15 de março de 2016

Este ano em Jerusalém!

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A noite passada enquanto dormia/ Sonhei que estava diante do templo/ na cidade velha de Jerusalém/ Ali ouvi vozes de crianças que me pareciam anjos do céu a cantar Jerusalém, Jerusalém, levanta as tuas portas e canta/ Hosana nas alturas, Hosana ao teu Rei.
Musica de Stephen Adams; Letra de Frederick E. Weatherly

Tal como o Natal deixou de ser, para muitos, a celebração do nascimento de Jesus, para ser a festa do Pai Natal e do calor físico e afetivo da intimidade familiar que contrasta com o frio e a neve fora de casa; Assim também a Páscoa deixou de ser a comemoração da paixão, morte e ressurreição de Jesus, para ser a festa do ovo e do coelhinho, que simbolizam o renascer da natureza na Primavera depois do longo letargo do Inverno.

Não sabemos ao certo quando nasceu, nem quando morreu Jesus de Nazaré. A colocação do seu nascimento no solstício de Inverno e da sua morte e ressurreição no equinócio da Primavera foi intencional; mas a intenção não era, como muitos pensam, cristianizar as celebrações pagãs desses eventos astronómicos e mudanças climatéricas.

A intenção era claramente teológica: Jesus nasceu quando os dias começam a crescer, ao fim e começo de um novo ano solar, pois Ele é o Alfa e o Omega, o principio e o fim de tudo quanto existe. Tal como o nosso planeta obtém a sua vida ao revolver-se à volta do sol, Jesus é para nós o sol à volta do qual giramos para obter vida.

Por outro lado, Jesus morreu e ressuscitou quando a terra renasce da morte aparente do inverno; se o outono nos recorda a velhice e o inverno a morte, a primavera, que como diz a cantiga vai e volta sempre, nos recorda a eternidade que conquistamos com o renascer de Cristo.

A pré historia da nossa Páscoa
A Ceia Pascal é uma refeição ritual, que toda família judia celebra, para comemorar a libertação do povo de Israel da escravidão do Egipto. Como ordena o livro do Êxodo (23, 8) durante a refeição deve ser recontada a historia da saída do povo do cativeiro. Ao fim desta ceia os comensais declaram em tom jubiloso “No próximo ano em Jerusalém”. 

Jerusalém foi sempre o objeto da saudade dos judeus da diáspora, expulsos da sua própria pátria; é bem conhecido o lamento destes no cativeiro da Babilónia: se me esquecer de ti, Jerusalém, fique ressequida a minha mão direita! Pegue-se-me a língua ao paladar, se eu não me lembrar de ti, se não fizer de Jerusalém a minha suprema alegria! (Salmo 137, 5-6)

No próximo ano em Jerusalém – Esta frase com a qual termina a ceia pascal é vista por muitos como anacrónica; sendo Israel hoje um estado moderno, ocupando mais ou menos a mesma terra que ocupava no tempo do rei David; vivendo hoje confortavelmente tanto os judeus de Israel com os da diáspora, não faz sentido repetir esta frase, e muito menos para os Judeus que vivem em Jerusalém permanentemente, a menos que a frase tenha um sentido mais escatológico.

Neste sentido para os judeus tradicionais refere-se á vinda do Messias e a reconstrução do templo; para os judeus liberais que não aceitam a ideia do Messias, nem de um judaísmo baseado no templo, a frase pode ter inúmeras interpretações que têm mais que ver com uma Jerusalém ideal e utópica e até celeste que está para vir que com a Jerusalém onde me encontro agora.

A última ceia de Cristo
Depois, tomou o cálice, deu graças e entregou-lho. Todos beberam dele. E Ele disse-lhes: «Isto é o meu sangue da aliança, que vai ser derramado por todos. Em verdade vos digo: não voltarei a beber do fruto da videira até ao dia em que o beba, novo, no Reino de Deus.» Após o canto dos salmos, saíram para o Monte das Oliveiras. (Marcos 14, 24-25)

Alguns dizem que a última ceia de Cristo foi decalcada da tradicional ceia pascal dos judeus, outros opinam que é algo novo. Como a ceia pascal dos judeus comemora a libertação da escravidão do Egipto enquanto que a de Cristo marca o momento de uma libertação maior, a de todo o género humano, qualquer que seja a conclusão da discussão serve o nosso objetivo.

Tal como os judeus de todos os tempos dizem ao fim da ceia pascal, “no próximo ano em Jerusalém” querendo com isto significar a esperança de um mundo melhor, assim como na continuação da vida na Jerusalém celeste, Jesus na última ceia com os seus discípulos ao dizer: não voltarei a beber do fruto da videira até ao dia em que o beba, novo, no Reino de Deus, afirma que esse futuro está para chegar e se cumpre Nele mesmo.

Jerusalém, Jerusalém...
Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados! Quantas vezes Eu quis juntar os teus filhos, como a galinha junta a sua ninhada debaixo das asas, e não quiseste! Agora, ficará deserta a vossa casa. Eu vo-lo digo: Não me vereis até chegar o dia em que digais: Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Lucas 13, 34-35


Jerusalém está dividida em 4 quarteirões: o muçulmano, o Judeu o cristão Arménio e o cristão árabe ou palestino, porque as três religiões do livro a têm por cidade santa. Para o Judaísmo é santa porque está construída à volta do Templo, o centro da fé judaica. Para os cristãos porque Jesus a visitou muitas vezes como bom judeu que era, nela morreu e ressuscitou.

Para os muçulmanos é santa porque estes afirmam que o profeta Maomé numa noite viajou de Meca para Medina e de Medina para Jerusalém, desde onde ascendeu ao céu mais precisamente no Templo no santo dos santos, onde hoje se encontra a mesquita da Rocha; em consequência, para os muçulmanos Jerusalém é a terceira cidade santa depois de Meca e Medina, por esta razão foi invadida logo após a morte do profeta.

Contra a ascensão ao céu de Maomé à imagem e semelhança de Jesus, fala o facto histórico da morte de Maomé, provavelmente por envenenamento, e o seu tumulo na mesquita verde de Medina. Para dar mais força à lenda da ascensão do profeta ao céu, atualmente a Arábia Saudita, contra o parecer de muitos muçulmanos, quer destruir e mesquita e o tumulo, exumando o corpo do profeta, sepultando-o numa sepultura anónima.

Infelizmente, para os que hoje exigem controlo total sobre Jerusalém, esta visita só pode ter sido um sonho, por muito que lhes custe admitir não existe qualquer evidencia ou prova que Maomé tenha viajado em carne e osso a Jerusalém, pois ainda não havia aviões supersónicos naquele tempo.

O que os muçulmanos alegam como facto histórico, o próprio profeta alega ter sido um sonho cujo contexto histórico era o de convencer os mais céticos que ele pertencia à linhagem dos profetas do judaísmo, Abraão, Moisés, Jesus. Ainda em relação a esta vinda a Jerusalém Aicha, a esposa favorita de Maomé, insistiu posteriormente de que nunca se tratou de uma deslocação real, mas sim de uma experiencia espiritual.

A ligação da fé muçulmana à cidade de Jerusalém é extremamente ténue, quando a comparamos com a que existe em relação ao judaísmo e ao cristianismo. A verdadeira razão pela qual os muçulmanos reivindicam Jerusalém como cidade Santa para eles é porque o judaísmo e o cristianismo, que eles a todo custo sempre quiseram suplantar, a declaram santa antes.

Durante todo o ano pelas ruas de Jerusalém observamos peregrinos judeus e cristãos de todo o mundo; os únicos muçulmanos que vemos são os que cá vivem; de facto a cidade está formatada para este tipo de peregrinos, por todo o lado se vêm lojas de souvenirs judeus e cristãos e nenhuma para muçulmanos; por si só a falta de peregrinos muçulmanos é uma prova contundente de que para eles esta cidade não é importante, e muitos deles nem acreditam que Maomé alguma vez esteve aqui.

Sendo a religião muçulmana uma mistura de judaísmo e cristianismo, adaptada â cultura beduína, desde Maomé até aos nossos dias que olham para estas religiões com uma certa inveja e crescem com a mentalidade de “nós também”, se os outros são nós também somos, se os outros têm nós também temos. A invasão de Jerusalém nada tem de diferente da invasão e exterminação do cristianismo em todo o norte de Africa e Turquia; e na Europa desde a península Ibérica até Posters, na França, onde foi parada.

Possuindo já eles duas cidades santas, ao declararem Jerusalém a terceira, estabelecendo-se na colina do templo, coração da fé judaica, deixaram os judeus sem lugar santo, com apenas a parede ocidental do templo, em frente da qual ainda hoje rezam e se lamentam feridos na sua fé e nacionalismo como quem tem um espinho enterrado na carne.

Hoje lugar proibido para os Judeus, a esplanada do Templo, é ocupada por duas mesquitas: a mesquita de Al Aksa ou a da cúpula de prata, e a mesquita da rocha ou a da cúpula dourada, construída sobre o santo dos santos do templo de Salomão, sendo a rocha o lugar onde Abraão ia sacrificar o seu filho Isac. A cúpula dourada pode ser vista desde qualquer angulo da cidade e arredores pelo que é hoje, anacronicamente, o ex libris de Jerusalém.

O conflito entre Israel e a palestina é fundamentalmente um conflito político e não religioso; a religião, no entanto é invocada e instrumentalizada por ambas as partes como desculpa para evitar fazer concessões, pois o que vem mandado por Deus não se discute ou põe em causa ou se abdica.

