1 de março de 2015

Possuidores ou Possuídos?

Sem comentários:

O clero secular, embora não fazendo explicitamente um voto em matéria de castidade e de obediência, está chamado a viver estas duas virtudes, tal como nós. A pobreza é o voto que mais caracteriza o religioso e sobre o qual o clero regular nada promete.

O religioso vive em comunidade, por isso a ordem pode até ser rica mas o frade é pobre, pois nem tem acesso nem uso dessa riqueza. Os sacerdotes seculares vivem sós, uns até mais pobres que os religiosos mas outros amassam grandes fortunas, causando desavenças entre os sobrinhos que as vão herdar, será ou não por isso que se diz: “A quem Deus não dá filhos, dá o diabo sobrinhos”

Primum vivere, deinde philosophari
Alguns, ocupados em altas filosofias, esquecem-se de que têm que trabalhar para conseguir o necessário para a sua subsistência. A estes recorda São Paulo quem não quer trabalhar que não coma. (2 Ts 3, 10). É o trabalho que gera a riqueza que nos permite manter as funções vitais, ou seja estar vivos.

Na verdade, quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, há-de salvá-la. Marcos 8, 35. Viver e estar vivos são uma e a mesma coisa para os animais, não assim para os humanos. É certo que para viver é preciso estar vivo, mas o sentido e objectivo da vida humana não é manter-se vivo, não é reter a vida; pelo contrário, é perder, é dar a vida, é desviver-se, entregar-se a uma causa, usar todo o tempo e energias de que é composta a nossa vida por um ideal, um sonho, uma ambição. A vida não é portanto um valor absoluto mas relativo; valor absoluto é a razão pela qual eu vivo.

Os bens materiais, portanto, nada tem que ver com a vida mas sim só com o estar vivos, com o manter as funções vitais. Quem dedica a sua vida a amassar riquezas está a dedicar a sua a vida a manter a vida pelo que pode até chegar a ter o necessário para manter as funções vitais de duas e mais vidas mas só vai ter uma e essa uma gasta estupidamente sem sentido.

Psicanalise do possuir
Quando lemos contos populares que falam sobre dinheiro transformado em fezes, e vice-versa – de acordo com Freud – é apenas uma referência de como o conceito de “posse”, de dinheiro ou qualquer outro bem, se originou no nosso psiquismo.

Na fase narcisista do desenvolvimento, as fezes têm muita importância para a criança, pela simples razão de que as fezes saem de – ou se originam – no seu próprio corpo. Isto reflecte o elevado apreço, ou estima, que a criança tem para si mesma. A mãe reforça esta "atitude", quando se preocupa com a criança, nos momentos em que esta está com prisão de ventre e é incapaz de defecar. Quando, finalmente, a criança tem um movimento intestinal, a criança mostra e exibe com orgulho as suas fezes à sua mãe, e esta fica muito contente.

De acordo com Freud, quando perde as suas "altamente valorizadas" fezes, a criança sente que perdeu algo, e que este algo, lhe pertence e deveria estar dentro do seu corpo, mas que agora está fora dele; a criança também se dá conta de que por muito que quisesse, não pode voltar a colocar as fezes dentro de si. Ao não poder fazer voltar a si as fezes, a criança declara “suas” que essencialmente ou simbolicamente significa que as quer voltar a incorporar em si mesma.

Como dissemos, do ponto de vista da psicanálise, o amor pelos bens materiais está enraizado na fase narcisista, ou anal, do desenvolvimento de uma criança. Nesta fase, o egocentrismo é predominante na criança, ainda não desenvolveu a capacidade de sentir afecto pelos outros, nem possui ainda qualquer capacidade de amor ou de ódio, pois são realidades que pertencem à fase seguinte, a fase genital.

Possuidores ou possuídos?
Se as vossas riquezas crescerem, não lhes entregueis o coração. Salmo 62, 11
Porque, onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração. Lucas 12, 34

Infelizmente o jovem rico, do evangelho de Mateus (19:16-23), decidiu ficar com as riquezas quando Jesus o confrontou e lhe deu a escolher entre riqueza material e riqueza espiritual. Diz o evangelho que ele ficou triste ante a sua própria opção; as riquezas podem dar prazer mas não alegria e o prazer é quase sempre seguido pela tristeza.

O jovem rico recusou seguir o mestre porque ante a perspectiva de perder as riquezas, a sua falsa segurança paralisou-o. Seguir o mestre foi o que o moveu ir ter com Jesus, ele queria seguir o mestre mas não podia; e não podia porque possuía muitas riquezas, mas sim porque era possuído por elas pelo que não era livre, não se possuía a si mesmo nem era senhor do seu destino. O que aconteceu ao jovem rico, e acontece a todos os que dão o seu coração às riquezas, é como vender a alma ao diabo.

Onde está o teu tesouro aí está o teu coração adverte o evangelho. Por isso quando damos o coração às riquezas, vendemos a alma ao diabo; a partir desse momento só possuímos do ponto de vista contabilístico porque do ponto de vista psicológico e espiritual nós somos possuídos.

Se o objecto de amor são bens materiais então uma estranha simbiose acontece, entre a pessoa e os bens matérias que ama. Define-se simbiose como sendo uma relação de mútua beneficio e dependência entre dois seres vivos. Há uma troca ou partilha entre os dois: os bens materiais partilham a sua matéria, pelo qual a pessoa que os ama materializa-se; a pessoa partilha o seu espirito, pelo qual os bens matérias espiritualizam-se. O sujeito que antes dizia que possuía passa a ser possuído. Não é o jovem rico que possui os bens materiais, são os bens materiais que possuem o jovem rico.

 Porque o dinheiro é um bom escravo, mas um mau mestre, aquele que é seduzido pela riqueza, perde a sua liberdade. Na realidade, é a riqueza que passa a "comandar" a sua vida e não ele mesmo. Quando o único objectivo da vida é possuir, e o possuir só serve para manter as funções vitais, a pessoa vive para estar viva, ou seja vegeta.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de fevereiro de 2015

A Pessoa do Ano

1 comentário:
En dónde están los profetas /que en otro tiempos nos dieron /las esperanzas y fuerzas para andar. /En las ciudades, en los campos, /Entre nosotros están. /Sencilla cosa es la muerte /difícil cosa la vida /cuando no tiene sentido ya luchar. Nos enseñaron las normas /para poder soportarnos/ y nunca nos enseñaron a amar. Ricardo Cantalapiedra

A vida religiosa como profecia
A tradição de escolher a pessoa do ano começou com a revista Time em 1927. É declarada pessoa do ano, alguém que foi admirável, que fez algo pela humanidade, que se destacou pelo seu carisma, que respondeu da maneira mais adequada aos desafios do seu tempo. Alguém que em certo sentido foi um profeta. 

Por exemplo Barack Obama foi a pessoa do ano 2008 e 2012 por ser o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, com tudo o que isso significava num país onde a escravatura só foi abolida no século XIX e os pretos e o racismo em pleno seculo XX depois de Luther King. Em 2012 o Papa Francisco foi nomeado a pessoa do ano, pois em poucos meses conquistou a simpatia de milhões de pessoas com a sua simplicidade e os seus gestos simbólicos

Na tradição do Antigo Testamento, o profeta é o homem certo para o momento certo; é o que sabe interpretar o momento presente da vida do povo à luz da vontade de Deus, de quem se sente mensageiro, por vezes também intermediário entre Deus e os homens. É sempre um líder natural e uma pessoa carismática; tanto criticava um comportamento que não era adequado, aos olhos de Deus, como confortava e infundia esperança nas horas amargas, como o exílio da Babilónia.

Eu não era profeta, nem filho de profeta. Era pastor e cultivava frutos de sicómoros (Amós 7, 14). Ao contrário dos sacerdotes de Jerusalém e dos doutores da lei, os profetas não provinham do establishment, não tinham pedigree. Era o Espírito que aqui e ali, nos momentos em que era preciso, ia suscitando um guia para o seu povo.

Agora não há nem príncipe, nem profeta, nem chefe, nem holocausto, nem sacrifício, nem oblação, nem incenso, nem um local para te oferecer as primícias e encontrar misericórdia (Daniel 3, 28). Como se nota do texto o profeta era uma figura importante para o povo, sem ele o povo sentia-se desorientado, confuso, abandonado, sozinho, inseguro…

Segundo a distinção canónica temos hoje dois tipos de clero, o regular, os religiosos e o clero secular. O clero diocesano está mais metido no mundo, são os pastores das ovelhas do Senhor; neste sentido, o seu papel é muito semelhante ao dos doutores da lei e dos sacerdotes de Jerusalém.

Ao contrário, o religioso está um pouco apartado do mundo para melhor o poder entender e ajudar, só fora da floresta se pode ver a floresta; na tradição do antigo testamento o seu papel é semelhante ao dos profetas. O religioso está chamado a ser a pessoa do ano, um nobel, um superstar para um tempo e um lugar. Um profeta que sabe ler os sinais dos tempos e diz a palavra certa no momento certo; conhecedor dos problemas do tempo e do lugar aponta com a sua palavra, acções e talante para as soluções.

A vida religiosa em geral está associada à Missão Profética da Igreja. Na Idade Média enquanto os estados se guerreavam entre si foi nos Mosteiros onde se manteve a cultura; foi neles que nasceram as escolas, as universidades e os hospitais. Até o mesmo registo civil nasceu com o assento dos baptizados pela Igreja; registo esse que o Estado com a Republica em 1910 roubou às paróquias.

Actos simbólicos dos profetas de Israel
O comportamento dos profetas, do antigo testamento, era tão bizarro que conforme aos actuais padrões seculares de sanidade, acabariam institucionalizados ou, pelo menos, em alguma forma de terapia intensiva.

Estes profetas não eram apenas falantes da palavra, encarnavam-na nas suas vidas, no seu talante, no seu comportamento e actos; tudo neles fazia parte da mensagem; a sua escolha de roupas e até mesmo seus corpos e linguagem corporal. Testemunhavam assim, na própria carne, o quão transformador e desconcertante pode ser a Palavra de Deus. Palavras leva-as o vento, os actos simbólicos e dramáticos dos profetas falavam bem ais alto e eram mais difíceis de serem esquecidos.

  • Isaías, despiu toda a sua roupa e vagueava nu. (Isaías 20).
  • Jeremias, escondeu a sua roupa interior numa rocha, e depois de muito tempo veio à procura dela (Jeremias 13).
  • Oseias casou deliberadamente com uma prostituta e pôs o nome de Loruhama não amada à filha de ambos (Oseias 1)

Com a vinda de Cristo podemos olhar para trás e ver estes profetas como prenúncio, não só através das profecias, que falavam da sua vinda, mas através de suas acções proféticas. Cristo é, afinal, a palavra feita carne da maneira mais rica e mais completa possível. E, tal como o dos profetas, o comportamento de Cristo foi totalmente bizarro, desconcertante e confuso conforme aos padrões sociais e convencionais da época.

