1 de março de 2026

Um teste ao teu Cristianismo

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«Examinai-vos a vós mesmos para ver se estais na fé; ponde-vos à prova.
» — 2 Coríntios 13,5

Para todos nós que nascemos no seio de uma família cristã e que nos consideramos cristãos — praticantes ou não — é saudável fazermos uma revisão da nossa fé. Tal como um carro precisa de revisões periódicas para funcionar bem, também a nossa vida espiritual necessita de análises regulares. A rotina do quotidiano tende a adormecer-nos e a deixar-nos tão inconscientes que acabamos por não saber o que fazemos, nem, sobretudo, por que o fazemos.

“Maria vai com as outras” — a pressão social tende a uniformizar os comportamentos. Vivendo em países tradicionalmente cristãos, é fácil cairmos no automatismo de agir e pensar como todos os outros. Chamam-lhe “opinião pública”, que conduz a uma prática igualmente padronizada. Este comportamento de rebanho pode, na verdade, ser mais anti-cristão do que cristão.

Precisamos de parar e discernir se somos cristãos genuínos, questionando a nossa fé, as nossas ações e, principalmente, as nossas motivações. São Paulo, na segunda carta aos Coríntios, recomenda justamente essa autoavaliação. Não devemos dar o nosso cristianismo por garantido; para progredirmos na fé e na prática cristã, temos de nos examinar e confrontar. Como dizia Sócrates: "Uma vida sem exame não merece ser vivida."

Já alguma vez sofreste por Cristo?
«Se o mundo vos odeia, reparai que, antes de vós, me odiou a mim.»João 15,18-20

O mundo — ou seja, a sociedade que nos rodeia — não é cristã. Aliás, cada vez mais se afasta dos valores do Evangelho, tornando-se pagã e materialista. Quem se esforça por viver segundo o Evangelho encontrará, mais cedo ou mais tarde, oposição.

Se nunca tiveste qualquer dissabor ou resistência por causa da tua fé, há apenas duas possibilidades: ou a sociedade é perfeitamente cristã (o que, como sabemos, não é verdade), ou tu não o és de facto e camuflas-te no mundo como um camaleão no seu habitat.

Cristo disse que devemos ser sal da Terra — o sal que impede a corrupção, mas que, colocado numa ferida, faz doer. O cristão que é verdadeiramente sal irá inevitavelmente causar desconforto e, por isso, sofrer. O cristão também é luz que denuncia as trevas e os seus esquemas ocultos; e quem vive nas trevas procura apagar qualquer luz que se acenda.

Nos primeiros cinco séculos do Cristianismo, ser cristão e ser mártir eram quase sinónimos. Hoje, quantas injustiças, mentiras e corrupções presenciamos em silêncio? Cristo não foi crucificado apenas por anunciar o Reino de Deus, mas por denunciar as hipocrisias e injustiças da sua época.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça... bem-aventurados os pacificadores... bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça...

Metade das bem-aventuranças apontam para a tensão e o sofrimento provocados pela fidelidade ao Evangelho. O cristão não é alguém que assiste passivamente às injustiças, mas quem as denuncia; não é um "paz d’alma", mas sim um pacificador, alguém que entra nos conflitos e promove a reconciliação — e isso, muitas vezes, tem um custo.

Que deixaste tu para seguir Cristo?
«Tomando a palavra, Pedro disse: “Nós deixámos tudo e seguimos-te. Que receberemos, então?” (...) “Todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou campos por minha causa, receberá cem vezes mais e herdará a vida eterna.”»Mateus 19,27-29
 
Quando Jesus chamou os seus discípulos, eles deixaram tudo: barcos, redes e até a família. O jovem rico, apesar de todos os pré-requisitos, recusou o chamamento de Jesus porque estava demasiado apegado às suas posses.

Hoje, todos nos dizemos discípulos de Cristo. Mas só é discípulo quem, de facto, deixou algo para O seguir. Se a minha fé nunca me levou a abandonar nada — hábitos, ambições, comportamentos ou relacionamentos incompatíveis com o Evangelho — então não sou verdadeiramente discípulo. Ninguém nasce discípulo: é-se feito discípulo mediante decisões concretas e renúncias reais.

Queremos o “sol na eira e a chuva no nabal”. Tentamos conciliar o inconciliável: desejamos seguir Cristo, mas também tudo o que o mundo oferece. É o sincretismo do coração dividido.

A quem fazes a vontade?
«Mestre, trabalhámos toda a noite e nada apanhámos; mas, porque Tu o dizes, lançarei as redes.» — Lucas 5,5
«Quem recebe os meus mandamentos e os observa, esse é que me ama.» — João 14,21

«Nem todo o que me diz: “Senhor, Senhor”, entrará no Reino dos Céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai.»Mateus 7,21

Existe uma diferença entre o que nos apetece fazer e o que devemos fazer. A nossa natureza, inclinada para o egoísmo, prefere o caminho mais fácil, mas a vontade de Deus nem sempre é cómoda — ainda que, no fim, seja sempre libertadora. Há alegria e paz em seguir a vontade divina, mesmo quando ela nos custa. A tristeza chega quando, cedendo aos nossos caprichos, nos afastamos dela.

«O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que me enviou.» — disse Jesus (João 4,34).
Também nós fomos criados para realizar um plano de Deus. A nossa missão, os nossos dons e o verdadeiro sentido da vida encontram-se nesse desígnio — e não num projeto feito à nossa medida.

“O Senhor fez em mim maravilhas”
«E vós, quem dizeis que Eu sou?» Marcos 8,29

Cristão não é quem sabe muito sobre Cristo, mas quem O conheceu e O experimentou como Salvador. O verdadeiro cristão pode cantar, como Maria, o Magnificat, pois reconhece as maravilhas que Deus fez na sua vida. É alguém que responde com o coração à pergunta de Jesus: “E tu, quem dizes que Eu sou?”

Pilatos chamou Jesus de “Rei dos Judeus”, mas apenas porque ouviu dizer. Muitos hoje também “ouvem dizer” coisas sobre Cristo, mas nunca O conheceram de verdade. Não O experimentam, não O amam, não O seguem. Sabem alguma doutrina, mas não a vivem — e por isso abandonam facilmente a fé, a catequese, a Igreja. E, o que é mais grave, não transmitem Cristo às suas crianças.

Psicanálise ao católico praticante
«Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles.»
— Mateus 6,1

Jesus foi duro com os fariseus: rezavam, jejuavam e davam esmola — mas para serem vistos. Faziam boas obras com más intenções. Por isso, já receberam a sua recompensa: a aprovação humana. Mas não terão recompensa junto do Pai.

Hoje, este farisaísmo continua presente nas nossas paróquias: pessoas que fazem para aparecer; ministros que só querem servir onde há visibilidade; líderes que não largam cargos por apego ao poder; padres que confundem a missão com a sua vaidade pessoal.

A síndrome do “déjà vu” — Tal como os que abusam de antibióticos tornam-se resistentes aos seus efeitos, também os que frequentam demasiadamente a Igreja sem verdadeira conversão correm o risco de se tornarem imunes ao Evangelho. Já ouviram tanto que já não escutam nada. E assim, o remédio já não cura, a Palavra já não salva. Porque não há outra Palavra com poder de vida eterna.

Conclusão - Se te dizes cristão, mas nunca sofreste por causa do Evangelho, ou o mundo é cristão (o que não é verdade), ou então tu não és. Cristianismo não é um rótulo, mas um caminho que exige verdade, entrega e transformação.

Pe. Jorge Amaro, IMC