Uma ponte não se começa a fazer pelo meio, mas sim pelas margens que pretende unir. Do lado de Israel é fundamental que reconheçam o direito da palestina a uma Pátria, como eles tiveram e o mundo lhes deu. Do lado muçulmano é importante que reconheçam que muito do seu comportamento é governado por mitos lendas, e crenças que desafiam a razão pelo que é importante que purifiquem a sua fé de tudo o que está em colisão frontal com a ciência e até mesmo com o sentido comum.

Este ano em Jerusalém
Sobre este monte, (refere-se ao monte Sião Jerusalém) o Senhor do Universo há-de preparar para todos os povos um banquete de manjares suculentos, um banquete de vinhos deliciosos. (…) há-de tirar o véu que cobria todos os povos, o pano que envolvia todas as nações; Ele destruirá a morte para sempre. O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces e fará desaparecer da terra inteira o opróbrio que pesa sobre o seu povo. Isaías 25, 6-8

Como missionário, ao longo de 30 anos de ministério, já celebrei a Páscoa em diferentes países e localidades. Inspirado na tradicional frase de júbilo, que os judeus exclamam ao final de cada ceia Pascal, apetece-me dizer com igual júbilo e com a mesma esperança: Este ano em Jerusalém! Esta é a quarta vez que aqui venho, e espero que ainda não seja a última vez que piso a terra que o redentor pisou, mas é a primeira em que celebro a Páscoa do Senhor onde esta teve lugar há 2000 anos.

Jerusalém significa cidade de Paz, e, no entanto, anacronicamente, hoje dividida em quarto povos antagónicos que continuamente se digladiam, é difícil encontrar lugar que tenha sido palco de tantas guerras. Rezemos para que um dia Jerusalém faça jus ao seu nome e cumpra a profecia de Isaías de um banquete de manjares deliciosos e vinhos generosos.
Pe. Jorge Amaro, IMC

2 de março de 2016

Perdidos & Achados - Uma ovelha e uma dracma

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«Quem de vós, que possua cem ovelhas e tenha perdido uma delas, não deixa as outras noventa e nove no deserto, para ir à procura da que anda perdida, até a encontrar? Quando a encontra, põe-na alegremente aos ombros e, ao chegar a casa, chama os amigos e vizinhos e diz-lhes: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a minha ovelha perdida’. Lucas 15, 4-6

A ovelha perdida
Chacais, hienas e lobos são os inimigos declarados das ovelhas. Enquanto a maior parte dos animais matam por necessidade, os lobos não se contentam em degolar uma ovelha e come-la em santa Paz; ao contrário degolam-nas todas e não descansam enquanto virem uma ovelha em pé; parece que sentem prazer em matar.

Quando era criança e pastor levava o meu pequeno rebanho para longe e alguma vez escondia-me das ovelhas para ver a sua reação; as ovelhas comiam tranquilas com um olho na erva outro no pastor, mas se deixavam de ver o pastor levantavam a cabeça, calavam-se os chocalhos, olhavam para todas as direções e se não me viam desatavam numa correria louca à desbandada para regressar a casa, eu levantava-me do meu esconderijo, assobiava e elas voltavam.

Tendo isto em conta, se um pastor estiver sozinho a tomar conta do rebanho, é de todo inverosímil que o abandone, que coloque em risco 99 ovelhas por uma que se perdeu. Ao sumo asseguraria primeiro as 99 e só depois iria em busca da perdida.

Este pastor é especial, e usa uma matemática diferente: para ele, 99 é igual a uma e uma igual a 99. Deus não tem as mesmas prioridades, as 99 são deixadas por uma única.  Conta-se que a uma mãe de 9 filhos, a quem falecera um, lhe foi dito a modo de consolação que não devia chorar pois ainda ficava com 8; ela prontamente espondeu “tenho 8 mas não tenho aquele”. O lugar que ocupamos no coração de Deus não é ocupável por outra pessoa. É aqui que reside a dignidade da pessoa humana, somos únicos para Deus; pelo que, quando alguém se perde Deus fica à espera, como o pai do filho pródigo, que ele regresse. E de facto, no caso da parábola, o filho pródigo veio ocupar o lugar que só a ele pertencia e que ninguém mais podia ocupar.

No entanto, segundo a nossa mentalidade, as 99 têm razão para se ressentir e nós vemos esse ressentimento no filho mais velho da parábola dos dois filhos. Dando voz ao ressentimento do segundo filho, podemos dizer, essa ovelha que se perdeu se calhar não quer ser encontrada, tem o que merecia por se portar mal.

Para cúmulo, quando a encontra não a traz de rastos a xutos ou a pontapés, mas coloca-a aos ombros e não só faz uma grande festa como até tem o desplante de dizer que haverá mais alegria no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não precisam de se arrepender. (Lc 15, 7).

Pastoral ou Evangelização?
A contrário deste pastor divino, a Igreja pouco se importou com a ovelha perdida dizendo-se ainda temos 99 para cuidar. Para estas 99 apareceram montes de pastorais: pastoral universitária, pastoral da juventude, pastoral dos doentes etc…

Hoje estatisticamente 99 são as perdidas e uma só faz ainda parte do rebanho. Apesar de se ter invertido a parábola, a atitude passiva dos pastores, que agora se dedicam a engordar uma só ovelha, não mudou. Ainda temos uma, dirão agora…

Será que faz ainda sentido continuar a dizer pastoral disto ou daquilo? Quando dizemos pastoral universitária ou pastoral sanitária, não é muita pretensão da nossa parte considerar ovelhas do nosso rebanho os dois mil alunos de uma universidade ou as centenas de doentes de um hospital?

Se colocássemos a palavra evangelização onde antes colocávamos pastoral faríamos mais jus à realidade; seriamos mais honestos connosco próprios e por ventura esta realidade nua a crua nos levaria a trocar a atitude passiva do pastor pela proactiva do “pescador de homens” que Jesus tanto queria que fossemos.

Misericórdia & Missão
E a verdade é que tudo o que foi escrito no passado foi escrito para nossa instrução, a fim de que, pela paciência e pela consolação, que nos dão as Escrituras, tenhamos esperança. Que o Deus da paciência e da consolação vos conceda toda a união nos mesmos sentimentos, uns com os outros, segundo a vontade de Cristo Jesus. Romanos 15, 4-5

Neste sentido podemos ver a misericórdia como forma de Missão e a Missão como obra de misericórdia. E é precisamente isso que sugere o logotipo do ano da Misericórdia, proclamado pelo Papa Francisco. Ir em busca da ovelha perdida é ao mesmo tempo uma obra de misericórdia e missão como nova evangelização. De facto, no logotipo, a guisa de ovelha perdida, aos ombros do bom Pastor não vem uma ovelha, mas sim um ser humano, ou seja, o filho pródigo.

Não havendo melhor consolação que viver o evangelho, que nos acalenta e ser testemunhas dele para que outros usufruam dessa mesma consolação, façamos missão no sentido de Isaías que diz, "Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus". (Is 40,1)

A dracma perdida
Ou qual é a mulher que, tendo dez dracmas, se perde uma, não acende a candeia, não varre a casa e não procura cuidadosamente até a encontrar? E, ao encontrá-la, convoca as amigas e vizinhas e diz: 'Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma perdida.' Digo-vos: Assim há alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se converte.» Lucas 15, 8-10

Ficamos escandalizados com a atitude de Jesus para com as 99. No entanto para Jesus as 99 também estão perdidas, a diferença é que a ovelha perdida e o filho pródigo perderam-se para fora do redil: a dracma, o filho mais velho, e as 99 nunca saíram de casa mas em casa, viviam como perdidos, de Deus e de si mesmos.

Uma dracma era um dia de trabalho, portanto foi muito o que se perdeu. A mulher varre a casa na esperança de a encontrar ao encontra-la faz festa; Deus faz festa por cada um de nós.

Os que lá vão são os piores
É certo que esta lamuria tem servido a muitos como justificação da sua não participação nos sacramentos, considerando-se, mesmo assim cristãos, mas não praticantes; porém o mau exemplo que dão, nos caminhos da vida, os cristãos praticantes, faz esta afirmação não poucas vezes verdadeira; ou seja, em nada se nota nas suas vidas que as práticas surtam algum efeito existencialmente.

Por esta razão seria bom que se criasse algum mecanismo pelo qual os cristãos pudessem fazer uma psicanalise às razões pelas quais praticam os sacramentos; que se verificasse o lugar que ocupa a pratica religiosa nas suas vidas e verificar se é motor de uma vida nova em continua conversão e progresso, ou se ao contrário, aliena e justifica um certo modus vivendi ou status quo..

Quando vivia na Etiópia verifiquei como a ignorância matava muitos doentes de tuberculose. Virgens aos antibióticos, os doentes etíopes aos dois meses de tomar a estreptomicina sentindo-se completamente curados abandonavam o tratamento. Bem sabíamos nós que não estavam completamente curados e quando a doença voltava era muito mais virulenta e resistente aos antibióticos pelo que muitos morriam.

Neste sentido, a Organização Mundial da Saúde alerta ao abuso de antibióticos para pequenas moléstias pois faz com que o corpo se habitue a eles e quando são realmente precisas já não surtem qualquer feito. Isto mesmo acontece a nível eclesial, os sacramentos são autênticos antibióticos para matar os micróbios e as bactérias do mal; mas quando se abusa deles, ou se praticam por rotina, deixam de surtir efeito.

Também a Palavra de Deus, que muitas vezes ouvem os cristãos praticantes, corre o risco de soar a “Dejà vu” pelo que já nem penetra no nosso íntimo, desta feita transformamo-nos no primeiro terreno da parábola do semeador.

