir que o seu irmão estava de volta agarrou também noutro cacete e foram ambos ao encontro do desgraçado que deixaram meio morto. Depois de terem ambos descarregado toda a raiva acumulada, disseram entre si façamos festa comamos e bebamos à saúde deste tratante.

Desta forma expressou, aquela criança, o que naturalmente qualquer pai do mundo faria, mas Deus Pai não é assim; porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor (Isaías 55. 8).
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de março de 2016

Este ano em Jerusalém!

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A noite passada enquanto dormia/ Sonhei que estava diante do templo/ na cidade velha de Jerusalém/ Ali ouvi vozes de crianças que me pareciam anjos do céu a cantar Jerusalém, Jerusalém, levanta as tuas portas e canta/ Hosana nas alturas, Hosana ao teu Rei.
Musica de Stephen Adams; Letra de Frederick E. Weatherly

Tal como o Natal deixou de ser, para muitos, a celebração do nascimento de Jesus, para ser a festa do Pai Natal e do calor físico e afetivo da intimidade familiar que contrasta com o frio e a neve fora de casa; Assim também a Páscoa deixou de ser a comemoração da paixão, morte e ressurreição de Jesus, para ser a festa do ovo e do coelhinho, que simbolizam o renascer da natureza na Primavera depois do longo letargo do Inverno.

Não sabemos ao certo quando nasceu, nem quando morreu Jesus de Nazaré. A colocação do seu nascimento no solstício de Inverno e da sua morte e ressurreição no equinócio da Primavera foi intencional; mas a intenção não era, como muitos pensam, cristianizar as celebrações pagãs desses eventos astronómicos e mudanças climatéricas.

A intenção era claramente teológica: Jesus nasceu quando os dias começam a crescer, ao fim e começo de um novo ano solar, pois Ele é o Alfa e o Omega, o principio e o fim de tudo quanto existe. Tal como o nosso planeta obtém a sua vida ao revolver-se à volta do sol, Jesus é para nós o sol à volta do qual giramos para obter vida.

Por outro lado, Jesus morreu e ressuscitou quando a terra renasce da morte aparente do inverno; se o outono nos recorda a velhice e o inverno a morte, a primavera, que como diz a cantiga vai e volta sempre, nos recorda a eternidade que conquistamos com o renascer de Cristo.

A pré historia da nossa Páscoa
A Ceia Pascal é uma refeição ritual, que toda família judia celebra, para comemorar a libertação do povo de Israel da escravidão do Egipto. Como ordena o livro do Êxodo (23, 8) durante a refeição deve ser recontada a historia da saída do povo do cativeiro. Ao fim desta ceia os comensais declaram em tom jubiloso “No próximo ano em Jerusalém”. 

Jerusalém foi sempre o objeto da saudade dos judeus da diáspora, expulsos da sua própria pátria; é bem conhecido o lamento destes no cativeiro da Babilónia: se me esquecer de ti, Jerusalém, fique ressequida a minha mão direita! Pegue-se-me a língua ao paladar, se eu não me lembrar de ti, se não fizer de Jerusalém a minha suprema alegria! (Salmo 137, 5-6)

No próximo ano em Jerusalém – Esta frase com a qual termina a ceia pascal é vista por muitos como anacrónica; sendo Israel hoje um estado moderno, ocupando mais ou menos a mesma terra que ocupava no tempo do rei David; vivendo hoje confortavelmente tanto os judeus de Israel com os da diáspora, não faz sentido repetir esta frase, e muito menos para os Judeus que vivem em Jerusalém permanentemente, a menos que a frase tenha um sentido mais escatológico.

Neste sentido para os judeus tradicionais refere-se á vinda do Messias e a reconstrução do templo; para os judeus liberais que não aceitam a ideia do Messias, nem de um judaísmo baseado no templo, a frase pode ter inúmeras interpretações que têm mais que ver com uma Jerusalém ideal e utópica e até celeste que está para vir que com a Jerusalém onde me encontro agora.