Era, afinal de contas, alguém que garantiu que reconstruiria o templo em três dias, comia com prostitutas e cobradores de impostos, expulsou demónios para uma vara de porcos, curou um homem cego, esfregando lama que fez com a sua saliva nos seus olhos, e andou sobre as águas. A mais chocante acção dramática, foi sem dúvida lavar os pés aos seus discípulos. Quis executar o acto mais servil para que nunca esquecessem o que já tinha dito de palavra: o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos Mc 10, 45

O religioso como acto simbólico
O consagrado vive já aqui e agora a vida que todos estamos chamados a viver no Céu; ao encarnar os valores do evangelho é como uma estrela polar que indica o verdadeiro caminho para Deus, um dedo apontado para o Céu; ao relativizar certas realidades deste mundo, que o homem tem a tentação a absolutizar, o religioso é também um farol que expõe os perigos à navegação, perigos de perder a vida durante a nossa peregrinação para a pátria celeste.

Desta maneira, os três conselhos evangélicos podem ser vistos como gestos ou acto simbólicos que falam por si, à maneira dos actos dramáticos e simbólicos dos profetas do Antigo Testamento:

O voto de Pobreza - Relativiza o possuir pois, para além de manter as funções vitais, as riquezas materiais são um empecilho para o crescimento espiritual. Como diz o evangelho, onde está o teu tesouro está o teu coração, quem dá o seu coração às riquezas, vende a alma ao diabo; já não se possui, é possuído pelo que pensa possuir.

O voto de Castidade - Relativiza o sexo pois, ao contrário do que a sociedade nos quer impingir, o sexo não é uma necessidade individual mas sim da espécie; nem sequer é intrínseco ao amor, é tão-somente uma das tantas expressões de amor. Se o amor, na sua expressão natural, cria a família e os laços familiares, o amor, na sua expressão sublimada, cria a fraternidade universal e a solidariedade.

O voto de Obediência - Relativiza o poder e a liberdade. Para o evangelho o poder é serviço ou seja obedecer às necessidades dos outros. Sou livre até encontrar a minha opção fundamental, uma vez encontrada, a vida resume-se a ser fiel, ou a obedecer, aos compromissos assumidos. Se guardares a regra, a regra te guardará a ti, e te dará um sentido de identidade, de propósito e de segurança.
Pe. Jorge Amaro, IMC


15 de janeiro de 2015

Je ne suis pas Charlie

1 comentário:
Porque entendo que a liberdade de expressão, como todas as liberdades, tem limites, e é bullying ridiculizar as crenças dos outros; porque, ao contrário do advogado de Charlie Hebdo, não reconheço o “direito à blasfémia” ou insulto, mantenho que, a abominável chacina dos 12 jornalistas do dito jornal, foi mais um atentado contra o Estado de Direito que contra a liberdade de expressão propriamente dita.

O “mas” que é politicamente incorrecto
Ser do contra não é sempre um defeito, e ser a favor não é sempre uma virtude. “Maria-vai-com-as-outras” pode ser sinónimo de solidariedade, mas também de carneirismo que anula o pensamento individual, faz de pessoas massa, e geralmente massa bruta que ao largo e ao longo História tem linchado muitos inocentes, um deles, Jesus de Nazaré. Para existir como pessoas autónomas, livres e independentes devemos manter o nosso espírito crítico em estado de alerta, e não fazer acriticamente, coro com os que gritam mais alto.

A minha condena da horrenda chacina dos doze jornalistas, não significa que estou de acordo com todas as caricaturas que eles produziram; da mesma forma que, o facto de estes, no meu entender, terem abusado algumas vezes, não sempre, da liberdade de expressão, não significa que justifico o crime aterrador perpetrado pelos dois extremistas selvagens. Não me junto ao coro dos que dizem “Je suis Charlie”, mesmo correndo o risco de ser politicamente incorrecto, ou seja de ser uma ovelha negra, por que acho que posso e tenho o direito de condenar o acto sem ter que me identificar “totalmente” com Charlie

Quando digo “Je ne suis pas Charlie” quero dizer que apesar de me identificar com as vítimas, na qualidade de pessoas humanas a quem, sem nenhuma justificação, foi roubada a vida, não me identifico com a blasfémia, o insulto, e a ridicularização de algumas das suas caricaturas.

A liberdade absoluta não existe
Não há liberdades ilimitadas; a minha liberdade só seria mais ou menos ilimitada se eu existisse sozinho no mundo. Como coexisto com outros, os meus direitos limitam com os direitos dos outros. De facto os meus direitos coincidem com os deveres dos outros e vice-versa; por isso a minha liberdade cessa onde começa a liberdade alheia.

Condeno com a máxima veemência todo atentado contra a vida humana; desde o aborto legal, a eutanásia, a pena de morte legal a todos os tipos de violência, física, sexual, verbal e psicológica. Raramente a violência é solução de algum problema, e sempre cria mais problemas, porque a violência sempre gera violência. Chamada espiral de violência porque ao mesmo tempo que cresce em intensidade alastra-se ao envolver num mesmo conflito cada vez mais gente.

Todos sabemos que, os que foram abusados, fisicamente, sexualmente, verbalmente ou psicologicamente quando eram crianças, de adultos, transformam-se eles mesmos em abusadores. Também é sabido que, quando duas ou mais pessoas entram em conflito, as vias de facto, ou seja a violência física é o que quase sempre segue à violência verbal, aos insultos e injurias.

A vida humana é dom de Deus, só Deus tem poder sobre a vida e sobre a morte. Todo aquele que tira a vida ao seu semelhante está a roubar uma prerrogativa que só pertence a Deus; ao colocar-se no lugar de Deus está a ser ateu. Por isso é impossível matar em nome de Deus que é vida e amor.

O porta-voz do Conselho Judicial Muçulmano emitiu um comunicado, no qual afirma que, “a liberdade de expressão é para ser respeitada, mas tem limites quando faz fronteira com o que poderia ser percebido como discurso de ódio. Se alguém critica o teu local de trabalho, o teu carro, os teus sapatos, não há problema; mas quando alguém insulta, humilha ou degrada uma personalidade que está ligada ao coração da religião muçulmana, excede os limites da liberdade de expressão”.

Passo a citar alguns exemplos das caricaturas de Charlie Hebdo, que a meu ver abusam do direito de liberdade de expressão: há uma que desenha o profeta Maomé com um turbante em forma de bomba com o rastilho aceso prestes a explodir, a mensagem subliminar é a de que na sua essência o Islão é violento, extremista e terrorista, o qual é falso.

Uma outra desenha o Papa, levantando a hóstia no momento da consagração mas em vez de hóstia é um preservativo, classifico esta caricatura de blasfémia à eucaristia, que é o acto central da vida da Igreja, pelo que não vejo como algum cristão pode olhar para ela sem se sentir ofendido.

Entre as caricaturas com as quais estou de acordo, destaco louvar aquela que saiu, como capa, do último número de Charlie Hebdo no rescaldo dos homicídios. Com um fundo verde, que é a cor mais usada nas bandeiras de muitos países muçulmanos, vemos o profeta Maomé a chorar segurando com as mãos o popular cartaz no qual diz “Je suis Charlie” e por cima, a letras bem visíveis, “Tout est Pardoné” Tudo foi perdoado.

Como o perdão incondicional aos que nos fazem mal e o amor aos inimigos são características do cristianismo, esta capa é a melhor resposta que mundo ocidental, cristão na sua matriz, quer o reconheça quer não, pode dar à barbárie do extremismo muçulmanos. Identifico-me plenamente com esta caricatura.

Atentado contra o estado de direito, mais que liberdade de expressão
Defendo que a interpretação dos factos como um atentado à liberdade de expressão, se bem que é a oficial e a politicamente correcta, é a meu ver facciosa. Com o seu acto hediondo e injustificável, os assassinos dos jornalistas mais que ir contra a liberdade de expressão foram contra o Estado de Direito. Num estado de direito ninguém faz justiça pelas suas mãos, ninguém se vinga; ninguém é juiz em causa própria, nem executa penas, neste caso a pena máxima, a pena de morte.

Os injuriados, o mundo muçulmano, podiam ter-se defendido nos tribunais. Desta feita, os países muçulmanos, em vez de usarem o dinheiro para financiar fanáticos terroristas, que matam pessoas inocentes, como os 12 jornalistas, usavam-no para contratar os melhores advogados que levassem Charlie Hebdo aos tribunais por blasfémia, insulto e falta de respeito pela crença de milhões de pessoas.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de janeiro de 2015

Ano da Vida Consagrada

1 comentário:
https://www.youtube.com/watch?v=0IvXA0yRDwY
Purify my heart, let me be as gold and precious silver.
Purify my heart, let me be as gold, pure gold.

Refiner's fire, my heart's one desire is to be holy, set apart for you, Lord.
I choose to be holy, set apart for you, my master, ready to do your will.

Purify my heart, cleanse me from within and make me holy.Purify my heart, cleanse me from my sin, deep within.

Ao reflectir sobre a vida consagrada, tema que a Igreja escolheu para este ano, veio-me à mente este cântico, tantas vezes cantado nos anos em que vivi no Canadá pelo grupo de jovens que ali seguia. A letra do cântico é todo um tratado sobre a vida Consagrada; sobre o que é ser consagrado e o processo que deve seguir todo aquele que entra na Vida Religiosa.

Set apart for you, LordReservado para ti, Senhor – Os Judeus punham de lado para o Senhor as primícias das colheitas e dos rebanhos. Tudo o que abria o ventre era do Senhor como agradecimento; os próprios filhos primogénitos eram do Senhor e por isso tinham de ser apresentados no Templo para serem resgatados na troca de um sacrifício, que para os abastados era um boi, para os menos abastados um cordeiro ou cabrito e para os pobres, como foi o caso de Jesus, um par de pombas ou rolas.

“Consagrar” um objecto significa retira-lo do uso ordinário para o colocar de parte, ou apartar, e reservar para um uso determinado e exclusivo. Quando um cálice, ou outro objecto, é consagrado é reservado ou guardado para um uso sagrado, neste caso, a celebração da Eucaristia.

É neste sentido que se deve interpretar a “fuga mundi” dos religiosos da Idade Média. Não se tratava de fugir ao mundo, para não ser contaminados por ele, mas sentir-se chamado a uma Missão que comportava apartar-se da vida ordinária e viver de uma forma diferente.

Dentro da floresta nós não vemos a floresta, vemos apenas árvores; para ver a floresta temos de sair dela. O consagrado afasta-se do mundo para o conhecer melhor; de facto aparta-se do mundo para se dedicar ao mundo. Retira-se do seu pequeno mundo para se dar a todo o mundo de uma forma peculiar. Coloca de parte a sua vidinha particular, para entrar ao serviço da Vida em sentido Universal.

Purify my heart, let me be as gold, pure gold- Purificai o meu coração, que eu seja como ouro, ouro puro – Quando com 10 anos entrei para os Missionários da Consolata, a minha motivação principal era a aventura; era conhecer o mundo, sobretudo a Africa. Por esta razão recusei veementemente entrar no seminário da diocese. Já no seminário cada um dos meus colegas tinha também a sua motivação; recordo que a um o que o tinha aliciado era que no seminário jogava-se futebol todos os dias.

Com o passar do tempo e a formação que nos era dada, estas motivações de criança foram se modificando e purificando. É isto que tinha em mente o nosso fundador, o Beato José Allamano,quando aconselhava os primeiros missionários a “fazer o bem, bem”. Jesus denunciou os hipócritas e fariseus não porque estes não cumprissem a lei jejuando, orando e praticando a caridade mas porque faziam isto mesmo hipocritamente paraserem vistos pelos homens. Faziam o correcto por motivos incorrectos.