Ao combinar as duas parábolas, concluímos que as 99 ovelhas não estavam menos perdidas que uma. No rebanho do Senhor nem estão todos os que são nem são todos os que estão.
Pe. Jorge Amaro, IMC






1 de fevereiro de 2016

Perdidos & Achados - Quem são os pecadores?

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Nas grandes superfícies comerciais, nas Igrejas e em geral onde se encontram grandes multidões há sempre um local para entregar as coisas que uns perdem e outros acham. As crianças perdem-se com frequência, pois não são ainda autónomas e não sabem como orientar-se. No sentido existencial há muita gente perdida e muitos destes acham que não o estão. O evangelho é a melhor loja de perdidos e achados.

Não há capítulo tão conhecido em todo o Novo Testamento como o capítulo 15 do evangelho de São Lucas. É chamado o evangelho dentro do evangelho, pois apresenta e representa a essência da mensagem de Jesus. É também chamado o evangelho da misericórdia.

Comer com pecadores
Os fariseus e os escribas murmuravam entre si, dizendo: «Este homem acolhe os pecadores e come com eles». Lucas 15, 2

O Mestre fala em parábolas quando tem que explicar algo abstracto, como o Reino de Deus, ou quando o interrogam ou criticam o seu comportamento. O capítulo 15, do evangelho de Lucas, é composto por três parábolas sobre a misericórdia; o que motiva estas parábolas foi a crítica dos fariseus sobre o facto de Jesus comer com os pecadores, os socialmente proscritos.

Quem eram os pecadores? – Depois de Sto Agostinho ter dito, “Homo simul justus et peccator”, todos nos consideramos um pouco justos e um pouco pecadores. Afirmar-se justo seria igual a dizer-se santo e por muito fanfarrões que sejamos ninguém se atreveria a tal.

Nos tempos de Jesus não era assim; os mestres da lei, os escribas e os fariseus tinham-se a si mesmos como justos, pecadores eram os cobradores de impostos, porque eram aliados do invasor romano, as prostitutas por razões obvias, os pastores por passarem muito tempo apartados da comunidade e, por regra geral, todo o povo que não se dedicava ao cumprimento da lei com a meticulosidade com que o faziam os profissionais religiosos.

Comer com pecadores - “Junta-te aos bons e serás como eles, junta-te aos maus e serás pior que eles” - Jesus já tinha sido acusado de andar com pecadores, agora porém a acusação é ainda mais forte, ele come com eles à mesa. Na nossa mentalidade ocidental moderna comer com uma pessoa má à mesa nada significa, mas não era assim na mentalidade da gente no tempo de Jesus. No médio oriente a comida é a fonte da vida; os que partilham da mesma fonte de vida estão unidos entre si.

Por esta mesma razão na Etiópia, ainda hoje, os muçulmanos não comem a carne dos cristãos e vice-versa, os cristãos não comem a carne dos muçulmanos. Nas cidades onde vivem cristãos e muçulmanos há talhos de carne para muçulmanos e talhos de carne para cristãos. No acto de abater um animal são ditas orações próprias, pelo que se o animal é abatido por um muçulmano a sua carne é para o consumo exclusivo de muçulmanos; se a comessem os cristãos seriam considerados muçulmanos. Isto mesmo fez um colega meu sacerdote, para ridicularizar esta tradição, em consequência nunca ninguém quis participar nas eucaristias por ele celebradas.

Para os fariseus portanto, se Jesus come com os pecadores significa que é pecador e partilha da mesma vida do pecado com eles. Mas Jesus pensa de outra maneira, come com os pecadores não para se tornar pecador, mas para que os pecadores se tornem como ele. Ao fazer-se amigo dos pecadores e comer com eles, Jesus mostra que a bondade de Deus destina-se a levar os pecadores ao arrependimento (Romanos 2,4)

Mistério da Incarnação - Jesus, viveu com os pecadores, não para se juntar a eles nos seus caminhos pecaminosos, mas para lhes apresentar a boa notícia de que o perdão estava disponível. Muitos foram de facto os pecadores que, ao experimentarem em Jesus o acolhimento, a ausência de crítica, a bondade e o amor incondicional, reconheceram o próprio pecado e converteram-se; exemplo claro disto é o episódio de Zaqueu (Lc 19, 1-10). Do ponto de vista psicológico, ou de “savoir faire”, Jesus usava a melhor estratégia, como dizemos hoje em dia “com fel não se caçam moscas”. Não é com ódio que se vence o inimigo, mas com amor; o ódio ainda o faz mais forte e mais inimigo.

Jesus morreu por nós quando ainda eramos pecadores, (Rom 5,8). A morte de Jesus é o culminar do mistério da encarnação pela qual, segundo Sto Ireneo, “Deus se fez homem para que o homem se faça Deus”. O seu rebaixamento está em função da nossa elevação à categoria de filhos de Deus.

O mistério da encarnação pode ser já antevisto na mensagem do profeta Oseias. Este profeta deliberadamente casa-se com uma prostituta, para que ela se tornasse virgem e voltasse aos tempos do namoro. Com isto queria dizer o profeta que Deus estava casado com um povo infiel, que se prostituía adorando os deuses falsos de Baal; em contrapartida, Deus, representado no profeta, é fiel e não perdeu a esperança de guiar o povo a fidelidade do tempo do noivado ou seja, durante a travessia do deserto desde o Egipto até à terra prometida

Chama a todos porque todos são pecadores
Os fariseus, vendo isto, diziam aos discípulos: «Porque é que o vosso Mestre come com os cobradores de impostos e os pecadores?» Jesus ouviu-os e respondeu-lhes: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício. Porque Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.» (Mt. 9, 11-13)

Jesus não pode ter dito isto aos fariseus e aos doutores da lei sem uma pisca de ironia um tanto ou quanto sarcástica. Deus não quer sacrifícios frios e rituais, mas que reconheçamos que somos pecadores, que estamos em dívida com Ele, que aceitemos o Seu perdão e a Sua misericórdia e depois, como sugere a parábola do credor incompassivo (Mt 18, 23-35 sejamos também misericordiosos com os outros.

“Se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós” (1ª Jo 1,8). Para Jesus ninguém é justo diante de Deus, todos somos pecadores e precisamos da misericórdia divina. Como refere muito bem São João os que, como os fariseus e doutores da lei, se consideram justos, são mentirosos e desonestos, têm não só uma falsa imagem de si mesmos como também uma falsa imagem de Deus.

As três parábolas que se seguem, no capítulo 15 de Lucas também chamado evangelho da misericórdia, ilustram a razão pela qual Jesus, não só anda e come com pecadores, como até escolhe alguns deles para apóstolos.

As primeiras duas, a parábola da Ovelha e da Dracma perdidas são apenas uma introdução à grande parábola do filho pródigo; nelas enunciam-se temas que são depois melhor explicados e desenvolvidos na terceira parábola. Por si só estas duas parábolas, mais que passar uma mensagem, escandalizariam o ouvinte: que sentido tem que um pastor abandone no deserto 99 ovelhas à mercê dos lobos, para ir à procura de uma perdida e festeje o seu encontro?

Da mesma forma também parece ser muito extravagante que uma mulher chame as vizinhas para festejar o encontro de um dracma que tinha perdido em casa. No entanto, quando são seguidas da parábola do filho prodigo servem para despertar a atenção do ouvinte e coloca-lo num estado de maior concentração e em expectativa da parábola seguinte.

Sendo na primeira parábola protagonista um homem e na segunda uma mulher, Jesus quer-nos dizer que vem chamar a todos os pecadores sem distinção de género, nacionalidade, estatuto social, ou quaisquer outras distinções. Por outro lado, quando olhamos para as três parábolas como um todo Jesus quer que concluamos que todos estão perdidos, ou seja todos são pecadores e todos podem ser encontrados e ser recipientes e destinatários da misericórdia divina.

Portanto tão pecadores são a ovelha e o filho pródigo, que se perderam para fora do rebanho e abandonaram a casa do Pai, como a moeda e o filho mais velho que viviam perdidos dentro da casa. Pecadores fora do rebanho e de casa eram os publicanos, as prostitutas e a raia miúda em geral; pecadores dentro do rebando e de casa eram os que se consideravam justos, os fariseus, os doutores da lei e os escribas.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de janeiro de 2016

Ante a miséria misericordia

1 comentário:
Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai. (…) Tal misericórdia tornou-se viva, visível e atingiu o seu clímax em Jesus de Nazaré. Misericordiae Vultus

Deus que ao longo do Antigo Testamento se revelou como sendo misericordioso e clemente, vagaroso na ira, cheio de bondade e de fidelidade, que mantém a sua graça até à milésima geração, que perdoa a iniquidade, a rebeldia e o pecado, (Ex. 34, 6-7) revela o seu verdadeiro rosto em Jesus de Nazaré. Jesus encarna na sua vida mortal a misericórdia de Deus. Vamos ver como, em diversos episódios da sua vida pública.

Compaixão pelas multidões
Contemplando a multidão, encheu-se de compaixão por ela, pois estava cansada e abatida, como ovelhas sem pastor. (…) Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e, cheio de misericórdia para com ela, curou os seus enfermos. (…) Tenho compaixão desta multidão. Há já três dias que permanecem junto de mim e não têm que comer. Se os mandar embora em jejum para suas casas, desfalecerão no caminho, e alguns vieram de longe. Mateus 9, 36; 14, 14; 15, 32

A palavra usada aqui para significar teve compaixão (splagchnizomai) é a mais forte na língua grega quando se fala de misericórdia, comiseração, ter pena de alguém. Vem de splanxma, que significa entranhas, e descreve o grau de compaixão que comove e faz estremecer uma pessoa até ao mais profundo do seu ser. Aparte do seu uso em algumas parábolas, nos evangelhos só é usada nos episódios que aqui nos propomos estudar: Mateus 9,36; 14,14; 20, 34: Marcos 1, 41 e Lucas 7, 13.

