1 de abril de 2026

O Mal é natural, o Bem é arti-ficial

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“O homem natural não aceita o que vem do Espírito de Deus, pois para ele é loucura. Não o pode compreender, porque só espiritualmente se pode discernir.” (1 Cor 2,14)

Temos tendência a pressupor que o artificial é mau e o natural é bom. No supermercado, procuramos produtos naturais e biológicos, cultivados sem adubos químicos nem pesticidas; os amish vivem como se ainda estivéssemos no século XIX, rejeitando tudo o que é moderno; fugimos da poluição das cidades em busca do ar puro das aldeias. Por outro lado, a palavra artificial faz-nos lembrar o plástico, o que lhe confere uma carga semântica frequentemente negativa.

Os artificiais são naturais e os naturais são artificiais
Foi assim que o meu professor de moral sexual, o falecido jesuíta Javier Jaffo, introduziu o tema dos métodos anticonceptivos. A contagem dos dias férteis, a medição da temperatura basal e a verificação da viscosidade do muco cervical são, em teoria, métodos naturais. Contudo, a sua aplicação torna-os artificiais, pois o casal já não realiza o acto conjugal quando deseja, mas quando as circunstâncias o permitem.

A artificialidade destes métodos reside no facto de serem as condições e não os cônjuges a determinar o momento da união conjugal. Pode até suceder que, quando as condições permitem, os cônjuges não o desejem — e vice-versa.

Pelo contrário, como dizia o meu professor, os chamados métodos “artificiais” — a pílula, o preservativo, o diafragma, entre outros (excluindo o DIU e a pílula do dia seguinte por serem abortivos) — são, paradoxalmente, os verdadeiramente naturais. Eles conferem ao casal a liberdade de decidir quando unir-se, sem impedimentos externos.

A Igreja escreveu muito sobre este assunto e, como o meu professor, nunca compreendi porque motivo a pílula seria má e a aspirina boa — não são ambos produtos artificiais da inteligência humana? Uns dizem que têm efeitos secundários. Mas haverá algum medicamento químico que não os tenha?

Uma vez aceite o princípio da paternidade responsável, que reconhece o valor moral da limitação dos nascimentos, pouco importa o método utilizado: que se use o que for mais adequado ao casal. Ou será que os métodos chamados “naturais” são bons porque falham, e os “artificiais” maus porque funcionam? Estará, então, a contar com o fracasso?

Homo sapiens versus Neandertal
O homem de Neandertal, que imigrou da África muito antes do Homo sapiens, era mais propenso a adaptar-se à natureza, vivendo em simbiose com ela, tal como muitos animais. Se tivéssemos seguido por esse caminho, talvez nunca nos tivéssemos libertado da nossa animalidade, nunca nos teríamos diferenciado suficientemente para alcançar a plenitude da condição humana.

Não se sabe ao certo por que razão os Neandertais, que habitaram a Eurásia há cerca de 350.000 anos, se extinguiram. Talvez tenham sido suplantados pelo Homo sapiens, com quem chegaram a cruzar-se geneticamente.

Ao contrário dos Neandertais, o Homo sapiens — como o nome indica — não se limita a adaptar-se à natureza, mas procura adaptá-la a si. Mais inteligente, combina os elementos naturais para os colocar ao seu serviço. Desde a invenção da agricultura e a descoberta do fogo, até à fabricação de instrumentos e tecnologias, a criatividade humana tem sido o motor da emancipação da natureza, o corte do “cordão umbilical” que nos ligava à sua tutela.

Neste sentido, o que é “natural” aproxima-nos dos animais, enquanto o que é “artificial” aproxima-nos de Deus. A palavra “artificial” vem do latim ars facere, ou seja, “fazer arte”. A diferença entre nós e Deus é que Ele cria a partir do nada, enquanto nós criamos manipulando os elementos naturais, fazendo novas combinações e modificações com os nossos instrumentos.

O natural no homem não é obedecer cegamente à natureza, mas sim libertar-se dela, compreendê-la e dominá-la. O natural no Homo sapiens é, paradoxalmente, o artificial — ou seja, a capacidade de fazer arte.

A nossa natureza caída
As ciências humanas afastam-se cada vez mais da teoria do bom selvagem de Rousseau e aproximam-se da de Hobbes: homo homini lupus — “o homem é o lobo do homem”. Não nascemos como tábua rasa, aprendendo o mal pela educação. Pelo contrário, já nascemos com o mal em nós.

Podemos, sim, aprender técnicas para o praticar, mas o espírito do mal não precisa de ser ensinado — é inato. Sabemos praticá-lo espontaneamente. Tudo o que de mau a humanidade fez ao longo da história parece integrar uma base de dados universal, semelhante ao inconsciente coletivo descrito por Jung.

São Paulo: o homem natural ou homem velho
“As obras da carne são bem conhecidas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçaria, inimizades, contendas, ciúmes, iras, ambições, discórdias, divisões, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a estas. [...] Os que praticam tais coisas não herdarão o Reino de Deus.”  (Gálatas 5, 19-21)

“Não entendo o que faço. Pois não faço o bem que quero, mas o mal que aborreço.” (Romanos 7,15)

São Paulo sentia na própria carne a força da natureza humana decaída — a inclinação natural para o mal. A isso chamou “obras da carne”, características do homem velho. Esta é a herança do pecado original: Adão, nosso pai terreno, transmitiu-nos uma natureza ferida. Fazer o mal não exige esforço — é quase como uma segunda natureza.

