1 de março de 2020

3 Valores humanos básicos - Liberdade - Igualdade - Fraternidade

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É quase impossível ler este título e não pensar imediatamente na Revolução Francesa. Estes três valores, por esta ordem, são geralmente associados à dita revolução e apresentados como a sua marca com direitos de autor, como se não pudéssemos falar deles sem falar dela. A verdade é que se estes são valores humanos básicos da natureza humana, então necessariamente antecedem a Revolução. Não foram, portanto, os revolucionários de 1789 que os criaram ou descobriram; na verdade, podemos dizer que eles reinventaram a roda.

Evolução – involução – revolução
A própria Revolução Francesa, associada ao fim da sociedade medieval dividida entre clero, nobreza e povo, foi muito mais que uma revolução e muita mais que francesa, pois alastrou ao resto da Europa e do mundo. Foi designada como revolução talvez porque, como todas a revoluções, fez correr muito sangue. Mas, em termos culturais e civilizacionais, a Revolução Francesa não foi mais que um renascimento social e político, ou seja, um regresso à antiguidade clássica greco-romana.

Como explicámos no texto anterior, as culturas e civilizações do Crescente Fértil que deram origem à civilização ocidental, (Suméria, Creta, Egito, Mesopotâmia, Síria, Babilónia, Pérsia, Grécia e Roma) foram-se sucedendo umas às outras de uma forma linear e sem grandes tumultos, quase como uma corrida de estafetas onde um atleta, depois de receber o testemunho do atleta precedente, corre e dá tudo por tudo para entregar o testemunho recebido ao atleta seguinte, com um valor acrescido fruto do seu esforço pessoal, ou seja, com vantagem sobre os demais participantes rivais.

A invasão do Império romano por povos germânicos, como os hunos, os vândalos, os visigodos, os ostrogodos, os francos, os lombardos e os anglo-saxões do nordeste da Europa, todos eles mais primitivos e menos desenvolvidos e por isso mesmo chamados bárbaros tanto pelos gregos como pelos romanos, foi para a civilização ocidental o equivalente do meteorito que chocou com a Terra e levantou tal poeira que escureceu o sol durante anos e mergulhou o planeta na escuridão e num longo inverno, originando a extinção dos dinossauros e de muitas outras espécies animais.

Depois da escuridão invernal da Idade Média, o Renascimento é entendido com a primavera da Europa. Os renascentistas entenderam a Idade Média com um acidente, um parêntesis, um período em que a corrida cultural e civilizacional de estafetas tinha sido abruptamente detida ou congelada. Entendendo que pouco ou nada tinham a aprender com a Idade Média, os renascentistas evitaram-na por completo e ligaram-se diretamente à Antiguidade Clássica greco-romana como por um bypass.

Curiosamente, tal como o mito da ave Fénix que renasce das próprias cinzas, o Renascimento começou precisamente onde o “meteorito” tinha caído, na Península Itálica. Comummente associada a um regresso à filosofia, à arte, à ciência e à arquitetura do mundo clássico, esta revolução pacífica foi bem mais profunda e duradoira, sendo a Revolução Francesa a sua última manifestação no campo da estrutura da sociedade e do governo político.

Ao fim e ao cabo, os revolucionários franceses não inventaram a república nem a democracia, estas já vinham de trás: a democracia dos gregos, a república dos romanos. Os três ideais de liberdade, igualdade, fraternidade, também vêm de trás; a nossa tese é que foram decalcados do Evangelho.

Até ao fim do Império Romano, o mundo tinha evoluído linearmente, com a queda deste nas mãos de povos primitivos, o mundo involuiu durante a Idade Média. Para deter este movimento de involução, foi necessária uma revolução.

A Revolução Francesa e o fim do sangue azul
A civilização e a cultura não pertencem ao mundo rural, mas sim ao mundo urbano. Polis para a Grécia, Urbe para Roma, o lugar por excelência da cultura é a cidade, porque é aí que acontece o maior número de interações e intercâmbios entre diferentes tribos e a todos os níveis, do comércio às ideias. Os povos invasores da última expressão da civilização ocidental - o Império Romano - eram povos rurais rudes que odiavam a cidade. Por isso estas foram morrendo à medida que a sociedade rural feudal se foi estabelecendo.

Durante a Idade Média, a sociedade europeia, estava estruturada em três classes sociais que, de alguma forma, imitavam o sistema de castas da Índia: clero, nobreza e povo. Porém, mais tarde, com a maior abertura da Europa ao comércio, foram-se criando pequenos núcleos populacionais chamados burgos que não viviam diretamente da agricultura.

Assim nasceu uma nova classe social - os burgueses - que eram fundamentalmente comerciantes e artesãos e que tinham um poder económico superior ao dos nobres ou do clero. No entanto, ao contrário destes, não tinham poder social nem político e muito menos estatuto, ou seja, não tinham lugar na sociedade das três classes.

Para além do nascimento da burguesia, a Revolução Francesa representou a eclosão de muitos outros fatores: as filosofias de Descartes, Espinosa e Locke, além das ideias sociopolíticas de Montesquieu, Voltaire e Rousseau. Os factos históricos das guerras do século XVIII criaram a necessidade de aumentar os impostos, o que levou o rei a convocar uma reunião dos Estados Gerais, clero, nobreza e povo, para o dia 5 de maio de 1789.

O povo, mais numeroso e dinamizado pelos burgueses, exigiu que as deliberações fossem votadas por cabeça e não por classes sociais. Desta forma, a vontade popular foi-se impondo sobre as outras duas classes sociais ou estados. Como é sabido, o acontecimento que desencadeou a Revolução Francesa foi a tomada da Bastilha no dia 14 de julho de 1789; a Bastilha era um castelo inexpugnável que na altura servia de prisão, tal como a Torre de Londres.

É curioso que o castelo, símbolo do mundo feudal medieval e do poderio da nobreza, tenha caído nesse dia. E com ele caiu o estatuto da nobreza e desapareceu o sangue azul. Um sangue que nunca tinha existido, um mito criado pelos mesmos nobres a partir do facto de terem a pele mais branca por não trabalharem como o povo de sol a sol, sobretudo as donzelas; por baixo da pele branca podiam observar-se as veias azuis, coisa que não era observável no povo, com a pele queimada do sol.

Na Idade Média, o estatuto social e influência política dependiam do nascimento, do título hereditário e da posse de terras. Depois da Revolução Francesa, foi-se impondo a ideia de que nascemos todos iguais e de que os méritos e as honras se conquistam a pulso, com o esforço individual. Ainda existem algumas monarquias na Europa, porém os reis não têm verdadeiro poder, reinam anacronicamente, mas não governam. Existem ainda alguns nobres, ou seja, gente que herdou títulos de condes e duques; mas a nobreza em si esvaziou-se de significado: vale mais uma pessoa do povo rica que um nobre pobre. Atualmente, é o dinheiro que confere o estatuto social às pessoas.

Para quando a "Revolução Francesa" na Igreja católica?
A Revolução Francesa conseguiu acabar com a nobreza, mas não acabou com o clero. Na Igreja, a distinção clara entre o leigo e o clero faz lembrar a Idade Média e o sistema de castas da Índia. A Igreja católica mais parece uma monarquia absoluta, com o Papa como um rei Sol com um séquito de Duques (ou Cardeais) e de Condes (ou Bispos). Não é por acaso que os Cardeais se designam por príncipes da Igreja.

O concílio Vaticano II pretendeu suavizar esta distinção entre clero e leigos, assim como democratizar mais a Igreja ao nível do seu governo, através de uma maior colegialidade ou participação. Assim, entre o Papa e os Bispos, instituíram-se os Sínodos; entre o Bispo e os sacerdotes criaram-se os conselhos presbiterais; e entre o sacerdote e o leigo, nas paróquias, criaram-se os conselhos pastorais.

Porém, como todos estes conselhos são apenas consultivos, facilmente são ignorados pela autoridade que os convoca e que muitas vezes escolhe a dedo os seus membros para que concordem com tudo o que a autoridade eclesiástica decide. O Vaticano II vaticinava uma igreja de círculos concêntricos, onde o sucessor de Pedro ocuparia o centro, sendo verdadeiramente o “servo servorum Dei”. No entanto, embora a teoria esteja correta na prática continua a prevalecer a mesma Igreja piramidal, governada por um monarca absoluto, mais ou menos iluminado, acreditamos, pelo Espírito Santo.

Num sistema onde a chave e o motor de tudo o que acontece na Igreja é o clero, o protestantismo vai ganhando terreno porque os leigos católicos, ao contrário dos protestantes, não têm consciência de serem evangelizadores. Tal acontece porque na Igreja católica, a evangelização é feita pelos clérigos. Por outro lado, como os clérigos são muito poucos ou se dedicam ao sacramentalismo ou às burocracias próprias de uma paróquia, também não evangelizam. Como prova disto, vejamos as estatísticas dos cristãos na Etiópia onde fui missionário. Os católicos que estão no país desde os Descobrimentos portugueses, são 0,5% da população; os protestantes, que apenas chegaram à Etiópia no século XX, são mais de 2% da população.

Liberdade
A ideia que aflora à nossa mente quando se fala de liberdade é a de viver de forma independente e autónoma, sem constrangimentos. A liberdade, no sentido de autonomia, é inerente a todo o tipo de vida ou matéria orgânica; é fazer coisas por si mesmo, como a árvore que com o processo da fotossíntese produz o seu próprio alimento, como vimos em texto anterior.

Muito mais que para os animais, a liberdade é condictio sine qua non para a vida humana. Os animais ou plantas fazem o que a natureza tem predestinado para eles, não saem fora desses moldes, pelo que não têm poder sobre a própria vida, não têm poder de opção. O ser humano, pelo contrário, não está predestinado pela natureza nem esta exerce poder sobre ele. Os animais estão vivos; o ser humano não só está vivo, como vive porque pode fazer da sua vida e com a sua vida o que quiser, orientá-la como quiser e até acabar com ela se assim o decidir.

“Dai-me a liberdade ou dai-me a morte” foram palavras pronunciadas num discurso por Patrick Henry durante a guerra da independência dos Estados Unidos. A liberdade é, portanto, um valor inerente à vida. Que entendiam por liberdade os teóricos da Revolução Francesa?

O conceito de liberdade na Revolução Francesa
O homem nasce livre, e por toda a parte encontra-se a ferros. Quem se julga o senhor dos outros não deixa de ser tão escravo quanto eles. Jean-Jacques Rousseau

O conceito de liberdade nascido da Revolução Francesa era mais político que outra coisa. Era sobretudo liberdade da opressão que o Estado exercia sobre os cidadãos; uma opressão que se traduzia em prender e executar pessoas sem o devido julgamento, o que aconteceu a Voltaire em virtude do seu uso da liberdade de expressão nos seus escritos.

A Revolução Francesa produziu a 16 de agosto de 1789 um documento chamado “Declaração dos direitos humanos” que influenciou não só a sociedade francesa daquele tempo, mas também a do resto do mundo naquela época e nos tempos que se seguiram.

O conceito de liberdade no evangelho
Se perguntarmos a um adolescente o que significa liberdade, imediatamente e sem pensar muito dirá “Poder fazer o que quero”. Porém esta não é a parte mais importante da liberdade. Para poder fazer o que quero, devo ser livre; poder fazer o que quero é o livre arbítrio e é a liberdade que me dá a capacidade de escolha. Sem liberdade não há livre arbítrio, é uma ilusão, uma quimera. A verdadeira liberdade é a liberdade de… o livre arbítrio é a liberdade para…

LIBERDADE DE… E LIBERDADE PARA…
A “liberdade de…” é sinónimo de emancipação, de conquista. Neste sentido, eu não sou livre à nascença, a liberdade deve ser adquirida como tudo o que a vida tem de bom, com esforço e com trabalho. A epopeia do povo hebreu ao libertar-se da escravidão do Egito, a passagem pelo deserto de purificação para entrar na Terra Prometida da liberdade onde corre leite e mel, é um paradigma da conquista da liberdade, da longa caminhada para a liberdade.

Se permanecerdes fiéis à minha mensagem, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres. João 8, 31-32

A mensagem de Cristo é composta por três partes: pela sua pregação ou doutrina, ou seja, por tudo o que Ele disse, por tudo o que fez, pelos seus milagres e obras pois, como Ele próprio disse, as pessoas conhecem-se pelas suas obras como as árvores pelos seus frutos (Cf. Mateus 7, 16) e, por fim, pela forma como ele se comportou em todas as situações da sua vida. Tudo isto é normativo para nós, tudo isto é “Caminho, verdade e vida” (João 14, 6), tudo isto é natureza humana.

O Criador fez-se criatura para ensinar os homens a ser homens. Na sua vida, Jesus revela a natureza humana e a forma de a viver; Ele é o padrão da natureza humana: quem quer ser autêntico e genuinamente humano mede-se por Ele. É neste sentido que devemos interpretar “a verdade vos fará livres”. Conhecer é poder e controlo, conhecer a verdade das coisas significa poder controlá-las, ter poder e exercer esse poder sobre elas.

Em psicologia dizemos “o que sabes sobre ti, em especial sobre o teu inconsciente ou vida passada, tu consegues controlar; o que não sabes, controla-te a ti”. O conhecimento da natureza que te rodeia, da própria natureza humana ao nível físico, espiritual e psicológico, dá-te liberdade, pois podes dominá-la e assim saber o que pode acontecer; conheces também os limites e dentro desses limites és livre, pois a liberdade absoluta não existe; sabes até onde podes correr, o que podes ou não podes comer, a quantidade de álcool que podes beber, etc. O conhecimento da verdade das coisas emancipa-te delas, deixando de estar à sua mercê; passas a não ser dominado por elas, és livre, independente e autónomo.