O pão da alma - Jesus sente compaixão pelas multidões, pelo povo em geral, porque andam como ovelhas sem pastor. Como dizia Paulo VI, a fome do espirito é bem pior que a fome do corpo. Um espirito subalimentado não é autónomo, não pode guiar a sua vida, não pode chegar à auto-realização e à felicidade. Ante estas multidões errantes, que não encontram o sentido da vida, Jesus ensina-os e apresenta-se ante eles como caminho, verdade e vida; como modelo a seguir.

Em verdade todos nós, tal como ovelhas perdidas, andamos errantes; cada ser humano tomou o seu próprio caminho… (Isaías 53,6). Jesus deu-nos razões para viver, como pessoas individuais e como membros de um povo de um rebanho do qual Ele é o pastor.

A saúde – Cheio de compaixão ante o sofrimento humano causado por varias doenças, Jesus curou-os; afligido com as aflições dos outros, não suportava ver ninguém a sofrer, logo tratava de terminar esse sofrimento. Em vez de dizermos que Jesus é a nossa salvação bem podíamos dizer que é a nossa saúde. “Salus” do latim significa saúde e não salvação. Grande parte da vida de Jesus foi passada sendo médico, curando todo o tipo de doenças porque sem saúde não há vida. Jesus traz saúde para o corpo, saúde para o nosso psiquismo, saúde para a nossa alma, para o nosso espirito, saúde para a nossa consciência moral e a vida passada, saúde para o nosso corpo.

O pão do corpo – Por causa da fome do espírito as pessoas, ávidas das palavras do Senhor, ( porque falava com autoridade dizem os evangelhos ou seja era um autoridade em tudo o que dizia) permaneceram três dias como ele e por fim tinham fome. Jesus não os podia despedir sem lhes dar algo para comer e restaurar as suas forças para o caminho. Isso queriam os apóstolos despacha-los, que fossem eles buscar a comida, mas Jesus insistiu que fossem eles a providenciar….

Primum vivere deinde philosophari - Bem conhecia Jesus a hierarquia das necessidades de Maslow, por isso não se preocupa só com uns aspectos da vida humana, como pretendiam os discípulos que fizesse, mas com todos, por isso não podia deixar ir a multidão sem dar-lhes ele mesmo de comer…. Pão para as nossas bocas, a satisfação das nossas necessidades materiais é o que também pedimos no Pai Nosso.

Compaixão pelos marginados
Quando iam a sair de Jericó, uma grande multidão seguiu Jesus. Nisto, dois cegos que estavam sentados à beira da estrada, ao ouvirem dizer que Jesus ia a passar, começaram a gritar: «Senhor, Filho de David, tem misericórdia de nós!» (…) Jesus parou, chamou-os e perguntou-lhes: «Que quereis que vos faça?» Responderam-lhe: «Senhor, que os nossos olhos se abram!» Dominado pela compaixão, Jesus tocou-lhes nos olhos. Imediatamente recuperaram a vista e seguiram-no. Mateus 20, 29-34

Jericó, a cidade mais antiga do mundo, data do ano 9.000 antes de Cristo. Na bíblia significa e é o símbolo do pecado. A parábola do Samaritano fala-nos de um homem que caiu nas mãos dos salteadores porque descida de Jerusalém para Jericó; vinha da graça para o pecado. Jesus quer salvar a humanidade do pecado, por isso vem a Jericó; encarnou na raça humana que era pecadora. O evangelho mostra-nos Jesus já a sair da cidade acompanhado pela multidão dos que tendo experimentado a salvação agora o seguiam como discípulos.

À beira deste caminho, que leva à salvação, estavam dois cegos, que não podiam andar pela estrada pois não a viam. Ouviram falar daquele que é caminho, verdade e vida e não queriam perder a oportunidade única que agora se lhes apresentava. Há de facto oportunidades que só aparecem uma vez na vida. Por isso apesar do obstáculo da multidão, que os mandava calar, eles gritaram mais forte agarrando-se à única tábua de salvação que era o Senhor.

Jesus pergunta-lhes o que querem, pois podiam não querer mudar de vida, podiam só querer umas moedas para perpetuar a vida de dependência que levavam sem ter de trabalhar; muitos de facto preferem que lhes deem um peixe e não uma cana para pescar. Por isso respeitoso Jesus pergunta e só depois, de ouvir a sua resposta de que de facto querem mudar de vida e também eles abandonar Jericó, o pecado, é que Jesus é dominado pela compaixão e os cura.

Na versão de Marcos (10,46-52) o cego é um só e devia ser bem conhecido pois tem nome e chama-se Bartimeu; é encorajado pelos que antes o queriam calar quando Jesus o chama, e este tão ávido de salvação dá um salto para Jesus, abandonando a capa que o cobria e o ligava a uma vida de dependência, da qual ele se queria libertar.

Compaixão pelos excluídos
Um leproso veio ter com Ele, caiu de joelhos e suplicou: «Se quiseres, podes purificar-me.» Compadecido, Jesus estendeu a mão, tocou-o e disse: «Quero, fica purificado.» Imediatamente a lepra deixou-o, e ficou purificado. Marcos 1, 40-41

Naqueles tempos e em grande medida ainda hoje, como vi na Etiópia, não há doença mais terrível que a lepra; desfigura o rosto, mata-te socialmente muito antes de te matar individualmente. O leproso ainda hoje é forçado a deixar a sua família e a viver numa aldeia onde só vivem leprosos.

Nos tempos de Jesus viviam escondidos e tinham de gritar impuro, se alguém inadvertidamente se abeirava dos lugares onde eles habitavam. O leproso era um vivo morto, e um morto vivo. Quando Jesus envia os seus discípulos em Missão diz-lhe para curar os doentes e limpar os leprosos, (Mt 10,8).

O leproso quebrou a lei de Moisés ao vir ter com Jesus; no entanto Este em vez de o mandar embora, respondeu ao seu desespero com compreensão e compaixão. Jesus quebrou também a lei quando o tocou, mas para Ele o leproso não era um impuro, mas sim uma alma desesperada à procura de ajuda.

Compaixão e projecção
(…) Levavam um defunto a sepultar, filho único de sua mãe, que era viúva; (…) Vendo-a, o Senhor compadeceu-se dela e disse-lhe: «Não chores.» Aproximando-se, tocou no caixão, e os que o transportavam pararam. Disse então: «Jovem, Eu te ordeno: Levanta-te!» O morto sentou-se e começou a falar. E Jesus entregou-o à sua mãe. Lucas 7, 12-15

Filho único de sua mãe, que era viúva – Ao revelar-nos a identidade do defunto, São Lucas, com o mínimo de palavras descreve o máximo de dor; a dor mais excruciante que um ser humano pode suportar. O normal é que os pais partam antes dos filhos e não os filhos antes dos pais; é quase contra as leis da natureza que uma mãe vá sepultar um filho. “Eu não vou sepultar o meu filho, o meu filho é que me vai sepultar a mim” palavras de um pai que sequestrou a sala de operações de um hospital e obrigou os médicos a operar o seu filho, apontando-lhes uma pistola pois ele não tinha dinheiro para pagar a operação.

Para cúmulo, como nos diz o evangelho, esta mulher já era viúva. O seu único filho era também a sua única esperança de vida, pois as mulheres naquele tempo não podiam ter propriedade. Jesus observa a situação e ainda de longe já esta cheio de compaixão pelo que, ao aproximar-se, é ele que toma a iniciativa e dirige a palavra àquela a quem ele quer enxugar as lágrimas.

Tenho para mim que Jesus projectou na viúva de Nain toda a dor que a sua própria mãe, Maria, iria sentir quando, sendo ela também já viúva, fosse sepultar o seu único filho Jesus. Então Jesus fez pela viúva de Nain o que não ia poder fazer pela sua própria mãe. Pôde enxugar as lágrimas da viúva de Nain, mas não pôde enxugar as da sua própria mãe. Não há cena mais enternecedora que a Pietá de Miguel Ângelo, toda uma antítese do Natal, Jesus adulto morto no regaço de sua mãe.

Ante a miséria misericórdia
Os doutores da Lei e os fariseus trouxeram-lhe certa mulher apanhada em adultério, colocaram-na no meio e disseram-lhe: «Mestre, esta mulher foi apanhada a pecar em flagrante adultério. Moisés, na Lei, mandou-nos matar à pedrada tais mulheres. E Tu que dizes?» (…) «Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra (…) Ao ouvirem isto, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher que estava no meio deles. Então, Jesus ergueu-se e perguntou-lhe: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?» Ela respondeu: «Ninguém, Senhor.» Disse-lhe Jesus: «Também Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não tornes a pecar.» João 8, 3-11

Os Judeus queriam colocar o talante misericordioso de Jesus, para com os pecadores, em contradição com a lei de Moisés que no livro do Levítico (20, 10) mandava de facto apedrejar tais mulheres. A atitude de Jesus é tanto mais de louvar se pensarmos que depois de dois mil anos, actualmente, nos países muçulmanos governados pela Sharia isto ainda acontece.