A hipocrisia é o perigo constante do religioso, pelo que necessita de uma purificação contínua das suas motivações. O coração é o que move tudo no nosso organismo; é o centro das moções, emoções ou motivações e por isso precisamos de um coração puro, purificado de falsas motivações. Purificado e limpo por dentro, de todo do pecado, como diz o cântico; pois o mal está dentro de nós não fora de nós.

Refiner's fire, my heart's one desire is to be holy - Fogo de refinador, o anseio do meu coração é ser Santo –Tendo como objectivo ser puro como o ouro a purificação é feita pelo fogo; não é um fogo devorador e destruidor mas de refinador. É o fogo que queima todas as impurezas e aquilata o ouro; quanto mais forte o fogo mais puro fica o ouro.

São Francisco de Assis rebolava-se nu na neve para vencer a insidia do pecado; outros santos autoflagelavam-se. Não precisamos de andar à procura de penitências artificiais; a vida depara-nos com suficientes situações, que nos penitenciam naturalmente, basta-nos abraçar a cruz de cada dia (Lucas 9, 23). A título de exemplo, quando estava na Etiópia cheguei a estar uma vez 5, outra vez 7 dias sem comer; e considero isso mais fácil que comer só o estritamente necessário no dia-a-dia.

A única aspiração do religioso é ser santo como Deus é santo (Levítico 19, 2) este é o objectivo da contínua purificação de motivos e intenções, uma purificação levada a cabo pelo fogo do Espirito Santo. Se formos dóceis ao Espírito Santo, como o barro o é nas mãos do oleiro, o seu fogo irá purificando os nossos pensamentos, as nossas intenções, as nossas motivações, e as nossas acções dos solapados impulsos do instinto.

A santidade encontra-se quando se busca o pecado. Quando escarduçamosa nossa vida à procura de defeitos, pecados e imperfeições é quando estamos no caminho da santidade. A este respeito São Francisco de Assis, que já em vida era tido como santo por todos os que o conheciam, dizia de si mesmo que era um grande pecador.

Ready to do your will - Pronto para fazer a Tua vontade. “Primeiro santos depois missionários” dizia o nosso fundador; o ser santo refere-se à nossa essência, ao que estamos chamados a ser, à nossa vocação; o ser missionários refere-se à nossa existência, ao que estamos chamados a fazer; à nossa maneira de estar no mundo.

Só depois de purificada a nossa essência, o nosso ser, é que a nossa existência,o nosso estar e actuar no mundo é puro. Só estamos verdadeiramente prontos, para fazer a vontade de Deus, quando somos santos; quando todo o nosso ser se submete à nossa vontade e esta à vontade de Deus.

Isto só é possível quando nos negamos a nós próprios (Lucas 9, 23) e podemos afirmar, como São Paulo, já não sou eu que vivo,mas é Cristo que vive em mim. (Gálatas 2, 20)É só quando Cristo vive em nós que somos autenticamente cristãos, e capacitados para continuar no aqui e agora a obra que ele iniciou em Israel há 2000 mil anos.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de dezembro de 2014

Amor platónico, amor encarnado

1 comentário:

Ai flores, ai flores do verde pino,
sesabedes novas do meu amigo!
ai Deus, e u é?

Ai flores, ai flores do verde ramo,
sesabedes novas do meu amado!
ai Deus, e u é?
Cantiga de amigo da autoria de El rei D. Dinis

Quando Portugal ainda estava no seio do reino de Leão a língua que se falava, em todo o Noroeste da Península Ibérica, era o Galaico-Português. Uma língua nascida no mundo artístico, pelo que os primeiros escritos nesta língua são as cantigas de amigo e de amor, que cantavam os trovadores vindos de França a caminho de Santiago de Compostela.

“Absense makes the heart grow fonder”- A distância faz o amor mais profundo, diz o proverbio inglês. O que de facto caracterizava estas cantigas de amor e de amigo era o facto de os amantes estarem distantes um do outro. Escasseavam os encontros pelo que, consumidos pela saudade, os amantes viviam o seu amor platonicamente na imaginação e na fantasia, alimentadas pelas poucas notícias e cartas. Quando depois de muito tempo, anos até, os amantes se encontravam a alegria era indescritível….

Assim foi também, durante muito tempo, o amor entre Deus e os homens, os homens e Deus. Um amor platónico que era alimentado pelos mensageiros, os profetas que Deus ia enviando ao mundo. Até que um dia… Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, João 3,16. Em Jesus de Nazaré nascido em Belém encontram-se finalmente a humanidade e Deus, Deus e a humanidade. Este encontro está simbolizado na parábola dos convidados à boda (Mateus 22, 1-14); a boda na qual Deus casa o seu filho com a humanidade.

Religião e revelação
Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos Profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho. Hebreus 1,1-2

Esta frase, da carta aos Hebreus, pode resumir todas as religiões para além da cristã. Religião, do latim “religare”, significa relação com Deus e com o proximo. Desde que a especie humana é consciente de si mesma acredita na possível existencia de um ser superior, transcendente a tudo e a todos porque criador de tudo e de todos. Em todo o tempo e em todo o lugar o homem procurou comunicar-se com este ser superior, Deus, para obter o seu beneplacito.

As ondas de telemóvel, da televisão e da radio cruzam o nosso espaço e nós não as ouvimos nem as vemos, mas sabemos que é assim porque quando temos os instrumentos adequados nós captamo-las. Analogicamente Deus também buscou comunicar-se com o homem e o homem com Deus; mas também esta comunicação não é acessível a todos, é preciso ter uma sensibiliade especial para entrar nesta comunicação.

Sempre houve pessoas com uma sensibilidade especial para comunicar-se com Deus. Na tradição bíblica, os profetas eram os catalisadores dos desígnios de Deus para o povo e das petições do povo a Deus. A comunicação, no entanto, não se fazia sem dificuldades; tal como no campo das telecomunicações, havia muitas “interferências”; a persoanlidade e caracter do profeta, defeitos e preconceitos, filtravam a mensagem que não chegava ao destinatário tal como tinha saído do emissor. Por outro lado e muitas vezes estes profetas entendiam que o Céu estava fechado e Deus envolto em silêncio.

Meu Deus, clamo por ti durante o dia e não me respondes; durante a noite, e não tenho sossego. Salmo 22, 3. O povo de Israel nunca se contentou com esta comunicação, tão deficitária, e vivia num contínuo desassossego.

O meu coração murmura por ti, os meus olhos te procuram; é a tua face que eu procuro, Senhor. Salmo 27, 8. O verdadeiro amor nunca se acostuma à ausência.

O cristianismo não é uma religião, pois não consta do esforço ou tentativas do homem em chegar a Deus, ao contrário; o cristianismo é uma revelação porque é Deus que busca o homem e se revela a ele.    Como diz Jesus no evangelho, não fostes vós que me escolhestes; fui Eu que vos escolhi a vós e vos destinei a ir e a dar fruto, e fruto que permaneça; e assim, tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome Ele vo-lo concederá. João 15, 16

Natal, o dia do encontro
Tudo me foi entregue por meu Pai; e ninguém conhece o Filho senão o Pai, como ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.» Mateus 11, 27

O homem por mais que tentasse nunca chegaria por si só a Deus; por isso, ao contrário de todas as religiões, no entender do cristianismo, por ser um Revelação, Deus não manda recado vem Ele mesmo.

No Natal celebramos a grande verdade, que Deus não está envolto em silêncio, mas sim em panos e depositado numa manjedoura. Com o nascimento de Jesus, Deus rompe o silêncio, elimina a distância e desfaz a inacessibilidade. Jesus é o Emanuel, Deus connosco, à nossa beira; companheiro de viagem na nossa vida como o foi com os discípulos de Emaús.

Em Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, dá-se finalmente o tão esperado encontro da humanidade com Deus e de Deus com a humanidade; uma comunicação plena sem interferências nem intermediários. O amor que foi platónico, durante tanto tempo, é agora um amor real.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de dezembro de 2014

A Imaculada Conceição da Virgem Maria

Sem comentários:
Origem do pecado e pecado original
Deus criou o homem à sua imagem e semelhança; com o pecado perdemos a semelhança de Deus, mas mantemos ainda a sua imagem. Já não somos como Deus nos criou; o pecado dos nossos pais alastrou-se no espaço e no tempo alterando profundamente a natureza humana. O homem construiu o seu próprio inferno, tipificado nas cidades de Sodoma e Gomorra. O dilúvio destruir tudo e começar de novo, com a família de Noé, foi o primeiro plano para salvar a espécie humana. A descendência de Noé depressa voltou ao pecado dos seus antepassados.

Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que ficaram embotados. (Jeremias 31, 29) Sem conhecer as leis da hereditariedade de Mendel os hebreus eram conscientes que certos males passavam de pais para filhos. De facto o pecado de Adão e Eva corrompeu-os, não só a nível existencial como pessoas mas também a nível genético, pelo que as consequências seriam sofridas por toda a espécie humana.

Usurpação do critério do bem e do mal
A pseudo emancipação do homem, o querer ser como deus, o ter usurpado a Deus a prerrogativa do bem e do mal, foi a origem do pecado ou pecado original que vai passando de geração em geração, pois modificou o ADN da espécie humana. O mal instalou-se dentro da espécie humana de tal forma que como dizia Jesus, em Mateus 15, 11, “Não é aquilo que entra pela boca que torna o homem impuro; o que sai da boca é que torna o homem impuro”. Não é portanto a má educação que leva o homem a ser mau; a maldade já está no interior.

Enquanto o critério do bem e do mal estava no centro do jardim do Éden, e pertencia exclusivamente a Deus, a terra era o Reino de Deus; havia paz, união, consenso, pois todos se submetiam a um critério único. Quando o Homem querendo ser como Deus se colocou no centro, roubando a prerrogativa do bem e do mal, instalou-se a divisão, a guerra, a subjectividade, a arbitrariedade, o relativismo, a divisão, a discórdia. Todos os indivíduos querem o centro. Não pode haver dois centros, se eu tenho o critério do bem e do mal tu não o tens ou eu não to reconheço.

Ninguém faz o mal pensando que está afazer o mal; Hitler ao matar 5 milhões de Judeus pensava que estava a fazer um serviço à humanidade; as bombas suicidas que se matam, matando pessoas inocentes, dizem que se estão sacrificando por um bem maior; os extremistas muçulmanos matam em nome de Deus….

Somos maçãs com bicho
Os pais que se esmeram na educação dos seus filhos ficam admirados quando estes começam a mentir, a roubar e a fazer outras travessuras que eles nunca ensinaram aos filhos. O mal está dentro de nós e não precisa de ser aprendido. Como diria o psicólogo Jung o mal pertence ao inconsciente colectivo da humanidade. Cada acto malvado, que um individuo leva a cabo, instala-se nesse coeficiente colectivo de tal forma que os indivíduos que nascem depois nascem com a capacidade de o voltar a realizar sem precisarem de nenhuma aprendizagem.

Muita gente ao ver uma maçã com um buraquinho pensa que o buraquinho foi feito pelo bicho, ao entrar na maçã, quando o contraio é que é verdade, foi feito pelo bicho ao sair da maçã. O bicho é um ovo que um insecto depositou na maçã, no momento da sua concepção, ou seja quando era ainda uma flor. Todos nós somos maçãs com bicho, o mal está dentro de nós e só precisa de uma determinada circunstancia para se revelar.