São Paulo: o homem espiritual ou homem novo
“O fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio de si. Contra estas coisas não há lei. Os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e desejos.” (Gálatas 5, 22-24)

O dilúvio não foi solução; destruir tudo e começar de novo com Noé não resolveu o problema, porque o mal já estava entranhado na natureza humana. Deus desenhou outro plano: enviou o seu Filho, igual a nós em tudo, excepto no pecado. O pecado não faz parte da criação divina — é invenção nossa.

Cristo é o Homem Novo, não surgido após o dilúvio, mas nascido da união entre a natureza divina e a natureza humana purificada em Maria. Cristo foi enxertado no Adão original, não no que este se tornou. Como todo o enxerto, o de Cristo transforma a árvore desde dentro, tornando-a capaz de dar novos frutos.

Cristo: Caminho, Verdade e Vida
    “Quem quiser ganhar a sua vida, há de perdê-la.”
    “Quem quiser seguir-me, renuncie a si mesmo.”
    “Amai os vossos inimigos.”
    “Bem-aventurados os pobres.”
    “Não convideis os vossos familiares e amigos…”

Jesus usa, frequentemente, uma linguagem paradoxal. O modelo de humanidade que Ele propõe é, à luz da lógica natural, artificial. Vai contra a corrente das nossas tendências instintivas — e, no entanto, está mais que provado que não há outro caminho para a verdadeira felicidade.

Como dizem os italianos, “Se non è vero, è ben trovato”. Mesmo que a figura histórica de Jesus de Nazaré nunca tivesse existido, a narrativa construída pelos quatro evangelistas seria, ainda assim, a melhor de todos os tempos.

O cristão é a medida do humano, e o humano é a medida do cristão. Os valores do Evangelho orientam a vida pessoal e social. A própria Carta dos Direitos Humanos das Nações Unidas é, em grande parte, inspirada nos valores evangélicos.

Indiscutivelmente, não há melhor modelo de vida humana do que Jesus de Nazaré. O seu quotidiano, os seus gestos e palavras constituem, verdadeiramente, Caminho, Verdade e Vida para todos os tempos e lugares.

Como modelo de vida, como estrela polar da humanidade, não existe alternativa igualmente válida. Como Ele próprio disse: “Quem não recolhe comigo, dispersa.” (Lc 11, 23) — não porque recolha com outro, mas porque se perde no vazio.

Conclusão - Natural é aquilo que recebemos da natureza; artificial — do latim “Ars facere” — é o que nasce da nossa mente e criatividade. A vida humana tem, afinal, mais de artificial do que de natural.

Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de março de 2026

Morrer em Vida

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Morte eterna

Ao caminharmos para o fim da Quaresma, no terceiro domingo, no episódio da Samaritana, aprendemos que o pecado é como uma sede: saciada por instantes, mas sempre pronta a reaparecer. Esta é também a dinâmica do vício – um comportamento repetitivo e obsessivo que rouba a liberdade. Jesus é a água-viva, a água da verdadeira liberdade, que, uma vez bebida, elimina para sempre essa sede.

No quarto domingo, no episódio da cura do cego de nascença, compreendemos que o pecado é como a escuridão, enquanto Jesus é a luz. Cristo é a luz do mundo, que ilumina o caminho da humanidade, a luz que conduz à vida, a luz da fé que nos permite ver a realidade como Deus a vê.

No quinto domingo, com o episódio da ressurreição de Lázaro, percebemos que o pecado é como uma morte interior, e Jesus é a ressurreição. A morte parece ter um carácter de fim absoluto, condicionando tudo o resto. Mas para Jesus, que propositadamente retardou a sua chegada a Betânia, a morte não é um fim, mas um meio para algo maior: a manifestação da glória de Deus.

Em Romanos 6, 23, São Paulo afirma: «O salário do pecado é a morte». No entanto, Deus não deseja a morte do pecador, mas que este se converta e viva (cf. Ezequiel 18, 23). De facto, como dizia Santo Ireneu: Gloria Dei homo vivens – a maior glória de Deus é o homem plenamente vivo.

Deus quer que tenhamos vida, e vida em abundância. A vida plena do ser humano é o que mais alegra o coração de Deus. O que mais O entristece é que permitamos que a morte reine em nós – seja na dimensão física, psicológica ou espiritual.

Morte temporal
Temos gravado no imaginário que a morte acontece apenas no final da vida. Mas isso não é verdade. A morte faz parte da própria vida e acontece diariamente, em múltiplos níveis: físico, psicológico e espiritual. A morte existe em função da vida – não é o seu fim, mas um meio. O fim é sempre a vida.