Não é a primeira vez que Jesus é colocado ante um dilema; se não a condena transgride a lei, se a condena contradiz a sua atitude de misericórdia para com os pecadores. Como em outras ocasiões Jesus não obedece aos termos da questão, com o seu silêncio convida os acusadores e também a mulher a um exame de consciência. Ante a insistência dos acusadores, Jesus questiona a sua autoridade como juízes; ao escrever na areia com o dedo recorda, segundo Sto Agostinho, que Deus escreveu as tábuas da lei com o seu dedo, ao mesmo tempo afirma-se como o verdadeiro legislador, aquele que é mais que Moisés. Jesus nem desrespeitou a lei nem contradisse a sua misericórdia.

A nossa tendência é deitar fora o menino com a água da banheira; não conseguirmos distinguir entre o pecado e o pecador. Como era o caso dos fariseus, condenamos mais o pecador que o pecado, porque de facto não estamos isentos; é hipocrisia que pecadores julguem pecadores. Neste, como noutros episódios, Jesus condena o pecado sem condenar o pecador.

Esta mulher foi usada primeiro como instrumento de prazer, por aquele que cometeu adultério com ela; objecto de deleite para todos os que contemplam a sua nudez e se regozijam com a sua vergonha; no seu intento de apedreja-la os fariseus querem usa-la como bode expiatório dos seus próprios pecados; o povo em geral pretende usa-la como objecto do prazer sádico que envolve todos os espectáculos cruéis de linchamentos populares.

Humilhada, ao ver exposto o seu pecado, envergonhada no meio da multidão, desgraçada por ter perdido a sua reputação, aterrada ante a tortura que a esperava. É provável que ante tanta miséria ela mesma desejasse a morte.

Depois de expor a hipocrisia dos que a expuseram, ao fim ficaram só os dois; como diz Sto Agostinho a miséria e a misericórdia. Para não vexa-la ainda mais, sem olhar para ela desde a mansidão, empatia e misericórdia, com que trata as mulheres no evangelho de Lucas, Jesus dirige-se a ela como pessoa e fala-lhe com uma ternura incomensurável, devolvendo-lhe a vida e a dignidade.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de janeiro de 2016

O amor e a eternidade

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Mira que eres linda, que preciosa eres, estando a tu lado, verdad que me siento más cerca de Dios... Antonio Machín

O tempo e o espaço
O tempo é um continuum, ou um devir não espacial, no qual os acontecimentos ocorrem numa sucessão aparentemente irreversível desde o passado, através do presente, em direcção ao futuro. O espaço é a realidade tridimensional na qual toda a matéria existe.

Como ser espácio temporal, o Homem, ocupa um determinado espaço, durante um determinado tempo. É, portanto, um ser limitado, porque está confinado a um espaço e finito porque a ocupação desse espaço tem os dias contados. O amor porém, desfazendo as limitações do tempo e do espaço, faz o Homem eterno.

O amor
Não é fácil definir “amor”. É uma palavra demasiado usada e abusada pelo que tem muitos significados, alguns deles variando até de pessoa para pessoa. Fugindo da complexidade e confusão, que o emaranhado de diferentes conceitos e realidades abrangidos pela mesma palavra gera na nossa cabeça, podíamos reduzir o conceito de amor a dois termos; um mais ético, a benevolência e outro menos ético ou mais natural, o desejo ou a atracção que se sente pela pessoa amada.

Amor como benevolência
Sto. Tomás de Aquino definia amar como querer o bem do outro. Ágape em grego, traduzido para Caritas em latim, amar é descentrar-se de si próprio e fazer o outro objecto e razão do nosso existir. Este é o tipo de amor que permitiu a São Francisco de Assis beijar um leproso, por quem não se sentia minimamente atraído, e a Cristo e os seus seguidores amar os inimigos.

Amor como desejo e atracção
Unindo os dois conceitos gregos de “Eros” e “Filia”, o amor é um sentimento de intenso desejo e atracção, por uma pessoa com quem se busca unir espiritualmente, afectivamente e sexualmente, numa relação intima e romântica.

É certo que as duas acepções de amor podem, e até devem, unir-se numa só. No entanto para simplificar, nesta reflecção, vamos colocar de parte a primeira definição dado que, sempre que vulgarmente se fala de amor fora do contexto religioso, a maior parte das pessoas entende o amor romântico e não o de benevolência.

Amar é experimentar a eternidade no aqui e agora da nossa existência
Fui toda a vida coleccionador de momentos de eternidade Artur Rubinstein.

Para os amantes, ou enamorados, todo o tempo é pouco para estar juntos, e só se apercebem do “fugit tempus” depois de muitas horas em que não foram conscientes dele. Durante essas horas, em que o amor os fez abstrair-se do tempo e do espaço, experimentaram a eternidade. Quando estás junto da pessoa amada o espaço que ocupas com ela esfuma-se, e o tempo pára, porque se perde a consciência de um e de outro; só existes tu e a pessoa amada.

Só o amor pulveriza, faz desaparecer e anula o tempo e o espaço; portanto, a eternidade não existe só na eternidade ela pode ser já experimentada aqui, como prova da sua existência. O ser humano está vocacionado à eternidade e a ela acede pelo amor; aqui e agora de uma forma virtual, para além do espaço e do tempo de uma forma real.

Quando os amantes estão juntos perdem a noção do tempo e do espaço e experimentam virtualmente a eternidade provando que ela existe. Só o amor te pode conduzir à eternidade real porque Deus é amor. Como sugere Artur Rubinstein, quantos mais momentos de eternidade coleccionamos, mais eternos nos tornamos.

“Quality time”
É uma expressão inglesa de difícil tradução. Refere-se ao tempo dedicado exclusivamente para nutrir uma pessoa, ou pessoas amadas, assim como uma actividade de tempo livre, um hobby. Por exemplo, um pai decide não ir ao bar à noite para passar “quality time” com a sua mulher e filhos; um namorado decide pôr os livros de parte para passar “quality time” com a sua namorada.

Time is Money dizem os mesmos ingleses; mas o tempo dedicado à angariação de dinheiro não é tão salutar como o tempo dedicado ao amor; não nos faz perder a noção do tempo e do espaço como o amor o qual prova que não são bens eternos mas temporais; por outro lado, não nos enche as medidas porque o nosso coração foi feito para amar pessoas não bens materiais. Ao contrário dos seres humanos, o tempo dos animais é todo ele gasto na angariação do que precisam para viver; pelo que mortais seremos nós, como eles são, se os copiarmos no uso do nosso tempo.

Eternidade – Amor – Deus - são conceitos que se auto implicam. O acima citado cantor, António Machin, sentia-se mais perto de Deus na companhia e na contemplação da beleza da sua amada. Deus é eterno, existe para além do tempo e do espaço que Ele mesmo criou. 1 João 4, 8 diz que aquele que não ama não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor.

Quem não ama não conhece a Deus nem acede à eternidade, porque a eternidade é Deus e Deus é amor; e se Deus é amor a única forma de O conhecer é amando. O amor é a porta do céu e faz desta terra o Céu para os que amam. Como o amor leva à eternidade, faz experimentar essa mesma eternidade no aqui e agora de quem ama. Vocacionados e chamados a “ser como Deus” é pelo amor, ou seja quando amamos, que participamos da Sua essência e somos como Ele.

O amor é mais forte que a morte
Grava-me como selo em teu coração, como selo no teu braço, porque forte como a morte é o amor, Implacável como o abismo é a paixão; os seus ardores são chamas de fogo, são labaredas divinas. Cântico dos Cânticos 8, 6

Se o amor existe, Deus existe porque é amor; se Deus existe, a eternidade existe, e se a eternidade existe o amor é eterno, e se o amor é eterno não é tão forte como a morte, como diz a amada no Cântico dos Cânticos, mas sim mais forte que a morte. O nosso Camões diz que o amor é fogo que arde sem se ver… A amada do Cântico dos Cânticos diz que essas labaredas são divinas portanto eternas.

Ars lunga vita brevis, o amor é uma arte e como tal é eterno; a vida porém é breve, no entanto quando é gasta no cultivo do amor torna-se eterna, pois só o amor traspõe os umbrais da morte e conduz à eternidade.

Isto mesmo conclui Camões ao narrar num dos seus sonetos o amor bíblico de Jacob por Raquel. Este por causa de esse amor foi obrigado pelo seu tio Labão a servir de pastor por sete anos; depois dos quais o seu tio em vez de lhe dar Raquel deu-lhe Lia a irmã mais velha, com a desculpa de que não podia casar a mais nova sem primeiro casar a mais velha.

O soneto fecha-se com as palavras de Jacob que ao preparar-se psicologicamente para servir o seu tio por mais sete anos para conseguir Raquel exclama: “Mais serviria, se não fora, para tão longo amor tão curta a vida”. O amor é de facto eterno, não pode realizar-se plenamente no tempo, por isso nos conduz à eternidade para aí se realizar na sua plenitude; o amor concede-nos a eternidade quando nós lhe dedicamos a nossa temporalidade, o tempo da nossa vida.

É também por isso que, como Jesus fez, é possível morrer de amor e por amor, pois quem por amor morre nunca morre pois o amor é eterno. Quem por amor dá a vida, nunca a perde; ao contrário, como garante Jesus, é quem não a dá que a perde. (Lc 9,24). Só se dá o que se tem e só se tem o que se dá.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de dezembro de 2015

O menino refugiado que não morreu afogado

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(...) ama o estrangeiro e dá-lhe pão e vestuário. Amarás o estrangeiro, porque foste estrangeiro na terra do Egipto. Deuteronómio 10, 18-19

A crise dos refugiados
Para avaliar de uma forma adequada a crise dos refugiados, como qualquer outro tema e evitar as visões reducionistas a que levam os preconceitos e as xenofobias, não há como enquadrar o tema num contexto espácio temporal mais amplo. Um olhar histórico de maior amplitude geográfica diz-nos que desde que a raça humana nasceu em Africa, no vale de Rift à 5 milões de anos, não parou nunca de deslocar-se.