Não é portanto como diz o proverbio “A situação faz o ladrão”. Todos, tarde ou cedo, são confrontados com situações onde podem roubar; à partida todos somos capazes de roubar. Roubar ou não roubar vai depender do grau de educação, em valores humanos, que temos no momento da tentação. Só esse grau de educação, em valores humanos, pode contrariar a tendência inata em todos.

De Eva a Avé
Duas são as razões pelas quais Deus veio até nós em forma humana; a primeira para nos dizer, de uma forma definitiva, como é Deus, a segunda para nos dizer como é o ser humano e como deve ser. Cristo é de facto a medida do humano, o metro padrão da humanidade, aquele com quem todos os indivíduos se devem medir, pois Ele é a norma, ele é o modelo, o paradigma. Cristo é o homem que Deus criou em Adão, antes de este ter desobedecido, de facto Jesus mostra, pelas palavras e pelas obras que se mantem, toda a sua vida, obediente a Deus.

Como Cristo é o segundo Adão, Maria é a segunda Eva. Avé é de facto Eva ao contrário. Cristo, o filho de Deus altíssimo, não podia ter como mãe Eva, depois do pecado; por isso no momento da sua conceição, no momento em que meia célula de Joaquim se uniu à meia célula de Ana sua esposa, Deus actuou, evitando que os genes que desde o pecado de Adão e Eva tinham passado de geração em geração passassem também para Maria. Maria foi concebida sem pecado original, por ter sido destinada a ser a mãe do filho de Deus. Não faz sentido que Deus encarnasse na natureza humana que Adão e Eva modificaram com o pecado. Por isso Maria que ia a ser a mãe do Senhor foi preservada desta herança negativa comum a todos os mortais.

Na Etiópia não existe a figura negativa de madrasta. Muitas vezes uma é a mãe biológica e outra é a mãe que cria e educa. Chama-se a “Ingera enat” ou seja, mãe do pão. Quando estudava teologia tinha um colega que à sua tia biológica chamava mãe e à sua mãe biológica chamava tia. O meu colega tinha sido rejeitado pela sua mãe biológica e acolhida pela irmã desta que o criou, era tanto o amor que tinham um pelo outro que estando ela já doente, terminal de cancro, não faleceu enquanto não viu o seu filho (biologicamente sobrinho) ordenado sacerdote.

Eva é a mãe biológica de todos os viventes; Maria é a nossa mãe de pão, desse pão eucarístico que é o seu filho que nasceu num cidade chamada Belém, que literalmente significa casa de pão, e que ela depositou numa manjedoura, recipiente onde se come, para que nós nos alimentássemos dele.

Eva é a nossa progenitora, mas abandonou-nos à nossa sorte, Maria é aquela que provê às nossas necessidades quando em Caná diz “Não têm vinho” João 2, 2

Eva é a que nos ensinou a fazer o mal, Maria é a que nos educa e ensina a fazer o bem ao apontar para o seu filho e dizer “fazei o que ele vos disser” João 2, 5.
Pe. Jorge Amaro, IMC

16 de novembro de 2014

Autoestima

Sem comentários:

Depois, Deus disse: «Façamos o ser humano à nossa imagem, à nossa semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre todos os répteis que rastejam pela terra. Génesis, 1 26

Importância da autoestima
Tudo me leva a crer que a forma como me vejo é mais importante do que a forma como me vêm os outros. Anwar el-Sadat

O ser humano é sempre sujeito e nunca objeto. No entanto, no autoconhecimento, uma mesma pessoa é, ao mesmo tempo, sujeito e objeto; sujeito porque quer conhecer, objeto porque ele mesmo é o objeto e objetivo desse conhecimento. Depois de nos fazermos conscientes de nós mesmos, de nos conhecermos e sabermos quem somos, a terceira questão que se coloca é se nos aceitamos tal como somos ou não.  

A autoconsciência e o autoconhecimento são mais atos da nossa inteligência que da nossa vontade. Possuir-se e aceitar-se é um ato da vontade. Se conhecer-se é como olhar-se ao espelho, a autoestima é gostar do que se vê e aceitar-se como se é. Uma coisa é o que sou objetivamente, ou seja, como os outros me veem, outra coisa é a imagem que tenho de mim mesmo, que é sempre subjetiva, ou seja, como eu me vejo e me valorizo.

A forma positiva ou negativa como uma pessoa se vê afeta necessariamente a forma como atua. A baixa autoestima pode levar a problemas comportamentais. Por exemplo, quando dez dos espiões que tinham sido enviados para explorar a terra de Canaã, se viram como gafanhotos em comparação com a alta estatura dos habitantes de Canaã, manifestaram a sua baixa autoestima, a partir da qual e pela qual concluíram que eram incapazes de tomar posse da terra. (Números. 13: 31-33).

Génese da autoestima
A autoestima é o resultado de todas as experiências e relações interpessoais que a pessoa teve na sua vida. Cada uma das pessoas que encontramos no decurso da nossa vida, sobretudo nos primeiros anos da nossa existência, teve um efeito positivo ou negativo sobre a forma como nos vemos e avaliamos.

A criança não se conhece a si mesma pelo que pensa que é, mas pelo que os outros lhe dizem que é. Se lhe dizem que é má, ela pensa que é má; se lhe dizem que é boa, ela pensa que é boa; se a amam incondicionalmente, ela chegará a amar-se a si mesma incondicionalmente, se a desprezam ela vai desprezar-se também a si mesma.

Como se desenvolve a baixa autoestima
As crianças que foram abusadas e violentadas física, sexual ou verbalmente, que foram usadas como objeto ou manipuladas de qualquer forma, nunca ou quase nunca receberam carinho, ouviram constantemente mensagens negativas acerca delas mesmas, foram ridicularizadas ou ignoradas, criticadas e nunca louvadas pelos seus acertos e sucessos e foram desfavoravelmente comparadas com outras, estas crianças vão padecer no futuro de uma fraca autoestima da qual não será fácil libertarem-se.

Como se desenvolve a autoestima
Ao contrário, terão autoestima as crianças educadas positivamente, as crianças que frequentemente ouvirem palavras de louvor, como “confio em ti”, “sei que estás a esforçar-te” perante o fracasso que foi precedido de esforço, “fizeste o melhor que podias”, “estou impressionado contigo”, “obrigado por seres honesto”, és o maior, estou orgulhoso de ti.”

Não perca uma oportunidade para dar os parabéns. Vemos muitas das coisas que os nossos filhos fazem bem sem mostrar reconhecimento. Reforçar sempre os comportamentos desejados, dar os parabéns quando as crianças fazem a escolha adequada em qualquer situação, não a deixar passar despercebida, recompensar o feito com um sorriso e um abraço. Evite o vício de dar os parabéns negativamente: “até que enfim que fizeste isso bem…” Mais que um elogio, esta frase é uma humilhação. Evite rebaixar e comparar as crianças com outras crianças.

Onde não fundamentar a autoestima
Parafraseando o evangelho, há pessoas que alicerçam a sua autoestima em areias movediças, em realidades mutáveis. Consequentemente, um dia podem sentir-se bem consigo mesmas e logo a seguir deprimidas.

Aparência física – Não é uma boa razão para gostar de si mesmo porque envelhecemos. Ao contrário da beleza interior, não é uma boa base para crescer, porque o que é hoje motivo de orgulho, será amanhã motivo de vergonha. Além disso, e como ficou provado no episódio da escolha do rei David, Deus olha para o interior da pessoa e não para a aparência externa (1 Samuel 16:7).

Desempenho – Se, por outro lado, a nossa autoestima assentar no nosso desempenho, ficará ligada aos nossos sucessos e fracassos – subirá quando formos bem-sucedidos, descerá quando fracassarmos. Além disso, os outros podem ser mais bem-sucedidos que nós; devemos por isso sentir-nos menos dignos? Em relação aos meus desempenhos no passado, Deus já me perdoou em Cristo (Col 2,13); quanto ao presente, Ele ama-me incondicionalmente (Rom. 5:8); quanto ao futuro, de tudo sou capaz naquele que me dá força. Fil. 4 13

Riqueza – Os bens materiais são um outro alicerce instável para basear a nossa autoestima. Hoje possuímos, amanhã podemos não possuir; os tesouros da terra estão sujeitos à traça, à ferrugem e aos ladrões. Os do céu estão ao resguardo destas vicissitudes da vida. Por outro lado, como diz Jesus, mesmo que um homem viva na abundância, a sua vida não depende dos seus bens. Lc 12, 15.

O feedback dos outros – Este é outro alicerce instável que nos faz dependentes dos outros, de adaptarmos o nosso comportamento ao que é popular; somos atores, não somos nós próprios e não podemos estar contentes quando não somos nós mesmos. Buscamos a fama, ficamos dependentes dela. Como exemplo, temos a experiência de Cristo: Domingo de Ramos é muito próximo de Sexta-feira Santa.

Onde devemos fundamentar a nossa autoestima
Ninguém pode fazer-te sentir inferior sem o teu consentimento. Eleanor Roosevelt

A autoestima é a perceção avaliativa de nós próprios – um conjunto de crenças, perceções, pensamentos, avaliações, sentimentos e tendências de conduta em relação a nós próprios que configuram e determinam a nossa forma de ser, estar e atuar no mundo e com os outros.

A verdadeira autoestima está enraizada no nosso relacionamento com Deus... (João 1,12). O verdadeiro amor é incondicional. Deus ama-nos incondicionalmente, os nossos pais amam-nos incondicionalmente e nós devemos amar-nos a nós mesmos incondicionalmente.

Sem complexos de inferioridade ou de superioridade, a verdadeira autoestima é uma visão realista, sensata e honesta de nós mesmos, das nossas virtudes e dos nossos defeitos, dos nossos talentos e das nossas limitações, dos nossos valores e das nossas crenças. Devemos retirar o devido valor tanto dos erros do passado, entendendo-os como lições, como dos sucessos.

Baixa autoestima – a pessoa desconhece ou desvaloriza os seus talentos e sobrevaloriza as suas limitações; é insegura.
Autoestima normal – a pessoa possui um autoconhecimento objetivo, sensato e saudavelmente autocrítico dos seus talentos e limitações.
Alta autoestima – a pessoa desconhece ou desvaloriza as suas limitações, sobre valoriza os seus talentos; é fanfarrona.

Indícios de falta de autoestima
A autocrítica exagerada cria na pessoa um estado habitual e constante de insatisfação consigo mesma. É perfeccionista, sente-se mal quando não é tão perfeita quanto exige a si própria. O fracasso pode afetá-la profundamente. Possui um complexo de culpa neurótico e escrupuloso; autocondena-se por comportamentos que não são objetivamente maus; exagera a magnitude dos seus erros, nunca chega a perdoar-se completamente. Tem uma forte tendência depressiva e pessimista; vê tudo negro na sua vida, no seu futuro; possui uma inapetência generalizada; não tem gosto pela vida.

Não reconhece os seus talentos, é cronicamente indecisa e não por falta de informação, mas por um medo exagerado de se enganar. Não resolve os seus problemas, mas, por um desejo exagerado de contentar os outros, não se atreve a dizer não, por medo de desagradar; é facilmente influenciável pelos outros.