Nascer, crescer, reproduzir-se e morrer: esta é a regra pela qual todo o ser vivo se rege. Um organismo adulto é constituído por triliões de células, cada uma delas um ser vivo autónomo. Todas provêm de uma única célula-mãe, resultante da união do espermatozoide com o óvulo. A ameba, habitante de águas estagnadas, é um ser vivo unicelular.

Assim, cada célula do nosso corpo nasce, cresce, reproduz-se e morre. Este ciclo celular explica o crescimento físico. A cada sete anos, temos um corpo biologicamente renovado, formado por células novas – completamente diferentes das de sete anos antes. Ao longo da vida, podemos dizer que “encarnamos” entre doze corpos distintos. Tal como a serpente muda de pele para poder crescer, também nós passamos por sucessivas "mudanças de corpo" para viver e amadurecer.

O que é verdadeiro no plano físico é também verdadeiro nos planos psicológico e espiritual. Nestes níveis, crescer e viver exige morrer: abandonar hábitos, pessoas, situações, atitudes, ideias.

As únicas células que se recusam a morrer e se multiplicam desordenadamente são as cancerígenas. Também nós nos tornamos "cancerígenos" psicologicamente e espiritualmente quando nos agarramos de forma doentia a algo ou alguém que não é Deus.

Batismo = Páscoa = Morte = Passagem
«Pelo batismo fomos sepultados com Ele na morte, para que, tal como Cristo ressuscitou de entre os mortos pela glória do Pai, assim também nós caminhemos numa vida nova» (Romanos 6, 4).

O antigo ritual do batismo, ainda hoje praticado por algumas igrejas, consistia na imersão total do catecúmeno na água: descia-se por um lado e subia-se por outro. Este gesto simbólico reproduz a Páscoa de Cristo: a passagem da morte para a vida, do pecado para a graça, do homem velho para o homem novo – à imagem e semelhança de Cristo, arquétipo do homem renovado.

Esta passagem, esta morte interior, é condição essencial para seguir Jesus:
«Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e siga-me» (Lucas 9, 23).

Na Páscoa, há quem destaque o sofrimento da paixão e quem prefira exaltar a alegria da ressurreição. No entanto, a Páscoa é um todo indivisível, tal como uma moeda tem duas faces. Não há alegria pascal sem a mortificação quaresmal. E, como na guerra, a alegria da vitória é proporcional à dureza da batalha: quanto maior for a mortificação na Quaresma, mais intensa será a alegria da Páscoa.

As Páscoas da vida
«Revesti-vos do homem novo, criado segundo Deus, na justiça e santidade da verdade» (Efésios 4, 24).

Durante os meus anos de estudo em Teologia, tive um colega que, em cada Quaresma, deixava de fumar. No entanto, no Domingo de Páscoa retomava o vício. Pelo contrário, o meu pai deixou de fumar na Quaresma dos seus 22 anos... e nunca mais voltou a fazê-lo.

Somos chamados a morrer em vida. Se, em cada Quaresma da nossa existência, morrermos para um vício, uma atitude negativa, um pecado, então, pouco a pouco, chegaremos à santidade antes da morte final – que é apenas a passagem para a vida eterna. Tal como São Paulo, poderemos afirmar:

«Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim. E a vida que agora tenho na carne, vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amou e Se entregou por mim» (Gálatas 2, 20).

Morramos, pois, para o pecado, para que possamos viver já – aqui e agora – uma vida nova com Deus e para Deus.

Conclusão - Em todo o momento, no nosso corpo, há células que morrem e são substituídas por outras. A morte é “conditio sine qua non” do crescimento físico, da maturidade psicológica e da plenitude espiritual. Aprender a morrer é, afinal, o segredo de aprender a viver.

Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de março de 2026

Um teste ao teu Cristianismo

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«Examinai-vos a vós mesmos para ver se estais na fé; ponde-vos à prova.
» — 2 Coríntios 13,5

Para todos nós que nascemos no seio de uma família cristã e que nos consideramos cristãos — praticantes ou não — é saudável fazermos uma revisão da nossa fé. Tal como um carro precisa de revisões periódicas para funcionar bem, também a nossa vida espiritual necessita de análises regulares. A rotina do quotidiano tende a adormecer-nos e a deixar-nos tão inconscientes que acabamos por não saber o que fazemos, nem, sobretudo, por que o fazemos.

“Maria vai com as outras” — a pressão social tende a uniformizar os comportamentos. Vivendo em países tradicionalmente cristãos, é fácil cairmos no automatismo de agir e pensar como todos os outros. Chamam-lhe “opinião pública”, que conduz a uma prática igualmente padronizada. Este comportamento de rebanho pode, na verdade, ser mais anti-cristão do que cristão.

Precisamos de parar e discernir se somos cristãos genuínos, questionando a nossa fé, as nossas ações e, principalmente, as nossas motivações. São Paulo, na segunda carta aos Coríntios, recomenda justamente essa autoavaliação. Não devemos dar o nosso cristianismo por garantido; para progredirmos na fé e na prática cristã, temos de nos examinar e confrontar. Como dizia Sócrates: "Uma vida sem exame não merece ser vivida."