As coisas foram feitas para ser usadas e as pessoas para ser amadas. Esta é a verdade da natureza das coisas e das pessoas. Considerando esta verdade, és livre porque sabes o que fazer, ou seja, como relacionar-te com as pessoas e com as coisas de forma a seres feliz. O não conhecimento desta verdade far-te-ia andar às apalpadelas como um cego que não vê o caminho e por isso não é livre: a qualquer momento a falta de conhecimento pode ser fatal.

Portanto, a “liberdade de…” refere-se a duas realidades que podem escravizar-nos às coisas, ou aos bens materiais e às pessoas. Para conquistar a minha liberdade em relação às coisas e às pessoas, devo prestar vassalagem ao Criador das coisas e das pessoas, Senhor de tudo e de todos. Quando amo a Deus acima de tudo e de todos, conquisto a minha liberdade em relação a tudo e a todos.

Escuta, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor; amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças. Marcos 12, 29-30

Liberdade em relação às coisas
(…) se as vossas riquezas crescerem, não lhes entregueis o coração. Salmo 62, 11

O autor do Salmo deixa bem claro que o problema não é ser rico ou ser pobre, mas antes a relação que estabelecemos com as coisas. Um pobre agarrado ao pouco que tem, para o evangelho, é rico. Um rico desprendido do que tem, para o evangelho, é pobre. O amor é devido às pessoas não às coisas. Quem tem uma relação amorosa com as coisas, perverte a sua natureza humana, pois toda a relação amorosa pressupõe um intercâmbio simbiótico; eu dou-me a ti e tu dás-te a mim, pelo que parte de mim vai para ti e parte de ti vem para mim.

Assim é entre pessoas. Porém, se a mesma relação amorosa é estabelecida com coisas materiais, estas coisas ganham valor espiritual, ou seja, espiritualizam-se como se fossem pessoas, ganham alma. Do mesmo modo, a pessoa que se enamora das coisas materiais ganha valor material, ou seja, materializa-se, coisifica-se. É isto que queremos dizer quando definimos uma pessoa como materialista.

No amor verdadeiro entre pessoas, uma vez que te dás, te entregas, já não te possuis. Porém, como a pessoa a quem te deste partilha a tua natureza e também se deu a ti, podes estar seguro. O mesmo já não acontece quando dás o teu coração a algo não a alguém, a algo que não tem a mesma natureza; esse algo te domina e tu transformas-te em seu escravo. É neste sentido que se diz que o dinheiro é um bom escravo, pois podes fazer com ele muitas coisas; mas é um mau senhor, pois exige uma rendição completa ante a sua majestade.

Isto mesmo é o que verificamos no episódio do jovem rico que foi ter com o Senhor para inquirir se, depois de ter observado todos os mandamentos que apenas dizem o que não fazer, havia alguma coisa que ainda lhe faltava para adquirir a vida eterna. O Senhor gostou dele, como diz o evangelho, mas enganou-se a seu respeito pois este homem não era livre.

Contabilisticamente possuía muitas riquezas, mas do ponto de vista psicológico, como atrás explicámos, era possuído por elas. Por isso não era livre e, embora gostasse de ter seguido o Mestre, não conseguiu, pois, estava casado com a sua riqueza e esta nunca lhe concedeu o divórcio, não o deixou ir. (Cf. Mateus 19, 16-25).

O que dissemos em relação aos bens materiais “mutatis mutandis”, vale para a relação que muitas pessoas estabelecem com substâncias aditivas, como o tabaco, o álcool, a droga, etc. e com comportamentos aditivos, como a ira, a gula e a luxúria.

Liberdade em relação às pessoas
Quem amar o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim. Quem amar o filho ou filha mais do que a mim, não é digno de mim. Mateus 10, 37

O mandamento do amor a Deus tal como está descrito tanto no livro do Deuteronómio como no capítulo 12 de Marcos que acima citámos, estabelece prioridades e hierarquias. Se amamos a Deus, Ele deve vir em primeiro lugar: a Ele, o Criador, devemos amar acima de todas as criaturas, sejam coisas ou pessoas.

Custa-nos amar a Deus como um ser pessoal e espiritual, precisamos de coisas concretas, palpáveis e visíveis; por isso, a tentação de abandonar a Deus para idolatrar alguma realidade física ou pessoa é constante. O povo de Israel via em Moisés um sacramento palpável de Deus. Quando este subiu ao monte Sinai e por lá ficou muito tempo, ficaram sem essa presença sacramental de Deus no meio deles, uma vez que era Moisés que O representava de forma mais imediata. Sentiram-se sós e procuraram construir um bezerro de ouro para substituir a Deus e a Moisés. (Cf. Êxodo 32,21-24).

O mesmo aconteceu a Abraão depois de ter obtido de Deus o dom de Isaac e o princípio do cumprimento da promessa de Deus de uma descendência mais numerosa que as estrelas do céu… Abraão agarrou-se a Isaac e de alguma forma esqueceu Deus que lhe tinha dado Isaac. Deus, vendo isto, pediu-lhe Isaac de volta, e este foi o teste de Abraão, o teste para verificar se amava mais a Deus ou a Isaac a quem de alguma forma tinha idolatrado. Abraão passou o teste pois sacrificou Isac, só não o matou porque Deus não o permitiu, mas a intenção era essa e a intenção é o que conta. Abraão provou que amava mais a Deus que a Isac. Se não tivesse cedido Isac, este não seria o filho da promessa e Abraão não seria o nosso Pai na fé.

Depois de me emancipar, ou seja, de conquistar a minha liberdade, autonomia e independência em relação às coisas e às pessoas ou afetos desordenados, então sou “livre para…” me dedicar, para me entregar de alma e coração às pessoas ou a uma causa humana. Só damos o que temos; por isso só me posso dar se me possuo e para possuir-me devo conquistar a minha liberdade a minha soberania. Controlar os outros é fácil, controlar-se a si mesmo é o maior dos impérios. Frequentemente buscamos controlar os outros porque não conseguimos controlar-nos, não somos senhores do nosso nariz, não nos possuímos.

Igualdade
Como o primeiro valor da Revolução Francesa dizia respeito à relação entre indivíduo e sociedade, o segundo dizia respeito à relação entre os indivíduos no interior da sociedade. O ser humano é um ser pessoal individual, mas não é uma ilha, sempre faz parte de uma família, de um clã, de uma tribo, de uma nação. Como já refletimos num texto anterior, o ser humano é uno e trino, tal como Deus e a sua criação. São precisos dois seres humanos para dar origem a um, pelo que um não existe, mas coexiste com outros dois.

O valor base de um ser humano como ser pessoal e individual é a liberdade; o valor onde assenta o ser humano como ser social é a igualdade. Vejamos o que dizia a Revolução Francesa a este respeito.

O conceito de igualdade na Revolução Francesa
No contexto da Revolução, a igualdade era bem menos idealista do que se pensa. A nova classe social, a burguesia, que por não possuir estatuto se confundia em grande medida com o povo, buscava igualdade com o primeiro e segundo estratos sociais, ou seja, com o clero e a nobreza.

Os burgueses favoreciam a meritocracia, ou seja, uma sociedade onde o estatuto e os privilégios fossem definidos e atribuídos consoante o mérito, os talentos e as obras realizadas pelo indivíduo e não em virtude de direitos inerentes ao berço onde nasceu. Neste ponto, os revolucionários franceses inspiravam-se no país que acabava de formar-se os Estados Unidos da América - onde a revolução tinha transferido o poder de governo para homens de talento e habilidade: uma imitação do governo dos sábios da antiga Grécia.

É claro que os burgueses da época procuravam equiparar-se ao clero e à nobreza, mas não se julgavam iguais ao povo e certamente não desejavam partilhar o poder com o povo. Prova disso é que não lutavam pela igualdade universal de direitos nem pelo princípio democrático “um individuo, um voto”; entendiam que votar era privilégio das classes mais abastadas.

O conceito de igualdade no evangelho
Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor. - Levítico 19, 18

O segundo é este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior que estes. Mateus 12, 31

Não há em todo o mundo uma definição melhor de igualdade. O outro é um alter ego, ou seja, é um outro eu; não um tu, uma entidade, externa, estranha, estrangeira, distante, mas sim o meu próximo, tão próximo que é um outro eu, um alter-ego, de onde provém a palavra altruísmo.

O que me é devido a mim, é-lhe devido a ele, pois é um ser humano como eu e todos viemos do mesmo tronco comum nascido no Vale do Rift há 5 milhões de anos. A igualdade e a convivência na sociedade assentam no princípio de que os meus direitos são os deveres do meu próximo e os meus deveres são os direitos do meu próximo.

– Um missionário canadiano descobriu que existe em todas as religiões uma versão desta máxima e por isso lhe chamou a “regra de outro” - e verificou que enquanto nas demais religiões, incluindo o judaísmo, a regra era formulada negativamente: “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti”, disse o Rabino Hilel, “no cristianismo esta mesma regra como vemos pela citação do evangelho, é formulada positivamente”: “ Portanto, o que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles, porque isto é a Lei e os Profetas.» Mateus 7, 12

O evangelho não nos exorta a não ser pacíficos, mas a ser pacificadores, não nos exorta a evitar o mal, mas a fazer o bem, e a ser os primeiros a tomar a iniciativa.

Não julgueis, para não serdes julgados; pois, conforme o juízo com que julgardes, assim sereis julgados; e, com a medida com que medirdes, assim sereis medidos. Mateus 7, 1

- É uma exortação divina à igualdade não nos colocarmos acima dos outros, julgando-os, pois somos todos iguais. Ninguém nos constituiu juízes, e só o seríamos, só poderíamos atirar uma pedra, se não tivéssemos pecado. Mas pecámos e frequentemente julgamos os outros pelos mesmos pecados e defeitos que nós temos, pelo que o nosso julgamento é hipócrita.

Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo Jesus. Gálatas 3, 28

- Jesus curou estrangeiros e frequentemente exaltou a sua fé. Tratava o homem e a mulher de igual para igual, foi o único Rabino que teve discípulas. Nas parábolas que contava procurava um equilíbrio entre os homens e mulheres como protagonistas. Combateu o cliché de que a mulher devia dedicar-se exclusivamente ao trabalho doméstico, tendo como única vocação ser mãe. Desta forma, 2000 anos antes, já Jesus era a favor da integração da mulher no mundo do trabalho ao lado do homem. (Cf.  Lucas 10, 38-42, Lucas 11, 17)

Fraternidade
Este terceiro valor da Revolução Francesa parece qualitativamente distinto dos outros dois. Enquanto que liberdade e igualdade são princípios do Direito, regras normais que apelam à razão, a fraternidade parece apelar mais ao sentimento, à emoção que à razão. Neste sentido, enquanto que os outros têm um certo grau de obrigatoriedade e apelam a regras concretas e verificáveis, a fraternidade é menos normativa e mais deixada ao livre arbítrio de cada um, por ser matéria mais dos sentimentos que da razão. E os sentimentos não se podem obrigar nem comandar. Que entendia a Revolução Francesa por fraternidade?

O conceito de fraternidade na Revolução Francesa
No contexto da Revolução Francesa, este é o conceito mais idealista e utópico dos três. Difícil de definir, pois é mais abstrato, e de concretizar, pois é mais idealizado. Por aquele tempo, significava irmandade, união e solidariedade entre todas as classes sociais e cidadãos em torno do valor da pátria, França. Este ideal, com o decorrer da Revolução esfumou-se por não ter tido grandes concretizações históricas. Ficou apenas como o terceiro valor do ex libris ou lema da Revolução: liberdade – igualdade – fraternidade.

O conceito de fraternidade no evangelho
Quanto a vós, não vos deixeis tratar por “mestres”, pois um só é o vosso Mestre, e vós sois todos irmãos. E, na terra, a ninguém chameis “Pai”, porque um só é o vosso “Pai”: aquele que está no Céu. Mateus 23, 8-9

“Os animais são todos iguais, mas uns são mais iguais que outros”, diz George Orwel na sátira da revolução dos animais que pode ser vista com uma crítica à Revolução Francesa. Teoricamente e só mesmo teoricamente, os homens são todos iguais perante a lei. Na prática, uns são mais iguais que outros. Há práticas da justiça para todos os bolsos: frequentemente não ganha uma causa quem mais razão tem, mas quem mais dinheiro tem.

Não é porque não há ninguém acima da lei que nos faz a todos iguais, mas sim pelo facto de que Deus é Pai de todos, dos bons e dos maus, Ele é o único que não distingue entre de pessoas e faz chover sobre justos e injustos.

A igualdade perante a lei é um mito porque, como sarcasticamente diz, sempre haverá alguns que são “mais iguais que outros”.

O amor nasce entre iguais ou faz as pessoas iguais – Como este provérbio, podíamos descartar o valor da fraternidade, pois como nos diz o princípio dos vasos comunicantes, quando dois recipientes com desigual quantidade de água se ligam, o que tem mais cede água ao que tem menos, nivelando a água entre os dois recipientes.