É hipersensível à crítica que os outros lhe façam, ficando ressentida; mas ela mesma é hipercrítica com os outros. É irascível, zanga-se por tudo e por nada, gosta de culpar os outros, gaba-se, faz de palhaça, é agressiva, queixa-se só para chamar a atenção.

Indícios de autoestima normal
Acredita em certos valores e princípios, está disposta a defendê-los, mesmo quando se depara com oposição. Possui suficiente autoconfiança para modificar determinados valores se novas experiências indicarem que estava errada. É capaz de agir como considerar melhor, confiando no seu próprio discernimento, sem se sentir culpada quando os outros não são da mesma opinião. Confia na sua capacidade para resolver os próprios problemas sem se deixar acobardar pelos fracassos ou dificuldades. Está disposta a pedir ajuda aos outros quando precisa.

Não perde tempo preocupando-se excessivamente com o que fez ou com o que lhe aconteceu no passado, nem com o que lhe possa acontecer no futuro. Aprende com o passado e projeta-se no futuro, mas vive intensamente o presente, instalada no aqui e agora.

Como pessoa, sente-se igual aos outros, nem inferior nem superior; reconhece diferenças em estatuto, prestígio profissional e posição económica, sem sentir inveja. Dá como certo que é interessante e valiosa para os outros, pelo menos para aqueles com quem se associa de forma amigável.

Não se deixa manipular pelos outros, mas está disposta a colaborar com eles se lhe parecer necessário e conveniente. É sensível aos sentimentos e necessidades dos outros; respeita as normas sensatas de convivência e entende que não tem o direito nem deseja crescer ou divertir-se à custa dos outros.

Conclusão – Ama a Deus sobre todas as pessoas, ama todas as pessoas como te amas a ti mesmo, e ama-te a ti mesmo como Deus te ama.
Pe. Jorge Amaro, IMC


1 de novembro de 2014

Bullying

Sem comentários:
O ano passado, mesmo aqui na escola de Palmeira (Braga), um jovem suicidou-se porque não aguentava mais o gozo sistemático e persistente ao qual os seus colegas o tinham submetido. Porque o silêncio é parte do problema, quero no princípio deste novo ano lectivo, com estas linhas, ser parte da solução. Como visito com regularidade as escolas, para falar da Missão, quero contribuir para que estas cumpram melhor a sua função de formar não só intelectualmente mas também humanamente as pessoas, que amanhã vão tomar as rédeas do nosso mundo.

O bullying nas galinhas e nos porcos
Durante os meus anos de especialização, em Teologia Moral ou Ética, tinha uma admiração especial pelo trabalho de Konrad Lorenz, fundador da Etologia, o estudo comparativo do comportamento humano e animal. Sem pretender atentar contra a dignidade humana, Lorenz, concluiu que muitos dos nossos comportamentos são também exibidos por animais sobretudo os mais próximos de nós na evolução.

Os 5 milhões de anos que nos separam do primata mais próximo, para bem ou para mal, não foram suficientes para transformar ou acabar com a animalidade, que é parte integrante do nosso ser. Apesar de sermos auto conscientes, exercermos, mais ou menos, controlo sobre nós próprios, sentimentos e pensamentos, o que temos em comum com os outros seres vivos, o nosso instinto animal, é de longe o que mais motiva e determina o nosso comportamento do dia-a-dia.

No tempo em que cuidava de galinhas poedeiras, frangos de aviário e porcos observei que sempre que algum destes animais, por qualquer razão, ficava ferido os outros iam morder ou picar na ferida até o matarem. Sabendo disto, a miúdo procurávamos dentro do curral algum frango ou porco que tivesse uma ferida aberta e sangrante para o poder retirar a tempo e coloca-lo noutro local até a ferida sarar, antes que os outros o matassem.

“Al perro flaco todo son pulgas” diz um proverbio espanhol. Bullying é o que as hienas fazem perseguindo um cavalo ferido magro, que mal se tem em pé e está prestes a morrer. Bullying é o abutre a perseguir um bebé, que se arrasta com fome e sem energia no campo de refugiados do Darfur no Sudão para o lugar onde há alimento. Refiro-me a uma fotografia que deu a volta ao mundo e que causou a morte, por suicido, ao fotógrafo que por ela ganhou um prémio mas não ajudou a criança nem sabia se tinha sido ou não comida pelo abutre.

O bullying entre os humanos é, a meu modo de ver, decalcado deste comportamento animal. Os que o praticam buscam os colegas mais frágeis, mais tímidos e mais vulneráveis, não se metem com os fortes, com os que se podem valer por si mesmos. Se Konrad Lorenz fosse vivo talvez validasse as minhas observações e concluísse que afinal o bullying é um comportamento animal e portanto irracional.

Este tipo de comportamento não existe só nas escolas. Bullying foi o que fizeram os fariseus ao trazer a Jesus uma mulher apanhada em adultério para ser apedrejada. Bullying é o que os soldados fizeram a Jesus ajoelhando-se em troça diante dele coroado de espinhos dizendo, “Salve o rei dos judeus”; bullying é um povo cruel, sedento de sangue, sem dó nem piedade, ante um Jesus coberto de sangue gritar crucifica-o! Bullying foram todos os linchamentos da história da humanidade, quando o povo enraivecido se transforma na besta mais irracional e no animal mais monstruoso. O ser humano pode chegar a ser mais irracional que o animal, de facto, como notava Lorenz é o único animal que mata dentro da sua própria espécie.

Psicologia do agressor
A maioria dos bullies são fisicamente mais fortes e mais altos que as outras crianças, procuram especificamente os mais fracos, os mais tímidos e os menos equipados para se defender. Ignorados e abusados em casa, na escola desquitam-se ou buscam o respeito e o amor que não têm em casa.

Quem não é amado incondicionalmente em casa busca na rua ou na escola esse amor de formas inadequadas, metendo-se com os outros para dar nas vistas, ganhar popularidade e amizade, e tudo o que ganham é um falso amor baseado no medo.

Quando chegam à idade adulta são anti-sociais e mais propensos a cometer crimes, a bater nas esposas e nos filhos produzindo assim uma nova geração de bullies.

Psicologia da vítima
Geralmente as vítimas são mais sensíveis, cautelosas e calmas do que outras crianças; socialmente pouco competentes, nunca iniciam uma conversa e isolam-se da convivência com os colegas. Como têm uma visão negativa da violência, fogem dos confrontos e conflitos e irradiam ansiedade, medo e vulnerabilidade, que são farejadas pelos agressores, da mesma maneira que um cão fareja o nosso medo e ansiedade antes de nos atacar.

O seu temor e fraqueza física, tom de voz baixo e submisso, são parte de uma linguagem corporal que os denuncia e atraindo sobre si mesmos os bullies. Frequentemente estas crianças são rejeitadas, não só pelos bullies mas também pelos outros colegas; acabam por desenvolver uma atitude negativa em relação à escola e quando começam a ser agredidos ficam ainda mais ansiosos e amedrontados, o que aumenta a sua vulnerabilidade e a possibilidade de serem mais vitimizados, entrando assim num círculo vicioso e espiral de stress que leva a muitos ao suicídio.

Tão ladrão é o que vai à vinha como o que fica à porta
Frequentemente a vítima está tão fragilizada que, por medo ou por vergonha, nem denuncia nem busca ajuda, sofre sozinha… por isso quem sabe do caso ou contempla um episódio de bullying e nada faz tem uma responsabilidade acrescida; o silêncio e a passividade faz dele um cúmplice.

Portanto o contrário de bullying, não é não bullying mas sim, ser bom samaritano, ajudar e denunciar. Se não és parte da solução então és parte do problema; o teu silêncio faz de ti um cúmplice e homicida no caso da vítima se suicidar, como fez aquele jovem da escola de Palmeira.

O silêncio da maior parte do povo alemão, ante o genocídio de 5 milhões de judeus, fez deles cúmplices. Os mafiosos contam com o silêncio dos que até por simples casualidade são testemunhas dos seus actos. Sem silêncio não haveria mafia. Sem silêncio não haveria bullying. O nosso silêncio é por tanto culpável, e parte do problema pois, sempre leva à impunidade dos agressores e à fatalidade das vítimas.
Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de outubro de 2014

Todo santo teve um passado, todo pecador tem um futuro

Sem comentários:
Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério. Moisés, na Lei, mandou-nos matar à pedrada tais mulheres. E Tu que dizes?» (…) Jesus, inclinando-se para o chão, pôs-se a escrever com o dedo na terra. Como insistissem em interrogá-lo, ergueu-se e disse-lhes: «Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra!» (…) Ao ouvirem isto, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher que estava no meio deles. Então, Jesus ergueu-se e perguntou-lhe: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?» Ela respondeu: «Ninguém, Senhor.» Disse-lhe Jesus: «Também Eu, não te condeno. Vai e de agora em diante não tornes a pecar. João 8 1-11

“Quem não tem pecado que atire a primeira pedra”. Porque todos, de uma forma ou de outra, somos pecadores, a nossa miséria comum, deveria despertar compaixão de uns pelos outros. Pelo contrário, a maior parte das vezes suscita a crítica; uma critica mordaz e hipócrita, porque ninguém está livre de culpa. Jesus aconselha-nos a não julgar para não sermos julgados; adverte ainda que a medida que usarmos com os outros será usada connosco; e também, sobre esta mania nossa de apontar o dedo, diz em tom de repreensão: porque reparas no argueiro que está na vista do teu irmão, e não vês a trave que está na tua vista? Mateus 7, 3.

O olho humano não pode ao mesmo tempo focar ao longe e ao perto; por isso quem abunda na crítica aos outros, ou seja, quem foca ao longe e coloca a sua atenção nos defeitos dos outros, muito provavelmente é deficiente em autocrítica, ou seja, não foca ao perto para os seus próprios defeitos.

Mas porque focamos melhor ao longe que ao perto? E porque sentimos prazer expondo os pecados dos outros para os humilhar? Porque toda humilhação é uma forma indirecta e solapada de auto-exaltação; ao apontar o dedo a alguém, estou a atrair as atenções dos outros sobre mim, e subliminarmente dizendo: “Eu não sou assim” “eu sou melhor”…

Ao contrário do homem, Deus, não quer a morte do pecador mas que se converta e viva (Ezequiel 18,23). Deus, que perdoa e esquece, está mais interessado no nosso presente e no nosso futuro que no nosso passado; acredita nas nossas potencialidades e conhece, melhor do que nós, os nossos talentos pois foi ele que no-los deu e é com base nisso que nos perdoa e nos convida a mudar; o que Deus operou em pecadores como Pedro, Paulo, Agostinho e tantos outros pode operar em nós também. Todos eles tinham um passado de pecado, mas para Deus, o que contava era o seu futuro de santidade.

São Pedro, o covarde
São Pedro, o que chegou a dizer ao seu amigo e mestre, “Eu daria a vida por ti” (Lucas 22,33), quando, confrontado por uma criada, como sendo da companhia de Jesus, negou-o por três vezes chegando a afirmar que nem sequer o conhecia.

São Paulo o cúmplice em assassínios
São Paulo é o exemplo clássico de conversão, que em grego se diz metanóia e que significa mudança de mente ou como dizemos popularmente, “mudar de ideias”. A nossa vida é governada pelos nossos pensamentos ou ideias; muitos destes são preconceituosos e irracionais tornando consequentemente inadequado também o nosso comportamento.