A última ceia de Cristo
Depois, tomou o cálice, deu graças e entregou-lho. Todos beberam dele. E Ele disse-lhes: «Isto é o meu sangue da aliança, que vai ser derramado por todos. Em verdade vos digo: não voltarei a beber do fruto da videira até ao dia em que o beba, novo, no Reino de Deus.» Após o canto dos salmos, saíram para o Monte das Oliveiras. (Marcos 14, 24-25)

Alguns dizem que a última ceia de Cristo foi decalcada da tradicional ceia pascal dos judeus, outros opinam que é algo novo. Como a ceia pascal dos judeus comemora a libertação da escravidão do Egipto enquanto que a de Cristo marca o momento de uma libertação maior, a de todo o género humano, qualquer que seja a conclusão da discussão serve o nosso objetivo.

Tal como os judeus de todos os tempos dizem ao fim da ceia pascal, “no próximo ano em Jerusalém” querendo com isto significar a esperança de um mundo melhor, assim como na continuação da vida na Jerusalém celeste, Jesus na última ceia com os seus discípulos ao dizer: não voltarei a beber do fruto da videira até ao dia em que o beba, novo, no Reino de Deus, afirma que esse futuro está para chegar e se cumpre Nele mesmo.

Jerusalém, Jerusalém...
Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados! Quantas vezes Eu quis juntar os teus filhos, como a galinha junta a sua ninhada debaixo das asas, e não quiseste! Agora, ficará deserta a vossa casa. Eu vo-lo digo: Não me vereis até chegar o dia em que digais: Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Lucas 13, 34-35


Jerusalém está dividida em 4 quarteirões: o muçulmano, o Judeu o cristão Arménio e o cristão árabe ou palestino, porque as três religiões do livro a têm por cidade santa. Para o Judaísmo é santa porque está construída à volta do Templo, o centro da fé judaica. Para os cristãos porque Jesus a visitou muitas vezes como bom judeu que era, nela morreu e ressuscitou.

Para os muçulmanos é santa porque estes afirmam que o profeta Maomé numa noite viajou de Meca para Medina e de Medina para Jerusalém, desde onde ascendeu ao céu mais precisamente no Templo no santo dos santos, onde hoje se encontra a mesquita da Rocha; em consequência, para os muçulmanos Jerusalém é a terceira cidade santa depois de Meca e Medina, por esta razão foi invadida logo após a morte do profeta.

Contra a ascensão ao céu de Maomé à imagem e semelhança de Jesus, fala o facto histórico da morte de Maomé, provavelmente por envenenamento, e o seu tumulo na mesquita verde de Medina. Para dar mais força à lenda da ascensão do profeta ao céu, atualmente a Arábia Saudita, contra o parecer de muitos muçulmanos, quer destruir e mesquita e o tumulo, exumando o corpo do profeta, sepultando-o numa sepultura anónima.

Infelizmente, para os que hoje exigem controlo total sobre Jerusalém, esta visita só pode ter sido um sonho, por muito que lhes custe admitir não existe qualquer evidencia ou prova que Maomé tenha viajado em carne e osso a Jerusalém, pois ainda não havia aviões supersónicos naquele tempo.

O que os muçulmanos alegam como facto histórico, o próprio profeta alega ter sido um sonho cujo contexto histórico era o de convencer os mais céticos que ele pertencia à linhagem dos profetas do judaísmo, Abraão, Moisés, Jesus. Ainda em relação a esta vinda a Jerusalém Aicha, a esposa favorita de Maomé, insistiu posteriormente de que nunca se tratou de uma deslocação real, mas sim de uma experiencia espiritual.

A ligação da fé muçulmana à cidade de Jerusalém é extremamente ténue, quando a comparamos com a que existe em relação ao judaísmo e ao cristianismo. A verdadeira razão pela qual os muçulmanos reivindicam Jerusalém como cidade Santa para eles é porque o judaísmo e o cristianismo, que eles a todo custo sempre quiseram suplantar, a declaram santa antes.