Dali povoou todos os continentes, e foi na interacção com os diferentes habitats que foram surgindo povos com diferenças fisiológicas, culturais e linguísticas. Estas características ficaram demarcadas em três grupos humanos, não raças pois todos vimos de um tronco comum: Negróide, Caucasianos e Mongolóide.

Nem sempre desenvolvimento significa progresso humano. Os nacionalismos, e a consolidação das fronteiras entre as nações nos séculos XIX e XX, fizeram mais difícil a natural deslocação e mistura de povos, aumentando o racismo e a xenofobia. No mundo antigo os povos moviam-se com relativa facilidade, não havia fronteiras bem definidas, nem guarda das mesmas. Por isso podemos dizer que não há raças, nem raças puras, todo o povo é formado por outros povos.

Costumamos marcar diferenças entre o povo português e os outros povos e, no entanto, também nós somos um povo constituído por várias etnias, por outros povos: Iberos, Celtas, Gregos, Fenícios, Cartagineses, Romanos, Judeus, Alanos, Suevos, Vândalos, Visigodos e Mouros.

Situação na Síria
Governada desde os anos sessenta pela família Al-Assad, a Síria pertence ao conjunto de países muçulmanos que têm resistido ao governo da Sharia. O atual presidente Bashar Al-Assad nem foi derrubado pela América, como Saldam Hussein, nem pela primavera Árabe e pela América como Kadhafi.

Porém ao abusar da força contra a Primavera Árabe, para se manter no poder, criou uma guerra civil complexa entre diferentes etnias e grupos religiosos que lutam, não já só contra o ditador, mas também entre si, em coligações que mudam todos os dias. Aproveitando-se desta confusão surge o Estado Islâmico, em zonas não controladas do Iraque e da Síria. Desta feita, os Sírios viram-se acurralados entre o regime, grupos rebeldes e o extremismo religioso do Estado Islâmico.

Não é difícil entender por que fogem do seu país. O regime de Bashar al-Assad mata impiedosamente civis, com armas químicas e bombas de tambor; O autodenominado Estado Islâmico comete todo tipo de atrocidades como sabemos, assassina todos os que não estejam com eles, tortura, crucifica, viola e submete mulheres e meninas à escravidão sexual; outros grupos como Jabhat al-Nusra fazem outro tanto. 

Os Sírios fogem de um lado para o outro dentro do seu próprio país; de facto, actualmente um terço da população da Síria é refugiada no seu próprio pais; outros 4 milhões deixaram o país, destes 95% vivem em países vizinhos como o Líbano, a Turquia, a Jordânia. Os estados mais ricos do Golfo persa não aceitaram nenhum refugiado, Arabia Saudita, Qatar, Emiratos Árabes, Baharain, Kuwait, Irão.

O mundo não estava preparado para uma crise de refugiados nesta escala, por isso muitos dos campos não tem suficientes recursos pelo que estas populações estão sujeitas à fome, ao frio e à doença. Perdendo a esperança alguns decidiram buscar asilo na Europa, depois de uma viagem por terra e por mar explorados por traficantes, chegam às costas de uma Europa que lhes vira as costas e que ergue muros para que não entrem. Há meses que debatem como reparti-los entre si e ainda não chegaram a um acordo.

Teorias da conspiração preconceitos, clichés, xenofobias e islamofobia
Circulam nas redes sociais opiniões para todos os gostos; pelo geral negativas, cheias de preconceitos clichés e racismo. Na sua grande maioria estas opiniões nada dizem sobre o tema; fazem mais luz sobre a personalidade de quem as cria e sustenta que do tema dos refugiados. Recolhi algumas delas para as expor.

Os países árabes que os ajudem – É certo que os países árabes mais ricos os do golf pérsico não os ajudaram, mas como acima ficou dito a esmagadora maioria dos refugiados vivem nos países árabes vizinhos da Síria.

Por outro lado, o médio oriente não é uma zona estável onde todos querem ir morar; se são xiitas temem os sunitas ou vice-versa, se são cristãos temem os dois, se são ateus os três. O facto de alguns não ajudarem devia a motivar mais a nossa ajuda.

 "Primeiro estão os nossos sem-abrigo!!!" os sem emprego, combater a pobreza infantil etc…  - Pobres sempre os tereis convosco, diz Jesus, desigualdades e problemas sempre os haverá, se esperamos solucionar primeiro estes, para depois nos dedicarmos aos outros, nada faremos nem por uns nem por outros. “Primeiro o pão que está no forno”, este é um problema urgente que requer uma solução já; há homens, mulheres e crianças extenuados depois de uma longa viagem a viver em campos, em condições infra-humanas, que não vão resistir este inverno.

"Se são refugiados, porque é que a maioria são homens?!" – Há mulheres e crianças, famílias inteiras entre os refugiados, mas é fácil de entender o facto de serem, muitos deles, homens. Na nossa imigração também iam primeiro os homens. Os homens vão em busca de um local melhor e de condições, para depois poderem trazer a família, sem a ter de a sujeitar a uma viagem que poderá ter como destino a morte.

“Os refugiados são um cavalo de Tróia do Estado Islâmico!" – A actual crise de refugiados é uma consequência directa da guerra civil na Síria. O que normalmente se entende por islamização da Europa, é um fenómeno que há muito acontece e em grande medida é mais um mito islamofobico, ou uma teoria da conspiração, que outra coisa.

Mesmo que a EU aceitasse os 4 milhões de refugiados, e todos eles fossem muçulmanos, a totalidade dos muçulmanos só aumentaria em 1%, passaria dos atuais 4% para 5%. Diz ainda a teoria da conspiração que os muçulmanos crescem mais que os cristãos; o caso é que uma vez aqui a taxa de crescimento é igual à dos outros europeus. Na Síria a população estava a decrescer antes da guerra civil.

Também dizem que aumenta a criminalidade. A experiência diz-nos que ao obter um emprego começam a descontar para o sistema e a Europa de facto precisa deles. Acetando-os, e integrando-os na nossa sociedade, temos mais a ganhar que perder.

Ante a dita, “potencial” Islamização da Europa, a Chanceler da Alemanha Ângela Merkel opina que, a melhor resposta não é fechar as portas, ou combater os que já entraram, mas sim voltar à Igreja, ter a coragem de ser cristãos, fomentar o diálogo, e aprofundar de novo a Bíblia. Isto nos diz a incontestável líder da Comunidade Europeia, filha de um pastor protestante, nomeada prémio Nobel da Paz 2015 pela sua resposta adequada à crise dos refugiados, apesar de, por isso mesmo, ter perdido popularidade no seu próprio país.

O menino refugiado que não morreu afogado foi, como todos sabemos, o menino Jesus. Para evitar a ira de Herodes, que queria matar o menino, a Sagrada Família fugiu para o Egipto. Afortunadamente o Egipto daquele tempo não era como a Europa de hoje, e o menino Jesus pôde crescer “em sabedoria e em graça” no Egipto até à morte do ditador.

Dejá vue
Quando a Alemanha se quis desfazer de 5 milhões de Judeus houve várias soluções, em cima da mesa, para o problema, antes da solução final que todos conhecemos. Uma dessas soluções era colocar os judeus em comboios para Espanha e dali em barcos para a América. As nações americanas recusaram-se a recebê-los e do Canadá veio a resposta, nenhum são demasiados.

Alguém pode achar um exagero estas comparações ou só o facto de ter mencionado este episódio da segunda guerra mundial. Mas as noticias dizem que esta é a principal crise de refugiados depois da segunda guerra mundial e não há muito, numa manifestação contra os refugiados no leste da Europa, uma das frases em cartaz lamentava os campos de concentração não estarem abertos.

Travar com as rodas ou travar com o motor
Quando nas auto-estradas encontramos descidas de mais de 6% é aconselhável travar com o motor e não com as rodas. Ao travar com o motor, reduzimos a velocidade na sua origem vencendo a inércia e a força da gravidade, de uma forma eficiente e segura; ao contrário, quando não atuamos na origem do movimento, mas na sua manifestação nas rodas, desestabilizamos o carro podendo causar um acidente, porque uma roda pode travar mais que a outra e porque nada fazemos quanto à inércia e força de gravidade, que continuam a empurrar o carro para a frente.

Travar com as rodas - É certo que temos que travar o movimento dos refugidos, mas devemos travá-lo na sua origem, não quando já estão às nossas portas. Quando a União Europeia tinha uma acordo com a Líbia de Kadhafi para impedir que os refugiados cruzassem o mediterrâneo, estava a travar com as rodas. A Inglaterra quer que eles fiquem em França, os Franceses querem que fiquem em Itália, os Italianos que fiquem na Grécia e os Gregos, como o resto dos europeus, querem que fiquem na Turquia. O mesmo se está agora a fazer, com o acordo com a Turquia, para impedir que passem para a europa; ou o que fazem alguns países que os deixam passar para que o problema o tenha o próximo país. Enquanto isto acontece alguns países, do leste europeu, estão já a construir muralhas nas suas fronteiras.

Travar com o motor – Seria procurar resolver o conflito na Síria, coisa que se apresenta difícil; os Sírios sozinhos já provaram, ao longo de 4 anos, que não conseguem; as potências mundiais são tão facciosas como as facções ao interior da Síria. A última conferência de paz, celebrada em Viena, revelou que o mundo em relação à Síria também está dividido numa espécie “fria guerra civil”; temo que enquanto esta não acabar, ou seja, enquanto os Estados Unidos, a Rússia e o Irão não se puserem de acordo, não acabarão as hostilidades na Síria e o fluxo de refugiados.