A nível social, isto acontece quando um rico se casa com uma pobre, como no conto popular do príncipe que casa com a Cinderela. O príncipe rico casa com a Gata Borralheira e reparte a sua riqueza com ela e até parte do seu estatuto, já que ela passa a ser princesa. Também Deus, quando enviou o seu Filho para desposar a humanidade, elevou-a à categoria de filha adotiva; com Cristo tornámo-nos seus irmãos e herdeiros do Reino. (Cf. Marcos 2, 18-20 e Efésios 1, 5)

Neste mesmo princípio se baseou Karl Marx, de alguma forma o inspirador da segurança social, com a ideia de cada um segundo as suas capacidades, e a cada um segundo as suas necessidades. Isto é a fraternidade que permite que o que não tem trabalho por culpa do sistema possa, mesmo assim, satisfazer as suas necessidades básicas inerentes à dignidade de toda a pessoa humana. Esta mesma solidariedade é intergeracional, ou seja, existe entre as gerações numa sociedade moderna. Os que agora trabalham, descontam para pagar as reformas dos que já não têm força para trabalhar, mas precisam do seu sustento diário.

(…) Vieram, por seu turno, os primeiros e julgaram que iam receber mais, mas receberam, também eles, um denário cada um. Depois de o terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo: “Estes últimos só trabalharam uma hora e deste-lhes a mesma paga que a nós, que suportámos o cansaço do dia e o seu calor. (…) Mateus 20, 1-16

Os trabalhadores desta parábola são jornaleiros que trabalham como trabalhadores temporários durante a época das colheitas, e o empregador percebe que todos precisam do salário de um dia completo para alimentar as suas famílias. Não foi por sua culpa que não trabalharam o dia inteiro. De facto, quando o empregador lhes perguntou porque estiveram inativos todo o dia, eles responderam que ninguém os contratara. No meu entender esta parábola é tão ou mais inspiradora da ideia de segurança social que a máxima de Karl Marx.

Conclusão
O valor humano da dimensão individual do ser humano é a liberdade; o valor humano da dimensão comunitária do ser humano é a igualdade. Liberdade e igualdade são os valores sobre os quais assenta a vida humana e sobre os quais assentam os sistemas políticos e económicos da sociedade.

O capitalismo exacerba a liberdade, o socialismo exacerba a igualdade. O equilíbrio ou harmonia da liberdade e da igualdade são tão difíceis de interiorizar para o indivíduo como para a sociedade. O mundo mundano não tem uma fórmula ideal para harmonizar as duas dimensões; mas o cristianismo tem: o mandamento do amor.

A cruz, símbolo do cristianismo, é onde a verticalidade do amor a Deus sobre todas as coisas e a horizontalidade do amor ao próximo como a sim mesmo se encontram e harmonizam. Sem liberdade não há vida humana, sem igualdade não há vida social, sem fraternidade não há uma nem outra.
Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de fevereiro de 2020

3 Poderes democráticos: Legislativo - Executivo - Judicial

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Pilatos disse-lhe, então: «Não me dizes nada? Não sabes que tenho o poder de te libertar e o poder de te crucificar?» Respondeu-lhe Jesus: «Não terias nenhum poder sobre mim, se não te fosse dado do Alto.» João 19, 10-11

Deus e só Deus é a sede de todo o poder, pois Ele e só Ele é omnipotente. Os antigos governantes entenderam isto muito bem e procuraram sempre legitimar o seu poder como vindo de Deus, um último exemplo dos nossos dias é o da ditadura espanhola que se seguiu à guerra civil. Francisco Franco, carecendo da legitimidade que um presidente tem por sufrágio universal, ou a de um rei por sucessão, apresentou-se ante os espanhóis como “Caudilho de Espanha pela graça de Deus” e com este moto cunhou moeda. Outros líderes foram muito mais além da legitimação do seu poder por Deus, constituindo-se eles mesmos como deuses.

Deus é uno e trino e, por coincidência ou não, os poderes que governam a democracia são também três, intimamente unidos por vias de um mútuo controlo, equilíbrio e harmonia. A omnipotência de Deus diversifica-se nas três pessoas divinas: o Pai executa, o Filho legisla o Espírito Santo julga. Estes mesmos poderes existem em democracia, separados e sem interferências quando funcionam bem, interventivos quando tal não acontece.

“O poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente”; não se sabe quem disse isto, mas alude a uma grande verdade. Cedo no ocidente se descobriu que não podia haver um só poder ou que este não podia estar concentrado numa só instância; daí a separação de poderes em três instâncias, ao mesmo tempo independentes e interdependentes entre si.

A democracia nasceu na civilização ocidental e, no seu estado mais puro, só aí vigora. Fora do mundo ocidental ou da esfera de influência deste, vigora ainda a autocracia ou alguma forma de ditadura, frequentemente camuflada de democracia, com eleições ditas livres que não são mais que uma farsa, para tentar legitimar que certos políticos se eternizem no poder.

Evolução do poder político
A democracia ou governo do povo, nascida na Grécia, assim como a sua congénere romana chamada República ou coisa pública, hibernaram durante toda a Idade Média europeia, durante a qual o estado era o Rei acolitado pelos nobres, senhores feudais de “pendão e caldeira”, com o beneplácito do alto clero. Todos estes, apesar do seu lugar de proeminência junto ao rei eram, porém, como o resto do povo, seus súbditos.

Assolada pelas incursões dos muçulmanos, a Europa vivia fechada sobre si mesma, os mares não eram navegados, a sociedade dividida em três classes (clero, nobreza e povo) era sobretudo uma sociedade rural à volta de um castelo. Já em fins da Idade Média, com o surgimento do burgo, um núcleo populacional mais vasto, apareceram os artesãos, a compra e venda e o comércio. Com os burgos surgiram os burgueses que não tinham o poder das armas dos nobres nem o poder da cultura e da bênção ou excomunhão do clero, mas tinham o poder do dinheiro.

Os burgueses não tinham lugar nem estatuto na sociedade medieval, por isso rejeitaram-na e foram ressuscitar a antiga sociedade greco-romana. Como tinham dinheiro constituíram-se em mecenas financiadores de tudo o que fosse ressuscitar a sociedade antiga, a arte, a ciência, a filosofia, o direito. A Europa começou assim a acordar da sua letargia medieval para a sociedade moderna. O motor desta sociedade já não era o Rei com os seus nobres e o alto clero, mas os burgueses endinheirados. 

As guerras religiosas entre católicos e protestantes, na segunda metade do século XVI, levaram a um pequeno retrocesso do sistema político, com a criação do absolutismo iluminado pelo qual o monarca voltou a possuir plenos poderes, contendo as revoltas populares e as guerras civis religiosas. O mais famoso monarca deste tempo, apelidado de rei Sol, foi o rei Luís XIV de França que chegou a afirmar: “O Estado sou eu”. Estávamos já nos alvores da Revolução Francesa.

Montesquieu e a doutrina da separação de poderes
Quando uma única pessoa, singular ou coletiva, detém o poder legislativo e o poder executivo, já deixou de haver liberdade. Montesquieu O Espírito das leis. 1748

A doutrina dos três poderes separados, mas interdependentes tem a sua origem na república romana. Na antiga Roma, existiam três poderes: os Cônsules, o Senado e as Assembleias. Os Cônsules, escolhidos entre os senadores pelo período de um ano, eram o governo da república: tudo estava sob o seu poder, inclusive o controlo do exército.

O Senado era composto pelos membros das famílias nobres e ricas, os patrícios; os membros do Senado eram eleitos vitaliciamente pelos Cônsules. Havia 300 lugares no Senado; quando um posto ficava vago, os Cônsules elegiam um substituto entres os senadores.

As assembleias eram compostas pelos plebeus, o povo de Roma; reuniam-se no fórum romano, discutiam, votavam leis e até declaravam guerras. Mas o Senado tinha o poder de bloquear as suas decisões. Aparentemente com pouco poder, era nas assembleias que se escolhiam os Cônsules entre os senadores. Por isso, o nobre senador que quisesse aceder ao lugar de Cônsul tinha de ter o apoio popular. Como eram os Cônsules que escolhiam os senadores, pouco a pouco o povo podia colocar nos lugares de poder aqueles que eram mais favoráveis à sua causa.

Apesar disto, o povo queixava-se do poder limitado que tinha, o que fez com que os senadores permitissem que o povo elegesse Tribunos. Estes eram eleitos entre os pobres de Roma, participavam nas reuniões dos senadores e tinham o poder de vetar qualquer lei que fosse contra os interesses dos pobres.

Baseado nesta separação e interdependência dos poderes em Roma, Charles Montesquieu (1689-1755), um dos ícones do iluminismo francês, criou o seu modelo de Estado de Direito Democrático, hoje seguido por todas as democracias ocidentais.

Até à Revolução Francesa, o poder concentrava-se no Rei. Depois desta, o rei foi destituído e substituído pelo povo – por isso se diz hoje em dia “O povo é soberano”. Inerentes ao Estado de Direito Democrático estão os princípios de que a lei é igual para todos, ninguém está a cima da lei e todos os cidadãos são iguais em termos de direitos, deveres e dignidade - não existem, portanto, classes sociais, ou seja, grupos de pessoas com privilégios inatos.

Sendo o povo uma vasta coletividade, era necessário que este pudesse eleger os seus representantes. Para tanto, o poder precisava de ser dividido em três instâncias:
  1. O poder legislativo – encarregado da elaboração das leis que devem governar o Estado e os cidadãos. 
  2. O poder executivo – que ficava encarregado da gestão do Estado e de fazer executar as leis que fossem aprovadas pelo poder legislativo. 
  3. O poder judicial – incumbido de apreciar e julgar segundo um ordenamento jurídico, tanto o Estado no desempenho das suas funções, como a vida e comportamento dos cidadãos.
Estes três poderes são equilibradamente interdependentes, porque um fiscaliza o outro. Todos se amparam e regulam por uma Constituição democrática – fonte de todo o poder popular.

Competências do poder legislativo
Numa república parlamentar, o parlamento formado por deputados eleitos pelo povo, é a base ou fonte do poder e, de uma forma indireta de todos os poderes, o poder judicial é nomeado pelo poder executivo e, este último, tem origem no Parlamento. Normalmente, governa o partido que ganhou as eleições ou que elegeu um maior número de deputados; porém, quando este não consegue uma maioria parlamentar, pode governar o segundo partido mais votado desde que consiga uma maioria parlamentar numa aliança com outros partidos.

Nas democracias ocidentais, os parlamentos podem ter uma ou duas câmaras. Portugal tem uma só Câmara que se chama Assembleia da República. O Brasil tem duas, a Câmara dos deputados e o Senado federal. A Espanha tem duas, as Cortes e o Senado. A Inglaterra tem duas, a Câmara baixa ou Casa dos Comuns e a Câmara Alta ou Casa dos Lordes. Os Estados Unidos têm duas, o Congresso e o Senado. Porque o povo é soberano, os deputados são eleitos por sufrágio direto universal em eleições chamadas legislativas.

Legislar – As leis são propostas pelo governo, ou seja, pelo poder executivo que são os deputados, membros do governo ou ministros, que se sentam diante do Parlamento ou nos primeiros assentos deste. Antes de serem aprovadas, as leis propostas pelo governo são discutidas e debatidas pelos deputados. Neste processo, podem ser emendadas, corrigidas e, por fim, são votadas.

Quando o governo goza de maioria parlamentar, estas leis são normalmente aprovadas; se não detém a maioria, tem de fazer alianças com outras forças parlamentares para ver as suas leis aprovadas. O governo pode ser derrotado em leis de pouca importância, mas se for derrotado na aprovação do orçamento do Estado para determinada legislatura ou ano, cai, pois sem orçamento não pode governar.

Representar – Os deputados representam o povo e devem estar sempre em comunicação com aqueles que representam. Isto é particularmente verdade no Parlamento inglês onde os habitantes de determinada circunscrição elegem o seu representante e este traz para o parlamento os problemas concretos daqueles que o elegeram.

Isto não acontece no sistema português, onde o povo não sabe concretamente quem o representa, pois apenas votaram num partido que, consoante o número de votos, tem direito a um determinado número de deputados. Neste sistema, o povo não sabe quem concretamente os representa.

Fiscalizar – O Parlamento em si, mas sobretudo os partidos da oposição, fiscalizam e inspecionam a legitimidade de todas as ações do governo do ponto de vista financeiro, relativamente ao uso adequado ou inadequado dos recursos públicos. Sempre que necessário ou quando se suspeita de delito, a oposição recorre aos Tribunais de Contas. É também função do parlamento fiscalizar os atos administrativos, ou seja, toda a ação do governo em matéria administrativa em áreas como a saúde pública, os hospitais, a educação, as escolas, a justiça, etc. Para esta fiscalização, o parlamento recorre a comissões parlamentares específicas para cada área da governação.

O parlamento, sobretudo a oposição, tem também a função de chamar a atenção do governo para áreas ou assuntos descurados, em relação aos quais nada esteja a ser feito pelo executivo.

O poder a cima da lei
«O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado. O Filho do Homem até do sábado é Senhor.» Marcos 2, 27-28

O poder político num estado democrático recorda-nos que nada está a cima da lei. Mas isso não é verdade. As leis podem ser qualificadas de justas ou injustas, morais ou imorais. A dignidade da pessoa humana representada pela sua consciência moral bem formada e informada, está a cima da lei.

Parafraseando o que Jesus disse, a lei foi feita para o homem e não o homem para a lei. O Direito romano alude de alguma maneira a esta ideia na expressão “summum jus summa injuria”, extrema justiça, sem nenhum critério, equivale a extrema injustiça. Uma coisa é ser justo, outra ser justiceiro.