Durante todo o ano pelas ruas de Jerusalém observamos peregrinos judeus e cristãos de todo o mundo; os únicos muçulmanos que vemos são os que cá vivem; de facto a cidade está formatada para este tipo de peregrinos, por todo o lado se vêm lojas de souvenirs judeus e cristãos e nenhuma para muçulmanos; por si só a falta de peregrinos muçulmanos é uma prova contundente de que para eles esta cidade não é importante, e muitos deles nem acreditam que Maomé alguma vez esteve aqui.

Sendo a religião muçulmana uma mistura de judaísmo e cristianismo, adaptada â cultura beduína, desde Maomé até aos nossos dias que olham para estas religiões com uma certa inveja e crescem com a mentalidade de “nós também”, se os outros são nós também somos, se os outros têm nós também temos. A invasão de Jerusalém nada tem de diferente da invasão e exterminação do cristianismo em todo o norte de Africa e Turquia; e na Europa desde a península Ibérica até Posters, na França, onde foi parada.

Possuindo já eles duas cidades santas, ao declararem Jerusalém a terceira, estabelecendo-se na colina do templo, coração da fé judaica, deixaram os judeus sem lugar santo, com apenas a parede ocidental do templo, em frente da qual ainda hoje rezam e se lamentam feridos na sua fé e nacionalismo como quem tem um espinho enterrado na carne.

Hoje lugar proibido para os Judeus, a esplanada do Templo, é ocupada por duas mesquitas: a mesquita de Al Aksa ou a da cúpula de prata, e a mesquita da rocha ou a da cúpula dourada, construída sobre o santo dos santos do templo de Salomão, sendo a rocha o lugar onde Abraão ia sacrificar o seu filho Isac. A cúpula dourada pode ser vista desde qualquer angulo da cidade e arredores pelo que é hoje, anacronicamente, o ex libris de Jerusalém.

O conflito entre Israel e a palestina é fundamentalmente um conflito político e não religioso; a religião, no entanto é invocada e instrumentalizada por ambas as partes como desculpa para evitar fazer concessões, pois o que vem mandado por Deus não se discute ou põe em causa ou se abdica.

Uma ponte não se começa a fazer pelo meio, mas sim pelas margens que pretende unir. Do lado de Israel é fundamental que reconheçam o direito da palestina a uma Pátria, como eles tiveram e o mundo lhes deu. Do lado muçulmano é importante que reconheçam que muito do seu comportamento é governado por mitos lendas, e crenças que desafiam a razão pelo que é importante que purifiquem a sua fé de tudo o que está em colisão frontal com a ciência e até mesmo com o sentido comum.

Este ano em Jerusalém
Sobre este monte, (refere-se ao monte Sião Jerusalém) o Senhor do Universo há-de preparar para todos os povos um banquete de manjares suculentos, um banquete de vinhos deliciosos. (…) há-de tirar o véu que cobria todos os povos, o pano que envolvia todas as nações; Ele destruirá a morte para sempre. O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces e fará desaparecer da terra inteira o opróbrio que pesa sobre o seu povo. Isaías 25, 6-8

Como missionário, ao longo de 30 anos de ministério, já celebrei a Páscoa em diferentes países e localidades. Inspirado na tradicional frase de júbilo, que os judeus exclamam ao final de cada ceia Pascal, apetece-me dizer com igual júbilo e com a mesma esperança: Este ano em Jerusalém! Esta é a quarta vez que aqui venho, e espero que ainda não seja a última vez que piso a terra que o redentor pisou, mas é a primeira em que celebro a Páscoa do Senhor onde esta teve lugar há 2000 anos.