Já alguma vez sofreste por Cristo?
«Se o mundo vos odeia, reparai que, antes de vós, me odiou a mim.»João 15,18-20

O mundo — ou seja, a sociedade que nos rodeia — não é cristã. Aliás, cada vez mais se afasta dos valores do Evangelho, tornando-se pagã e materialista. Quem se esforça por viver segundo o Evangelho encontrará, mais cedo ou mais tarde, oposição.

Se nunca tiveste qualquer dissabor ou resistência por causa da tua fé, há apenas duas possibilidades: ou a sociedade é perfeitamente cristã (o que, como sabemos, não é verdade), ou tu não o és de facto e camuflas-te no mundo como um camaleão no seu habitat.

Cristo disse que devemos ser sal da Terra — o sal que impede a corrupção, mas que, colocado numa ferida, faz doer. O cristão que é verdadeiramente sal irá inevitavelmente causar desconforto e, por isso, sofrer. O cristão também é luz que denuncia as trevas e os seus esquemas ocultos; e quem vive nas trevas procura apagar qualquer luz que se acenda.

Nos primeiros cinco séculos do Cristianismo, ser cristão e ser mártir eram quase sinónimos. Hoje, quantas injustiças, mentiras e corrupções presenciamos em silêncio? Cristo não foi crucificado apenas por anunciar o Reino de Deus, mas por denunciar as hipocrisias e injustiças da sua época.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça... bem-aventurados os pacificadores... bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça...

Metade das bem-aventuranças apontam para a tensão e o sofrimento provocados pela fidelidade ao Evangelho. O cristão não é alguém que assiste passivamente às injustiças, mas quem as denuncia; não é um "paz d’alma", mas sim um pacificador, alguém que entra nos conflitos e promove a reconciliação — e isso, muitas vezes, tem um custo.

Que deixaste tu para seguir Cristo?
«Tomando a palavra, Pedro disse: “Nós deixámos tudo e seguimos-te. Que receberemos, então?” (...) “Todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou campos por minha causa, receberá cem vezes mais e herdará a vida eterna.”»Mateus 19,27-29
 
Quando Jesus chamou os seus discípulos, eles deixaram tudo: barcos, redes e até a família. O jovem rico, apesar de todos os pré-requisitos, recusou o chamamento de Jesus porque estava demasiado apegado às suas posses.

Hoje, todos nos dizemos discípulos de Cristo. Mas só é discípulo quem, de facto, deixou algo para O seguir. Se a minha fé nunca me levou a abandonar nada — hábitos, ambições, comportamentos ou relacionamentos incompatíveis com o Evangelho — então não sou verdadeiramente discípulo. Ninguém nasce discípulo: é-se feito discípulo mediante decisões concretas e renúncias reais.

Queremos o “sol na eira e a chuva no nabal”. Tentamos conciliar o inconciliável: desejamos seguir Cristo, mas também tudo o que o mundo oferece. É o sincretismo do coração dividido.

A quem fazes a vontade?
«Mestre, trabalhámos toda a noite e nada apanhámos; mas, porque Tu o dizes, lançarei as redes.» — Lucas 5,5
«Quem recebe os meus mandamentos e os observa, esse é que me ama.» — João 14,21

«Nem todo o que me diz: “Senhor, Senhor”, entrará no Reino dos Céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai.»Mateus 7,21

Existe uma diferença entre o que nos apetece fazer e o que devemos fazer. A nossa natureza, inclinada para o egoísmo, prefere o caminho mais fácil, mas a vontade de Deus nem sempre é cómoda — ainda que, no fim, seja sempre libertadora. Há alegria e paz em seguir a vontade divina, mesmo quando ela nos custa. A tristeza chega quando, cedendo aos nossos caprichos, nos afastamos dela.

«O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que me enviou.» — disse Jesus (João 4,34).
Também nós fomos criados para realizar um plano de Deus. A nossa missão, os nossos dons e o verdadeiro sentido da vida encontram-se nesse desígnio — e não num projeto feito à nossa medida.

“O Senhor fez em mim maravilhas”
«E vós, quem dizeis que Eu sou?» Marcos 8,29

Cristão não é quem sabe muito sobre Cristo, mas quem O conheceu e O experimentou como Salvador. O verdadeiro cristão pode cantar, como Maria, o Magnificat, pois reconhece as maravilhas que Deus fez na sua vida. É alguém que responde com o coração à pergunta de Jesus: “E tu, quem dizes que Eu sou?”

Pilatos chamou Jesus de “Rei dos Judeus”, mas apenas porque ouviu dizer. Muitos hoje também “ouvem dizer” coisas sobre Cristo, mas nunca O conheceram de verdade. Não O experimentam, não O amam, não O seguem. Sabem alguma doutrina, mas não a vivem — e por isso abandonam facilmente a fé, a catequese, a Igreja. E, o que é mais grave, não transmitem Cristo às suas crianças.

Psicanálise ao católico praticante
«Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles.»
— Mateus 6,1

Jesus foi duro com os fariseus: rezavam, jejuavam e davam esmola — mas para serem vistos. Faziam boas obras com más intenções. Por isso, já receberam a sua recompensa: a aprovação humana. Mas não terão recompensa junto do Pai.