A objeção de consciência - “Na intimidade da consciência, o homem descobre uma lei. Ele não a dá a si mesmo. Mas a ela deve obedecer. Chamando-o sempre a amar e fazer o bem e a evitar o mal, no momento oportuno a voz desta lei ressoa no íntimo de seu coração… É uma lei inscrita por Deus no coração do homem… A consciência é o núcleo secretíssimo e o sacrário do homem, onde ele está sozinho com Deus e onde ressoa sua voz.Gaudium et Spes, 16

A consciência moral é a instância mais alta da dignidade da pessoa humana. “Se a pessoa viola a sua consciência e a esmaga, perde a dignidade”, dizia o cardeal Newman. A consciência não obedece, nem se submete a nenhuma outra instância nem a ninguém, só responde perante Deus. É o lugar, o sacrário da nossa liberdade; o governo, o executivo de toda a pessoa humana. A objeção de consciência significa que ninguém legalmente pode ser obrigado a fazer algo contra a sua consciência, especificamente contra os seus valores morais, espirituais e religiosos.

Entre os casos mais conhecidos de exercício do direito à objeção de consciência, está o caso do serviço militar obrigatório. Um jovem que professa e pratica a doutrina da não violência pode usar este direito para evitar ir para a guerra e matar em nome do que quer que seja, pois acredita que não há qualquer justificação para matar um ser humano.

Um outro caso muito conhecido é o dos médicos e enfermeiros que se recusam a participar num aborto. A lei do aborto é sem dúvida a lei mais injusta e cruel que o ser humano alguma vez inventou. Obrigar alguém a praticar um aborto seria violar a sua dignidade e forçá-lo a praticar um homicídio.

A desobediência civil – É um conceito parecido com a objeção de consciência. Talvez a única diferença seja o facto de que enquanto a objeção de consciência assume um cariz moral, pessoa e individual, a desobediência civil tem um cariz mais social e político. Trata-se, portanto, de desobedecer e não cumprir uma lei que um grupo de pessoas acha injusta. Adjacente a este conceito está o da resistência civil, pela qual a desobediência civil se estende no tempo e no espaço, através de estratégias que visam  seduzir a opinião pública e criar um movimento em crescendo que tem como objetivo obrigar o executivo e desistir de uma lei; é o que acontece atualmente em Hong Kong.

Exemplos deste tipo de ação são todas as greves que a classe operária e os sindicatos organizam. Historicamente, ficou famosa a marcha do sal organizada por Gandhi para quebrar o monopólio britânico sobre este produto.

O coeficiente moral de uma sociedade
(…) porque é que Moisés preceituou dar-lhe carta de divórcio, ao repudiá-la?» Respondeu Jesus: «Por causa da dureza do vosso coração, Moisés permitiu que repudiásseis as vossas mulheres; mas, ao princípio, não foi assim Mateus 19, 7-8

Eutanásia, pena de morte, aborto, são os exemplos mais conhecidos de como certas leis podem ser injustas e, como tal, devem ser repudiadas por quem, na sua consciência moral, as julga como iníquas e imorais.

Entre estas realidades, o aborto é sem dúvida a mais horripilante lei que existe na sociedade moderna, comparável aos campos de extermínio e às câmaras de gás dos nazis durante a II Guerra Mundial. Os interesses a favor do aborto são tão fortes que as pessoas tomam posições totalmente acientíficas sobre o assunto.

Do ponto de vista estritamente científico, a vida humana começa com a conceição, quando metade de uma célula humana, um espermatozoide, se une a outra metade de célula humana, um óvulo, formando uma célula humana completa. Esta união, uma vez consumada, é indivisível e indissolúvel. De imediato, o material genético de ambas as partes se entrecruza e mistura, de modo a formar um ADN, um código genético distinto do dos pais. Em seguida, o novo ser vai buscar à mãe o que precisa para se desenvolver, de modo que esta não tem qualquer poder sobre o novo ser e, por isso, não deve ter qualquer direito sobre o novo ser.

É cientificamente falso colocar o começo da vida humana num momento posterior à conceção; assim como é também falso pretender que o novo ser humano faz parte do corpo da mãe, justificando que ela possa decidir o que quer que seja sobre ele.

Que pode fazer o legislador cristão abdicar por 24 horas, como o rei Balduíno da Bélgica, para não ter de assinar a lei? Os legisladores num Estado de Direito legislam não de acordo com a sua consciência pois não legislam só para eles mesmos, mas sim de acordo com o coeficiente moral da sociedade para a qual legislam. Se colocam a fasquia muito alta, ou seja, se legislam de acordo com o ideal que no caso do aborto seria fazê-lo ilegal, arriscam-se a encher as prisões de mulheres e homens que praticaram ou participaram direta ou indiretamente no crime.

“Fazendo das tripas coração”, o legislador, ainda que seja contra o aborto, legisla de acordo com o coeficiente moral do povo para quem legisla, colocando a fasquia mais baixa que o ideal, mas mais alta que o coeficiente moral para apelar à consciência das pessoas para o valor e dignidade da pessoa humana.

Os grupos contra o aborto, em particular os cristãos, devem fazer campanhas de informação com vista a fazer crescer o coeficiente moral das pessoas em favor da vida, contra a morte e o extermínio de milhões de seres humanos. Eventualmente, quando este coeficiente moral tiver crescido, o legislador poderá legislar de novo ou convocar um referendo que dê origem à ilegalização do aborto. É certo que alguns continuarão a prevaricar, mas serão em menor número e haverá lugar para eles nas prisões.

Competências do poder executivo
O que o governo de um país ou o poder executivo não faz, é elaborar leis. Esta é uma competência do poder legislativo. Também não as interpreta, sendo esta uma competência do poder judicial. O poder executivo ou governo, como o nome indica, governa executando as leis que se fazem no parlamento, dentro da interpretação que dessas mesmas faz o poder judicial.

Quer nas repúblicas quer nas monarquias parlamentares, à exceção de França, as democracias europeias seguem o sistema parlamentar, pelo qual o parlamento é a única instituição legitimada democraticamente.

O governo recebe a sua autoridade e legitimidade do parlamento: o partido mais votado, se tiver maioria absoluta, indigita um primeiro ministro e forma governo; se não tiver maioria, procura aliar-se a outros partidos. Se não conseguir encontrar um partido para formar uma aliança, pode governar o segundo partido mais votado desde que, aliado a outros partidos, tenha maioria absoluta no parlamento; é este o caso da famosa geringonça portuguesa que começou em 2015 e vigorou até 2019.

Obrigatoriamente, os membros ou ministros do executivo ou do governo, são escolhidos exclusivamente entre os deputados do partido que obteve a maioria. Ou seja, antes de serem ministros do governo, são deputados do parlamento.

Nas repúblicas presidencialistas, como a dos Estados Unidos, o presidente representa o poder executivo e é eleito diretamente pelo povo. Mas também o congresso dos deputados é eleito diretamente pelo povo, facto que cria graves problemas institucionais, pois é frequente o partido do presidente eleito não ter a maioria no Congresso ou no Senado.

Em ambos os casos, a função do poder executivo é garantir o cumprimento das leis e o funcionamento das instituições. Cada ministro tem uma competência específica numa determinada área, como a educação, a saúde, as forças armadas, a polícia, as relações com outros países, etc.

Como o governo deve o seu mandato ao poder legislativo, periodicamente tem de dar satisfações a este. A maioria dos parlamentos tem um dia em que os deputados, sobretudo dos partidos da oposição, questionam o governo sobre o andamento da governação.

O amor pelo poder ou o poder do amor
As árvores puseram-se a caminho para ungirem um rei para si próprias. Disseram, então, à oliveira: “Reina sobre nós.” Disse-lhes a oliveira: “Irei eu renunciar ao meu óleo, com que se honram os deuses e os homens, para me agitar por cima das árvores?” As árvores disseram, depois, à figueira: “Vem tu, então, reinar sobre nós.” Disse-lhes a figueira: “Irei eu renunciar à minha doçura e aos meus bons frutos, para me agitar sobre as árvores?”

Disseram, então, as árvores à videira: “Vem tu reinar sobre nós.” Disse-lhes a videira: “Irei eu renunciar ao meu mosto, que alegra os deuses e os homens, para me agitar sobre as árvores?” Então, todas as árvores disseram ao espinheiro: “Vem tu, reina tu sobre nós.” Disse o espinheiro às árvores: “Se é de boa mente que me ungis rei sobre vós, vinde, abrigai-vos à minha sombra; mas, se não é assim, sairá do espinheiro um fogo que há de devorar os cedros do Líbano!” Juízes 9.7-15

A Palavra de Deus oferece-nos nesta parábola um valioso ensinamento. Frequentemente, os que aspiram aos altos cargos da nação não o fazem por terem um projeto, algum talento, ou algo para oferecer; os que têm algo para oferecer, como a Oliveira, a Figueira e a Videira, normalmente não buscam o poder.

São muitas vezes os espinheiros - um arbusto raquítico e seco que nem produz sombra nem frutos, sufoca as árvores à sua volta e causa incêndios – que buscam o poder. Ávidos de poder, seres de baixa índole moral, manipuladores corruptos e autocratas, pessoas que têm pouco poder ou controlo sobre si mesmos, querem controlar os outros.

O poder é serviço
Levantou-se entre eles uma discussão sobre qual deles devia ser considerado o maior. Jesus disse-lhes: «Os reis das nações imperam sobre elas e os que nelas exercem a autoridade são chamados benfeitores. Convosco, não deve ser assim; o que for maior entre vós seja como o menor, e aquele que mandar, como aquele que serve. (…) Ora, Eu estou no meio de vós como aquele que serve.» Lucas 22, 24-27

Quem não vive para servir não serve para viver; quem não serve o outro serve-se do outro. Para entender isto, o político deve descobrir o poder do amor para erradicar em si o amor pelo poder.

Abuso de poder ou corrupção
«Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se corromper, com que se há de salgar? Não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser pisado pelos homens.» Mateus 5, 13

Uma das funções do sal é preservar, evitar a corrupção. Todos os alimentos processados contêm sal por esta razão; o sal é usado para preservar peixe e carne, de modo a poderem assim ser armazenados por algum tempo. Quando um cristão é sal, ele evita que o tecido social das instituições às quais pertence e nas quais participa se corrompa.

Segundo o povo, “A situação cria o ladrão”, ou seja, ninguém nasce ladrão. Nas instituições surge às vezes uma oportunidade para roubar ou desviar fundos; esta oportunidade é como uma ferida que se abre no tecido social. Se algum cristão faz parte desse tecido social, ou seja, dessa instituição, ele coloca-se dentro da ferida, como sal, e esta cicatriza sem que nenhum germe provoque uma infeção.

Competências do poder judicial
Em certa cidade, havia um juiz que não temia a Deus nem respeitava os homens. Naquela cidade vivia também uma viúva que ia ter com ele e lhe dizia: “Faz-me justiça contra o meu adversário.” Durante muito tempo, o juiz recusou-se a atendê-la; mas, um dia, disse consigo: “Embora eu não tema a Deus nem respeite os homens, contudo, já que esta viúva me incomoda, vou fazer-lhe justiça, para que me deixe de vez e não volte a importunar-me.Lucas 18, 1-5

É esta a instância do poder que vela pelo direito, pela justiça e pela igualdade. O símbolo deste poder, a mulher com os olhos vendados com uma balança numa mão e a espada na outra, descreve de uma forma ideal os valores que defende. A balança avalia os atos de cada um, conforme uma bitola igual para todos, busca a igualdade. Faz recordar Daniel 5, 27 que alerta o rei para o facto de as suas obras terem sido pesadas e achadas com falta de peso. A venda nos olhos significa imparcialidade: a lei está a cima de todos, não favorece ninguém.

O poder judicial, de uma forma geral, tanto na vida do Estado como na dos seus cidadãos, julga o incumprimento da lei em todas as vertentes do direito, como o civil, o penal, o tributário, dirimindo - e resolvendo nos tribunais os conflitos que surgem entre os cidadãos, as empresas e as instituições. Cabe, portanto, ao poder judicial defender os direitos individuais e promover a justiça resolvendo todos os conflitos que surgem do viver em sociedade.

Apesar de o sistema providenciar um advogado para quem não puder pagar os serviços de um, na realidade quem mais dinheiro tem, mais “bafejado” pela justiça será. Os meandros da lei permitem que advogados muitos espertos consigam ilibar o culpado, pelo que o dinheiro também pode comprar a justiça ou, neste caso, a injustiça.

A área do Direito que mais se relaciona com o poder legislativo e executivo é a do Direito Constitucional. Cabe ao Tribunal Constitucional ou ao Supremo Tribunal velar pela Constituição e pela sua correta interpretação e aplicação, tanto no parlamento, pelos deputados, como no governo, pelos ministros.

O poder judicial é aplicado nos distintos Tribunais pelos juízes que não são eleitos pelo povo, mas sim pelo poder executivo. Dos três poderes, é o único que não é diretamente democrático.

Freios e contrapesos
É a teoria idealizada por Montesquieu e Locke sobre a separação de poderes. Por um lado, os freios e os contrapesos, existem para que os poderes permaneçam separados e livres, sem a maliciosa intervenção de um nos outros.

Por outro lado, esta intervenção também pode ser requerida quando um dos três poderes, abusando da sua liberdade e autonomia, se torna disfuncional. Neste sentido, a liberdade e a autonomia de cada um dos poderes existem, na medida em que cada um desses poderes fizer o que se espera dele, respeitando o que está estabelecido na Constituição.

Enquanto isto acontecer, os poderes não se relacionam entre si, funcionam harmoniosamente como as rodas dentadas do mecanismo de um relógio. Quando, porém, um destes poderes excede as suas competências, um dos outros dois intervém, de forma a fazê-lo voltar ao funcionamento normal consagrado na Constituição do Estado.