Jerusalém significa cidade de Paz, e, no entanto, anacronicamente, hoje dividida em quarto povos antagónicos que continuamente se digladiam, é difícil encontrar lugar que tenha sido palco de tantas guerras. Rezemos para que um dia Jerusalém faça jus ao seu nome e cumpra a profecia de Isaías de um banquete de manjares deliciosos e vinhos generosos.
Pe. Jorge Amaro, IMC

2 de março de 2016

Perdidos & Achados - Uma ovelha e uma dracma

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«Quem de vós, que possua cem ovelhas e tenha perdido uma delas, não deixa as outras noventa e nove no deserto, para ir à procura da que anda perdida, até a encontrar? Quando a encontra, põe-na alegremente aos ombros e, ao chegar a casa, chama os amigos e vizinhos e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida’. Lucas 15, 4-6

A ovelha perdida
Chacais, hienas e lobos são os inimigos declarados das ovelhas. Enquanto a maior parte dos animais matam por necessidade, os lobos não se contentam em degolar uma ovelha e come-la em santa Paz; ao contrário degolam-nas todas e não descansam enquanto virem uma ovelha em pé; parece que sentem prazer em matar.

Quando era criança e pastor levava o meu pequeno rebanho para longe e alguma vez escondia-me das ovelhas para ver a sua reação; as ovelhas comiam tranquilas com um olho na erva outro no pastor, mas se deixavam de ver o pastor levantavam a cabeça, calavam-se os chocalhos, olhavam para todas as direções e se não me viam desatavam numa correria louca à desbandada para regressar a casa, eu levantava-me do meu esconderijo, assobiava e elas voltavam.

Tendo isto em conta, se um pastor estiver sozinho a tomar conta do rebanho, é de todo inverosímil que o abandone, que coloque em risco 99 ovelhas por uma que se perdeu. Ao sumo asseguraria primeiro as 99 e só depois iria em busca da perdida.

Este pastor é especial, e usa uma matemática diferente: para ele, 99 é igual a uma e uma igual a 99. Deus não tem as mesmas prioridades, as 99 são deixadas por uma única.  Conta-se que a uma mãe de 9 filhos, a quem falecera um, lhe foi dito a modo de consolação que não devia chorar pois ainda ficava com 8; ela prontamente espondeu “tenho 8 mas não tenho aquele”. O lugar que ocupamos no coração de Deus não é ocupável por outra pessoa. É aqui que reside a dignidade da pessoa humana, somos únicos para Deus; pelo que, quando alguém se perde Deus fica à espera, como o pai do filho pródigo, que ele regresse. E de facto, no caso da parábola, o filho pródigo veio ocupar o lugar que só a ele pertencia e que ninguém mais podia ocupar.

No entanto, segundo a nossa mentalidade, as 99 têm razão para se ressentir e nós vemos esse ressentimento no filho mais velho da parábola dos dois filhos. Dando voz ao ressentimento do segundo filho, podemos dizer, essa ovelha que se perdeu se calhar não quer ser encontrada, tem o que merecia por se portar mal.

Para cúmulo, quando a encontra não a traz de rastos a xutos ou a pontapés, mas coloca-a aos ombros e não só faz uma grande festa como até tem o desplante de dizer que haverá mais alegria no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não precisam de se arrepender. (Lc 15, 7).

Pastoral ou Evangelização?
A contrário deste pastor divino, a Igreja pouco se importou com a ovelha perdida dizendo-se ainda temos 99 para cuidar. Para estas 99 apareceram montes de pastorais: pastoral universitária, pastoral da juventude, pastoral dos doentes etc…

Hoje estatisticamente 99 são as perdidas e uma só faz ainda parte do rebanho. Apesar de se ter invertido a parábola, a atitude passiva dos pastores, que agora se dedicam a engordar uma só ovelha, não mudou. Ainda temos uma, dirão agora…

Será que faz ainda sentido continuar a dizer pastoral disto ou daquilo? Quando dizemos pastoral universitária ou pastoral sanitária, não é muita pretensão da nossa parte considerar ovelhas do nosso rebanho os dois mil alunos de uma universidade ou as centenas de doentes de um hospital?

Se colocássemos a palavra evangelização onde antes colocávamos pastoral faríamos mais jus à realidade; seriamos mais honestos connosco próprios e por ventura esta realidade nua a crua nos levaria a trocar a atitude passiva do pastor pela proactiva do “pescador de homens” que Jesus tanto queria que fossemos.