Hoje, este farisaísmo continua presente nas nossas paróquias: pessoas que fazem para aparecer; ministros que só querem servir onde há visibilidade; líderes que não largam cargos por apego ao poder; padres que confundem a missão com a sua vaidade pessoal.

A síndrome do “déjà vu” — Tal como os que abusam de antibióticos tornam-se resistentes aos seus efeitos, também os que frequentam demasiadamente a Igreja sem verdadeira conversão correm o risco de se tornarem imunes ao Evangelho. Já ouviram tanto que já não escutam nada. E assim, o remédio já não cura, a Palavra já não salva. Porque não há outra Palavra com poder de vida eterna.

Conclusão - Se te dizes cristão, mas nunca sofreste por causa do Evangelho, ou o mundo é cristão (o que não é verdade), ou então tu não és. Cristianismo não é um rótulo, mas um caminho que exige verdade, entrega e transformação.

Pe. Jorge Amaro, IMC

1 de fevereiro de 2026

Muralhas & Livros

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(…) Todo o povo se reuniu, como um só homem, na praça (…) Esdras leu o livro, desde a manhã até à tarde, (…) e todo o povo escutava com atenção a leitura do livro (e) chorava ao ouvir as palavras da Lei
Neemias 8, 1, 3, 9

No mundo antigo e medieval, a identidade de um povo, a sua forma de ser e existir, o seu caráter, a sua língua, a sua cosmovisão e idiossincrasia eram defendidas e preservadas por muralhas e construídas por livros, epopeias, obras literárias. No mundo há ainda muitas cidades fortificadas, como Óbidos e Marvão, castelos e muralhas como a que divide a Inglaterra da Escócia, construída pelos Romanos; e a famosa muralha da China, com milhares de quilómetros, que parte a China em duas.

As muralhas também podem ser entendidas em sentido figurativo. Os ciganos não têm pátria nem língua própria, vivem disseminados em praticamente todos os países do mundo ocidental e, no entanto, não se misturam e são facilmente distinguidos pela forma de vestir, pelos seus usos, costumes e tradições.

O que verdadeiramente cria um povo é uma obra literária. É impensável o povo judeu sem a Torah, sem os livros da lei e os profetas. O que define e caracteriza o povo grego são a Ilíada e a Odisseia de Homero; o ex libris do povo italiano é a Divina Comédia de Dante Alighieri; o que define o caráter do povo espanhol é o Dom Quixote de la Mancha de Cervantes; a alma russa encontra-se em Dostoievski, no seu livro Os irmãos Karamazov. 

A alma inglesa está representada por Shakespeare e, por fim, a alma portuguesa ou lusitana está nos Lusíadas de Camões. A alma da Colômbia ou de todo o povo latino-americano é representada em Cem Anos de Solidão por Gabriel García Márquez.

O dia de Portugal e das comunidades de língua portuguesa não é o dia do rei Dom Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal e o que teve o reinado mais longo da nossa história, 57 anos. O dia de Portugal é o dia de Camões, porque a nossa nacionalidade, mais que a golpe de espada nasceu a golpe de pena, da pena de Camões. 

Para o rei Dom Afonso Henriques, Portugal eram as suas terras, os seus domínios. Foi Camões que criou a nacionalidade; que nos deu uma pré-história dos feitos dos lusitanos, que descreveu o nosso caráter e a nossa História no decorrer da grande epopeia da nossa nação à descoberta do caminho marítimo para a Índia. E foi fiel às raízes da nossa língua, escrevendo em verso, ao estilo das cantigas de amigo cantadas em galaico-português pelos trovadores do caminho de Santiago. 

Se eu reunisse um grupo de emigrantes portugueses obrigados a viver em terra estrangeira pelas vicissitudes da vida e lhes recitasse: “As armas e os Barões assinalados que da ocidental praia lusitana, por mares nunca dantes navegados…” de certeza que chorariam ao serem tocados no mais profundo do seu ser, como choraram os judeus voltados do exílio da Babilónia ao ouvirem Esdras a recitar o livro da Lei do Senhor. 

Onde está a nossa identidade, o que nos define como católicos? Deixamos de rezar o terço em família para antes vermos telenovelas; a família que reza unida permanece unida; a nossa taxa de divórcios é a mais alta em todo o mundo, ultrapassando os 70%. 

Não vamos à missa aos domingos e desculpamo-nos com o refrão tantas vezes repetido “os que lá vão são os piores”; criamos o anacronismo de “católico não praticante”, como se um pianista pudesse ser pianista não praticante; ou um cientista o pudesse ser só de nome. Os únicos que se benzem são os futebolistas ao entrar e sair do campo. 

O Mestre disse-nos que fossemos sal da terra, mas agora o que somos é terra; que fossemos a luz do mundo para que os homens vendo as nossas boas obras glorificassem a Deus, mas nós somos mundo, não luz; que fossemos o fermento da massa, mas é massa o que somos; café sem cafeína, tabaco sem nicotina, cerveja sem álcool, em suma, deslavados 

Oxalá fossemos com os ciganos ou os Judeus, que ao possuírem uma identidade forte, conseguem sobreviver na cultura mais adversa.