Um exemplo recente de freios e contrapesos é o Brexit. Após o resultado do referendo, segundo o qual os ingleses decidiram sair da União Europeia, e na aplicação dos resultados do mesmo, o governo britânico achou-se no direito de poder acionar o artigo 50, sem dar nenhuma satisfação ao Parlamento. Gina Miller uma simples cidadã britânica levou o governo a tribunal, que decidiu contra o governo, referindo que a prerrogativa para acionar o artigo 50 pertence ao Parlamento e não ao governo.
P. Jorge Amaro, IMC





15 de janeiro de 2020

3 Pilares da civilização ocidental - Atenas - Roma - Jerusalém

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A cultura da Europa nasceu do encontro entre Jerusalém, Atenas e Roma, do encontro entre a fé no Deus de Israel, a razão filosófica dos gregos e o pensamento jurídico de Roma. Este tríplice encontro forma a identidade íntima da Europa. BENTO XVI, em discurso no Parlamento Alemão (2011).

No seu sábio discurso no parlamento alemão, depois de agradecer o convite, o papa Bento XVI começou por dizer que apesar de ser alemão e acompanhar de perto e com grande interesse os assuntos do seu país natal, não tinha sido convidado como cidadão alemão, mas sim como Papa e Bispo de Roma. E acrescentou que o convite levava implícito o reconhecimento do papel da Santa Sé como parceira dentro da comunidade de povos e Estados.

O ocidente renega as suas raízes cristãs
Inspirando-se no património cultural, religioso e humanista da Europa, de que emanaram os valores universais que são os direitos invioláveis e inalienáveis da pessoa humana, bem como a liberdade, a democracia, a igualdade e o Estado de DireitoPreâmbulo da Constituição da Europa 2005

Este mesmo reconhecimento esteve ausente anos antes, quando o ex-presidente de França, Valéry Giscard d'Estaing apresentou a malfadada Constituição da Comunidade Europeia para ser referendada pelo povo francês. Se tivesse sido aprovada, teria sido votada nos restantes parlamentos nacionais da UE. No seu preâmbulo acima citado não há uma menção explícita a Deus nem ao cristianismo.

O cristianismo foi, ao longo da história, a alma da Europa e, ainda que esta agora seja laica, não pode deixar de reconhecer o papel desta religião como Mater ed Magistra - mãe, mestra e pedagoga - do continente e das suas gentes. Pode ser politicamente correto não mencionar o papel do cristianismo na vida dos europeus ao longo dos séculos, mas não deixa de ser tendencioso, preconceituoso e politicamente orientado não mencionar um inegável facto histórico que escreveu grande parte da história da Europa nos últimos dois mil anos. Para crescerem acima do solo, as árvores têm de crescer para baixo, aprofundando as suas raízes; um povo que ignora e nega as suas raízes é um povo sem identidade, uma cana agitada pelo vento.

O que o preâmbulo fez foi um misto de desprezo e plágio: desprezo porque ignorou categoricamente o contributo do cristianismo; plágio porque se apropriou de um “património religioso” sem o mencionar e citar devidamente. Um outro erro muito comum entre os políticos e também presente no preâmbulo é a separação entre religioso e humanista, como se religioso fosse uma superestrutura da qual se pode prescindir.

Cristo não veio fundar uma nova religião, Cristo veio ensinar os homens a ser homens. Por isso o cristianismo é em si o humanismo; por isso também é incorreto dizer humanismo cristão - porque o cristianismo ou é humanismo ou não serve de nada. Cristo não é um dos caminhos, uma das verdades, uma das vidas, mas o único caminho, verdade e vida (Cf. João 14,6). Não há uma alternativa igualmente viável a Cristo, como Ele próprio disse, “Quem não recolhe comigo, dispersa” (Lucas 11, 23). Para além de Cristo, não há outro modelo de humanidade; por isso, humanismo e cristianismo são uma e a mesma coisa.

É neste sentido que políticos, filósofos e humanistas que se proclamam agnósticos ou ateus se apropriam de partes do evangelho sem o citar ou pretendem reinventar a roda, afirmando como novas e originalmente suas, ideias que são decalcadas do evangelho escrito há dois mil anos.

O monge beneditino chileno Mauro Matthei (2004) faz uma reflexão intitulada “Jerusalém, Atenas e Roma, cidades símbolo da cultura cristã” na qual faz referência à altercação entre Pilatos e os sumos sacerdotes sobre o letreiro que tinha mandado colocar no alto da cruz de Cristo, referindo o motivo da condenação de Jesus.

O dito letreiro, que diz “Jesus Nazareno rei dos judeus” (João 19, 19-22), - foi escrito por Pilatos para troçar e se vingar dos sumo sacerdotes que o tinham obrigado a condenar um inocente; ao fazê-lo, porém, e sem querer, afirma profeticamente uma verdade contundente e objetiva, contrária à que eles queriam que figurasse no letreiro como tendo sido dita por Jesus , o que contaria como mera opinião subjetiva.

Com o seu solene “Quod scripsi, scripsi”, Pilatos confere ao seu escrito um valor absoluto que os sumo sacerdotes queriam relativizar, e ao escrevê-lo em hebreu, latim e grego, as línguas das três cidades pilares da cultura europeia, confere-lhe uma validade universal. Os políticos, afirma o autor, relativizam o absoluto e absolutizam o relativo. Relativizam, troçam e desprezam tudo o que se refere a Cristo e às suas palavras de vida eterna, para absolutizar as suas politiquices do momento que às vezes caducam antes de serem implementadas.

O crescente fértil como “pré-história” da civilização ocidental
A civilização ocidental tem como berço as culturas e civilizações do Crescente Fértil, dependentes do trigo e outros cereais que ali se cultivavam. Suméria, Creta, Mesopotâmia, Egito, Israel, Síria, Fenícia, Babilónia e o Império Persa estão na base da cultura grega e da cosmovisão religiosa de Jerusalém.

No Crescente Fértil, sucederam-se culturas, civilizações, hegemonias de povos sobre outros povos e assim o centro do poder e da cultura foi passando de mão em mão e de geração em geração, como o testemunho numa corrida de estafetas. Cada nova cultura e civilização herdava e assimilava os avanços da cultura anterior como património, propondo as suas próprias inovações, como diz o provérbio, “Libris ex libris fiunt” - os livros fazem-se a partir de outros livros.

De Leste para Oeste, do Sul para Norte
Nesta sucessão de impérios e deslocações de centros do poder, notamos um ligeiro movimento geográfico de sul para o norte e um movimento bastante mais apreciável de leste para oeste. A Grécia assimilou todas as culturas anteriores a ela, ao derrotar o Império Persa. Roma assimilou a Grécia, expandindo-se mais para norte e aproximando-se a oeste do fim do mundo conhecido - “Onde a terra acaba e o mar começa” citando os Lusíadas, de Camões.

Quando o poder e a cultura já se tinham deslocado para Roma e para os confins do mundo conhecido e parecia que o Oriente já não tinha mais para dar, nasceu Jesus de Nazaré e, com ele, a cidade de Jerusalém transformou-se no terceiro pilar da cultura europeia. A destruição de Jerusalém pelo Imperador Tito no ano 70 DC obrigou os Judeus a dispersarem-se por toda a Europa. No entanto, como viviam em ghettos, em pouco ou nada influenciaram a cultura ocidental.

Foi o cristianismo, que começou por ser uma seita do judaísmo, que influenciou a cultura e civilização ocidentais a partir do momento em que se transformou na religião do império romano, com Constantino, no século IV. Com a queda do império no século V, causada pela invasão de povos bárbaros, sobretudo pelos godos e pelas tribos germânicas, o poder político passou para norte, mas a Igreja herdou toda a cultura ocidental, uma vez que os povos nórdicos eram primitivos. Estes povos reconheceram e respeitaram o papel da Igreja e assim a Europa mergulhou na Idade Média.

Para o fim desta, portugueses e espanhóis, seguidos pelos inglese e franceses, globalizaram a civilização ocidental, conquistando dois grandes territórios: o continente americano e a Austrália. Hoje, inquestionavelmente, fazem parte da civilização ocidental a Europa, a América, a Austrália e a Nova Zelândia.

A diferença entre a América do Norte e a do Sul é que no Norte os colonos (ditos peregrinos) pensaram que haviam chegado à sua Terra Prometida e, tal como os Judeus do tempo de Josué, fizeram uma limpeza étnica, exterminando quase por completo os indígenas por os considerarem mais primitivos. No Sul, os indígenas tinham formado civilizações, eram em maior número e eram mais fortes; por outro lado, os colonizadores eram de outra índole e não estavam interessados em exterminá-los, mas sim em escravizá-los.

A Rússia, tanto do ponto de vista cultural como do ponto de vista histórico, não tem uma identidade definida apesar de que a maior parte dos seus habitantes vive a oesta dos montes Urais ou seja em Europa; Gorbatchov era europeu na sua forma de pensar e atuar e falava da Europa como casa comum; Putin é totalmente asiático pela forma despótica como governa e pela oposição à Europa e aos valores da cultura europeia.

Os países muçulmanos, apesar de terem muito em comum com a civilização ocidental, não pertencem a esta porque não comungam dos mesmos valores e porque ainda não abdicaram do sonho tantas vezes fracassado de a conquistar. Hoje, como não conseguem defrontar o mundo ocidental em campo aberto, antagonizam-no com o terrorismo. A fraca narrativa do Alcorão comparada com a narrativa dos evangelhos, assim como o défice de humanidade de Maomé quando o comparamos com Jesus, fá-los sentir-se inferiores e com medo de desaparecer do mapa, o que os torna mais agressivos.

A civilização ocidental é a mais bem sucedida até à data, o que nos faz crer que só há um modelo de desenvolvimento; assim como Jesus de Nazaré é a medida do humano, a medida padrão de humanidade, a civilização ocidental parece representar o único modelo de desenvolvimento, ou seja, não há um outro modelo de desenvolvimento alternativo que não passe pelo moinho, movido a água ou pela maré, ou vento, o cavalo, a agricultura, a máquina a vapor, o comboio, a eletricidade, a rádio, a televisão, o petróleo, o carro, o avião, o telefone fixo, o telemóvel, o computador, a Internet, etc. A globalização globalizou sobretudo a civilização ocidental, pois foi a primeira a pôr o mundo em comunicação. Hoje, as culturas diferenciam-se entre si por pequenas e insignificantes nuances; tudo o resto é comum.

Europa, o berço da civilização ocidental
África, Ásia, América, Austrália, Antartida - os continentes que constituem o nosso planeta têm todos nomes femininos que começam e acabam com a letra A; feminino é o nome do planeta em si. A Europa não começa por A mas termina em A e é nome de mulher.

Na mitologia grega, chamava-se Europa a princesa fenícia por quem Zeus, o rei dos deuses, se apaixonou quando esta passeava com as suas amigas junto ao mar. Quando lhe perguntaram o que era a Europa, o poeta francês Paul Valéry respondeu com três palavras: Atenas – Roma – Jerusalém. De Atenas nos veio o amor pela liberdade política, a democracia, a filosofia que busca educar o Homem no uso da razão; a busca da verdade, do bom e do belo.

De Roma nos veio o direito, a organização do Estado, o primado da lei a cima de tudo e de todos, ricos, pobres, escravos e governantes. O Estado não está ao serviço do governante, mas ao serviço da “Res publica”, literalmente coisa pública, ou seja, o que é de todos; daqui deriva o sistema de governo República.

De Jerusalém nos veio o judaísmo por intermédio do Cristianismo, o monoteísmo que veio substituir o politeísmo que reinava tanto em Atenas como em Roma. O monoteísmo veio servir de suporte aos valores ocidentais, ao primado da lei por exemplo; todos são iguais perante a lei porque todos são filhos do mesmo Deus, criador do Céu e da Terra, um ser pessoal amoroso e bondoso e não caprichoso como os deuses das mitologias grega e romana

Vejamos mais em pormenor o que devemos a cada uma destas cidades, pilares da cultura e dos valores ocidentais que são os que o mundo ocidental procura inculcar no resto do mundo e que estão consagrados na carta dos direitos humanos das Nações Unidas.

O contributo de Atenas
A cultura helénica influenciou a civilização ocidental em inúmeras vertentes; certamente em muitas mais vertentes que as outras duas cidades pilares da mesma.

Filosofia – Filo-sofia (amor pela sabedoria). Era a arte de pensar sem nenhum objetivo prático ou pragmático para além de divisar o sentido do cosmos, das coisas e da vida em geral. É um pensamento crítico racional e reflexivo. Acima de tudo, a filosofia grega contestava a visão mítica do mundo. Os mitos são a primeira tentativa de explicação das coisas e dos fenómenos para lhes dar sentido e significado. São narrativas simbólicas cujos personagens são deuses. Segundo esta explicação, cada realidade era comandada por um deus, havendo assim um deus do tempo, Cronos, um deus da guerra, Marte, uma deusa do amor, Vénus, etc.

A filosofia olha para o mundo de uma forma racional e busca explicações racionais ou razoáveis para os fenómenos naturais, sem recorrer a mitos ou a lendas fantasmagóricas. Destacam-se os filósofos Sócrates, Platão e Aristóteles e um grande número de filósofos pré-socráticos como Heráclito, Parménides, Zenão, Demócrito, Anaxágoras e muitos outros.

Só sei que nada sei – É a máxima socrática que leva a não nos contentarmos nunca com o que sabemos e a mantermos sempre a humildade, tão importante para aprendermos mais e mais. Para além do seu método de conhecimento, Sócrates imortalizou-se pela sua maiêutica, a arte de ajudar a dar à luz, baseada no princípio de que a sabedoria já está dentro de nós, só precisamos de alguém que nos ajude a iluminá-la. Ainda hoje este princípio é válido e é aplicado em psicoterapia, na psicologia não diretiva de Carl Rogers, e também em sociologia, pelo pedagogo brasileiro Paulo Freire.