Misericórdia & Missão
E a verdade é que tudo o que foi escrito no passado foi escrito para nossa instrução, a fim de que, pela paciência e pela consolação, que nos dão as Escrituras, tenhamos esperança. Que o Deus da paciência e da consolação vos conceda toda a união nos mesmos sentimentos, uns com os outros, segundo a vontade de Cristo Jesus. Romanos 15, 4-5

Neste sentido podemos ver a misericórdia como forma de Missão e a Missão como obra de misericórdia. E é precisamente isso que sugere o logotipo do ano da Misericórdia, proclamado pelo Papa Francisco. Ir em busca da ovelha perdida é ao mesmo tempo uma obra de misericórdia e missão como nova evangelização. De facto, no logotipo, a guisa de ovelha perdida, aos ombros do bom Pastor não vem uma ovelha, mas sim um ser humano, ou seja, o filho pródigo.

Não havendo melhor consolação que viver o evangelho, que nos acalenta e ser testemunhas dele para que outros usufruam dessa mesma consolação, façamos missão no sentido de Isaías que diz, "Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus". (Is 40,1)

A dracma perdida
Ou qual é a mulher que, tendo dez dracmas, se perde uma, não acende a candeia, não varre a casa e não procura cuidadosamente até a encontrar? E, ao encontrá-la, convoca as amigas e vizinhas e diz: 'Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma perdida.' Digo-vos: Assim há alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se converte.» Lucas 15, 8-10

Ficamos escandalizados com a atitude de Jesus para com as 99. No entanto para Jesus as 99 também estão perdidas, a diferença é que a ovelha perdida e o filho pródigo perderam-se para fora do redil: a dracma, o filho mais velho, e as 99 nunca saíram de casa mas em casa, viviam como perdidos, de Deus e de si mesmos.

Uma dracma era um dia de trabalho, portanto foi muito o que se perdeu. A mulher varre a casa na esperança de a encontrar ao encontra-la faz festa; Deus faz festa por cada um de nós.

Os que lá vão são os piores
É certo que esta lamuria tem servido a muitos como justificação da sua não participação nos sacramentos, considerando-se, mesmo assim cristãos, mas não praticantes; porém o mau exemplo que dão, nos caminhos da vida, os cristãos praticantes, faz esta afirmação não poucas vezes verdadeira; ou seja, em nada se nota nas suas vidas que as práticas surtam algum efeito existencialmente.

Por esta razão seria bom que se criasse algum mecanismo pelo qual os cristãos pudessem fazer uma psicanalise às razões pelas quais praticam os sacramentos; que se verificasse o lugar que ocupa a pratica religiosa nas suas vidas e verificar se é motor de uma vida nova em continua conversão e progresso, ou se ao contrário, aliena e justifica um certo modus vivendi ou status quo..

Quando vivia na Etiópia verifiquei como a ignorância matava muitos doentes de tuberculose. Virgens aos antibióticos, os doentes etíopes aos dois meses de tomar a estreptomicina sentindo-se completamente curados abandonavam o tratamento. Bem sabíamos nós que não estavam completamente curados e quando a doença voltava era muito mais virulenta e resistente aos antibióticos pelo que muitos morriam.

Neste sentido, a Organização Mundial da Saúde alerta ao abuso de antibióticos para pequenas moléstias pois faz com que o corpo se habitue a eles e quando são realmente precisas já não surtem qualquer feito. Isto mesmo acontece a nível eclesial, os sacramentos são autênticos antibióticos para matar os micróbios e as bactérias do mal; mas quando se abusa deles, ou se praticam por rotina, deixam de surtir efeito.

Também a Palavra de Deus, que muitas vezes ouvem os cristãos praticantes, corre o risco de soar a “Dejà vu” pelo que já nem penetra no nosso íntimo, desta feita transformamo-nos no primeiro terreno da parábola do semeador.

Ao combinar as duas parábolas, concluímos que as 99 ovelhas não estavam menos perdidas que uma. No rebanho do Senhor nem estão todos os que são nem são todos os que estão.
Pe. Jorge Amaro, IMC