Conclusão – Como os Lusíadas para Portugal, há obras literárias que resumem em si a idiossincrasia de um povo. Os livros criam uma identidade cultural, as muralhas defendem-na. 

Pe. Jorge Amaro, IMC

15 de janeiro de 2026

Deus e César

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“Mestre, diz-nos o teu parecer: É lícito ou não pagar o imposto a César?» Mas Jesus, conhecendo-lhes a malícia, retorquiu: «Porque me tentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda do imposto.» Eles apresentaram-lhe um denário. Perguntou: «De quem é esta imagem e esta inscrição?» «De César» – responderam. Disse-lhes então: «Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.
” (Mateus 22, 17-21)

O dinheiro é de César, nós somos de Deus
Nos tempos de Jesus, aceitar pagar imposto a César era, para muitos judeus, quase um ato de apostasia, pois implicava reconhecer César, e não Deus, como Senhor. No entanto, Jesus, ao invés de tomar partido num conflito político, eleva a discussão e, ao mesmo tempo, dá uma lição intemporal.

Pede a moeda do tributo, que lhe é prontamente entregue. Era uma moeda romana com a imagem de César impressa. Foi então fácil para Jesus dizer: “Dai a César o que é de César”, pois a moeda pertence a quem a cunhou. Mas Ele não fica por aí. Acrescenta: “…e a Deus o que é de Deus.” Ou seja, tal como a moeda tem impressa a imagem de César, o ser humano tem impressa a imagem de Deus, porque foi criado à Sua imagem e semelhança. Portanto, o que é de Deus somos nós mesmos – a nossa vida, consciência, liberdade e amor.

Separação entre Igreja e Estado
Ao contrário de algumas outras grandes religiões, o cristianismo nunca impôs ao Estado nem à sociedade um direito revelado ou um ordenamento jurídico derivado da fé. Como afirmou Bento XVI, a Igreja sempre apelou à razão e à natureza como fontes verdadeiras do direito.

“Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” significa que há deveres distintos: para com Deus e para com o Estado. Se quisermos simplificar sem cair no simplismo, podemos dizer: o Estado governa o corpo, Deus governa a alma.

Quando Deus disse: “Crescei e multiplicai-vos e dominai a terra” (Génesis 1,22), concedeu ao homem autonomia e responsabilidade sobre a criação. Deus não delegou aos profetas nem ao Seu Filho a revelação de sistemas de governo ou técnicas de administração política. A revelação divina sempre nos orientou para o amor, a justiça, a paz e o entendimento entre os povos, bem como para a amizade com Deus.

Há, portanto, uma distinção legítima entre o temporal e o espiritual. Os governantes fazem leis, criam impostos, organizam a sociedade – e devem ser respeitados enquanto agirem de forma justa. A Igreja não prescreve as soluções técnicas ou políticas para os problemas da sociedade. O cristianismo, como frisou Bento XVI, nunca derivou leis civis do Evangelho. Não existe, no cristianismo, um equivalente à Sharia, o sistema legal muçulmano extraído diretamente do Alcorão e que rege a vida política, moral e social em certos países.

O direito romano, que influenciou fortemente os sistemas jurídicos ocidentais, inspirou-se na filosofia grega, não na revelação bíblica. A missão da Igreja é outra: iluminar a consciência dos homens, promovendo valores como a justiça, a paz, a caridade e o bem comum.

O chamado Cesaropapismo da Idade Média, bem como as suas reinterpretações em regimes fascistas europeus ou latino-americanos do século XX, nunca foram uma versão cristã da Sharia. Foram sim, trágicas misturas de interesses políticos e religiosos, em busca de poder absoluto, sem fidelidade ao Evangelho.

Reino de Deus e Reino dos Homens
Disse Jesus a Pilatos: «A minha realeza não é deste mundo; se a minha realeza fosse deste mundo, os meus guardas teriam lutado para que Eu não fosse entregue às autoridades judaicas; portanto, o meu reino não é de cá.» (João 18,36)

Jesus deixa claro que não veio estabelecer um poder político. Se o seu Reino fosse deste mundo, teria mobilizado exércitos. Mas não: o seu Reino é espiritual, e a sua força é o amor. Jesus não veio governar na Terra à maneira dos reis humanos, mas sim transformar os corações.

Durante a campanha do referendo sobre o aborto, alguns políticos disseram que a Igreja não se devia meter na política. É verdade que a Igreja não se deve intrometer na política partidária, nem no governo rotineiro da polis. Não deve recomendar partidos nem candidatos, pois nenhum representa na totalidade o Evangelho.

Mas a Igreja tem o dever de ser voz profética. Deve falar em nome dos pobres, dos oprimidos, dos excluídos – porque todos os sistemas políticos, mesmo os democráticos, acabam por gerar vítimas. A Igreja deve ser referência de justiça, de paz, de solidariedade. Tal como Jesus, deve denunciar o pecado e anunciar a verdade.

Ao rezar “Venha a nós o vosso Reino, seja feita a vossa vontade, assim na Terra como no Céu”, o cristão deseja que o Reino de Deus se manifeste já neste mundo. Isso acontece sempre que alguém promove a justiça, a paz, o perdão e o amor.