Democracia - A cidade de Atenas é considerada o berço da democracia. Os cidadãos atenienses (homens, nascidos na cidade, adultos e livres) eram aqueles que podiam participar das votações que ocorriam na Ágora (praça pública). Decidiam, de forma direta, os rumos da cidade-estado.

Ciência – O abandono das crenças e mitos é importante para o surgimento do pensamento empírico e científico. Neste sentido, a filosofia é a mãe das ciências, pois foi com ela que surgiu o pensamento racional, livre de lendas, mitos e crenças, para analisar a realidade e os fenómenos naturais.

Por outro lado, a atitude socrática de que “só sei que nada sei” é também importante para ir divisando o mistério que envolve qualquer ciência: quanto mais se sabe, mais há para saber. Ainda hoje, os termos técnicos e científicos derivam do grego e os novos conceitos formam-se a partir do grego.

Medicina – Hipócrates, considerado o pai da Medicina, foi o primeiro a entender que as doenças não eram causadas pelos deuses, mas tinham como génese um desequilíbrio. Hipócrates deixou-nos o seu juramento que é ainda hoje utilizado pelos médicos no início da sua carreira.

Matemática – Tales de Mileto e Pitágoras deixaram-nos os seus teoremas, curiosamente à volta do triângulo, a figura geométrica mais simples, sendo todas as outras constituídas por sérias de triângulos.

Arquitetura – Certamente herdeira de patrimónios anteriores, como o do Egito e da Mesopotâmia, a arquitetura grega imortalizou-se com a introdução das colunas que tornaram os edifícios mais elegantes e menos monolíticos que os anteriores do Egito e da Mesopotâmia. As colunas gregas diferenciavam-se pela forma que assumiam no seu topo, com três estilos diferentes: o dórico, o jónico e o coríntio

Arte – O conceito de beleza e harmonia retratado na escultura e na pintura. Os escultores buscavam retratar no máximo detalhe o corpo humano, característica que mais tarde voltou a observar-se no Renascentismo europeu, que nos deu obras tão famosas como a Pietá e Moisés.

História – Os gregos foram os primeiros a tratar a história com caráter científico, separando os factos das lendas, dos mitos e das crenças religiosas, distinguindo entre ação humana e interferência ou intervenção divina. A própria palavra História vem de um termo grego que significa pesquisa, investigação. Destacam-se os autores Heródoto, considerado também o pai da História, Xenofonte e Tucídides.

Literatura – Destaca-se Homero com os seus poemas épicos: Ilíada que descreve a guerra de Tróia, e Odisseia que descreve as viagens e peripécias de Ulisses. Diz a lenda que este herói fundou a cidade de Lisboa, Olissipona, a cidade de Ulisses, quando deixou Tróia depois da guerra.

Teatro – O teatro, nas diferentes modalidades de tragédia e comédia, representava não só uma diversão para os gregos, bem diferente da diversão violenta dos romanos com os gladiadores na arena, como era também uma forma de educação da juventude. Os autores mais famosos: Ésquilo, Sófocles, Aristófanes e Eurípedes. Como as encenações eram ao ar livre, a Grécia construiu inúmeros teatros, tanto a norte como a sul do Mediterrâneo, e as suas ruínas ainda hoje podem ser observadas.

Jogos Olímpicos – Tinham um carácter sagrado, eram como o próprio nome indica uma homenagem aos deuses do Olimpo. Foram os gregos que inventaram, o desporto, a preparação física; eram jogos pan-helénicos, ou seja, entre as cidades-estado gregas. Celebravam-se de quatro em quatro anos e duravam cinco dias.

O contributo de Roma
Senatus Populus Que Romanus (SPQR) – O Senado e o povo de Roma. Estas são as iniciais que os romanos levavam nos seus estandartes, na sua bandeira, nas expedições militares, e que colocavam nos edifícios públicos. Se algo demonstram estas insígnias e símbolo do poder de Roma, é que a ideia de democracia do povo grego foi assimilada pelo povo romano. Democracia em romano chama-se república; a república é governada por senadores, representantes do povo.

Os romanos são um povo mais prático e pragmático, assimilaram o legado da Grécia e não tentaram impor a sua cultura. Pelo contrário, eram muito tolerantes com os povos que dominavam, nem sequer impunham a sua língua - desde que pagassem tributo a Roma podiam até manter os seus usos e costumes, a sua religião e os seus reis.

Os romanos tinham consciência da grandeza e superioridade da cultura helénica e, de facto, em muitas matérias, não avançaram muito. Há, porém, vários pontos em que os romanos superaram os gregos e são esses que mencionamos. Como dissemos, esta evolução está ligada ao seu caráter mais prático que teórico.

O direito e a organização do Estado
Este é sem dúvida o mais importante legado romano para o mundo moderno. Na base do Direito de todas as nações do nosso planeta está o Direito romano.

A divisão e separação dos poderes que devem funcionar livre e autonomamente sem influências mútuas, vem de Roma. Curiosamente, estes poderes são três: o poder executivo, o poder judicial e o poder legislativo. Foi instituído o princípio de controlo entre eles, para que nenhum excedesse as suas competências.

Os romanos distinguiam três classes de direito: o Direito Político, que regulava os relacionamentos entre o Estado e os cidadãos; o Direito Privado, que regulava os relacionamentos entre cidadãos; e o Direito Internacional ou o direito das gentes, que regulava as relações entre os diferentes povos.

Ideias legais como o julgamento por júri, os direitos civis, os contratos, a propriedade pessoal, os testamentos legais, as leis que regem as empresas, foram influenciadas pelo direito romano e pela maneira romana de ver as coisas.

Vejamos algumas máximas latinas ainda hoje usadas, tanto no contexto do Direito e dos tribunais como vulgarmente pelo povo.

Dura lex sed lex – A lei é dura e difícil de cumprir, mas é a lei; está estipulada e concede segurança. Mais duro seria a arbitrariedade e imprevisibilidade de um ditador. Esta máxima estabelece o primado da lei e de que ninguém está a cima da lei.

Sumum ius summa injuria - Excesso de direito, excesso de injustiça. Axioma jurídico que nos adverte contra a aplicação demasiado rigorosa da lei, que pode dar margem a grandes injustiças. Para evitar isso se requer jurisprudência ou epiqueia. Uma coisa é ser justo, outra é ser justiceiro.

Excusatio non petita accusatio manifesta – É mais um princípio psicológico que do direito. Quando alguém se desculpa sem que ninguém lhe tivesse pedido que se justificasse, está a acusar-se a si mesmo implícitamente e inconscientemente.

In dubio pro reo – No caso de dúvida, pelo réu; expressão baseada na presunção de inocência; também se refere como o benefício da dúvida. A incerteza sobre a prática de um delito ou sobre alguma circunstância relativa ao mesmo, deve favorecer o réu.

Conditio sine qua non - Condição sem a qual não pode ser; utilizada para dizer que uma condição é indispensável para a validade de algo, como uma teoria de equivalência das causas. Um exemplo clássico de conditio sine qua non é a vontade dos noivos como pressuposto para que um casamento seja válido.

Patria potestas – O poder do pai, poder que o chefe de família exercia sobre seus filhos e seus descendentes mais remotos na linha masculina, fosse qual fosse a sua idade, bem como sobre aqueles trazidos para a família por adoção.

Habeas corpus - Que tenhas o corpo; é a ação judicial que protege o direito de liberdade ameaçado por ato abusivo de autoridade, ou seja, uma ação para impedir que alguém seja preso ou que permaneça preso injustamente.

Arquitetura e engenharia
Os gregos foram largamente superiores; mas com a invenção do arco romano, os romanos construíram grandes templos, palácios, estádios, aquedutos e pontes, anfiteatros e edifícios públicos que integravam arcos e abóbadas com tal eficiência que muitas destas obras ainda hoje estão em pé. O Coliseu de Roma, o Panteão de Roma, o aqueduto de Segóvia e inúmeras pontes romanas ainda hoje são usadas.

Os romanos distinguem-se pelas estradas. No mundo antigo, foram eles que abriram estradas. As principais vias, da Europa que existem atualmente foram construídas sobre calçadas romanas. Os romanos inventaram as pontes para passarem os rios e inventaram o aqueduto para levar água às suas cidades. O aqueduto marítimo de Cesareia, que ainda se pode ver na praia desta cidade, tinha 6 km de comprimento.

Uma das razões pelas quais o Império Romano durou mais que todos os outros, quase um milênio, é porque ele estava bem ligado pelas estradas e pontes que construiu em toda a Europa. A construção de estradas e pontes eram tão importantes para os romanos que até o título do Imperador refletia esse esforço, ao ser chamado Pontifex Maximus, o que significa o Supremo engenheiro da pontes. Ironicamente, este é agora o título do Romano Pontífice, o Papa, o que significa que ele como o representante de Cristo é a ponte entre a humanidade e Deus.

Alfabeto romano
É o alfabeto que utilizam as línguas neolatinas, o castelhano, o português, o francês, o italiano e o romeno, o catalão, o galego e o provençal. O inglês que se transformou na primeira língua franca do mundo provém em 60% do latim e do grego; os restantes 40% são de origem saxónica.

É, ainda hoje, o alfabeto mais utilizado no mundo, mesmo nas línguas que não são neolatinas como o alemão e o inglês e todas as línguas da Europa ocidental, assim como o turco, vietnamita malaio, somali, suaíli e outras línguas africanas, assim como o tagalog.

Dissemos que o grego é ainda usado para termos científicos, embora haja uma exceção; para os nomes científicos de plantas e animais é o latim, e não o grego, a língua universalmente usada. Os romanos possuíam também uma numeração que ainda usamos para designar os séculos e pouco mais. Porém, como não tem zero, não serve para a matemática. A numeração que se usa a nível mundial é a árabe.

O calendário de 365 dias, com 12 meses que hoje usamos foi inventado pelo imperador romano Júlio César. A Igreja mais tarde mudou o calendário juliano, que ainda hoje é usado pela Igreja Ortodoxa, para o gregoriano, introduzido pelo Papa Gregório e hoje usado universalmente. O nome dos meses também é de origem latina.

O contributo de Jerusalém
A filosofia busca o sentido do mundo, a ciência diz-nos como funciona, a técnica facilita a nossa vida, o direito regula as relações entre as pessoas mas só a religião pode responder às questões que todo o ser humano se faz quando chega à autoconsciência, por volta dos sete anos: de onde venho, para onde vou  e que sentido tem a vida?

Alguns, como Gregor Mendel, monge e pai da genética, Georges Lamaître, sacerdote e pai da teoria do Big Bang, Luther King, pastor e profeta da igualdade étnica nos EUA, conciliaram a sua atividade religiosa com a atividade científica e envolvimento social. Outros grandes personagens da civilização ocidental encontraram na fé o motor da sua vida e da sua ação política ou social; por exemplo, os três fundadores da União Europeia, o italiano Alcide De Gasperi, o alemão Konrad Adenauer e o francês Robert Schuman. Todos eles eram católicos praticantes. A União Europeia é de facto um projeto católico porque, desde o berço, o católico está ciente de que pertence a um país e certamente também a uma outra entidade ou instituição que é supranacional. Deste modo, só o católico é verdadeiramente universalista.

Monoteísmo
A ideia de que há um só Deus Pai, criador do céu e da terra, é talvez o maior contributo de Jerusalém para a civilização ocidental. Tanto os gregos como os romanos eram politeístas; o politeísmo não leva à união nem à harmonia entre os povos, nem à unificação de conceitos como a verdade e a justiça. A ideia de que há um só Deus leva à coesão dos povos à união na diversidade. O mesmo primado da lei, o facto de que todos são iguais perante a lei, seria mais difícil de manter no politeísmo: todos são iguais perante a lei porque todos são iguais perante Deus, porque há um só Deus que é criador e pai de tudo e de todos.

O conceito de igualdade explica-se melhor do ponto de vista religioso pelo facto de termos todos o mesmo Pai Deus e pelo mandamento de amar o próximo como a nós mesmos, do que pela revolução francesa. O valor da individualidade e da dignidade da pessoa humana é uma consequência direta do cristianismo.

A universalidade do descanso
Trabalharás durante seis dias, mas descansarás no sétimo, embora decorra o tempo da lavra e da ceifa. Êxodo 34, 21

Trabalharás durante seis dias e farás todo o teu trabalho. Mas o sétimo dia é o sábado consagrado ao Senhor, teu Deus. Não farás trabalho algum, tu, o teu filho e a tua filha, o teu servo e a tua serva, os teus animais, o estrangeiro que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias o Senhor fez os céus e a terra, o mar e tudo o que está neles, mas descansou no sétimo dia. Por isso, o Senhor abençoou o dia de sábado e santificou-o. Êxodo 20, 9-11

Não sabemos quem inventou o trabalho, provavelmente não tem inventor ou fundador. Porém, o descanso sim, tem inventor, é invenção do povo judeu. A ideia de um dia consagrado a Deus, o sábado, origem do descanso sabático e também do ano sabático (um ano em que não se trabalha, mas estuda-se ou faz-se qualquer outra atividade), pertence ao povo judeu.

É claro que para a justificar perante o povo se utiliza o antropomorfismo de que Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo. Não é que os povos anteriores ao povo judeu não descansassem, certamente o faziam, mas só descansavam os senhores, os escravos trabalhavam sempre. O descanso não era democrático ou universal; o que é excecional no povo judeu, é que o descanso é para todos, senhores, escravos, estrangeiros e até os animais de trabalho, como o burro e o boi.