A conversão como metanóia supõe confrontar os pensamentos para os modificar. Há uma teoria de psicoterapia que parte deste princípio. A REBT Terapia racional emotiva e comportamentalista baseia-se no conceito de que as emoções e comportamentos resultam de processos cognitivos; e que é possível para os seres humanos modificar tais processos para atingir diferentes maneiras de sentir e de comportar-se.

No encontro com Cristo, a caminho de Damasco, Saulo mudou de mente, mudou de ideia acerca de Jesus, e se antes perseguia os cristãos, e tinha sido até conivente na execução de muitos (Actos 7, 54-60), agora com a mesma convicção e furor anunciava a Cristo acabando por ser, de entre os apóstolos, quem mais viajou, quem mais sofreu pelo evangelho e quem mais se preocupou em educar e guiar as pequenas comunidades nascentes da sua pregação com cartas que continham as suas meditações e reflexões sobre o mistério de Cristo.

Santo Agostinho, o bom vivant
O grande Santo Agostinho, Bispo de Hipona, que juntamente com Santo Tomás de Aquino são respectivamente o “Platão” e o “Aristóteles” da Teologia católica, não nasceu santo mas sim pecador, como todos nós. Aos 15 e 16 anos levava uma vida de valdevinos; aos 17 entrou em união de facto com uma moça que durou 14 anos; dessa união, que nunca resultou casamento, nasceu um filho que viveu até à adolescência. As incessantes preces e lágrimas da sua mãe, Santa Mónica, levaram um dia o marido e o filho Agostinho à graça da conversão.

Miséria e Misericórdia
Voltando à mulher pecadora; depois de todos abandonarem a sua pretensa autoridade para julgar, ficou só com Jesus; como diz o próprio Sto. Agostinho, ficaram a miséria e a misericórdia: a miséria humana representada pela mulher pecadora a misericórdia divina representada por Jesus.

A resposta de Deus, à miséria humana, é a sua misericórdia divina. Há pessoas aprisionadas no seu passado que desconhecem que não há pecado ou miséria humana superior à misericórdia divina, e que os mais santos dos santos foram também fortes pecadores e se eles, apesar da sua miséria, tiveram futuro nós também o temos, todos o têm.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de outubro de 2014

Halloween

Sem comentários:
Origen de "All Hallows Eve"
Todos os anos no dia 31 de Outubro, nos Estados Unidos e no Canadá, festeja-se o Halloween. Mas não foi nestes países, tradicionalmente protestantes, onde nasceu esta festividade, cujo nome deriva do termo "All Hallows Eve", que significa Véspera de Todos os Santos. Com efeito, a véspera e o dia de todos os santos, assim como o dia a seguir, o dia dos fiéis defuntos, são a cristianização de festas que os Celtas celebravam, sobretudo na Escócia e na Irlanda, muitos anos antes de o cristianismo chegar a essas terras.

Halloween tem a sua origem num antigo festival Celta chamado Samhain, que em Gaelic significa Summer’s end, o fim do Verão. Os celtas, que viveram há 2000 anos no norte da França e da Península Ibérica, na Escócia e na Irlanda, comemoravam o novo ano no dia 1 de Novembro. Este dia marcava o fim do verão e as colheitas, a queda das folhas e o início do inverno escuro e frio; uma época do ano que não podia deixar de ser associada ao fim da vida humana, à morte.

Os Celtas acreditavam que na noite do dia 31 de Outubro, véspera do ano novo, a fronteira entre os mundos dos vivos e dos mortos difuminava-se e quase desaparecia; os fantasmas, dos mortos, voltavam à terra e vagueavam à procura de corpos para habitar. Como os vivos não queriam ser possuídos por espíritos, vestiam-se com trajes e desfilavam pelas ruas, fazendo barulhos para confundir, assustar e afugentar os espíritos.

O desfile passava pelas ruas da aldeia até chegar a uma grande fogueira, criada por um sacerdote druida, fora da aldeia. A fogueira era acesa primordialmente para honrar o deus sol e agradecer-lhe pela colheita de verão, mas era também um meio para afastar os espíritos furtivos. Se alguma pessoa manifestasse sinais de já estar possuída por um espírito, era sacrificada como exemplo para dissuadir os espíritos de possuir um corpo humano.

Pelo ano 43 D.C., o Império Romano conquistou a maioria do território celta. No decurso dos quatrocentos anos que governaram as terras celtas, o festival romano chamado Feralia, que comemorava a passagem dos mortos, foi combinado com a tradicional celebração Celta de Samhain.

No século VIII, o Papa Gregorio III designou o dia 1 de novembro para homenagear todos os Santos e mártires. E o dia 2 para homenagear e rezar pelo eterno descanso de todos os fieis defuntos. Estas duas festividades incorporaram algumas das tradições do Samhain. A Igreja não conseguiu cristianizar todas as tradições e costumes dos Celtas, pelo que algumas destas sobreviveram até serem levadas para a América pelos imigrantes irlandeses, que fugiram da fome da batata no ano 1846.

Halloween hoje
O iluminismo, o racionalismo, as grandes descobertas científicas do século XIX e os avanços da técnica do século XX, fizeram uma autêntica caça às bruxas ou seja à superstição. Podemos dizer que os povos ocidentais são, regra geral, hoje menos supersticiosos do que foram há séculos. Neste contexto Halloween é o dia em que nos rimos das superstições; e quando nos rimos delas quebramos o seu feitiço, elas deixam de ter qualquer poder sobre nós.

De facto ninguém tem medo dos trajes e máscaras, que desfilam neste dia e sim teríamos medo das mesmas num contexto diferente. O humor desfaz o medo, o poder e o efeito placebo e sugestivo que a superstição tem sobre as pessoas; enquanto nos rimos das superstições não as levamos a sério; enquanto nos divertimos com elas, não têm qualquer poder ou efeito sobre nós; quando temos medo delas então sim elas são poderosas como um cão, que nos ataca depois de farejar o nosso medo.

Superstição e fé
Desconsolados pela frieza de décadas de ateísmo e racionalismo teórico e prático, que combateu a fé como se fosse superstição e a superstição como se fosse fé, muitos refugiaram-se numa nova religião chamada New Age, Nova Era. A Nova Era é um sincretismo, ou salada russa, das religiões maioritárias do nosso planeta, associada a todo tipo de superstição, bruxaria e feitiçaria. Bem perto de nós, como exponente desse tipo de pensamento está o escritor brasileiro Paulo Coelho. Os êxitos de bilheteira, de filmes como Harry Potter e series sobre o oculto e vampiros, pode ser visto como uma reação ao ateísmo e materialismo que marcou a segunda metade do século passado.

A diferença entre a fé e a superstição é que a fé é razoável e plausível; há sempre razões que auxiliam e assistem a nossa fé em Deus e nos homens; todos os que acreditam têm razões para tal; ao contrário, a superstição é de todo irracional, é uma fé cega. Que um gato preto dê azar, e que um cornito e uma ferradura dêem sorte, é pressupor que esses objetos, materiais, têm poderes espirituais, ocultos em si mesmos; isto é uma crença irracional, porque o que é material não pode ter poder espiritual; só um ser espiritual pode ter poderes espirituais; a matéria é sempre matéria. Deus e o nosso próximo são o único objeto da nossa fé. A superstição, pelo contrário, tem como objeto realidades materiais, coisas, animais e artefactos.

Isto leva-nos a refletir sobre a diferença entre ícone e ídolo. Para os supersticiosos, o gato preto, a ferradura e o cornito, são ídolos, pois esses objetos valem por si mesmos, têm, segundo reza a crença, um poder espiritual oculto neles. Ao contrário, um ícone é como o ídolo, um objeto material, mas não tem valor em si mesmo, de facto a sua função é invocar uma realidade que está para além de si mesmo e transportar-nos para essa realidade; a madeira, esculpida em figura de Jesus, não tem valor nenhum em si mesma mas evoca e transporta-nos para Aquele que sim tem muito valor para nós; a imagem não é Cristo mas representa-o. Os iconoclastas protestantes acusam os católicos de adorarem ídolos (Imagens de Jesus de Maria e dos santos), porque não sabem a diferença entre um ídolo e um ícone.
Pe. Jorge Amaro, IMC


15 de setembro de 2014

Ter ou não ter Passaporte...

Sem comentários:
Nova evangelização versus missão ad gentes
Ide, pois, fazei discípulos de todas as nações, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Mateus 28, 19

No envio missionário, Jesus mandou os seus apóstolos pelo mundo inteiro para fazerem discípulos, de todas as nações e povos e não de um só povo ou nação, a própria nação. Hoje, porém, obcecada pelo decréscimo de fiéis e pela “Nova Evangelização”, como única solução para o problema, a Igreja, sobretudo a europeia, voltou-se para dentro de si mesma e colocou a “Missão Ad Gentes”, o objectivo para o qual Cristo a constituiu, em segundo plano.

Provando esta tendência a própria conferência episcopal portuguesa, que em toda a sua história só há bem pouco produziu um documento sobre a Missão, até colocou na mesma comissão Nova Evangelização e Missão Ad Gentes.

Antigamente havia sacerdotes diocesanos que se queriam fazer missionários, hoje o movimento é inverso; são cada vez mais os missionários que se fazem diocesanos. Depois de terem possuído a vocação mais perfeita da igreja, como dizia o nosso fundador José Allamano, dão agora as costas à Missão; depois de serem pescadores de homens, contentam-se em serem pastores; depois de serem águias contentam-se agora em serem galinhas de capoeira. Por outro lado, talvez para justificar “teologicamente” o ficar por cá, foi diluído o conceito “Ad gentes”; hoje toda e qualquer actividade pastoral é considerada “Ad Gentes”. Quando tudo é “Ad Gentes” nada é “Ad Gentes” O que é de todos, não é de ninguém; o sal e o açúcar desapressem da vista quando são diluídos; o “Ad gentes” torna-se em “Ad Nientes”.

Se os 12 apóstolos tivessem como objectivo converter todo o povo de Israel, e se para tal tivessem permanecido no seu país, o cristianismo não teria a dimensão universal que hoje tem e os judeus também não se teriam convertido.

A tese do livro “A terceira Igreja às portas” de Otto Kuss defende que serão os evangelizados, de outros países, que voltarão a evangelizar o velho continente. A nova evangelização portanto não vai ser feita por nós, mas por aqueles a quem, há muitas gerações atrás, fomos evangelizar; de facto já há entre nós, missionários, clero e movimentos laicais desses países a tentar talvez não uma “Nova Evangelização”, no entender de João Paulo II, ou seja evangelizar outra vez, mas sim uma “Evangelização Nova”, no entender do cardeal Martini, ou seja uma nova forma de evangelizar.

Houve um tempo em que a Europa dava, desde a sua abundância, à igreja universal; hoje, ante a escassez, é natural pensar mais em si e fechar-se em si mesma; pode ser natural, mas não é evangélico. Não é isso que aprendemos no Antigo Testamento, no episódio da viúva de Sarepta que fez um pão para o profeta Eliseu da última farinha que tinha reservado para ela mesma e para o seu filho, antes de ambos morrerem de fome. A mesma ideia vem vincada no Novo Testamento, como no episódio da viúva pobre que deu do que lhe era preciso para sobreviver. Do ponto de vista do evangelho não tem quem retém, mas sim quem dá.