Salomão: exemplo de um rei guiado por Deus
“Concede ao teu servo um coração dócil, para saber administrar a justiça ao teu povo e discernir o bem do mal” (1 Reis 3,9)

Salomão, na véspera da sua coroação, não pediu riquezas, vitórias sobre os inimigos nem longa vida – como fazem os políticos de todos os tempos. Pediu sabedoria e humildade. Salomão governava Israel, mas era Deus quem governava Salomão.

Deus e a política
O Reino de Deus não é um sistema rival do Reino dos Homens. Ele atua como fermento dentro da massa. Opera no interior da história, através dos homens e mulheres que fazem o bem, que lutam por um mundo mais justo e fraterno. E, como o Espírito sopra onde quer, os cidadãos do Reino de Deus não são apenas os cristãos, mas todos os homens de boa vontade.

Isaías (45,1.4-6) chama Ciro, rei da Pérsia, “ungido do Senhor”, embora este fosse pagão, porque realizou a vontade de Deus. Isso mostra que Deus pode inspirar quem Ele quiser – mesmo fora das fronteiras visíveis da fé.

Tudo pertence a Deus – inclusive César
Nos tempos antigos, o governo do povo de Israel antes dos reis estava baseado na ideia de que tudo pertence a Deus. De facto, Deus é o Criador de tudo. Mas isso não significa que deva reger diretamente os detalhes da política ou da economia de cada nação.

Porque é transcendente, Deus não se impõe nos particulares. Porque é imanente, age no interior de cada consciência. Ele inspira os legisladores e os governantes para que façam leis justas, que promovam a paz, a concórdia e o bem comum.

Deus não escreveu diretamente a Bíblia – inspirou os autores sagrados. Do mesmo modo, Deus não dita leis civis, mas sopra ao coração daqueles que têm responsabilidades, a fim de que sejam sábios, justos e honestos.

Conclusão - O dinheiro pertence a quem tem a sua imagem nele impressa. Pela mesma razão, nós pertencemos a Deus porque fomos criados à sua imagem e semelhança.  

Pe. Jorge Amaro, IMC


1 de janeiro de 2026

Tudo é relativo

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Ao longo da história do pensamento, muitos procuraram simplificar e sintetizar a complexidade da realidade num único conceito. Assim, Moisés veio e disse: "A Lei é tudo"; Jesus veio e disse: «O amor é tudo»; em seguida, Karl Marx declarou: "O capital é tudo"; Freud afirmava: "O sexo é tudo"; Adler acrescentou: "O poder é tudo". Finalmente, Einstein veio e jogou tudo pela janela, proclamando: "Tudo é relativo". (Anônimo)

A falácia do relativismo absoluto
A afirmação "tudo é relativo" não só relativiza o absoluto, mas também absolutiza o relativo. Ou seja, "tudo é relativo" ironicamente torna-se uma nova forma de absoluto.

Dizer que "tudo é relativo" implica que nada é absoluto; no entanto, se o conceito de absoluto não existisse, também não existiria o conceito de relativo — pois ambos se definem em contraposição. A noção de "relativo" só faz sentido se houver algo que não o seja. Portanto, é lógico concluir que realidades absolutas e realidades relativas coexistem.

"Tudo é relativo" é uma generalização. E todas as frases que contêm termos como "tudo", "nada", "sempre", "nunca" ou "nunca" tendem à generalização abusiva. De fato, não há nada mais falso do que uma generalização totalizante — seja ao longo do tempo, alegando que algo sempre ocorreu ao longo da história humana; ou sobre o espaço, alegando que ocorreu em todos os lugares e culturas.

Estas expressões são frequentemente utilizadas para simplificar a realidade. No entanto, a realidade é muito mais complexa do que parece. Ao contrário da física mecanicista newtoniana, a física quântica nos mostra que os fenômenos nem sempre ocorrem da mesma maneira. Falamos, antes, de probabilidades estatísticas. Ou seja, mesmo na ciência, nem tudo é absoluto.

Relativismo Moral
É no campo da moral ou ética que esta falácia – "tudo é relativo" – tem sido mais comum e abusivamente aplicada. O relativismo moral desorienta especialmente a juventude. Ao afirmar que tudo é relativo, o indivíduo coloca-se como a medida de todas as coisas, rejeitando qualquer autoridade além ou acima de si mesmo.

Não é mais o Homem (com M maiúsculo) como medida de todas as coisas, como disse Protágoras, mas sim o indivíduo isolado. No entanto, uma sociedade em que cada pessoa se considera o único critério de verdade e valor está condenada à fragmentação – como a Torre de Babel. Um mínimo de consenso é essencial para a convivência humana.

O ser humano é simultaneamente individual e social. A liberdade é uma condição fundamental para a individualidade e deve ser promovida; Mas a igualdade é uma condição indispensável para a paz social e, por isso, deve ser cultivada. Uma sociedade com grandes desigualdades só pode sustentar-se através de ditaduras, exércitos e repressão. Mas nenhuma ditadura dura para sempre.