O evangelho, a melhor narrativa de todos os tempos
O cristianismo no Novo Testamento, em especial nos evangelhos que relatam a vida, o talante e os ditos de Jesus de Nazaré, possui a narrativa mais fascinante de todos os tempos. A cosmovisão, a ética, a filosofia de vida, os direitos humanos, o que é verdadeiramente humano, está exposto no evangelho.

O evangelho é a magna carta da vida humana, a medida padrão, o critério máximo de humanidade que serve de genuína e autêntica referência a cada indivíduo. Não há no mundo qualquer narrativa que supere os evangelhos em humanidade. Os evangelhos têm sido o texto inspirado da civilização ocidental, o farol que a ilumina.

Eclesia mater ed magistra
Nos séculos IV e V, com uma pregação intensa e geral, em pouco tempo a Igreja converteu os povos conquistados do império romano ao cristianismo. Numa época de guerras, desagregação e fragmentação do poder, como era o feudalismo, a religião era o único fator de união entre os povos. Era também a única instituição do mundo antigo capaz de fazer frente à hegemonia dos novos dominadores bárbaros.

Era a Igreja que garantia a paz e defendia os povos dos excessos dos invasores bárbaros, opondo-se às injustiças não pela força das armas que não as tinha, mas pela força da razão, da decência e da ética. Os bárbaros respeitavam a Igreja pelo ascendente que esta tinha perante o povo e por ser a herdeira do grande império romano que de facto ainda existia no oriente. Com a subjugação das populações nas zonas mais rurais, o único poder era do bispo; por outro lado, a nível de Roma, o Papa era o único representante do ocidente romano. Desta forma, a Igreja tornou-se num poder político e, como tal, também cometeu alguns erros.

Monaquismo
Na Europa da alta Idade Média, dividida em tantos reinos instáveis, a Igreja era a única instituição forte e eficiente, instruída, rica e presente em todo o lado. Nas cidades, o bispo era frequentemente a única autoridade existente. No mundo rural, afirma-se a presença dos mosteiros com a regra de Orat ed labora: o monge não deve apenas rezar, mas também trabalhar para se sustentar a si mesmo e a quem necessita. Em toda Europa, nasceram mosteiros beneditinos e cistercienses que se transformaram em centros económicos e que, através da agricultura e da criação de animais, produziam alimento para as populações.

Estes mosteiros foram oásis de cultura e celeiros da mesma, pois era aqui que se copiavam os antigos textos latinos e gregos. Sem estas cópias, estes textos ter-se-iam perdido. A invasão bárbara do império romano parece ter feito a cultura andar para trás, mas a Igreja preservou essa cultura, pois era a única herdeira da última civilização ilustrada: a da Grécia e a de Roma.

Os americanos chamam a esta idade a Idade das Trevas. No entanto, custa a acreditar que precisamente nesta época se tenham construído os edifícios mais belos que o mundo já construiu: as catedrais góticas. Cada pedra foi talhada para ocupar um lugar exato, sem cimento e sem ferro, arcos, colunas, ogivas, abóbadas, um conjunto harmonioso e elegante, iluminado pelos vitrais multicolores, um céu na terra.

Libertação das mulheres
O direito das minorias em relação às maiorias, o respeito pela orientação sexual de cada um, a libertação das mulheres, os valores próprios da civilização ocidental que a colocam na vanguarda dos direitos humanos, não se explicam sem o evangelho.

Jesus foi a pessoa mais feminista que o mundo conheceu; o único fundador de religião que nunca fez uma afirmação contra as mulheres, que as tratou como iguais aos varões, que teve discípulas - coisa nunca vista antes ou depois dele (ainda hoje os rabinos não têm discípulas). É certo que os seus discípulos seguiam a mentalidade patriarcal do mundo circundante mais que o comportamento do mestre. Porém, não podemos negar a importância do evangelho na conversão das mentes e dos corações para a igualdade de género, que começou na civilização ocidental e, pouco a pouco, vai sendo assumida pelas outras civilizações, sendo a muçulmana a mais reticente na matéria.

É certo que nem no Ocidente a mulher goza ainda de plena igualdade, mas é certamente no Ocidente cristão que a mulher goza de mais direitos. O que faz variar o grau de igualdade de género não é a riqueza ou pobreza; ou seja, não é necessariamente nos países mais ricos que a mulher é tratada de igual para igual. A Arábia Saudita é rica e, no entanto, as mulheres ali são tratadas como cidadãs de segunda classe. O fator determinante é a cultura, não a riqueza.

O Japão e as Filipinas são dois países asiáticos não muito distantes um do outro; o primeiro é bem mais rico que o segundo e, no entanto, há muito mais igualdade de género nas Filipinas que no Japão. Como países asiáticos que são, há elementos culturais que são comuns. A grande diferença é que as Filipinas são um país cristão desde há 500 anos, enquanto que no Japão o cristianismo nunca conseguiu penetrar de forma a influenciar a cultura. Os restaurantes onde a comida é servida no corpo nu de um adolescente não existem nas Filipinas e é de todo impensável que alguma vez possam existir. 

Três são as culturas que contribuíram para a civilização ocidental: de Roma obtivemos a razão de Estado, de Atenas o estado da razão, de Jerusalém a razão da razão.
Pe. Jorge Amaro, IMC













1 de janeiro de 2020

3 Civilizações baseadas em 3 cereais: Trigo - Arroz - Milho

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O cereal é uma planta da família da erva que produz grãos que, depois de moídos, resultam em farinha que se consome de muitas formas, sendo o pão a mais comum. Desde que foram descobertos, os cereais têm sido não só a base da nossa alimentação como também o sustento de culturas ou civilizações ao longo da História.

As grandes civilizações nasceram nas zonas mais férteis do planeta, onde se cultivavam cereais. Podemos identificar uma cultura pelo tipo de cereal que esse povo produzia e consumia. A cultura depende da agricultura.

Os cereais mais conhecidos a nível mundial são o trigo, o arroz, o milho, a cevada, a aveia, o centeio e o milho painço. Destes, os mais antigos e usados, a ponto de configurarem culturas e civilizações, são os primeiros três.

O trigo, cujo nome científico é Triticum, provém do sudeste da Turquia e foi o primeiro cereal a ser descoberto; o seu cultivo no Crescente Fértil, zona do Médio Oriente que abarca atualmente o Iraque, Israel, o Egito, a Jordânia, a Síria, o Líbano, o sudoeste da Turquia, o Oeste do Irão e a ilha de Chipre, fez nascer nesta zona a mais antiga civilização humana, o berço dos primeiros grandes impérios e da civilização ocidental.

O arroz, cujo nome científico é Oryza Sativa, provém da China e da Índia e estendeu-se rapidamente por toda a Ásia Meridional como alimento básico, sendo responsável pelas grandes civilizações asiáticas: Índia, China e Japão.

O milho, cujo nome científico é Zea Mays, provém da América Central, mais propriamente do sul do México e é responsável pelas únicas civilizações do novo continente: maias, astecas e incas.

Agricultura, pastorícia e emancipação do Homem
Abençoando-os, Deus disse-lhes: «Crescei, multiplicai--vos, enchei e submetei a terra. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se movem na terra.» Deus disse: «Também vos dou todas as ervas com semente que existem à superfície da terra, assim como todas as árvores de fruto com semente, para que vos sirvam de alimento. Génesis 1, 28-29

Enquanto o Homem caçava, pescava e colhia frutos, vivia em simbiose com a natureza e à sua mercê. Não era, portanto, diferente dos outros animais: os ursos, por exemplo, são omnívoros como nós e por isso caçam, pescam e colhem frutos. A vida humana, como a vida animal, não era mais que uma luta pela sobrevivência - as 24 horas do dia eram gastas a buscar alimento para sobreviver e viver era sinónimo de manter-se vivo.

Como os varões tinham mais destreza física, eram eles que se dedicavam à caça, à pesca e à recoleção de frutos, o que os mantinha fora de casa e sempre em movimento. As mulheres fixavam-se mais na residência e dedicavam-se à preparação dos alimentos, sobretudo depois da descoberta do fogo. Além disso, asseguravam o futuro do clã ou da tribo, através do nascimento, criação e educação da prole.

A caça e a pesca eram atividades duras que envolviam um certo risco, pelo que os varões usavam muito mais o seu cérebro reptiliano, comum a todos os animais vertebrados. Como sabemos, este cérebro aciona apenas três funções: atacar, fugir ou esconder-se. A preparação dos utensílios, armas e armadilhas e o constante movimento de um lado para o outro preenchiam o tempo dos homens.

Ao contrário dos homens, as mulheres preocupavam-se menos com a segurança e dedicavam-se mais ao trabalho doméstico e à criação e educação da prole. Por isso, usavam menos o cérebro reptiliano e mais o cérebro mamífero e o neocórtex, motivo pelo qual o seu pensamento era mais reflexivo. Por esta razão, por serem mais sedentárias e por possuírem mais tempo livre, pensa-se que tenham sido elas a descobrir a agricultura ao experimentarem usar as sementes nos terrenos circundantes da casa.

Rei da agricultura: o cereal
Enquanto a agricultura se limitou ao cultivo de vegetais e frutos, a vida do Homem pouco se alterou continuou a ser caçador e coletor, só que agora colhia os produtos que ele próprio semeava e plantava. Como estes vegetais que agora produzia eram os mesmos que antes coletava, não se verificou qualquer alteração significativa na sua cultura ou modus vivendi, por não haver uma alteração substancial na sua dieta.

A grande revolução da agricultura veio com a descoberta dos cereais. A partir desse momento, as suas características e propriedades rapidamente fizeram com que a agricultura fosse quase exclusivamente cerealífera. Ainda hoje, os cereais são o produto agrícola mais cultivado em todo o mundo; de facto, a deusa da agricultura e das colheitas na mitologia romana chamava-se Ceres, de onde provém a palavra cereal. A revolução agrícola dos anos 60, apelidada de “verde”, foi exclusivamente uma revolução cerealífera, pois visava aumentar a produção de cereais pelo uso de novas sementes e novas técnicas, sobretudo fertilizantes.

Dentro da espécie dos mamíferos, o Homem não é herbívoro nem carnívoro, mas sim omnívoro, ou seja, deve ter uma alimentação variada. Por isso, de alguma forma, quando o Homem descobriu o cereal, descobriu parte da sua identidade; todas as pirâmides alimentares da dieta ideal para o ser humano colocam os cereis na base. Em proporção, uma dieta equilibrada deve ser constituída por 30% de cereais, 25% de vegetais e frutas, 20% de peixe, marisco e laticínios, 15% de carne e 10% de lípidos.

O cereal é a base da alimentação e da cultura
Havia um homem rico, a quem as terras deram uma grande colheita. E pôs-se a discorrer, dizendo consigo: “Que hei-de fazer, uma vez que não tenho onde guardar a minha colheita?” Depois continuou: “Já sei o que vou fazer: deito abaixo os meus celeiros, construo uns maiores e guardarei lá o meu trigo e todos os meus bens. Depois, direi a mim mesmo: Tens muitos bens em depósito para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te.” Lucas 12, 16-19

São fundamentalmente três as razões pelas quais o cereal, desde que foi descoberto, se transformou no rei da agricultura, base da alimentação humana e, por afinidade, também na base das grandes civilizações que ao longo da História da humanidade se desenvolveram no nosso planeta.

Os cereais são um alimento de longa duração
Como sugere o texto bíblico acima citado, ao contrário das raízes, tubérculos e outros vegetais e frutos, os cereais têm um prazo de validade muito grande e armazenam-se facilmente. Foram encontrados grãos de trigo no túmulo de Tutankhamon, faraó do Egito, que ainda estavam em bom estado de conservação apesar de terem 5000 anos. Na verdade, foram semeados e germinaram.

Antigamente, quando não existiam frigoríficos, outros tipos de alimentos como os ovos conservavam-se no meio do cereal que os mantinha a uma temperatura baixa. A conservação do próprio cereal não requer uma temperatura baixa; este conserva-se em qualquer temperatura. O único requisito para a conservação do cereal é a humidade que tem de ser baixa; quanto mais reduzida for, mais tempo o produto se conserva.

Esta característica é a que verdadeiramente emancipa o homem da Natureza, pois ao ter alimentos armazenados, não tem de ocupar todos os dias com a busca de alimento. O tempo livre que lhe resta pode dedicá-lo ao pensamento reflexivo, criador e científico. O cereal funciona com uma apólice de seguro que confere estabilidade a uma sociedade. Podemos afirmar que onde não houve cereais não houve civilização, cultura, desenvolvimento; as povoações permaneceram primitivas numa luta constante pela sobrevivência.

José disse ao faraó: «(…) vão chegar sete anos de grande abundância a todo o território do Egito. Mas sete anos de fome surgirão a seguir, de modo que toda a abundância desaparecerá do Egito e a fome devastará o país. (…) que se armazene trigo sob a autoridade do faraó, nas cidades, como reserva de víveres. Essas provisões serão um recurso para o país durante os sete anos de fome que vão chegar ao Egito, a fim de que o país não pereça pela fome.» Génesis 41, 25, 29-30, 35-36

José do Egito interpreta o famoso sonho do faraó das sete vacas gordas e das sete vacas magras como representando sete anos de fartura, seguidos por sete anos de carência, e aconselha-o a armazenar cereal durante os anos de abundância para evitar que o povo pereça nos anos seguintes de carência. A longevidade do cereal faz dele o único salvador da humanidade em tempos de fome.