Pastoral de manutenção
Que vos parece? Se um homem tiver cem ovelhas e uma delas se tresmalhar, não deixará as noventa e nove no monte, para ir à procura da tresmalhada? Mt 18, 12

A triste realidade é que as paróquias não saem fora da sua rotina de “business as usual” traduzindo-se numa pastoral de manutenção que graficamente pode ser representada na inversão da parábola da ovelha perdida: tudo o que o pastor faz é manter e entreter uma ovelha dentro do redil e não se importa com as 99 que andam tresmalhadas. De facto, ir à procura delas é trabalho de um “bom pastor” e o bom pastor é mais parecido com o pescador, pois deixa a sua zona de conforto para ir em busca. Como não vejo, na nossa igreja, grandes iniciativas de “Nova Evangelização” não será que esta foi inventada para contra restar, tirar força à Missão Ad Gentes? E portanto um pretexto para não fazer nem uma nem outra?

Cartão do cidadão ou passaporte?
Quando nascemos o nosso nome é escrito no registo civil e mais tarde é-nos dado um DNI (documento nacional de identidade), que nos define juridicamente à semelhança do nosso DNA, ou ADN, que nos define biologicamente. Mais tarde é-nos dada uma cédula de Baptismo, quando o nosso nome é registado no livro da comunidade cristã.

O cartão do cidadão só nos define como Portugueses em Portugal, enquanto o passaporte, apesar de não ser mais que um duplicado do cartão do cidadão, define-nos como Portugueses no mundo; abre-nos as portas de todos os países que constituem este planeta. Todos os portugueses têm um cartão de cidadão, mas nem todos têm um passaporte; analogamente todos os registados no livro do baptismo são cristãos, mas nem todos são missionários.

“Todo cristão é missionário” dizia-se aqui há uns tempos, e teoricamente é verdade mas na pratica não é assim; há cristãos que o são de portas para dentro, são cristãos evidentemente, tal como uma vela não precisa de estar acesa para ser vela, mas não são missionários, ou seja são velas apagadas. Como todos os talentos, a fé cresce quando se partilha e decresce quando não se partilha; ou se apega ou se apaga; o cristão que não é missionário, que não partilha a sua fé, tarde ou cedo, como todo talento que não se exercita, perde o que não dá deixando de ser cristão.

O missionário é aquele que para além do cartão do cidadão, que o define para dentro do país, tem também um passaporte, que o define para fora do país e o capacita para responder à chamada de Cristo, de deixar a sua terra e os seus, e ir pelo mundo inteiro anunciando a Boa Nova. O cristão é membro da Igreja, o missionário é membro do Reino de Deus, que é o objectivo da missão. Cristo fundou a Igreja para alastrar o Reino de Deus no mundo, e não para ser um castelo, no meio de um mundo sem Deus como Rei.

A Alegria de ser missionário
Os setenta e dois discípulos voltaram cheios de alegria, dizendo: «Senhor, até os demónios se sujeitaram a nós, em teu nome!» Disse-lhes Ele: (…) não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem; alegrai-vos, antes, por estarem os vossos nomes escritos no Céu.» Lc. 10, 17,18,20

Como cristãos os nossos nomes estão escritos no livro da paróquia; se queremos que estejam também escritos no céu temos que ser mais que isso, temos que ser missionários. Nem todo cristão é missionário, como nem todo discípulo é apóstolo. Cristo chamou os doze como discípulos e enviou-os como apóstolos, é como apóstolos, que têm os nomes escrito no céu, e não como discípulos.

A salvação é para todos, salvamo-nos na medida em que contribuímos para que outros se salvem; da mesma maneira que só somos felizes quando contribuímos para a felicidade dos outros. A Missão é coisa de todos os cristãos; Cristo disse estas coisas não no contexto da missão dos 12, mas sim no contexto da missão dos 72, que significa os membros do sinédrio, que eram os  representantes do povo judeu. Analogamente todo povo cristão está chamado a ser missionário, de longe ou de perto.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de setembro de 2014

Só não perdi o que dei

1 comentário:

O facto
Com vista a criar espaço, no meu disco exterior, para as inúmeras fotos e vídeos que tirei recentemente na Etiópia apaguei a cópia de segurança, de tudo o que tinha no computador, pensando que seria só provisoriamente. Infelizmente, depois de dias de uso do programa Photoshop, para o tratamento das fotografias, o computador avariou; ante a avaria, para não perder nenhuma informação, quis copiar, outra vez, todos os documentos do computador para o disco exterior mas já não fui a tempo, pois o que estava danificado era precisamente o disco duro do computador. 

O significado
Catástrofe… perdi tudo… perdi largos e longos anos de trabalho; como me foi acontecer isto a mim, que uso computador desde que este se começou a vulgarizar e que tinha sido sempre tão cuidadoso em guardar uma copia de segurança e às vezes até duas… Estou perdido, pensei… isto é como morrer, ou pior, como ter Alzheimer, perder a memoria; muito do material que tenho no computador preciso dele aqui e agora e no futuro.

Digital e espiritual
Foi em 1989,quando cheguei à Etiópia, que conheci o meu amigo americano, Pe. George Cotter de feliz memoria, recentemente falecido. Ele fazia um trabalho de investigação na área da antropologia cultural e recolhia provérbios etíopes. A coleção destes provérbios estava contida num pequeno computador portátil, de ecrã monocolor verde, com menos de um megabite de memória ram e 20 megabytes de disco duro.

Para evitar andar com baús cheios de livros, como muitos missionários fazem, deixei todos os livros em Portugal, e apenas levei para a Etiópia um arquivo/ficheiro com milhares de fichas, era a forma, na época, de guardar informação de forma ordenada. Ao ver aquela maquineta, de George, pensei que seria a solução para o meu problema.Como missionário, já tinha viajado muito, nunca tinha estado mais de 3 ou 4 anos no mesmo sítio, desde a idade dos 10 anos, e ainda teria muito que viajar o computador permitia-me andar com a casa às costas como o caracol; bem mais leve que carregar livros.

Foi então que começou a surgir em mim a filosofia do digital. Como hoje estou aqui, amanhã estou além, só posso levar comigo o essencial; e tudo o que para mim tem valor é digitalizável. Se pensarmos bem, o digital é sinónimo de espiritual; tanto um como o outro são realidades imateriais e intangíveis que precisam de um, cada vez mais pequeno, substrato material para existirem e subsistirem. Hoje, se imprimíssemos a informação contida num pequeno disco externo, enchíamos uma casa de livros, de discos de música, de albuns de fotografias e de grandes rodas de filmes de película. Não sei se seria possível “imprimir”, ou de alguma forma materializar, a mente e o espírito contidos no nosso cérebro…

A magnitude da perda
Tudo o que possuo atualmente é digital e está no meu computador: o meu diário; os livros que preciso e me são caros digitalizei-os e coloquei-os lá, foi um trabalho faraónico de muitos anos; os meus sermões; artigos já publicados e por publicar; só em documentos de puro texto tenho 8 gigas, mais de 3000 documentos, tudo muito bem organizado por temas e pastas; PowerPoints que fiz sobre inúmeros temas; palestras; encontros formativos; retiros;as minhas músicas preferidas, algumas adquiridas já em digital, outras digitalizei-as eu; as fotografias dos lugares onde estive e das atividades ali desenvolvidas: Espanha, Etiópia, Canada, Inglaterra, Estados Unidos e Portugal, que levei semanas a digitalizar dos antigos slides ou negativos; todas elas são mais de 12.000 devidamente catalogadas por tema lugar e ano;e por fim cerca de 100 filmes de mensagem, muitos dos quais comprei em CD e passei para a drive por comodidade. Um total de 120 gigas, que num momento se esfumaram em nada…

“Só não perdi o que dei”
Depois de duas noites, de mal dormir e maus sonhos, comecei a pensar que alguns documentos estariam no email; outros teria dado a amigos e pessoas que me pediram. Veio-me à memória, especificamente, uma pasta intitulada diaporamas, onde eu tinha colocado o trabalho de um verão. Digitalizei os antigos diaporamas, feitos de slides sincronizados com uma banda sonora em cassete. Fabulosos diaporamas com muitas histórias e mensagens que ninguém se tinha lembrado de transformar em powerpoints. Eu digitalizei o som e a imagem e manualmente sincronizei os dois; foi um trabalho que durou um verão inteiro e resultou numa pasta de uns 15 diaporamas. Como notei que seria material valioso dei depois a um catequista,assim como muitos livros no âmbito da psicologia e espiritualidade.

Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la (Mateus 16, 25). Eis aqui a prova de como o digital e o espiritual se parecem e de que o evangelho é a verdade e o caminho a seguir, em todas as realidades e situações da vida humana.

Tudo o que eu dei, do meu trabalho digital, não ficou perdido; tudo o que retive só para mim, perdeu-se. Se é verdade que só damos o que temos, também é verdade que só temos o que damos. Recordemos aqui a parábola dos talentos: aquele que não “deu”, que não fez render o seu talento perdeu-o; os que os “deram”, ou seja puseram em risco de perder os seus talentos negociando com eles, esses ganharam.

Se durante alguns anos, um futebolista, um cantor, ou um pintor deixarem de praticar a sua arte, ou seja de a “dar”, de a pôr ao serviço da comunidade, ao fim de um tempo perdem talento em relação a essa mesma arte e ofício: Porque não deram, perderam…

Um final feliz…
Pensava em recorrer àqueles a quem dei, para recuperar algo do perdido, quando o técnico informático me liga para me informar que, depois de três dias a trabalhar sobre o disco danificado, conseguiu recuperar tudo menos três vídeos da Etiópia feitos recentemente. Deo Gracias…

P. Jorge Amaro, IMC


2 de agosto de 2014

Ateus ou Politeístas?

2 comentários:
“As aparências iludem”… Muitos ateus, ou seja, os que argumentam contra a existência de Deus, e também os agnósticos, que nem sequer argumentam, muitas vezes são-no de fachada para os outros e para si mesmos, na prática, simplesmente substituíram o Deus “cristão” por uma infinidade de pequenos deuses, aos que consciente ou inconscientemente prestam culto.

Percepção natural do divino
A criança, desde o seu nascimento, percebe o mundo à sua volta como “uma terra inóspita, um ermo de solidão e horrendos uivos” (Deuteronómio 32,10) tem medo de tudo e de todos, pelo que necessita de se agarrar a algo ou alguém em quem possa confiar e quando o encontra sorri-lhe, dá-lhe a mão e desenvolve uma relação.

A filogénese repete ou recapitula a ontogénese: ou seja no desenvolvimento e evolução de um bebé até à maturidade, vemos repetida ou recapitulada a evolução e desenvolvimento do homem primitivo até aos nossos dias. A experiencia de extrema solidão e insegurança, que o bebé percebe, é idêntica à que o homem primitivo sentiu. Também este, ante um mundo que não conhecia nem sabia controlar, buscou, para além do amparo dos da sua espécie, a protecção de um ser superior definido antropologicamente como “Tremendo e fascinante”.

Em todo o tempo e em todo o lugar, desde que ganhou conhecimento de si próprio, o homem sempre foi religioso, ou seja sempre entendeu que o sentido e a razão última do seu ser e da sua vida estava fora de si transcendia-o e por isso buscou religar-se e criar laços com esse ser superior e transcendente.