O menino refugiado que não morreu afogado
Já passaram alguns meses desde que o corpo de um menino refugiado deu à costa desencadeando um onda de solidariedade. Recordemos neste Natal que o menino Jesus, fugindo da ira de Herodes que o queria matar, também teve que buscar refúgio noutro país. Como foi para o bem da humanidade que a fuga da Sagrada Família teve sucesso, assim são e assim sejam todas as fugas.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de dezembro de 2015

Consagrado para a Missão

2 comentários:

Pe. Jorge em Etiópia com crianças e jovens doentes de poliomielite
Quem sou, de onde venho, a onde vou
Quero terminar esta reflexão sobre a vida consagrada com o meu próprio testemunho de sacerdote religioso consagrado para a Missão.

Sou natural de Loriga, uma vila do concelho de Seia, na Serra da Estrela. Há 30 anos que vivo ao serviço da Missão em vários países, Etiópia, Espanha, Inglaterra, Canadá, Estados Unidos e agora em Portugal.

Porque aos 6 anos de idade eu quis ser o que hoje sou, resulta-me difícil ajudar jovens adultos de 20 e mais anos no discernimento da sua vocação; e também me custa entender como tantos sacerdotes abandonam os Institutos Missionários Ad Gentes para serem padres diocesanos. Deixam de ser pescadores de homens, como Jesus queria que fossem os seus discípulos, para serem pastores de um rebanho cada vez mais diminuto.

É certo que a razão que me levou a escolher esta vida não é a mesma pela qual me mantenho nela. A minha vocação surgiu num dia em que um missionário visitou a minha escola e falou das suas aventuras em Africa com tanto entusiasmo que logo despertou, no meu coração de criança, a ânsia de vir um dia a ser aventureiro como ele. Mais tarde, é claro, descobri que o gosto pela aventura foi somente a isca que Deus usou para pescar, para Ele, o meu coração de menino. Fui pescado por Deus como um peixe para mais tarde me transformar, tal como os apóstolos, em pescador de homens.

Os sonhos de criança são incontornáveis; de tal forma estava eu irremovível desta minha resolução que cheguei a bater o pé ao meu pároco, que me queria mandar para o seminário diocesano. Não era o sacerdócio o que mais me atraia na altura, nem agora, mas sim a vida missionária. Depois de fracassadas tentativas de entrar nos Missionários do Verbo Divino em Tortosendo e nos Combonianos de Viseu, entrei para os Missionários da Consolata, em Vila Nova de Poiares, por sugestão do meu mesmo pároco que ante a minha insistência deu o braço a torcer.

“Deixar a vida pelo mundo em pedaços repartida”
Dentro da mesma Igreja existe uma igreja orante e uma militante, seguindo estas linhas, a Vida Consagrada na Igreja divide-se em duas grandes vertentes activa e contemplativa. Variando os carismas a vida contemplativa baseada fundamentalmente na regra de São Bento, “Ora et Labora” é uma vida completamente dedicada à oração e contemplação do mistério de Deus.

Hoje esta maneira de viver é muito contestada pelo frenesi dos tempos modernos, nos quais a vida humana parece justificar-se pelas obras, por aquilo que uma pessoa faz. Ante este cenário activista, a vida contemplativa vem nos recordar que mais importante é o ser que o ter e o fazer. Por mais anos que vivamos neste mundo, a fazer coisas, mais serão os anos em que viveremos contemplando a Deus no seu reino; e se assim é porque não começar já agora?

Dentro da vida activa os religiosos dedicam-se segundo o seu carisma a mil e uma actividades no campo da educação, da saúde física e mental, da promoção humana etc. O meu carisma, digo com orgulho citando o meu fundador o Beato José Allamano, é a vocação mais perfeita da Igreja, a Missão; é de facto a razão mesma pela qual e para a qual a Igreja existe: levar o evangelho a toda a criatura; levar Cristo a todos os povos e ou trazer todos os povos ao Seu conhecimento.

Há quem viva toda a sua vida no mesmo lugar, convivendo com as mesmas pessoas, fazendo sempre a mesma coisa. Há em Portugal párocos, que estão ao serviço da mesma comunidade há mais de 50 anos. Quanto a mim, cedo me dei conta de que a minha vida não seria vivida desta maneira. De facto desde os 10 anos, quando entrei para o Instituto, nunca estive mais de 3 ou 4 anos no mesmo sítio.

Vejo a minha vida com um puzzle de peças dispersas em sítios tão longe como dispares; com pessoas de varias etnias, línguas, povos e nações; quando esta chegar ao fim e todas as peças estiveram reunidas e colocadas no seu lugar, espero que, no seu conjunto, formem uma imagem que agrade a Deus. O missionário é uma pessoa sem eira nem beira, um peregrino sempre em caminho a quem o entardecer não o encontra onde o deixou o amanhecer, como diz Kalil Gibran no seu livro o Profeta.

Ser consagrado significa ser posto de parte, reservado para um serviço extraordinário que requer, da parte do candidato, colocar de lado o que configura e dá forma à vida da maior parte das pessoas. Os votos de pobreza, castidade e obediência são comuns a todos os consagrados; o consagrado, não possui bens materiais para dedicar-se exclusivamente ao cultivo de bens espirituais; ama universalmente com um amor que não exclui ninguém, pelo que o seu abraço é aberto; não busca poder, nem poleiro, nem fama nem nome; submete-se ao plano que Deus tem para ele, obedecendo-lhe através dos superiores e dos sinais dos tempos.

O consagrado para a missão, ecoa ainda hoje no seu interior aquelas palavras do mestre “ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda a criatura". Como as torres de TV o missionário aumenta o sinal, neste caso, o sinal da fé que vai passando de geração em geração, de povo em povo, de terra em terra.

Missionário, ontem, hoje e amanhã
Se soubesse aos 6 anos o que hoje sei, passados 30 anos da minha ordenação, voltaria a escolher a vida missionaria. Vejo-me de tal forma identificado com ela que aquela intuição que eu tive aos 6 anos, e a opção que fiz aos 10, não pode ter sido só humana; foi um autêntico chamamento de Deus. Nunca me senti galinha de capoeira mas águia, que voa bem alto sem limites de fronteiras, línguas, sem preconceitos contra outros povos e sem apego desmesurado e paralisante pela minha família, a minha terra, o meu pais e a minha cultura.

Recordo um dia, estando eu de férias e em vésperas de voltar para a Etiópia, o meu pai estava a tentar convencer-me que não devia regressar, que os anos que tinha estado na Etiópia eram suficientes que aqui também fazia missão etc etc. A minha mãe ouviu-o e disse-lhe em tom severo: “Cala-te homem que Deus pode-te castigar”, e o meu pai logo se calou. Deus, que já tem a minha mãe consigo, deve estar muito contente com ela pois não foi uma mãe galinha; foi uma mãe que soube superar o instinto materno, coisa que muitos pais de hoje não conseguem.

Quantas vocações se têm perdido para a vida religiosa e para o sacerdócio por causa de pais que se agarram aos seus filhos, privando-os da “liberdade dos filhos de Deus” e muitos destes pais até são católicos e praticantes; eu sempre me perguntei com que cara, vão aparecer diante de Deus, quando tudo fizeram para destruir a vocação à vida consagrada dos seus filhos e filhas.

A missão está no seu começo
Nunca ficarei no desemprego; foi o papa João Paulo II que o disse, a missão está no seu começo. O maior dos continentes está ainda sob-evangelizado pelo que trabalho não faltará. Por outro lado muitos dos países, que outrora eram cristãos, abandonaram a fé e vivem numa espécie de paganismo moderno adorando a vários deuses: já não baptizam os seus filhos, nem os mandam à catequese, pelo que um eventual contacto com o evangelho pode ser considerado tão primeira evangelização como aquela pessoa, que na distante Mongólia, onde praticamente não há cristãos, ouve falar de Cristo pela primeira vez.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de novembro de 2015

Vocações goradas

1 comentário:
Porque a nossa vida é espácio-temporal, Cristo só podia existir uma vez em carne humana. Mas Ele não veio só salvar os homens do seu tempo, e do seu país, mas sim toda a humanidade: todos os que tinham vivido antes Dele, por isso diz a escritura que desceu aos infernos depois da sua ressurreição, e todos os que iam viver depois Dele aos quais Ele mesmo faz referência, no episódio da aparição aos 12 e a Tomé, quando diz que são felizes os que acreditam sem terem visto; os que iam viver depois de Cristo, são ainda nomeados na oração sacerdotal quando Jesus pede pelos que vão acreditar no testemunho dos apóstolos.

Cristo, que é salvação para os homens de todos os tempos e de todos os lugares, tinha que arranjar forma para que essa salvação de facto fosse estendida de facto a todo tempo e a todo o lugar.

A Igreja é Cristo em todo tempo e todo lugar
Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos Mt 28, 20
A Igreja, corpo místico de Cristo, é a maneira que Jesus arranjou para estender a sua mensagem e ação no tempo e no espaço. Ele mesmo o disse, se tiverdes fé fareis tudo o que eu faço e obras ainda maiores. Deus não está limitado pelas coordenadas do tempo e do espaço; Cristo era Deus mas, em tanto em quanto viveu entre os homens, ficou também ele limitado por aquelas coordenadas.

Cristo é caminho, verdade e vida para os homens de todo tempo e lugar. A Igreja somos todos nós, mas dentro da igreja há carismas que precisam de um chamamento especial porque requerem uma especial consagração. Os sacerdotes e os religiosos estão ao serviço da Missão e da fraternidade universal porque consagram toda a sua vida a este serviço; como dizem os espanhóis põem toda a carne no assador.