O mesmo já não se pode dizer de outros alimentos, como por exemplo a batata, que só dura um ano. Se uma colheita falhar, toda uma população pode morrer de fome, como aconteceu na Irlanda entre os anos 1845 e 1852; morreram um milhão de irlandeses e outro milhão foi obrigado a emigrar.

Os cereais são absorvidos lentamente e dão energia por mais tempo
A durabilidade ou longevidade do cereal armazenado também se observa, de alguma forma, no interior do nosso corpo, em relação à sua absorção como hidrato de carbono. Os hidratos de carbono provenientes da fruta e dos demais vegetais são rapidamente absorvidos e aumentam exponencialmente os níveis de açúcar no corpo; a sua longevidade é curta, pois rapidamente se queimam. Pelo contrário, os hidratos de carbono provenientes dos cereais integrais, têm uma absorção lenta, o que faz com que os níveis de açúcar não aumentem nem diminuam drasticamente; deste modo, o nível de energia no corpo mantém-se constante, estável, seguro e saudável por mais tempo.

Os cereais mantêm o corpo saciado durante mais tempo e evitam desequilíbrios súbitos nos níveis de glicose, diminuindo a ânsia de comer mais frequentemente. Ou seja, a longevidade do cereal que se verifica no celeiro, também se verifica no nosso organismo.

Os cereais ingeridos funcionam como um depósito de combustível que vai fornecendo paulatinamente energia por muito tempo, sem grande variação dos níveis de glicose. A liberdade, autonomia e tempo livre que o cereal proporcionou à humanidade para poder dedicar-se a outras atividades para além da luta pela sobrevivência, também a proporciona a nível individual a cada pessoa que o ingere.

Os cereais são o alimento simples mais completo
Se tivéssemos que escolher um único alimento, muito completo do ponto de vista nutritivo, para subsistir durante algum tempo, na eventualidade de ficarmos temporariamente privados de alimento, é certo que esse alimento só poderia ser o cereal.

Os cereais têm de tudo um pouco. Os outros alimentos estão mais especializados num nutriente ou outro, em detrimento dos restantes nutrientes. Os vegetais e frutas têm vitaminas, mas não têm proteínas e, como vimos, são de absorção rápida, não sendo por isso uma boa escolha em caso de emergência. As carnes e peixes são ricos em proteínas, mas falta-lhes tudo o resto.

Curiosamente, quando tratamos de dissecar e analisar um grão de cereal, damo-nos conta de que, tal como o universo, o átomo e a célula, também são trinitários ou tridimensionais, ou seja, são compostos por três diferentes elementos. Além disso, dentro destas três partes, encontramos diferentes nutrientes.
  • Farelo ou casca – fibras, vitaminas do grupo B, minerais (sódio, potássio, cloro, fósforo, cálcio, magnésio, enxofre e ferro), proteínas (gliadina e glutenina contidas no glúten) e fito-nutrientes (carotenoides, flavonoides e fito-esteróis, químicos conhecidos pelas suas propriedades antioxidantes).
  • Endosperma – hidratos de carbono ou amido que correspondem a 78 - 83% do grão, proteínas, vitaminas do grupo B, gorduras constituídas principalmente por trigliceróis. 
  • Gérmen - minerais, vitaminas do grupo B em especial B1 e B2, vitamina E, e fito-nutrientes.
Escusado será dizer que quando os cereais são moídos e sobretudo refinados, muitos destes nutrientes se perdem com a remoção do farelo, e acabamos por consumir apenas o endosperma, ou o amido. Por isso para uma alimentação saudável é preferível consumir cereais integrais pois contêm todos os nutrientes acima assinalados.

Cronologia das civilizações antigas

Mesopotâmia
Período: 3500 BC–500 BC
Local: Tigris and Euphrates rivers, Iraq, Syria, and Turkey

Vale do Indo
Período: 3300 BC–1900 BC
Local: Rio Indo Nordeste do Afeganistão to Paquistão e noroeste da India

Egipto
Período: 3150 BC–30 BC
Local: Rio Nilo, Egipto

Maias
Período: 2600 BC–900 AD
Local: Península do Iucatão

China
Período: 1600 BC–1046 BC
Local: Rios amarelo e azul

Império Grego
Período: 2700 BC–146 BC
Local: Desde a Grécia ate à França e o Norte de Africa

Império Persa
Período: 550 BC–331 BC
Local: Egipto, Turquia, Mesopotâmia e vale do Indo

Império Romano
Período: 550 BC–465 AD
Local: Todos os países da ribeira norte e sul do mar mediterrâneo

Astecas
Período: 1345 AD–1521 AD
Local: centro e sul do México

Incas
Período: 1438 AD–1532 AD
Local: Equador, Peru e Chile

O trigo e as civilizações do Crescente Fértil
O Crescente Fértil não está muito longe do berço da humanidade e possui um clima ameno e quase primaveril durante todo o ano. Como já dissemos, aqui nasceu o rei dos cereais, o trigo que é o cereal mais antigo e continua ainda a ser o cereal mais usado por ser o mais versátil. Quando se fala em pão, normalmente referimo-nos a farinha de trigo amassada com fermento e cozida num forno.

Com o descobrimento da agricultura, o Homem tornou-se cada vez mais sedentário, estabelecendo-se nas margens dos grandes rios, não só por causa da água para beber e para a agricultura, mas também porque os terrenos mais férteis do mundo são sempre as bacias dos rios. As inundações periódicas das terras ribeirinhas fecundam o solo pelo fenómeno conhecido como sedimentação das matérias orgânicas que o rio transporta. As primeiras cidades formaram-se na margem dos grandes rios.

Trigo – Jordão – Jericó - Eucaristia
No caso do Crescente Fértil, estamos a falar do rio Jordão, do Tigre, do Eufrates e do Nilo. Curiosamente, a cidade mais antiga do mundo é Jericó (9 600 A.C.) nas margens do rio Jordão que faz parte do vale de Rift, onde também nasceu a humanidade. Também é curioso que o cultivo do trigo tenha começado mais ou menos por esta época, há 9 000 anos.

Não é de admirar que tenha sido este o cereal que Jesus escolheu para instituir a eucaristia memorial da sua presença no meio dos homens: Enquanto comiam, Jesus tomou um pão e, abençoando-o, o partiu e deu-lho, dizendo: «Tomai: isto é o meu corpo.» (Marcos 14, 22). 

Para além de ser a matéria da eucaristia, memorial da sua morte, Jesus utilizou o trigo como metáfora para explicar e dar sentido à sua morte: «se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto.» (João 12, 24)

Outros cereais
Para além do trigo, que era mais usado para o consumo humano, as civilizações do Crescente Fértil contavam com outros cereais que continuam ainda hoje a fazer parte da lista dos mais usados em todo o planeta: o centeio, a aveia e a cevada. À exceção da cevada que também era usada como pão dos pobres, tal como testemunha o evangelho de São João (6, 9), estes cereais eram mais usados para a criação de animais e para a produção de bebidas fermentadas, como a cerveja de cevada.

Suméria, Assíria, Egito, Babilónia, império persa, império grego, império romano, civilizações, culturas, desenvolvimento filosófico, científico - o Crescente Fértil é não só o berço das primeiras civilizações, como também o berço da civilização ocidental.

O arroz e as civilizações da Ásia
As civilizações baseadas no cultivo do arroz são quase tão antigas como as baseadas no cultivo do trigo, no Crescente Fértil, com alguns séculos de diferença relativamente a alguns avanços tecnológicos, como o conhecimento dos metais. Porém, podemos dizer que estas civilizações acompanharam em grande medida o Crescente Fértil a par e passo e, em certos avanços tecnológicos, até o superaram, como aconteceu com a invenção do papel e da pólvora.

Enquanto que no Crescente Fértil e devido à facilidade de comunicação, as culturas, civilizações e povos se foram sobrepondo uns aos outros ao longo do tempo, na Ásia houve dois focos diferentes de cultura e civilização – a Índia e a China - separados e isolados pelos Himalaias e por muitos quilómetros de distância. 

O cultivo do arroz surge do aproveitamento das inundações periódicas dos rios e dos pequenos lagos e pântanos que estas criavam. Esta água acumulada nos campos mantinha-os bem adubados, removia o sal, impedia o crescimento de ervas daninhas e mantinha a temperatura constante pela retenção do calor; sobretudo, impedia a geada causada pelo arrefecimento noturno.

Mais que o trigo, o arroz necessita da presença constante de água. Por isso, podemos falar de duas culturas asiáticas distintas: a que nasceu na bacia do rio Indo, no Noroeste da Índia, e a que nasceu na China oriental, nas margens dos rios Yang-Tsé (Rio Azul) e Huang-Ho (Rio Amarelo).

A civilização do vale do rio Indo
Também conhecida como civilização de Harappan, começou há 5 300 anos, com o aparecimento de aldeias neolíticas. Floresceu em áreas que atualmente se estendem do Afeganistão ao Paquistão e Índia e teve o seu apogeu por volta do ano 3 000 A.C. Esta civilização é a terceira civilização mais antiga do mundo depois da Mesopotâmia e da civilização egípcia, e a primeira da Ásia. Tal como as civilizações do Crescente Fértil, é também uma civilização fluvial que nasceu na bacia do rio Indo. Era sobretudo uma civilização urbana muito avançada tecnologicamente; as cidades não nasceram e cresceram naturalmente, mas foram previamente e planeadas e projetadas arquitetonicamente.

A civilização chinesa
A civilização chinesa é, como dissemos, uma das mais antigas que se conhecem, quase tão antiga como as que existiram no Egito e na Mesopotâmia. Pensa-se que em 6 500 A.C. já se cultivava o arroz no rio Yangtze. Enquanto que no Crescente Fértil os impérios se sucediam, no leste asiático o desenvolvimento histórico parece ter sido mais linear. Mas, não podemos esquecer que não existe um só povo chinês, existem várias etnias que se influenciaram e guerrearam e que se sucederam nas rédeas do poder, criando várias dinastias.

Assim como a cultura grega serviu de modelo e inspiração para diversos povos do Ocidente, a cultura chinesa influenciou o desenvolvimento cultural de diversos países vizinhos, de entre os quais, o Japão e a Coreia. A China, como as civilizações mesopotâmicas e egípcia, também se formou nas margens de grandes rios: Huang-Ho (Rio Amarelo) e Yang-Tsé (Rio Azul). Por causa disso, a economia chinesa baseava-se na agricultura de irrigação e no trabalho dos camponeses em regime de servidão coletiva.

O milho e as civilizações da América Central e Sul
Originário do México, o milho (Zea Mayz) que significa o “grão da vida”, foi de facto o alimento vital dos maias, astecas e incas, povos que habitaram o sul do México, a América central e a América do Sul. A existência do milho e destas civilizações a ele associadas é a prova mais evidente e contundente da nossa tese: onde não houve um cereal não houve cultura.

Pelo cultivo dos cereais, o Homem emancipou-se da Natureza, colocando-a ao seu serviço. Os povos indígenas que não cultivaram qualquer cereal não desenvolveram uma cultura nem criaram uma civilização porque a sua vida não passou de uma luta constante pela sobrevivência.

Tantos os indígenas da América do Norte (Canadá e Estados Unidos) como os restantes da América do Sul (Brasil, Colômbia e Argentina) não desenvolveram uma civilização porque não conheceram nem cultivaram qualquer cereal.

A civilização maia
É a primeira civilização das Américas. O povo maia viveu desde 1 200 até 250 A.C., tendo sido contemporâneo da dinastia chinesa Shang. O povo maia vivia da agricultura em aldeias na Península do Iucatão, no atual México e nas áreas agora ocupadas pela Guatemala, Salvador, Belize e Honduras. 

No seu auge, chegaram a ser uma civilização muito complexa, com uma população de cerca de 19 milhões de pessoas. Os maias desenvolveram o seu próprio método de escrita por volta de 700 A.C. Eram dotados astrónomos, especializados na análise do movimento celeste e no cálculo de datas; ficaram mundialmente conhecidos pela criação de um misterioso calendário solar em pedra malaquita que ainda hoje desperta a curiosidade de muitos.

O desaparecimento desta cultura é ainda hoje um mistério por desvendar: não foram conquistados por nenhum outro povo, muito menos pelos espanhóis. Quando estes chegaram à América, os maias já tinham abandonado as suas pirâmides, templos, fortalezas e lugares de culto. Como testemunho da sua cultura, estes templos, fortalezas e pirâmides estão ainda bem conservados, sobretudo a pirâmide de Chichen Itza.

O império asteca
Os astecas são praticamente contemporâneos aos incas. Este povo habitou o sul do México e chegou a estender-se até à América Central. Bastante mais agressivos e menos cultos que os maias, ficaram conhecidos pelos sacrifícios humanos que ofereciam aos seus deuses. A sua ascensão coincidiu com o declínio dos maias; por volta de 1 500, os astecas estavam no seu auge e, precisamente por isso, foram brutalmente conquistados e dominados pelos conquistadores espanhóis (Hernan Cortés 1485-1547).

O império inca
O império inca cresceu e tornou-se no maior império da América do Sul durante a época pré-colombiana. A civilização floresceu entre 1438 AD e 1532 D.C. em torno do atual Peru, Equador e Chile. A capital administrativa situava-se em Cusco, atualmente Peru. Os incas eram dedicados ao Deus Sol e tinha um rei chamado "Sapa Inca" (filho do sol).

Os incas, tal como os maias e os astecas, foram também grandes construtores de fortalezas e locais como Machu Picchu e Cusco que permanecem até hoje. Tal como os astecas, os incas foram dominados pelos conquistadores espanhóis, (Francisco Pizarro 1532-1541).
Pe. Jorge Amaro, IMC