Ateísmo ou emancipação?
O ateísmo só surgiu quando o homem ganhou uma certa confiança em si mesmo, depois da ciência e a técnica lhe terem providenciado melhores meios de sustento e um maior conhecimento e controle das forças da Natureza.

Não é portanto por acaso que o ateísmo só surgiu, onde a ciência e a técnica se encontravam mais desenvolvidas, no ocidente; e também não é por acaso que os ateus são, normalmente, pessoas que detêm algum poder financeiro, social, político ou intelectual ao qual, por ironia, se agarram religiosamente.

O que então parece ateísmo se calhar é emancipação; enquanto o homem se sentia inseguro e desprotegido, em relação ao mundo circundante, buscou o amor de Deus como Pai; com o desenvolvimento da ciência e da técnica o homem, não só ganhou um certo controlo sobre o mundo que o rodeia, como também uma maior confiança em si mesmo, a ponto de poder afirmar ante a viagem inaugural do Titanic “nem Deus o pode afundar”.

Sentindo-se assim de maior idade não precisava mais de um Deus Pai, tal como a analogicamente acontece na psicologia freudiana: a criança no seu processo de emancipação antagoniza-se com o pai; Nietzsche chega mesmo a declarar Deus morto para dar as vindas à maioridade do homem, o que ele chamou super-homem. Mas Deus não desaparece por muito que o odeies nem morre por muito que o declares morto.

O Deus cristão morreu, vivam os antigos deuses do Olimpo
Abandonada a relação com Deus transcendente, que o fazia verdadeiramente livre, bem depressa começou o homem moderno a endeusar ou idolatrar realidades imanentes domésticas com as quais se religou.

Assim sendo, a maior parte dos que se declaram ateus em realidade são politeístas, ou seja negam na sua vida o verdadeiro Deus, para submeter-se a realidades humanas e mundanas às quais devotam ou mal gastam grande parte do seu tempo e energias. São raros os ateus que não estabelecem laços e vínculos “religiosos” com estas realidades.

Consciente ou inconscientemente o homem de hoje recriou os antigos deuses do olimpo. Para os romanos, como para os gregos, cada realidade era governada ou tutelada por um deus: Vénus ou Afrodite, a deusa do amor; Baco ou Dionísio, o deus do prazer; Cronos, o deus do tempo; Neptuno ou Posídon, o deus do mar etc… Júpiter ou Zeus, o chefe dos deuses.

No antigo Olimpo não havia deuses para realidades como a paz, a fraternidade, o amor (entendido como serviço ao outro), a generosidade, a misericórdia, a justiça. Estas são ao mesmo tempo valores humanos e atributos de Deus. Só havia deuses para as realidades materiais e mundanas que reflectiam a natureza caída do homem.

A bíblia alerta para a tentação de dar valor de “Deus” às realidades mundanas, absolutizando-as ou idolatrando-as; não podeis servir a Deus e ao dinheiro (Lucas 16,13); não podeis servir o poder, o prazer, a fama, a juventude, a beleza física, a ciência, a técnica e tantas muitas outras realidades.

“Amar a Deus sobre todas as coisas” (Deuteronómio 6,5) significa relativizar todas as coisas, absolutizar só Deus e cultivar valores humanos que em definitiva são, eles mesmos, atributos ou definições de Deus. Ao negar a existência de Deus, a quem devemos amar sobre todas as coisas, o amor, a relação ou religação, do Homem moderno recai sobre todas as coisas, transformando-se deste modo, em politeísta, dividido, mundanizado e materialista.

 A natureza tem horror ao vazio
«Quando um espírito maligno sai de um homem, vagueia por lugares áridos em busca de repouso; e, não o encontrando, diz: 'Vou voltar para minha casa, de onde saí.' Ao chegar, encontra-a varrida e arrumada. Vai, então, e toma consigo outros sete espíritos piores do que ele; e, entrando, instalam-se ali. E o estado final daquele homem torna-se pior do que o primeiro.» Lucas 11,24-26

Tanto teístas como ateístas podem cair na tentação da idolatria; no entanto os segundos estão mais expostos que os primeiros; por um lado porque fechados à transcendência ficam à mercê da imanência, vivendo na pura mundanidade; por outro porque pretendem de uma maneira quase artificial criar um vácuo no seu íntimo e a natureza, também a humana, tem horror ao vazio.
Pe. Jorge Amaro, IMC


1 de julho de 2014

Jovens que desperdiçam a juventude

1 comentário:
"You are young, so shut up and enjoy life..."
“Youth is wasted on young people”… É uma máxima popular do mundo inglês, normalmente citada pelos adultos, acerca da forma como os jovens desperdiçam a sua juventude. A juventude é o tempo em que o corpo e a mente estão ao máximo das suas potencialidades mas geralmente falta a sabedoria, a motivação e a força de vontade para o gerir. Caso para dizer “Dá Deus nozes a que não tem dentes e dentes a quem não tem nozes”; quando há energia não há sabedoria, quando a sabedoria vem a energia foi-se…

É certo que todos aprendemos com os nossos erros, mas a vida é tão curta que melhor é aprender dos erros dos outros, pois não há materialmente tempo para fazer todos os erros e tirar deles todas as lições que precisamos… Três são, a meu ver, os dilemas que a juventude tem à sua frente e das opções que tomarem, ante estes três dilemas, vai depender a sua juventude e o resto da sua vida.

Hormonas versus mente
A explosão de hormonas, de que é alvo o organismo jovem, é muito intensa e o adolescente sente que o corpo lhe pede actividade, acção. Consumidores bulímicos do audiovisual, telemóvel, videogames televisão, computadores, cinema, privilegiam a experiência sensorial e emocional em detrimento da actividade mental e racional.

O corpo, como as suas exigências, governa a mente e não o contrario; as suas identidades, pessoais e sociais, não são construídas a partir dos valores ou categorias racionais, como o dever e o compromisso, mas sim a partir das suas experiências sensoriais. Sem estímulos sensoriais, os jovens de hoje, são como brinquedos sem pilhas.

Toda a forma de regulação institucional é percebida como uma restrição intolerável da liberdade e realização pessoal. Os ideais e as normas tradicionais, assim como a sua concretização em obrigações e valores, foram substituídos pelos imperativos da felicidade, e os direitos individuais. Os jovens adotam uma moral “light”, sem obrigações nem sanções, onde tudo o que é agradável é bom, e vice-versa, sendo o bem sinónimo de bem-estar.

Ensimesmados e rodopiando à volta de si mesmos, muitos jovens, vêem a vida, não como tempo e energias dedicados a alguém ou a um valor humano mas sim, como um bem de consumo, pelo que na prática podem concluir: “Consumo, logo existo”

Prazer imediato versus prazer adiado
A satisfação ilimitada dos desejos não produz bem-estar, não é o caminho da felicidade nem sequer do máximo prazer. ERICH FROMM Ter e Ser

O segundo dilema planteia-se entre o prazer imediato e o prazer adiado; ou mesmo o trocar o prazer imediato de hoje pela alegria de amanhã. Um corpo jovem está capacitado para fruir e usufruir dos prazeres mais variados e requintados, em intensidade e qualidade, sem consequências nefastas imediatas; por outro lado, nunca como hoje, a sociedade de consumo ofereceu tantos meios para a consecução de todo tipo de prazeres e sensações.

A força da tentação, conjugada com a mentalidade de gozar enquanto é tempo, leva muitos a sucumbir e a ficar adictos a substâncias, ou comportamentos obsessivos, repetitivos e viciantes, que levam à perda da liberdade e à ruina do corpo e do futuro… Como alguém dizia, Uso – Abuso – Fora de Uso… O psicanalista Erich Fromm alertou há muito que o prazer ilimitado não conduz ao máximo prazer mas à dor.

No âmbito da capacidade para adiar prazeres, foi conduzida uma experiência com crianças de 5 anos, às quais foi dado um caramelo e dito que as que se abstivessem de o comer, durante uma hora receberiam três mais. As crianças que resistiram à tentação, de comer o caramelo esperando outros três depois de uma hora, triunfaram mais na vida que as que não resistiram à tentação de o comer.

O prazer desbocado, sem rédeas, do corpo conduz à tristeza da alma. A alegria interior requer muitas vezes o sacrifício, ou sofrimento, do corpo mas recompensa pois é mais duradoira que o prazer e mais gratificante. A memoria do bem feito, especialmente quando contribuímos para a felicidade e bem-estar dos outros, é como a água que Jesus prometeu à Samaritana, dá alegria até ao fim da vida…

Contraria a esta realidade a tendência na juventude é de buscar cada vez mais o imediato: no campo das drogas, estas estão cada vez mais puras e sintéticas, levando à adição de uma forma mais rápida; no campo do consumo do álcool, o “shot” substituiu o beber alongadamente, em quantidade e em tempo. Por isto, faltando o realismo que confere o passado, e o idealismo ou utopia que confere o futuro, o jovem de hoje não tem nada pelo que lutar, só tem uma vida para viver no sentido de consumi-la.

Não queremos dizer que ser estóico é bom e ser hedonista é mau… De facto, o prazer em si é bom, desde que não seja a motivação principal de nenhum acto humano. Gozar a vida no presente é bom, desde que não comprometa e arruíne o futuro; o prazer da bebida é bom, quando a motivação principal é a saúde e o socializar; o prazer da comida é bom, quando tem em conta a saúde como motivação principal; o prazer do sexo é bom, quando é expressão de amor no contexto de um compromisso entre duas pessoas.

 Alguém dizia que a juventude de agora é como a fruta de estufa; vai de verde a podre sem passar por madura. Trata-se de uma generalização exagerada, no entanto não são poucos os jovens que se enquadram nestes paramentos.

Mínimo esforço versus máximo esforço
A lei do mínimo esforço tem governado e inspirado o progresso, a ciência e a técnica desde o aparecimento do homo sapiens; enquanto o Neandertal se adaptava à natureza, o homo sapiens adaptava a natureza à sua mente e necessidades. Basta olhar à nossa volta para ver como as descobertas científicas do seculo XIX, e as aplicações técnicas no seculo XX e XXI, trouxeram uma melhoria de vida material. Desde a descoberta da máquina a vapor, o trabalho humano é cada vez menos físico e cada vez mais intelectual.

Consumidores numero um, de todos os avances da técnica, os jovens podem ser levados a pensar que o progresso pessoal e espiritual é também governado pela lei do mínimo esforço, e tomar a atitude da lebre, com relação à tartaruga, na corrida para a meta. Se a lei do mínimo esforço governa o progresso material, o progresso pessoal e espiritual continua a ser governado pela lei do máximo esforço.

Analogamente Freud definiu maturidade como sendo a mudança de uma vida que assenta no princípio do prazer, como é a da criança e adolescente, para uma vida que assenta no principio da realidade. Por isso se no progresso material devemos ser homo sapiens, ou seja adaptar a realidade à nossa mente, no progresso espiritual e pessoal devemos ser neandertais, ou seja, adaptarmo-nos à realidade e natureza das coisas. Se a vida matéria é descendente, e a descer todos os santos ajudam, a vida espiritual é ascendente. O jovem, quando devia adiar o prazer e não a responsabilidade, faz precisamente ao contrário, como um Peter Pan, adia a responsabilidade e frui do prazer.
Pe. Jorge Amaro, IMC