É de supor que Cristo, continue a chamar e talvez mais ainda que antes pois, para os pastores o rebanho cresceu, para os pescadores de homens a messe é ainda maior (Mt 9,32-38);  e se Cristo continua a chamar, como é que hoje há cada vez menos missionários, gente disposta a deixar a sua terra e a sua família para levar o evangelho a outras latitudes e longitudes? Se Cristo continua a chamar porque é que o clero é cada vez mais idoso e há sacerdotes com 3 e 4 e até 5 e mais paróquias?

Tal como na parábola do semeador, o problema não está na semente nem no próprio semeador que é Cristo; o problema está nos diferentes terrenos onde esta semente cai. Cristo continua a chamar mas as respostas a esse chamamento são cada vez mais como a do jovem rico…

Maus exemplos
Uma das razões pela escassez de vocações são os maus exemplos, que alguns de nós religiosos e sacerdotes damos. É o tal escândalo dos pequeninos do qual o evangelho nos fala; cada um de nós pode ser uma pedra de calçada, que facilita o caminho, ou uma pedra de tropeço, que faz cair. Em grego escândalo significa mesmo pedra de tropeço.

É um facto que com o escândalo da pedofilia muita gente abandonou a Igreja; mas foram os “pequeninos” do evangelho que a abandonaram, os de fé pequena ou uma fé que precisava de crescer para se tornar adulta. Num cesto de maçãs é inevitável que haja alguma podre. Já assim aconteceu nos primórdios da Igreja com o grupo de 12 apóstolos que Jesus escolheu; um deles, Judas Iscariotes, era traidor.

Os que abandonaram a Igreja de Cristo, pelo escândalo de algum sacerdote demonstraram que a fé deles não era em Cristo mas no sacerdote em questão. Deitaram fora o menino com a água da banheira; desqualificaram a fé em Cristo e o próprio Cristo por causa do mau exemplo de um cristão.

O sacerdote é um sacramento, representa a Cristo e actua em nome de Cristo, mas não é Cristo. Como há bons actores e maus actores, há sacerdotes que representam bem a Cristo e outros que o representam mal. O sacerdote é um ícone de Cristo a nossa fé é em quem ele representa e não nele mesmo.

Jovens auto-referenciais
Não peças o que o teu país pode fazer por ti mas o que tu podes fazer pelo teu país. John F. Kennedy

Uma jovem de 17 anos dizia-me na escola: “em vez de acreditar em Deus eu acredito em mim mesma, aliás eu sou o deus de mim mesma”. Como esta, muitos jovens de hoje não têm ideais, são auto-referenciais, giram à volta de si mesmos. O mundo tem muito para oferecer e o jovem olha para o mundo, não como uma messe grande onde os trabalhadores são poucos mas sim, como um grande buffet de cosias belas e prazenteiras que não querem perder por nada. Para eles, aceder a estes bens é ganhar a vida, renunciar a eles ou ver-se privado deles é perder a vida. Assim pensando não podem entender o que Cristo disse: “Quem quiser ganhar a vida há-de perde-la, e quem a perder pelo evangelho há-de ganha-la (João 12, 25).

A maior parte dos santos da Igreja católica eram de famílias ricas, nobres e famosas, tinham tudo o que estes pobres jovens e hoje tanto desejam e tudo puseram de lado e tudo consideraram porcaria com tal de ter Cristo (Filipenses 3, 7-10). Tal como São Paulo estes jovens ricos belos e nobres, não renunciaram simplesmente às riquezas mas encontraram em Cristo uma riqueza maior e tal como o comerciante de perolas ao encontrar uma de grande valor colocou as outras de parte  (Mateus 13, 45-46) Pena que estes jovens nunca encontrem a Cristo.

Para o jovem de hoje, resulta muito difícil entender que a sua vida não é acerca dele mesmo; que a sua vida é um valor relativo, que o que lhe dá valor é o que faça ou não faça com ela. Bethoven sem a música seria um Zé Ninguém; o mesmo seria Picasso sem a pintura; os talentos individuais estão orientados antes de mais ao bem comum só depois ao bem individual. Não vivemos para ser felizes mas sim para ser uteis à sociedade e é na medida em que somos úteis que somos felizes, quando não, somos inúteis até para nós mesmos.
   
Que somos um ser social prova-o o facto de que quando partilhamos a nossa tristeza com um amigo ficamos menos tristes; ao contrário, ficamos mais alegres, quando partilhamos alegria. O bem social harmoniza-se com o bem individual e vice-versa; não se é feliz rodeado de infelicidade, nem se é feliz à custa dos outros mas só quando contribuo para a sua felicidade.

A felicidade é o efeito secundário do nosso altruísmo, sendo o efeito principal o bem dos outros. Ninguém toma um medicamento pelo efeito secundário mas pelo efeito principal; toda a nossa actuação tem um feedback, um retorno, um efeito boomerang; What goes around comes around.

Jesus diz de si mesmo: “Eu vim ao mundo para servir e não para ser servido”. É certo que ninguém diria, em público, que veio ao mundo para ser servido, no entanto se colocarmos a nossa hipocrisia de lado e formos honestos, connosco próprios, reconheceremos que não é o serviço que buscamos mas sim o poder, e o ser servidos pelos que estão abaixo de nós, por isso somos infelizes.

O caminho da grandeza é de facto o serviço, os grandes na nossa vida foram os que nos serviram e não os que se serviram de nós, ou nos dominaram. Os grandes para a humanidade foram também os que a serviram e não os que se serviram dela, como Hitler, Estaline e outros tantos ditadores…

Diabos de Deus os pais paternalistas
Começou, depois, a ensinar-lhes que o Filho do Homem tinha de sofrer muito e ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos-sacerdotes e pelos doutores da Lei, e ser morto e ressuscitar depois de três dias. E dizia claramente estas coisas. Pedro, desviando-se com Ele um pouco, começou a repreendê-lo. Mas Jesus, voltando-se e olhando para os discípulos, repreendeu Pedro, dizendo-lhe: «Vai-te da minha frente, Satanás, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens. Marcos 8, 31-33

Deus chama sempre, porém os poucos jovens que dizem que sim, depois de vencer a auto-referencialidade e o atractivo da sociedade de consumo, ainda têm que vencer aqueles de quem são mais próximos, os seus pais. Estes movidos mais pelo instinto materno, que um verdadeiro amor de pai e de mãe opõem-se a Deus tal como Pedro a Jesus. Como se opõem aos planos de Deus, o mesmo que Jesus chamou a Pedro, haveria que chama-lo a estes pais paternalistas, de facto Diabolus ou satanás significa opositor.

Há inúmeras histórias de pais que se opuseram, “com unhas e dentes”, a que os seus filhos seguissem a vida para a qual Deus os chamou. Um pai deixou de falar a uma filha por 30 anos por esta rejeitar o casamento e se fazer missionária. Outros pais, quando não conseguiram demove-los totalmente do chamamento de Deus modificaram-lhes a vocação missionaria em sacerdócio diocesano, para os terem mais debaixo das suas asas.

Um sacerdote cujo pai sendo médico obrigou o filho a seguir a carreira de medicina, ao terminar o curso, por amor e respeito ao pai, no dia em que se graduou, entregou o diploma ao seu pai dizendo: “aqui tens o que querias de mim, agora vou fazer o que Deus quer de mim…”.

Eu mesmo, sempre ficarei agradecido à minha mãe porque nem por activa nem por passiva me tentou desviar do meu caminho. Recordo que depois dos primeiros três anos de Etiópia, um dia ao ouvir o meu pai que tentava convencer-me a não voltar, com voz forte repreende-o: dizendo “cala-te homem que Deus pode-te castigar”. É certo que Deus não castiga, mas de qualquer maneira eu não queria estar na pele destes pais que um dia se terão de colocar diante Dele e justificar a sua posição de diabulos, opositores do seu desígnio para com os seus filhos.

Conselho aos pais
Muitas mães e pais nunca chegam a cortar o cordão umbilical, amam como um amor possessivo, paternalista que cria dependência e impotência, nunca saindo da vida dos filhos na qual querem sempre ter voz e voto, mesmo depois de casados.

A boa educação é aquela que visa a liberdade, a autonomia e independência dos educandos. O bom educador tem como objectivo o não ser mais necessário. Ao contrário, muitos pais querem sentir-se sempre fundamentais na vida dos filhos, acabando por anula-los.

Conselho aos filhos
A oposição dos que nos são mais queridos não é coisa que Jesus já não tivesse contemplado: 

Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada. Porque vim separar o filho do seu pai, a filha da sua mãe e a nora da sua sogra; de tal modo que os inimigos do homem serão os seus familiares. Quem amar o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim. Quem amar o filho ou filha mais do que a mim, não é digno de mim. Mateus 10, 34-37

E disse a outro: «Segue-me.» Mas ele respondeu: «Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar o meu pai.» Jesus disse-lhe: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos. Quanto a ti, vai anunciar o Reino de Deus.» Disse-lhe ainda outro: «Eu vou seguir-te, Senhor, mas primeiro permite que me despeça da minha família.» Jesus respondeu-lhe: «Quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado, não é apto para o Reino de Deus. Lucas 9, 59-62

Tal como outrora, Cristo continua a chamar. Os jovens porem, invadidos pelo ego dos seus pais, ofuscados pelas criaturas - o mundo de hoje que parece ter tanto para lhes oferecer, voltam as costas ao Criador e único Senhor de tudo e de todos.
Pe. Jorge Amaro, IMC