É verdade que os valores humanos podem mostrar nuances culturais, históricas e até pessoais. No entanto, é indispensável um mínimo de objetividade. Tomemos a linguagem, por exemplo: se o significado das palavras fosse puramente relativo, a comunicação entre as pessoas seria impossível.

Portanto, deve haver um padrão pelo qual possamos discernir se um comportamento é certo ou errado, apropriado ou inadequado. Eliminar esse padrão é abrir a porta à anarquia, que, como nos ensina a história, muitas vezes leva à tirania.

Mais ainda: por que o relativismo moral é quase sempre invocado para justificar certos comportamentos, mas raramente usado para condenar? Será porque serve mais para desculpar do que para exigir responsabilidade?

A Natureza dos Valores Humanos
De forma acrítica e irônica, muitos aceitaram "tudo é relativo" como se fosse uma verdade absoluta. Perante este slogan amplamente difundido, torna-se difícil comunicar verdades fortes e imutáveis, como os valores humanos.

Os valores humanos não mudam porque estão enraizados na natureza humana, que também não muda. Valores como a justiça, a paz, a generosidade, a solidariedade, a fraternidade e o amor permanecem inalterados ao longo de séculos e milénios. O que era amor no tempo de Jacó e Raquel, era amor no tempo de Marco Antônio e Cleópatra, e no tempo de Romeu e Julieta – e continuará a sê-lo daqui a mil anos.

A forma como vivemos estes valores não altera a sua validade. O facto de certas pessoas deixarem de as praticar não as torna obsoletas. Os valores humanos expressam a essência do ser humano no aqui e agora; e como essa essência é constante, os valores também o são.

Na conhecida fábula de Esopo, A Raposa e as Uvas, a raposa, incapaz de alcançar as uvas, declara que elas são azedas. Algo semelhante acontece hoje com os valores humanos: incapaz de praticá-los – por falta de vontade, esforço ou sacrifício – o homem moderno prefere relativizá-los, declará-los ultrapassados, a fim de evitar a culpa ou a autocrítica.

Einstein e os Absolutos da Ciência
Para Albert Einstein, nem tudo é relativo. A velocidade da luz, por exemplo, é uma constante universal e não pode ser superada por nenhum corpo físico. É uma verdade absoluta no âmbito da física. Nem mesmo a teoria da relatividade afirma que tudo é relativo – apenas que as medidas de espaço e tempo variam dependendo do quadro de referência.

A Coexistência do Absoluto e do Relativo
A vida do outro é, para mim, um valor absoluto. A minha própria vida é também um valor absoluto, na medida em que não tenho o direito de lhe pôr termo arbitrariamente. Mas essa vida torna-se relativa quando comparada com valores maiores — como a justiça, a paz ou o amor — pelos quais, se necessário, eu estaria disposto a morrer.

A nossa vida (o nosso tempo e energia) só encontra sentido quando dedicada ao cultivo de valores humanos – desde os mais elevados, como a justiça e o amor, até outros mais expressivos, como a arte ou a música. Por esses valores, especialmente o primeiro, muitos estariam dispostos a dar a vida.

Camões disse: "Valores mais altos se alevantam". Os valores não estão em contradição uns com os outros, mas estão articulados numa hierarquia. A vida, o amor, a paz e a justiça são superiores à pintura, à música ou à literatura. Como nos recorda o Evangelho, o amor de Deus está mesmo acima do amor pelos pais ou de qualquer outra realidade terrena.

A Imutabilidade da Natureza Humana
A natureza humana não muda — nem ao longo do tempo (de geração em geração), nem através do espaço (de cultura para cultura). Por que razão houve sociedades sem ciência nem tecnologia, mas nunca sociedades sem religião? Porque o sentimento religioso faz parte da natureza humana.

Este sentimento manifestou-se de forma semelhante em civilizações que nunca tiveram contacto umas com as outras. No Crescente Fértil e na América pré-colombiana, por exemplo, pirâmides foram construídas e sacrifícios humanos foram realizados. Estes paralelos não se explicam apenas por coincidência ou necessidade, mas sobretudo porque o ser humano é essencialmente o mesmo em todo o lado.

Existem múltiplas culturas e civilizações, com diferenças moldadas pela geografia, clima ou recursos disponíveis. Mas essas diferenças são superficiais. Existe apenas um modelo de desenvolvimento humano — aquele que culminou na civilização ocidental, responsável pela invenção da roda, da escrita, da eletricidade, do rádio, da televisão, do computador, da internet, do celular, entre outros.

Da mesma forma, não há alternativa a Jesus como caminho, verdade e vida. Jesus é o único modelo de humanidade vivida em plenitude, o único que realizou plenamente o potencial humano – moral, espiritual e existencial.

Conclusão - O slogan popular "tudo é relativo" acaba por ser um contradictio in terminis, pois relativiza o absoluto e absolutiza o relativo. A realidade humana, cultural, moral e espiritual é, de fato, feita de nuances, mas repousa sobre fundamentos que não podem ser relativizados sem graves consequências. Reconhecer essa tensão entre o absoluto e o relativo é um passo essencial para compreender a verdade – e para viver em paz com os outros e com nós mesmos.

Pe. Jorge Amaro, IMC